terça-feira, 10 de março de 2026

Presidenciáveis?

“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.


segunda-feira, 9 de março de 2026


E este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono, imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes

 

Morreu outro dos meus.

Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.


terça-feira, 3 de março de 2026

“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho, com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido, angustioso, rasga o horizonte.”

Páscoa Feliz

José Rodrigues Miguéis

 

Também sou dessas; citações e etc.

Ontem também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.


segunda-feira, 2 de março de 2026

É mesmo aberrante...

O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...


“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”


domingo, 1 de março de 2026

Outro Monte dos Vendavais

Emerald Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo, cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX, que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.

Um livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel. Não é.

Há um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e, francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido. Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).

Depois, parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.

Não interessa nada.

Há um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Gostar de, Gostar do/a – ou, a arte é maior se criada por patifes, infelizes e afins?

Esbarrei num texto insolente. No substack, essa outra plataforma que desconhecia em absoluto até pouco antes da morte anunciada do SapoBlogs – e onde, pelo sim, pelo não, decidi criar uma cópia o mais fiel possível desta página, não vá o diabo do economês tecê-las e a blogspot decretar a expulsão compulsiva destas crónicas de coisa nenhuma. 

Um parêntesis para dizer que, pese embora eu ter exterminado sem grandes arrependimentos o meu primeiro blog, alojado na Sapo, precisamente, parece-me bárbaro que se apaguem, literalmente, vinte e não sei quantos anos de escritos, sejam válidos ou menos válidos. Por outro lado, encetar esforços, financeiros e outros, para deixar em arquivo páginas inteiras de irrelevâncias, na base em o que importa é ler e escrever não importa o quê, também me parece inglório. Que interesse teria, para a posteridade, guardar ad aeternum o que vai por estas páginas, por exemplo e por arrasto com boa literatura, fios de pensamento interessado e interessante, gente com uma visão aguda e insaciada do mundo e do outro, rastros de intelectualidade genuína, como ouço por aí dizer e bem? Nenhum.

O texto que encontrei orbita colericamente esta tensão; um bardamerda – cheio de F´s e C´s pronunciadíssimos – para os intelectuais de estufa, citadores oficiais de eloquências conhecidas e várias, a cultivada improfundidade que é não ler grandes clássicos, por mais penoso. Leitura estética versus leitura viva (serão mutuamente exclusivas?). As grandes obras nascem da dor, da angústia, da obsessão, da miserabilidade de ser humano. Também me parece. O ódio, o rancor, a inveja, também são fontes legítimas. Sangrar, não embelezar. É maior a arte que nasce do feio? E, depois, deixamos o génio compensar o carácter? A pergunta é recorrente e talvez nem faça sentido assim.  Dali era um intratável e eu adoro a obra que criou. Picasso tratava as mulheres como descartáveis, era manipulador, cruel, emocionalmente abusivo. Caravaggio matou um homem. Sylvia Plath era intensamente auto-destrutiva; Patricia Highsmith, odiosamente antissemita, tal como Wagner, descaradamente. Tolstói pregava a fraternidade universal e esgotava a mulher Sofia em silêncios e desmandos. Simone de Beauvoir escreveu sobre opressão, autonomia, condição feminina, enquanto explorava a vulnerabilidade de mulheres mais jovens. Tragédia íntima, violência concreta, nem todo o feio é da mesma ordem. Podemos gostar de e não gostar do, não gostar da. Há um conflito demasiadas vezes.

Divago um pouco. O que li é mais sobre quem consome e menos sobre quem cria; mais sobre a distinção entre o sentir e o fingir.

Os patifes mortos são mais fáceis de suportar.




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Lembro-me de ser miúda e deslumbrada com a patinagem artística. Ficava maravilhada com aquela dança sobre gelo, tão ágil, aparentemente tão fácil, e sofria horrores quando via cair alguém; doía-me na alma de menina. Sobretudo, achava espantoso que, depois de tanto rodopiar, fossem capazes de manter o mínimo de equilíbrio, quanto mais seguir inteiros, deslizando elegantemente sobre o gelo. Às vezes tentava eu, rodopiar no chão da sala, e acabava enjoadíssima. Momento angular para totós.

O meu filho chama-me para ver o par Miura-Kihara. Quero saber se já acabaram. Continua a custar-me vê-los cair…

– És tão estranha, mamã…

Não sou?




Brava Ucrânia


Wolfgang Schwan/AgênciaAnadolu | Getty Images

Também me espanta a resistência ucraniana. Quatro anos de violação continuada e bruta suportados com uma coragem que roça a loucura. Vladimir Putin enganou-se nos cálculos, subestimou o Presidente Zelensky. Quatro anos e milhares de mortos depois, a “operação militar especial” traduz-se numa carnificina que rendeu quanto de território ucraniano à Rússia? É inacreditável.

A Rússia não está a ganhar, mas não sei se está a perder. Quanto tempo mais vão os ucranianos resistir? São bravos, mas parece impossível Putin recuar. É-lhe indiferente quantos mais recrutas enviará para a morte  russos, norte-coreanos, quenianos , apostou a sua sobrevivência política e fez-se refém da sua própria infâmia. 

Brava Ucrânia.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Águas Passadas não Movem Moinhos

"– E porquê Génova?

– Tem gente espantosa nas ruas. À noitinha, quando saímos do hotel, é um mar de gente. E deixamo-nos ir, conduzidos ao sabor da multidão, sem objectivo, aos ziguezagues, numa direcção, na outra, sentindo que a nossa vida está ligada àquela massa de gente, fundida nessa massa psicologicamente. Começamos a acreditar que é possível uma alma única do mundo, muito semelhante àquela que a Nina Zarechnaya interpretou na sua peça, Konstantin Gravilovich. A propósito, onde está agora a Zarechnaya? O que será feito dela?"

 

E enquanto Konstantin vai narrando as desgraças de Nina – o filho que morreu, o desamor de Trigorin e o fracasso da sua carreira como actriz –, as duas velhotas ao meu lado direito vão conjurando espantos, um ahhhh… de cada vez. Já antes tinham reprovado o beijo prolongado de Trigorin a Nina (ou seria o de Ivo Canelas a Rita Rocha Silva?), um ahh bastante mais austero. Uma delícia.

Recuo no tempo, por momentos. Mulheres nos seus vestidos de cauda, homens de fraque, o exagero do teatro, o escândalo, a sobriedade, não sei se muito longe desta, competente, sim, mas muito longe do brilhantismo anunciado. Sempre aplaudido de pé, isso sim, tudo hoje se aplaude de pé, santo deus, que gente tão fácil de deslumbrar. Ou serei eu, um pouco deslocada. Devia deixar-me ir, como a multidão na Génova de Tchékhov. O meu mais recente aplauso de pé foi para os JaFumega, no CCB. Quarenta e cinco anos de carreira, e o meu pai viu nascer parte daquele projecto. Merecia. Toca a banda no coreto, que vontade de dançar. Vou sair e comer um duchesse. Porque posso.




O título disto é um acaso. Acabo de ouvi-lo a um desses vagabundos de rua que se juntam à entrada do mini-mercado onde passo todos os dias. Não a ouvia há imenso tempo, uma maravilha de expressão.