Esbarrei
num texto insolente. No substack, essa outra plataforma que desconhecia em
absoluto até pouco antes da morte anunciada do SapoBlogs – e onde, pelo sim, pelo
não, decidi criar uma cópia o mais fiel possível desta página, não vá o diabo
do economês tecê-las e a blogspot decretar a expulsão compulsiva destas
crónicas de coisa nenhuma.
Um
parêntesis para dizer que, pese embora eu ter exterminado sem grandes
arrependimentos o meu primeiro blog, alojado na Sapo, precisamente, parece-me
bárbaro que se apaguem, literalmente, vinte e não sei quantos anos de escritos,
sejam válidos ou menos válidos. Por outro lado, encetar
esforços, financeiros e outros, para deixar em arquivo páginas inteiras de
irrelevâncias, na base em o que importa é ler e escrever não importa o quê,
também me parece inglório. Que interesse teria, para a posteridade, guardar ad
aeternum o que vai por estas páginas, por exemplo e por arrasto com boa
literatura, fios de pensamento interessado e interessante, gente com uma visão
aguda e insaciada do mundo e do outro, rastros de intelectualidade
genuína, como ouço por aí dizer e bem? Nenhum.
O texto que encontrei orbita colericamente esta tensão; um bardamerda – cheio de F´s e C´s pronunciadíssimos – para os intelectuais de estufa, citadores oficiais de eloquências conhecidas e várias, a cultivada improfundidade que é não ler grandes clássicos, por mais penoso. Leitura estética versus leitura viva (serão mutuamente exclusivas?). As grandes obras nascem da dor, da angústia, da obsessão, da miserabilidade de ser humano. Também me parece. O ódio, o rancor, a inveja, também são fontes legítimas. Sangrar, não embelezar. É maior a arte que nasce do feio? E, depois, deixamos o génio compensar o carácter? A pergunta é recorrente e talvez nem faça sentido assim. Dali era um intratável e eu adoro a obra que criou. Picasso tratava as mulheres como descartáveis, era manipulador, cruel, emocionalmente abusivo. Caravaggio matou um homem. Sylvia Plath era intensamente auto-destrutiva; Patricia Highsmith, odiosamente antissemita, tal como Wagner, descaradamente. Tolstói pregava a fraternidade universal e esgotava a mulher Sofia em silêncios e desmandos. Simone de Beauvoir escreveu sobre opressão, autonomia, condição feminina, enquanto explorava a vulnerabilidade de mulheres mais jovens. Tragédia íntima, violência concreta, nem todo o feio é da mesma ordem. Podemos gostar de e não gostar do, não gostar da. Há um conflito demasiadas vezes.
Divago
um pouco. O que li é mais sobre quem consome e menos sobre quem cria; mais
sobre a distinção entre o sentir e o fingir.
Os
patifes mortos são mais fáceis de suportar.