quinta-feira, 2 de abril de 2026

Rosalía

Não gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.

Pode ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.  



Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho. 

Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

"We're finishing the job"

A História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro, era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em honra do senhor.

“overwhelming violence of action against those who deserve no mercy … We ask these things with bold confidence in the mighty and powerful name of Jesus Christ.”

Não se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si, cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa, inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade, entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do mandato…

Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.

Por falar em outros.

A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados de Meloni?

O Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires, porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de dentes.

Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.