"A sua poesia tem essa característica muito vincada, a da composição musical. O som das palavras é muito forte nos seus poemas. Ouvem-se como notas, timbres, ritmos. Quando lemos, não conseguimos fazer outra coisa ou pensar noutra coisa, porque estamos a ouvir as palavras e elas prendem-nos a atenção.
Isso que está a dizer é muito verdade até para os romances. Não conseguimos fazer mais nada porque há ali uma voz, um ritmo, um timbre, que é o que torna uma voz inconfundível. Nós todos dizemos os mesmos sons, mas com timbres diferentes.
Assusta-o de alguma forma o futuro da leitura?
Assusta-me bastante. Os resumos, as sinopses, as cópias,
os plágios, com a inteligência artificial então… Mesmo antes desta voga, a
Internet já permitia que se copiasse muito, e não só literalmente, ao nível das
ideias também.
Assusta-o também a incapacidade pura e simples de o ser humano se entreter a
ler um livro?
A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que
perderemos quando perdermos a leitura. Perdemos muito mais do que este livro ou
aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria
linguagem.
Essa dimensão do pensamento está a
cair em desuso?
Está muito em desuso. Aqui há três ou quatro anos, organizei com outras pessoas
precisamente uma coisa intitulada "O Pensamento ao Ataque". Era uma
série de mesas de discussão e de comunicações, e chamava-se assim porque, em
certo sentido, o pensamento está em perigo. Não propriamente o cálculo, mas a
dimensão mais "flética" ou se quiser, poiética, para não puxar para a
literatura do pensamento, e sim para o processo da criação.
Não será só por causa da Internet, pois não?
Não. É toda a nossa vida, a organização do trabalho. A maneira como vivemos,
produzimos, nos reproduzimos.
Estamos mais avessos a aprender, a aprendizagem não nos seduz da mesma
forma?
Há a erosão da democracia, do debate, do diálogo. Do
diálogo com o outro é que se chega a qualquer coisa a que ninguém chegaria
sozinho.
(…)
E lá está a democracia a esboroar-se através deste nosso raciocínio.
A democracia está mal. Vivemos em sociedades democráticas e, obviamente, temos
as liberdades que temos nesta parte do mundo. O Estado de direito e o mínimo de
garantias são importantíssimos e devem ser defendidas a todo o preço. No
entanto, a participação do cidadão é cada vez menor. Para Aristóteles, o
cidadão é aquele que é ao mesmo tempo governante e governado, e disso estamos
perfeitamente longe. O princípio fundamental de escolha dos magistrados na
Grécia era o sorteio, ou seja, qualquer pessoa devia estar apta a sê-lo.
Estamos muito longe disso. Aliás, a representação não é apenas uma delegação
reversível, e é inevitável haver delegação de funções e de tarefas e não
tarefas. Mas nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos
representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios também estão
manietados por uma série de dispositivos institucionais. Embora seja muito
importante defender o que ainda há para defender, acho que só se defenderia bem
se avançássemos mais democraticamente. E, contra mim falo, não vejo grandes
movimentos sociais portadores dessa dinâmica.
Ler é também uma experiência constante que usa a mente e o corpo, a mente e
os sentidos…
Só assim podemos ver o mundo de outra maneira, ou ver
outros mundos no mundo."
Alexandra Carita, Daniel Rocha