terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tangos de Satanás

 – Hamnet está nos cinemas…ouviste? O Hamnet de Maggie O’Farrel está nos cinemas, devíamos já ter aqui o livro, porque as pessoas vão começar a pedir. E o Monte dos Vendavais. Ouviste? Puseram a Catherine de olhos azuis e o Heathcliff é branco. Imagina. Uma relação tóxica, e transformaram aquilo numa grande história de amor.

Tudo isto vai disparando contra a colega, os ouviste carregados num crescendo de indignação, e a outra encolhendo os ombros, enquanto eu deambulo entre as estantes à procura d’O Tango de Satanás. Já decidi: vou ver Hamnet daí a umas horas. O Monte dos Vendavais ainda não sei. O livro de Brontë é um dos que mantenho a curta distância, à cabeceira da cama, mas, de repente, não recordo a cor dos olhos de Catherine. É importante? Jacob Elordi é assim tão branco? Ou é o talentoso Owen Cooper, na pele do jovem Heathcliff? Preciso de lá voltar, à brutalidade crua de Emily Brontë. Não adorei Saltburn de Emerald Fennell, mas, de momento, posso ser facilmente subornada pelo erotismo medíocre de uma história de amor plastificada. Ouvi descrevê-lo assim. Ao filme. O romance de Emily Brontë permanece incorruptível. Se ao menos todas as relações tóxicas se esvaziassem nas páginas da ficção, vampirizadas apenas pela liberdade aleatória dos roteiristas. Não sou capaz de começar sequer a compreender o submundo sinistro de Jeffrey Epstein. “Escravatura sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratos desumanos e degradantes, e feminicídio”? Como se constrói e como se mantém tal rede de contactos e intimidade, daquela dimensão, hedionda, obscenamente impune durante tanto tempo, mesmo depois de denúncias sólidas e documentadas? O poder e o dinheiro, o dinheiro e o poder, o ovo ou a galinha, tanto poder, tantíssimo dinheiro, tanta gente – se não todos patologicamente depravados –, tanta gente disposta a fingir que não vê, porque ver e deixar saber que se vê obriga a tomar uma atitude, e uma atitude arrasta consequências, renúncia, o pesadíssimo ónus de bater com a porta. A cumplicidade pelo silêncio é sedutora, e o mundo está cheio de gente disposta a não ouvir, a não ver. Epstein foi um competentíssimo arquitecto dessa geometria degradante, entre a chantagem e o interesse, mas jamais o conseguiria sem aquela constelação grotesca de silêncios e obediência deslumbrada.  Se nos sentirmos inatingíves, impunes, ebriamente permeáveis a tudo o que o dinheiro pode comprar, até onde estaremos dispostos a ir? A depravação extrema pode tornar-se aditiva. É assim desde o ventre da civilização. Sem consequências, a culpa, o medo, a repulsa, diluem-se, tornam-se administráveis. A virtude nasce do hábito, e a desvirtude também, se contar com a permissão de muitos e a demissão de outros. A rede de Epstein, os homens de Pelicot. É doentio. Monsieur Pelicot. Acreditar cegamente no companheiro de uma vida, porque racionalizar o que a própria Gisèle Pelicot sentia estar errado era demasiado. Dez anos drogada e abusada por mais de cinquenta homens com o marido como anfitrião da devassa. É admirável a sua coragem, tornar público o julgamento, a serenidade com que narra o seu horror. Encarar e apontar, um-a-um, os seus algozes. A vergonha tem mesmo de mudar de lado.

Os tangos de satanás não deviam sair do papel.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Rio Atmosférico

 

É quase poético, mas já chegava. Mesmo para quem gosta da chuva, como eu.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Xeque-Mate

László Polgár teve três filhas. Convencido de que o génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração, resolveu educá-las em casa e fazer delas exímias jogadoras de xadrez. Poderia ter escolhido outra coisa qualquer, mas a família era muito pobre e um tabuleiro de xadrez era tangível e barato. Chamaram-no pai tirano. Desde muito pequenas e durante várias horas por dia, Susana, Sofia e Judit estudaram as regras, as tácticas; competiram, ganharam e desafiaram estereótipos. Judit era a do 1%. Tornou-se, entre homens e mulheres, a mais jovem grã-mestre internacional, batendo Bobby Fischer, que achava as mulheres, todas as mulheres, pouco inteligentes para o jogo de xadrez; sobreviveu à batota infame de Garry Kasparov em Linares, acabando por vencê-lo 14 jogos depois desse, em 2002. Kasparov também participa no documentário da Netflix, finalmente rendido à mestria de Judit – “ela provou que uma jogadora feminina pode ser uma concorrente de topo” –, que vai narrando a sua história com uma alegria serena e contagiante. Apenas no final do documentário, Judit Polgár surge um pouco perturbada ao tentar racionalizar sobre a experiência de que foi objecto, juntamente com as irmãs, por parte do pai, empenhado em criar três génios, quase por acaso, do xadrez.

