sexta-feira, 20 de março de 2026


Caminhar por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.


Dias do meu Pai

Às vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto, porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais. Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está bem.

Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?, disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.

As primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.

A guerra é um nojo.


quinta-feira, 19 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026


Em vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram (não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.

A administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes, ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar. 



Mesmo sob as ruínas existem lugares para habitar. Fragmentos de esperança que sobrevivem à dissolução. Podem ser palavras; a palavra encontra sempre um caminho.


domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026


Não há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença: a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível. Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome. Céus, as saudades que eu tenho de ti…


quarta-feira, 11 de março de 2026




Pequenos campos de batalha, as palavras
ama-se. sangra-se, morre-se.



Eu, que sou totalmente incapaz de seguir uma coreografia, por mais simples, acho isto extraordinário...



terça-feira, 10 de março de 2026

Nem todas as vidas importam

O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143, porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar para se defender.

Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Officeliturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….

Não se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos iguais aos bárbaros que desprezamos.