sábado, 30 de outubro de 2021



“Os romancistas dizem geralmente que as personagens ganham vida própria, que um escritor segue a sua personagem, tanto quanto a determina. Quem vive connosco são as nossas personagens, não porque as tenhamos inventado, mas porque povoam a nossa memória e imaginação, e além de mais representam épocas, lugares, abatimentos, alegrias. De algumas dessas pessoas podemos falar durante horas, de outras pouco mais temos que um episódio meio esquecido, mas nunca esquecido por completo. São as nossas “dramatis personae”. E mesmo que não se vejam agora no palco, aparecem em flashes, em sonhos, nas desaconselháveis mas surpreendentes horas em que passamos a vida em revista. Estamos ligados a eles e elas por pequenas cumplicidades de que não ficou registo, casos passageiros, coisas de nada. Ninguém mais sabe, mas vivem connosco.”

Pedro Mexia, EXPRESSO


E eu a pensar que o Pedro Mexia só percebia de livros e, nas horas livres, ensaiava uns passos em análise política. Afinal, percebe é de gente, o que, na verdade, não devia espantar porque, nos livros como na política, é de gente que se trata. Dos “dramatis personae” aos "amigos-fantasma".

sexta-feira, 29 de outubro de 2021



É preciso fazer um esforço para permanecer indiferente aos dias de nojo. Ocupo-me de coisas inúteis nos tempos homólogos. A mancha de vinho tinto na toalha de linho, o jarro grande de vidro da mesa da sala que não sei se deixe vazio ou encha de tulipas ou de girassóis. Ainda encontrei tulipas e também gosto de girassóis. O creme de mãos que me esqueci de adicionar à última lista de compras e o verniz das unhas que só uso em tom beringela tão escuro como o fundo do poço onde, por vezes, me deixo naufragar. Sem culpa, sem drama. A pele do salto do sapato, vertiginoso, a reclamar conserto pelo uso imoderado. O pequeno brinco de ouro baço daquele par que adoro e perdi não sei bem quando nem onde, o perfume que não uso há anos porque há cheiros que acendem memórias, algumas vorazes, movediças, e as minhas armam-me ciladas de onde nem sempre consigo escapar ilesa. Depois, há a beleza perfeita do erguer do dia. O milagre das cores da alvorada, o silêncio cavo da noite assaltado pelo ronronar espumoso das ondas do mar adormecido, ainda, sob o ondular da água à superfície, lento, lento, um resfolgar degradé de azuis celestes que se arrastam sedosos como véus, como a língua sobre a pele. Ah, o Universo sabe bem o que faz. Não quer é saber nada de nós.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 



Paulo Rangel deve estar a salivar, num frenesim de anunciação, com Marcelo a fazer as vezes do anjo. É inacreditável que o Presidente tenha recebido, nesta altura, o candidato a líder do PSD, como se o PSD não tivesse, neste momento, um líder eleito democraticamente e em funções, goste-se ou não se goste de Rui Rio. “Só dança quem está na roda”? Mas, isto é coisa que se diga para responder a uma crítica legítima?

Tudo isto é tão miserável. Não sei se é a eterna sina do país pequeno, mas são com certeza pequenos os políticos a que entregamos o país. É assustador olhar para o painel

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Não imagino o que é viver presa a um corpo que se odeia. Nem estou sequer a falar de “aceitação”, que sou bastante mais frágil, mais fútil, do que isso. Nasci mulher, gosto de ser mulher e a genética foi minha amiga. Sou bastante saudável em todos os sentidos do termo que importam e vivo muito bem com todos os meus defeitos e virtudes. Não imagino a dimensão do drama e do sofrimento de alguém que se vê como mulher encarcerada num corpo de homem, ou de outro alguém que se vê como homem refém de um corpo de mulher e, embora não entenda o conceito “não-binário” – por defeito meu e só meu –, entendo, e defendo, que todas as pessoas merecem ser tratadas como pessoas. Devem, aliás, esperar ser tratadas com respeito, exigir ser tratadas com respeito. 

