outradecoisanenhuma
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Descaramento
Se
as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar
os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de
Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.
O
primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê,
mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame,
sempre rasteiro.
Nojo.
terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
“Eu pensava muito durante as longas horas das
noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e
tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me
parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar
conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a
sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui
aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”
O Outro que Era Eu
Ruben A.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Da imprudência
Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida.
Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário.
Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco.
Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável.
Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Esse Cristiano Ronaldo
Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito.
Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto –, apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo.
Era isto. Está um calor de morrer, literalmente,
diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para
ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por
umas horas.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A Sócrates o que é de Sócrates
E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.