Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
outradecoisanenhuma
quarta-feira, 15 de abril de 2026
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.
Breviário
Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra.
Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar.
Não forçar as portas que o tempo não abriu.
Não violentar a quietude da clausura.
Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.
Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.
Caminhar sobre raízes secretas.
Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.
Desdobrar um mapa inscrito na pele.
Vestígios de um altar onde ninguém ora.
Hubris et Orbi
A
minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a
tivermos aqui, o mundo lá fora pode
explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos
anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para
o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas
iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez
fosse apenas uma piada de Abril.
O
presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua
excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das
chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder
pode permitir-se o impensável.
O
escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas
as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu
a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa,
histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso
político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos
distinguia dos crazy bastards
que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária
é uma incógnita.
O
regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda
executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou
no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer
simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase
mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.
Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros…
Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar.
Um sucesso completo.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"Vai-te,
dia maldito;
guarda
sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha
sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para
que todos creiam que não estou,
que
sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha
de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como
se fosse já a invulnerável,
aquela
que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e
deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o
sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta
geada que percorre a minha cara.
Ainda
assim, hei-de chegar contigo.
Ainda
assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."
Olga Orozco
terça-feira, 7 de abril de 2026
Toda a Magia tem um Preço
Éric
Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma
Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.
Toda a
magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e
continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços,
nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego
bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que
nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar,
de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O
caminho que conduz ao deserto de nós próprios.
Alicia
Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três
ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e
defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para
que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por
que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e
também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de
outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há
os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções
romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a
televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA
propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o
lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores,
executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a
arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é
escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de
linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir,
na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de
mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo
analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão
de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um
esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa,
predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda
a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de
possibilidades, na facilidade com que nos permitimos desistir.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Rosalía
Não
gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é
sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom
título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca
municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã
Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.
Pode
ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.
Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho.
Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.