terça-feira, 31 de março de 2026

Natureza(s)

"Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais,"

Mas, se calhar, podíamos. Os animais matam sem prazer, sem metáforas. A sua crueldade é rigorosa e funcional, não mente e não pede absolvição. É a nossa superioridade que nos torna maléficos, afinal.


Há uma violência muito particular em retirar às pessoas as palavras que as ajudam a nomear o mundo. Deixar fermentar uma cegueira sem cor, insidiosa e lenta como um bolor. Carnívora.


sexta-feira, 27 de março de 2026


...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.





quarta-feira, 25 de março de 2026

Tuvalu

Não recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte de culpa.

Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania. 

Um predador paciente, o mar.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as. 

Gosto de ouvir os pássaros de olhos fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora, as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga, absurda.

Gosto de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me tome sem pedir licença.


sexta-feira, 20 de março de 2026


Caminhar por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.


Dias do meu Pai

Às vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto, porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais. Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está bem.

Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?, disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.

As primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.

A guerra é um nojo.


quinta-feira, 19 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026


Em vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram (não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.

A administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes, ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar. 



Mesmo sob as ruínas existem lugares para habitar. Fragmentos de esperança que sobrevivem à dissolução. Podem ser palavras; a palavra encontra sempre um caminho.


domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026


Não há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença: a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível. Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome. Céus, as saudades que eu tenho de ti…


quarta-feira, 11 de março de 2026




Pequenos campos de batalha, as palavras
ama-se. sangra-se, morre-se.



Eu, que sou totalmente incapaz de seguir uma coreografia, por mais simples, acho isto extraordinário...



terça-feira, 10 de março de 2026

Nem todas as vidas importam

O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143, porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar para se defender.

Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Officeliturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….

Não se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos iguais aos bárbaros que desprezamos.

 

Presidenciáveis?

“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.


segunda-feira, 9 de março de 2026


E este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono, imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes

 

Morreu outro dos meus.

Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.


terça-feira, 3 de março de 2026

“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho, com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido, angustioso, rasga o horizonte.”

Páscoa Feliz

José Rodrigues Miguéis

 

Também sou dessas; citações e etc.

Ontem também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.


segunda-feira, 2 de março de 2026

É mesmo aberrante...

O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...


“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”


domingo, 1 de março de 2026

Outro Monte dos Vendavais

Emerald Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo, cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX, que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.

Um livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel. Não é.

Há um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e, francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido. Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).

Depois, parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.

Não interessa nada.

Há um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.