É-me bastante indiferente, só por isso, pela diferença, ou pelo que eu possa ou não possa deixar de entender, que o meu semelhante do lado seja branco, preto, amarelo às bolinhas ou cor de burro quando foge, e o mesmo é válido para o género, a orientação sexual, taras, crenças, credos e afins: desde que sejam maiores, vacinados ou não, e não cometam abusos contra terceiros, estou-me perfeitamente nas tintas para que o que começou pela sigla LGBT venha a ter mais letras do que aquelas que o alfabeto permite. Mas – voilà, há sempre um mas; é aqui que me acusam de uma fobia qualquer, e tenho várias, algumas inclusive contra dois, três ou mais, de certeza mais, dos meus semelhantes – custa-me bastante aceitar uma inclusão que pretende, afinal, excluir, anular em vez de integrar. A linguagem neutra é, em muitos contextos, absurda porque torna a comunicação impossível: não aproxima, afasta.

Depois de J.K. Rowling ter sido atacada por dizer em público que já existe um nome para “pessoas que menstruam”, são "mulheres", chegou a vez de Margaret Atwood (e há, com certeza, muito mais boa gente pelo meio) ser chamada de trans-excludente por ter partilhado um artigo com um título em forma de pergunta: “Why can’t we say ‘woman’ anymore?”. Não encontrei o artigo aberto e, por isso, não consegui lê-lo ainda, mas imagino que será de teor idêntico a este, a este, ou a este, e, se for esse o caso, sinto-me bastante tentada a subscrever. E só se entende tal como “transfobia” porque vivemos mergulhados num absurdo de polémicas para todos os gostos. Literalmente. Deixou de haver espaço para pensar, duvidar, discutir. Ou se pertence a um extremo, de arma em riste, ou não se pertence a lugar nenhum. Prefiro não pertencer a lugar nenhum. Tenho demasiadas dúvidas, nomeadamente, sobre este tema: há uns anos – lembro-me porque o escrevi – Bernardinho, um “lendário treinador brasileiro de voleibol” de quem eu nunca tinha ouvido falar, ficou debaixo de fogo por ter chamado “homem” a Tifanny. Tifanny era, na altura, uma atleta transexual que jogava numa equipa de voleibol feminina. O insulto foi captado pelas câmaras, daí ao levantar da respectiva onda de indignação foi um instante e Bernardinho acabou por pedir desculpa, dizendo que se “referia ao gesto técnico e ao controle físico que ela tem, comum aos jogadores do masculino e que a maior parte das jogadoras não tem”. Um sacrilégio. E, uns meses antes disso, uma atleta transgénero, tendo ganho uma prova de velocidade numa competição feminina de ciclismo, tornou-se alvo de críticas, nomeadamente, da atleta que ficou em terceiro lugar e que considerou a vitória injusta, e, como não podia deixar de ser, de mensagens de ódio de “fanáticos transfóbicos”. E eu tenho sentimentos bastante confusos em relação a tudo isto, onde também cabe a linguagem inclusiva. Sobretudo, porque não tenho quaisquer dúvidas em relação à imbecilidade dos insultos proferidos por uns quantos “fanáticos transfóbicos”, que os há com toda a certeza, nem sobre a “igualdade” consagrada na Declaração Universal dos Direitos que agora se dizem Humanos, e parece-me bem: é aqui que é urgente defender a inclusão, lado a lado com a Justiça. Fazer a ponte entre isso e a realidade desportiva da Tifanny e da Rachel McKinnon, custa-me bastante mais, independentemente dos direitos e do respeito que merecem ambas. E rejeito veementemente ser chamada “corpo que menstrua”, ou “corpo com vagina”, ou qualquer outra coisa que atente contra a integridade plena daquilo que realmente sou: mulher. Com todas as letras e todas as marcas e todos os abusos que já sofri por causa disso e que serão, seguramente, menos do que os abusos que sofreram outros, nomeadamente, os transexuais.

