outradecoisanenhuma
sábado, 25 de abril de 2026
Transcrevo as “52 frases de Pacheco Pereira que André Ventura tentou boicotar”,
e que Bárbara Reis recompilou. Agradeço-lhe o sacrifício. Imagino que foi
preciso ouvir aquilo tudo outra vez, e é preciso coragem. Eu aguentei mal a primeira,
e de algumas frases já nem me lembrava, tal foi a berraria.
1. Se Ventura pensa que a guerra foi “no Ultramar”, os presos nas colónias eram portugueses. Se pensa que foi uma “guerra colonial”, como é nacionalista, dará razão aos angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos que se revoltaram contra Portugal.
2. Se diz que “traímos” a seguir ao 25 de Abril é porque Angola, Moçambique e Cabo Verde eram parte de Portugal, logo, os presos eram portugueses.
3. Se “lutava pelo seu país” caso a Espanha invadisse Portugal, concordará que os angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos estavam a fazer o mesmo: a lutar pelo seu país.
4. A maioria dos presos nas colónias que eram guerrilheiros ia parar à PIDE ou aos aquartelamentos militares e muitos foram executados.
5. Grande parte dos presos em Angola, Moçambique e Cabo Verde eram enfermeiros, funcionários dos Correios, professores primários, pastores protestantes e estudantes aliciados para regressarem da metrópole.
6. Os povos das colónias eram tidos pelo governo como portugueses e isso vê-se nos cartazes da propaganda dirigida aos movimentos de libertação. Um tema dominante dos cartazes é sempre a mensagem: “Vocês são portugueses.”
7. Comparar os casos de tortura antes e depois do 25 de Abril é um absurdo. Depois do 25 de Abril, são casos isolados.
8. Durante anos, o Exército português tinha a função de impedir os abusos dos fazendeiros. Isso está altamente documentado.
9. A palmatória era usada nos castigos corporais dos colonizados. Quando um criado se portava mal, mandavam-no ao posto para receber palmatoadas.
10. Há comparações que são elas próprias mentiras.
11. Comparar o que aconteceu no PREC com o que aconteceu nos 48 anos anteriores é uma comparação que é uma mentira.
12. Quarenta e oito anos de violência, prisão, tortura, censura e humilhação das pessoas comuns pelas autoridades deixou uma herança de ressentimento e vontade de vingança.
13. Comparar dez ou 20 mil casos de tortura em 48 anos com meia dúzia de casos a seguir ao 25 de Abril é dizer que a democracia é igual à ditadura.
14. Só se pode comparar os dois anos do PREC com os 48 anos da ditadura se o que aconteceu nesses dois anos tivesse acontecido nos 50 da democracia. E não aconteceu.
15. Salazar não precisava de dar ordens directas. Tinha uma polícia política que prendia sem qualquer espécie de regras. E também a GNR, a PSP e a Legião Portuguesa.
16. Um caso em que Salazar teve responsabilidade: Humberto Delgado.
17. Houve prisões e violências no PREC, mas a maioria das pessoas foram libertadas poucos meses depois e nunca passaram por cadeia efectiva decidida por um tribunal.
18.
Antes do 25 de Abril, muitos presos já tinham a pena cumprida e eram sujeitos a
“medidas de segurança” que, na prática, significavam prisão perpétua.
19. Exemplos de torturas usadas pela PIDE em Moçambique: violação anal com garrafas de cerveja ou paus; acirrar cães para morderem prisioneiros nas suas celas; mutilação do pénis com queimaduras; aplicação de choques eléctricos em diferentes partes do corpo; privação prolongada de água e alimentos; fracturas de pernas e braços por meio de pancada; tortura da pendura, suspensão do tecto com a cabeça para baixo; agressões com chamboco, vergasta, palmatórias, correntes de bicicleta, cavalo-marinho com pontas de aço; imobilização dos presos, atando pés e mãos um suporte fixo. São três páginas. Sabe qual é o problema? Eles são pretos. O problema é que estes homens presos eram tratados como sub-homens.
20. A violência nas colónias aconteceu durante todo o período colonial.
21. Não tente interromper quando vou dizer uma coisa que não quer ouvir.
22. As Audiências Sakarov, sobre as violações dos direitos humanos na União Soviética, organizadas em Lisboa em 1983, não contaram com uma única das pessoas do passado de que Ventura gosta. Por uma razão: tinham medo. O medo que, em 1975, os socialistas, Mário Soares e alguns oficiais do Exército não tiveram.
23. O Chega está a propor o nome do tenente-coronel Marcelino da Mata para uma rua de Lisboa. Ele foi torturado. Mas sabe a quantidade de referências que ele tem, nos documentos, a violência e assassinatos? Era um assassino. Fazia incursões no Senegal e regressava gabando-se de ter matado 50 ou 60 homens, mulheres e crianças.
24. A indignação selectiva tira o direito a fazer comparações.
25. Comparar as prisões depois do 25 de Abril com o que aconteceu antes é dúplice. Antes, tivemos entre 30 mil a 40 mil presos políticos.