Vi tudo isto, para entreter a espera, antes dos resultados eleitorais, em que António José Seguro, longe de ser um génio, foi capaz de um retumbante xeque-mate. Escolhi-o conscientemente e desejo-lhe sorte. Precisamos de um pouco de paz no discurso político. André Ventura e o seu séquito de apóstolos histéricos, alimentado ad nauseam por uma comunicação social medíocre, continuará incansável na sua senda viciosa, mas, de momento, terá de engolir a soberba. Quanto à novidade de Cotrim Figueiredo comentador, não é novidade nenhuma: é ouvir com atenção a sua entrevista à SIC Notícias, quando lá foi apresentar o tal movimento 2031:  imagina-se a fazer o quê, comentador televisivo, como Luís Marques Mendes?; – não, a menos que me estejam a oferecer o spot de Domingo à noite, que ficou livre… Não sei se o comentário será aos Domingos, mas era só fazer contas. Pelos dedos.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Resistir...

Os iranianos estão a enterrar os seus mortos entre danças e música pop. Choram os familiares abatidos às ordens do líder supremo Ali Khamenei celebrando e homenageando a vida, não a morte, numa manifestação de resistência continuada e rebeldia, depois de pagarem, em muitos casos, pequenas fortunas para resgatar os corpos. Desafiam a lógica perversa do poder teocrático daquele regime brutalmente destrutivo; rejeitam, com uma coragem que ultrapassa o heroísmo, transcendental, uma moralidade castradora que instiga o medo e exige a submissão dos cordeiros, de Deus nenhum. Gente brava – ou louca, às vezes, não se distingue bem – para quem a sobrevivência é do domínio da metafísica; o corpo é a expressão primeira e última do território de liberdade. Impossível não admirar. Não sei se seria capaz…




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026


Por motivos que não vêm ao caso, apenas no Sábado comecei a ver as imagens da destruição que a depressão Kristin provocou em Leiria. É desolador. Desde aqui, onde o temporal não fez, desta vez, grandes estragos, parece outro país.

Os ministros Maria Lúcia Amaral e Leitão Amaro são, no mínimo, dois imprestáveis, quanto a isso, não há a menor dúvida, mas a falência do país e do Estado é mais profunda e transversal. Não há prevenção, previsão, preparação, mas também não há certezas de que outro governo faria melhor gestão. Pedrogão Grande foi a desgraça que se sabe. O que nunca falha é a solidariedade do tal povo de quem os políticos falam tantas vezes e com tanta soberba e abuso; vizinhos, amigos e desconhecidos, que se desdobram em boa vontade e entreajuda, com urgência e sem lamentações.

Diogo Pacheco de Amorim deu uma entrevista ao Observador e, segundo li, afirmou não ter dúvidas de que o Chega substituirá o PSD depois destas eleições presidenciais. É espantoso pensar que pode ter razão, e pode ter razão. Por algum motivo ininteligível para mim, há mesmo quem veja no Chega uma alternativa competente para guiar os destinos do país; talvez porque o nível de mediocridade de alguns ministros desta AD é tão confrangedoramente evidente que permite, a uns sonhar, a outros desbaratar.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

2+2=5

Sempre que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas, com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda assim, era irreal; surreal.

A colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação. A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à expressão pura de liberdade.

Prestar vassalagem.

Rebanhos são os outros.

Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo  são quase duas horas de filme – por recompensado.




sexta-feira, 23 de janeiro de 2026


“Hoje cometi um acto desprezível. Matei esta gaivota. E agora deponho-a a teus pés.”

                                             Anton Tchékhov, A Gaivota


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Senilidade e Bom Senso

Dizem que Donald Trump está senil. Não faço ideia. Para mim, é apenas um traste, com todos os apensos: narcisista patológico, ridiculamente vingativo, doentiamente invejoso, quase psicopata e, não acumulasse com uma cobardia soez, perfeitamente capaz de arrancar a cabeça a alguém por puro prazer. Senil estava (ou está) Joe Biden de uma forma, simultaneamente, mais evidente e mais moderada; talvez a senilidade seja menos compassiva com os mais canalhas. Podíamos pensar que os EUA estão há cinco anos, pelo menos, a mando de dois perturbados mentais, mas, provavelmente, erraríamos por defeito. E eu simpatizo com Biden.

Não devia, mas espanta-me que quem se diz democrata possa apoiar tão fervorosamente alguém como Donald Trump; ou, a propósito, alguém como André Ventura, com as devidas distâncias, porque até para ser traste se impõem certos pergaminhos que, por muito que ensaie e tente, Ventura não tem. Quase percebo melhor quem presta reverência ao presidente dos EUA: se a ideia é corromper, subverter a ordem vigente, prefira-se o original. Mas não se digam democratas. Também não sinto a minha democracia particularmente violentada pelo facto de Luís Montenegro recusar dizer se apoia ou não a candidatura de José Seguro a Presidente desta despedaçada República: o que seria, além de tudo o resto, andar mais duas ou três semanas a ouvir o líder espiritual do Chega a vangloriar-se de ter o país inteiro ou quase contra si, na pessoa do primeiro-ministro. Dispenso. Para mim a escolha é muito fácil: se é de nojo que se trata, o socialismo de José Seguro enoja-me menos.