outradecoisanenhuma
domingo, 31 de maio de 2026
Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente – são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.
À parte o circo mediático do costume – com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância – comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.
domingo, 24 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Escrevo
anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma
razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar
a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da
blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial
e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente,
quem por aqui se perde. Sinceramente grata.
É
possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se
acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a
ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior,
suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente.
Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor
plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir
comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é
o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas
também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes,
tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de
coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.
Também leio anonimamente...
terça-feira, 19 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Da vida que se arranca aos dias, um rio de sangue, surdo, que atravessa o ventre e incendeia a boca. No corpo, no meu corpo, geografia de sal suor e espanto, a existência escreve-se e esgota-se. Exijo silêncio. Ainda que atiçando o vento. Um rasgão húmido sob as costelas. Tactear o escuro onde o tempo deixou de ser meu. E a memória voraz do que se ausenta.