Também não sei se existe uma intenção – disfarçada de integração – de eliminar a palavra "mulher" e, com isso, regressar a um passado (que para demasiadas mulheres e meninas ainda é um presente feito de horror) de invisibilidade e violência. No que toca a géneros, ou a sexos, sou bastante bruta, primária, selvagem, e continuo a achar poucas coisas mais belas do que o entendimento perfeito entre o corpo de um homem e o corpo de uma mulher.




terça-feira, 26 de outubro de 2021



Queria ter qualquer coisa a dizer sobre a ameaça de chumbo do orçamento de estado. Uma opinião sólida, bem formada (das outras, tenho uma diferente para cada dia da semana), acerca da crise que paira sobre o dia depois de amanhã, se amanhã se confirmar o desentendimento definitivo das esquerdas. Não tenho. A política, como o amor, tem razões que a própria razão desconhece. Sobre o coração poder assumir-se de maior sensatez do que a razão, como presumem os mais românticos para suavizar a angústia, não arrisco considerações. Mas, em política, o que predomina demasiadas vezes é a azia dos maus fígados. Ingovernabilidade, é a palavra que se segue, enquanto comentadores e analistas tentam fazer encaixar novas peças que ajudem a reconstruir o puzzle. Enternece-se saber que não sou só eu: anda tudo aos papéis, e não são exactamente os das contas do orçamento. A bazuca era outra, afinal, um torpedo de grandes dimensões que, aparentemente, ninguém viu chegar. Pode ser que ainda venha a falhar o alvo, embora haja já danos irreparáveis. “Irreparável” (ou é "irregovável"?), em política, vale o que vale, mas, adiante. Vou colecionando títulos de notícias na esperança de encontrar também a vontade e o tempo que merecem que lhes dedique. Preciso de equilibrar o tempo entre o dever e o prazer, nenhum deles necessariamente no singular. E ler um poema dura-me por um dia inteiro. Às vezes mais. Guardo os versos na boca, deixo que se desfaçam lentamente, sílaba a sílaba, letra a letra, o quente e o frio, o doce, o salgado, um atropelo descarado de repetições inquietas. Irrequietas. Como as contas de um rosário, se fosse meu o hábito de rezar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Sobre "Corpos com Vaginas"...

...ou da estupidez de uma (suposta) linguagem inclusiva.

"Quando se é notificada pela “The Lancet”, uma revista médica com mais de 100 anos, de que está na hora de dizer “corpos com vaginas” em vez de “mulheres”, justifica-se um momento de desorientação. Perante o espernear de muitos dos corpos assim rebatizados, apareceu um pedido de desculpas e uma justificação: a nova nomenclatura pretende não deixar de fora quem, tendo órgãos genitais femininos, não se identifica como mulher. Em nome da linguagem inclusiva das pessoas transgénero e intersexuais, temos direito a todo um novo campo lexical para evitar cuidadosamente a palavra “mulher”. As grávidas são “seres gestantes” no orçamento para a saúde norte-americano; as associações contra o cancro dirigem campanhas aos “indivíduos com colo do útero”.

"Aquelas cujo nome não pode ser pronunciado” são sempre as mulheres. Quem nasceu sob o signo biológico da masculinidade parece ter mais que fazer do que exigir “corpos com pénis”, “pessoas com próstata” ou “fornecedores de espermatozoides”. Esta batalha semântica entre o mulherio biológico deve estar a dar jeito ao patriarcado. Não há como dividir para reinar. Intimados a tomar posição sobre a qualificação do colo do útero como exclusivamente feminino, os líderes dos partidos ingleses, todos homens, responderam “é complicado…”. Escaparam assim a perguntas incómodas sobre a representatividade das mulheres ou a situa­ção dos cuidados médicos para a comunidade transgénero.

Dizem que esta terminologia abrangente é libertadora. Pode ser, mas só com um glossário debaixo do braço. Quantas portadoras de um colo do útero estão realmente cientes desse facto? Os “seres gestantes” vão mesmo compreender que são eles os destinatários de uma verba especial para combater a mortalidade infantil nas comunidades mais desfavorecidas norte-americanas, logo onde a literacia é mais baixa? Eu própria tive de me concentrar para perceber que não podia tomar um medicamento por não ter sido testado em indivíduos at-risk from receptive vaginal sex. E também não garanto conseguir dar com a ala da maternidade no hospital quando a renomearem UCG — Unidade de Cuidados Gestatórios.

Se o que está em causa é a forma como a linguagem influen­cia o mundo, o palavreado usado arrisca-se a transformá-lo num filme de ficção científica, com toques pornossádicos e cenas de terror. Todo ele desumaniza. Na capa da “The Lancet” temos uma boneca insuflável de carne e osso à espera de ser retalhada por um assassino em série ou pelo médico legista. Os “seres gestantes” reduzem quem é mãe à sua função reprodutora, uma boa parideira com ancas adequadas ao ofício.

