outradecoisanenhuma
terça-feira, 28 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Ontem
à noite, a RTP1 passou o concerto que os Trovante deram na Meo Arena, no passado Março. Estive para ir e não fui. Este ano tenho tentado e aproveitado,
muito, concertos, teatro, orquestra, mas Março foi um mês difícil e, já não sei
porquê, deixei passar. Tinha tempo. Não sabia que o Luís não tinha. Não sabia nada
da doença, mas, agora, vendo-o ali, percebe-se a fragilidade; até na voz. Ainda
assim, parece impossível; estávamos em Março, passaram quatro meses.
Foi
bom, o concerto. É quase inócuo na televisão, mas a alegria em palco era
visível, vibrante. Viver tudo numa noite já seria a metáfora perfeita para o
reencontro; de repente, é como se o verso ganhasse a espessura crua, intimamente
lúcida da despedida.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Luís Represas
Para Ti, Mãe, Para Ti, Pai
Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praias
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias
Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram menina das sete saias
Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijai-as
Sete mortes evitaram menina das sete saias
Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras montaram menina das sete saias
Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias aos sete encomendaram
Menina das sete saias
Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e sete deixaram
Menina das sete saias
Sete danças que bailaram
Sete vezes que desmaias
Sete luas te ansiaram menina das sete saias
Sete vezes se encantaram
No bosque das sete faias
Sete sonhos desfolharam
Menina das sete saias
terça-feira, 21 de julho de 2026
Descaminho
Há
uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros
do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento
que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do
valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura
final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a
exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como
se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe
que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura
e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.
É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós."
O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu.
Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade.
Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer.
O meu descaminho é de outra natureza.
sábado, 18 de julho de 2026
O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre
O
ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a
confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de
ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo.
A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia,
a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa
situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e
alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade
que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota
máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?
Sobre
as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de
respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser
agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno
de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar,
talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de
continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao
contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo,
onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou
seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada
corresponde integralmente à prova que entregou.
Já
de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs
um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no
cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas.
Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero.
O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso,
a incompetência gritante com que foi implementado.
Não
sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem
ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de
resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Um
clarão dourado, primitivo, pousado sobre a palidez da pele. Velar tudo o que
nela persiste de morte. O êxtase consagrado ascendendo em espirais, sem nunca
encontrar um porto, sem nunca encontrar paz. Há um instante suspenso onde o
beijo pertence a tempo nenhum, e o corpo que se torna templo, labirinto e
abismo. Braços esguios como ramos, frisos caleidoscópicos no contra-azul do
céu, e raízes febris bebendo o esquecimento no osso da terra. A beleza veste-se
de uma obstinação pregueada para que nenhum olhar suspeite da sua avidez. Sob a
sua opulência a sombra espreita e espera, mordendo em sangue a própria
eternidade. Gosto.
Margaret Atwood
(...)
"De repente, os cenários previstos em distopias literárias
tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?
Poderíamos
perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra
Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da
democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985,
muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que
tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais
disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro
disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca
tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se
diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas
apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de
forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por
isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer
coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa
linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando,
volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande
Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo,
seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece
que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.
Como interpreta então este novo momento mundial de grande
impulso bélico?
Pense
no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude
relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu
estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava
congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os
líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder.
Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e
as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a
independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê
agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.
Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões.
Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?
Não,
não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente
do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a
linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor,
elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende
da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a
certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em
funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que
longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização
emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e
reformulada.
Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se
descreve no livro?
Sou
uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que
sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui
[no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem
Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e
comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em
que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para
acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era
necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à
procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso
provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema
de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum
se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as
crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as
pode provar nem refutar."