outradecoisanenhuma
terça-feira, 7 de abril de 2026
Toda a Magia tem um Preço
Éric
Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma
Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.
Toda a
magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e
continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços,
nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego
bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que
nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar,
de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O
caminho que conduz ao deserto de nós próprios.
Alicia
Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três
ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e
defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para
que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por
que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e
também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de
outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há
os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções
romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a
televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA
propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o
lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores,
executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a
arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é
escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de
linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir,
na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de
mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo
analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão
de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um
esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa,
predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda
a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de
possibilidades, na facilidade com que nos permitimos desistir.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Rosalía
Não
gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é
sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom
título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca
municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã
Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.
Pode
ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.
Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho.
Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"We're finishing the job"
A
História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência
dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma
imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro,
era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para
acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em
honra do senhor.
Não
se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o
descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe
um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está
aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si,
cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais
civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de
mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um
pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa,
inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem
nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade,
entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de
Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o
gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte
inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto
a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do
mandato…
Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto –garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.
Por
falar em outros.
A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar
atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados
de Meloni?
O
Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires,
porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e
abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas
políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos
EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de
dentes.
Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.
terça-feira, 31 de março de 2026
Natureza(s)
"Se
não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo
para não viver inteiramente como animais,"
Mas, se calhar, podíamos. Os animais matam sem prazer, sem metáforas. A sua crueldade é rigorosa e funcional, não mente e não pede absolvição. É a nossa superioridade que nos torna maléficos, afinal.
sexta-feira, 27 de março de 2026
...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.
quarta-feira, 25 de março de 2026
Tuvalu
Não
recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui
pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um
capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa
notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado
pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores
serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha
ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação
ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram
as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um
futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu
pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte
de culpa.
Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania.
Um predador paciente,
o mar.