outradecoisanenhuma
quarta-feira, 11 de março de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Nem todas as vidas importam
O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143,
porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido
que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como
os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se
bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que
professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a
Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina
um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela
força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar
para se defender.
Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Office, liturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….
Não
se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição
severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir
para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse
inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o
mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos
iguais aos bárbaros que desprezamos.
Presidenciáveis?
“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.
segunda-feira, 9 de março de 2026
E
este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas
de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões
dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de
séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o
odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono,
imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu
pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.
quinta-feira, 5 de março de 2026
António Lobo Antunes
Morreu outro dos meus.
Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.
terça-feira, 3 de março de 2026
“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim
esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha
atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há
rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho,
com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se
esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar
sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as
ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e
cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas
enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco
empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido,
angustioso, rasga o horizonte.”
Páscoa Feliz
José Rodrigues Miguéis
Também
sou dessas; citações e etc.
Ontem
também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas
ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.
segunda-feira, 2 de março de 2026
É mesmo aberrante...
O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...
“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”
domingo, 1 de março de 2026
Outro Monte dos Vendavais
Emerald
Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação
entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os
cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo,
cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX,
que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está
lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.
Um
livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os
realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros
saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel.
Não é.
Há
um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de
Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e,
francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot
Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez
seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja
essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido.
Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do
romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa
transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).
Depois,
parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é
bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e
ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me
desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da
comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder
nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.
Não
interessa nada.
Há
um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de
brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Gostar de, Gostar do/a – ou, a arte é maior se criada por patifes, infelizes e afins?
Esbarrei
num texto insolente. No substack, essa outra plataforma que desconhecia em
absoluto até pouco antes da morte anunciada do SapoBlogs – e onde, pelo sim, pelo
não, decidi criar uma cópia o mais fiel possível desta página, não vá o diabo
do economês tecê-las e a blogspot decretar a expulsão compulsiva destas
crónicas de coisa nenhuma.
Um
parêntesis para dizer que, pese embora eu ter exterminado sem grandes
arrependimentos o meu primeiro blog, alojado na Sapo, precisamente, parece-me
bárbaro que se apaguem, literalmente, vinte e não sei quantos anos de escritos,
sejam válidos ou menos válidos. Por outro lado, encetar
esforços, financeiros e outros, para deixar em arquivo páginas inteiras de
irrelevâncias, na base em o que importa é ler e escrever não importa o quê,
também me parece inglório. Que interesse teria, para a posteridade, guardar ad
aeternum o que vai por estas páginas, por exemplo e por arrasto com boa
literatura, fios de pensamento interessado e interessante, gente com uma visão
aguda e insaciada do mundo e do outro, rastros de intelectualidade
genuína, como ouço por aí dizer e bem? Nenhum.
O texto que encontrei orbita colericamente esta tensão; um bardamerda – cheio de F´s e C´s pronunciadíssimos – para os intelectuais de estufa, citadores oficiais de eloquências conhecidas e várias, a cultivada improfundidade que é não ler grandes clássicos, por mais penoso. Leitura estética versus leitura viva (serão mutuamente exclusivas?). As grandes obras nascem da dor, da angústia, da obsessão, da miserabilidade de ser humano. Também me parece. O ódio, o rancor, a inveja, também são fontes legítimas. Sangrar, não embelezar. É maior a arte que nasce do feio? E, depois, deixamos o génio compensar o carácter? A pergunta é recorrente e talvez nem faça sentido assim. Dali era um intratável e eu adoro a obra que criou. Picasso tratava as mulheres como descartáveis, era manipulador, cruel, emocionalmente abusivo. Caravaggio matou um homem. Sylvia Plath era intensamente auto-destrutiva; Patricia Highsmith, odiosamente antissemita, tal como Wagner, descaradamente. Tolstói pregava a fraternidade universal e esgotava a mulher Sofia em silêncios e desmandos. Simone de Beauvoir escreveu sobre opressão, autonomia, condição feminina, enquanto explorava a vulnerabilidade de mulheres mais jovens. Tragédia íntima, violência concreta, nem todo o feio é da mesma ordem. Podemos gostar de e não gostar do, não gostar da. Há um conflito demasiadas vezes.
Divago
um pouco. O que li é mais sobre quem consome e menos sobre quem cria; mais
sobre a distinção entre o sentir e o fingir.
Os
patifes mortos são mais fáceis de suportar.