quarta-feira, 20 de maio de 2026

Escrevo anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente, quem por aqui se perde. Sinceramente grata.

É possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior, suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente. Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes, tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.

Também leio anonimamente...


terça-feira, 19 de maio de 2026


Era um casamento. A minha amiga passou o tempo a zurzir no moreno de longo cabelo negro-negro, bem tratado, bem hidratado, impecavelmente trajado no seu fato grenat, o casaco de fecho em V cavado, deixando a nu o peito bronzeado e depilado, as calças de comprimento perfeito, mal roçando a pele dos mules, salto kitten heel. Admirável, francamente. Muito pior ia o tipo de túnica azul, descalço como Jesus, cabelo menos longo e (muito) menos limpo, e igualzinho na manhã seguinte, ao pequeno-almoço. A "liberdade individual" deve impedir que funcionários de hotéis de quatro estrelas barrem a entrada a gente descalça nos espaços de restaurante, não sei. Já o moreno de cabelo negro-negro chegou num pijama de seda, descaindo o ombro do casaco sobre a t-shirt branca, de alças, um tamanho abaixo: excepto por esse detalhe, irrepreensível como na véspera.

segunda-feira, 18 de maio de 2026




Da vida que se arranca aos dias, um rio de sangue, surdo, que atravessa o ventre e incendeia a boca. No corpo, no meu corpo, geografia de sal suor e espanto, a existência escreve-se e esgota-se. Exijo silêncio. Ainda que atiçando o vento. Um rasgão húmido sob as costelas. Tactear o escuro onde o tempo deixou de ser meu. E a memória voraz do que se ausenta.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 " - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."

Memórias Minhas, Manuel Alegre


Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.

Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis. 

Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cristo Velato

A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe. 

O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo. 

Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Havia (também) uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.

Hoje há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do vazio.

Sento-me na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.


sábado, 9 de maio de 2026

"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit group. I am well aware that some members of the household are more prominent than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the inevitable result of lack of biographical information but it is, I think, preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method can lead.

The Brontë story has always been riddled with myths."

The Brontës, Juliet Barker


Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026


E eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação. Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e meigo. Reescrever a noite sem urgência.

Desfaz-se a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência. Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome, sob a pele.

Gosto que fiques.