Às
vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto,
porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e
parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção
de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais.
Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai
sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e
angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois
competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e
que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com
gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner
e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está
bem.
Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?,
disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de
olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.
As
primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu
pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os
Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das
feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra
contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum
conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser
pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas
envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.
A
guerra é um nojo.