A identidade é uma afirmação individual, mas também algo que um grupo partilha. É definida pelo grupo perante os outros grupos, o que levanta sempre problemas na demarcação das fronteiras. Neste momento, as fronteiras identitárias entre mulheres e pessoas transgénero estão a ser policiadas por seguidores do Humpty Dumpty no livro “Alice no País das Maravilhas” — quem grita mais alto é quem manda e decide o que se diz.

Dispensar a palavra “mulher” é abdicar de uma identidade. Se o objetivo da linguagem inclusiva é dar visibilidade, o resultado aqui é um apagão de metade da Humanidade com uma etiqueta que serve sempre e não diz nada. Se queremos mesmo ser inclusivos, vamos ter de negociar. Talvez começar por desistir deste jargão supostamente neutro e usar a adição em vez da subtração. Não sei se repararam, mas dá para dizer “mulheres e todos os que partilham com elas um aparelho genital”. Incluindo os “dois espíritos”, matéria que vou ter de estudar."

Eugénia Galvão Teles, Expresso

terça-feira, 19 de outubro de 2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021



Não dei pelo dia da libertação, nem pelo apagão das redes sociais. Tudo por minha culpa, que levo uma vida bastante desinteressante. Ainda assim, não me deve bastar para chegar ao céu: é sabido que sou invejosa, de uma inveja mui nobre a minha, isso sim, e farto-me de pecar por pensamentos e palavras. A minha alma há-de arder no fogo do Inferno, depois de o meu corpo se desfazer num fogo menos eterno. Mas, mantive-me fiel à promessa de apenas usar aquelas máscaras horrorosas, cirúrgicas, e sempre no mesmo tom de azul deslavado. Nem verde, nem rosa. Nem branco, sei que também as há em branco. Espero ter preservado, sem mácula, as partes de mim que valem alguma coisa, ou até esse sacrifício terá sido em vão.

domingo, 17 de outubro de 2021


 

Também invejo quem sabe escrever poemas. Espanta-me o assombro capaz de se contrair num verso. A dor e a carne, a paixão e a saudade. O sobressalto, o desconhecido. Para não falar de ti, escreveria solenemente sobre novelos de nuvens em bando ao nascer do dia, e vórtices de luz magenta derramando-se sobre o mar quieto, liso liso, um imenso lago de mercúrio enrubescido pelo absurdo impudente das cores da alvorada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021


 

Imaginar, como Michel Houellebecq, que, dentro de um ou dois anos, forças políticas muçulmanas chegam ao poder na Europa, começando pela França e pela Bélgica. E que, em pouco tempo, esses partidos acabam por impor o Islão como eixo político-religioso, ou religioso-político, não sei se a ordem importa, em torno do qual gira uma agenda de reconstrução e reconquista de um império assente na submissão: islam. Submissão da mulher ao homem e do homem a Deus, fórmula única, infalível, para aceder à felicidade eterna mesmo antes da morte. Um “grafo” quase perfeito, vastíssimo, de paz e harmonia, todos os pontos do mundo ligados por linhas sólidas, urdidas nos mais belos versos do Corão. Pensar que essa imensidão de felicidade plena está ao virar da segunda volta de umas eleições presidenciais em França, cujo resultado, ainda que inesperado, empurra uma sociedade inconvulsa – o alvoroço preludiado dos tumultos que se anunciam nas curtas linhas da sinopse não ocupa muito mais nas páginas do livro – para o restabelecimento de um patriarcado muito desejado, afinal. A elite masculina – a intelectual primeiro, e a académica por ser mais permeável (na ficção, talvez apenas na ficção) – ungida na promessa de bons salários e boas esposas, até quatro, uma por cada um dos mais estimados prazeres, Insha'Allah, concupiscência a que nem o mais guloso dos amantes escapa, o espanto de François ao descobrir o benefício evidente de tapar as mulheres em público, o seu insaciável desejo sempre no ponto, pronto como uma mola, rápida e disciplinadamente amansado pelo castrar da vista, nada do prenúncio de seios cordilheiros, nem pernas subindo vertiginosamente a lugares pecaminosos cavados no contorno das calças justas ou antecipados na antecâmara impudica de uma saia demasiado curta, que a carne dos homens é fraca se as mulheres não zelarem por ela, como é do conhecimento comum mulheres recatadas passam sempre impunes à cobiça dos homens, só as de um certo tipo, as tipas, é que se põem a jeito, já dizia a Raquel Varela, e também é sabido que o clero em geral e alguns padres e bispos em particular, não são dados a desejos carnais por não a verem desnuda. À carne. Enfim, numa apetecível, e a curto prazo, Europa islamizada, toda essa devassidão atirada para as profundezas do passado, um emergente mundo apaziguado e feliz.