26. Na ditadura, a tortura era sistemática. A seguir ao 25 de Abril, a violência nunca foi sistemática.
27. Tivemos liberdade a partir do 25 de Abril e só tivemos democracia dez anos depois. No processo, houve turbulência política porque tivemos a mais longa ditadura da Europa, com excepção da União Soviética.
28. A revolução começa com a PIDE a disparar, matando quatro pessoas, no próprio dia 25 de Abril.
29.
Em 1975, a direita de que André Ventura gosta fez terrorismo.
30. Se vai falar de mortes e de torturados, dou-lhe vários exemplos de mortes que o ELP e o MDLP, de extrema-direita, fizeram.
31. Ao falar como fala, Ventura está a justificar a ditadura.
32. Ao fazer uma comparação que é falsa, está a dizer que o que aconteceu depois do 25 de Abril era semelhante ao que acontecia antes.
33. Mais do que uma geração de portugueses nunca pôde, com excepções, associar-se, nunca pôde criar partidos, nunca pôde ter liberdade política.
34. A quem é que deve a separação de poderes? À Constituição de 1976 que insultou.
35. Há uma razão para o que aconteceu nas colónias: a maioria dos países ligados ao colonialismo inglês e francês descolonizaram: Sudão em 1956, Marrocos em 1956, Senegal em 1960, Mali em 1960, Congo em 1960, Benim em 1960.
36. Em 1961, os soldados que ficaram em Goa foram recebidos vergonhosamente quando regressaram a Portugal.
37. A grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar, Marcelo Caetano e dos seus apaniguados, como o general Kaúlza de Arriaga.
38. Kaúlza de Arriaga defendia a tese de que os homens eram mais inteligentes quando vinham dos climas frios do que dos climas quentes.
39. Pouco patriota é ter atrasado a descolonização em Portugal.
40.Pouco patriota é eximirmo-nos das nossas responsabilidades em relação aos que foram a uma dada altura portugueses. É natural que lhes dêmos um tratamento de favor.
41. Devemos respeitar os antigos combatentes, mas isso não legitima a guerra.
42. O que aconteceu nas antigas colónias a seguir ao 25 de Abril não foi culpa nem de Mário Soares, nem de Almeida Santos. Foi culpa de Salazar e de Marcelo Caetano.
43. O colonialismo português é melhor do que os outros? Não. É igual. Tem o mesmo cortejo de violências.
44. Onde há traição à pátria? Na crueldade que o Chega transporta.
45. Se temos orgulho na nossa pátria e na língua portuguesa, devemos ter orgulho nos crioulos.
46. A “revolução miserável” de que está a falar deu a liberdade para dizer o que diz e a democracia para poder estar no Parlamento.
47. Quem lutou contra a ditadura antes do 25 de Abril, lutou por Portugal.
48. Há duas organizações terroristas depois do 25 de Abril: o ELP e as FP-25. O ELP beneficiou de uma complacência gigantesca das autoridades. Quer o ELP, quer as FP-25, foram amnistiados. Os das FP-25 foram condenados e os do ELP não porque, nos anos 1980, a democracia estava a funcionar.
49. Porque é que não pôs um cartaz a dizer “100 anos de corrupção” e pôs só “50”? Ao pôr “50”, está a dizer que a democracia é um regime naturalmente corrupto e que o Estado Novo não era.
50. Você não luta contra a corrupção. O que faz é lutar contra a democracia.
51.
Associar a corrupção à democracia é lutar contra a democracia.
52.
Crueldade em relação às pessoas que vivem miseravelmente. Crueldade em relação
à pobreza. Crueldade em relação aos imigrantes. O Chega é o mais anticristão
dos partidos que conheço.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Livros e capas de Livros
Demorei
séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para
ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de um quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um
desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um
quarto, e continuaria, nessa claustrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem
garanta que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não
as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou
insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da
arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o
leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita
é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do
quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é
o génio de Navokov que permite sucumbir.
terça-feira, 21 de abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Automat
Pegam-se
as duas porque uma não suporta que a outra me critique – lá estás tu, não vês
as horas que trabalha, como chega tarde, o que importa a planta que precisa de cuidados
–, e sou obrigada a intervir em meu desfavor, que sim, que me esqueço muitas
vezes de regar os vasos da varanda, de aniversários de gente que me importa, do meu até, da liturgia dos dias de, que deixo luzes acesas em quartos vazios, que também sou capaz de
odiar, mas não levianamente porque é um acto que exige morrer um pouco por
dentro e não estou disposta a sacrificá-lo por muitas causas nem por muita gente. Mas evito promessas; mata-me mais uma palavra por cumprir.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sobre
o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som
de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem
sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como
nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de
desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.
Não
ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a
harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e
fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se
dizer.
A
violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua
a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana
imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas,
ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados
controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com
eles.
Enfim.
Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da
avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a
Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.