Diz-se que Houellebecq é um provocador, inteligente que só visto, ou lido, e sei que já chego tarde: o livro saiu em 2015, no mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo. Se Deus existe, também é dado a paródias.

Mas, não se pense que não gostei do seu “Submissão”. Gostei. É preciso lê-lo para perceber que não só da falta de carne – feminina, essencialmente feminina – à mostra viverá melhor o homem. Nem mesmo e apenas na imaginação de Houellebecq. É até possível que o cenário não seja totalmente irrealista, embora padeça de uma dimensão quase infantil pensar-se que, para evitar ceder espaço no poder a partidos de extrema-direita, um país como a França jurasse tão resolutamente obediência a uma ideia de felicidade requentada no fervor dos versículos islâmicos. Mas gostei mais da ideia do livro do que do livro em si. Como da primeira vez que vi o Matrix. O que me leva a outro escritor francês  posso ser exasperadamente incoerente: Hervé Le Tellier mais o seu “A Anomalia”, que também li. Não existe nenhuma prova de que o mundo é real; excepto que, se assim não fosse, se o mundo fosse um programa de computador, sempre seria possível desligá-lo. Reiniciar, actualizar. Reset. Sem eleições, sem ilusões. Não gostava nada de ficar frente-a-frente comigo mesma, materialmente falando. Se ficasse, queria ser, não a de Março, não a de Junho: a de Novembro. Uma anomalia de Outono.

Vi um cretino esbofetear uma mulher na rua. Nunca tinha visto um homem bater numa mulher, eu à janela, alarmada por um ruído infame, eles ali em baixo à distância de dois lanços de escada. Nunca. Nem no outro mundo em que já vivi. Árabe e muçulmano. Odiei-me por não ter descido as escadas a tempo, porque não ter sido capaz de chamar a polícia a tempo. E no meu Porto, uma discussão idiota com agressões à altura, resultou na morte de um rapaz de vinte e pouquíssimos anos. Li que os agressores, cidadãos muito franceses, foram detidos pela PSP; no entretanto, filmaram um vídeo. O mundo do lado de cá, um pedaço do mundo do lado de cá, do dito civilizado, mergulhado num filme do faroeste bastante mais decadente do que o próprio gozo supõe, e nenhuma das anomalias é capaz de resolver tamanha loucura.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021



“Há sons que são perfeitos. Uma bola de ténis, uma bola de golfe batida da maneira certa. Uma bola em voo numa luva de pele. O choque demorado de um knockout. Eu fico louca com o som de uma tacada de bilhar perfeita, um disparo ríspido seguido por três ou quatro deslizares abafados e os consecutivos cliques. O tuic tuic acariciante do giz no taco. O bilhar é erótico sob qualquer perspectiva. Normalmente, a uma luz fraca e pulsante de jukebox.”

 

Lucia Berlin, Anoitecer no Paraíso


Nunca seria capaz de o dizer assim, e pode ser exactamente assim. Ainda que eu nunca tenha jogado bilhar à luz fraca e pulsante de uma jukebox.

Escrever. Decididamente, é o talento que mais invejo. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Por despeito, inventou um ódio. Por saber-se não amada, inventou-se detestada. Odiada, perseguida, uma fantasia devassa que lhe enchesse a existência miserável, lhe saciasse o leito, o corpo, a solidão em que se esvaía. Se não podia contar da sofreguidão com que a desejavam os homens encheria páginas com a volúpia do escárnio.