outradecoisanenhuma
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sobre
o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som
de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem
sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como
nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de
desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.
Não
ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a
harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e
fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se
dizer.
A
violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua
a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana
imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas,
ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados
controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com
eles.
Enfim.
Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da
avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a
Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.
Breviário
Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra.
Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar.
Não forçar as portas que o tempo não abriu.
Não violentar a quietude da clausura.
Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.
Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.
Caminhar sobre raízes secretas.
Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.
Desdobrar um mapa inscrito na pele.
Vestígios de um altar onde ninguém ora.
Hubris et Orbi
A
minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a
tivermos aqui, o mundo lá fora pode
explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos
anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para
o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas
iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez
fosse apenas uma piada de Abril.
O
presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua
excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das
chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder
pode permitir-se o impensável.
O
escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas
as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu
a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa,
histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso
político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos
distinguia dos crazy bastards
que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária
é uma incógnita.
O
regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda
executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou
no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer
simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase
mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.
Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros…
Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar.
Um sucesso completo.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"Vai-te,
dia maldito;
guarda
sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha
sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para
que todos creiam que não estou,
que
sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha
de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como
se fosse já a invulnerável,
aquela
que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e
deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o
sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta
geada que percorre a minha cara.
Ainda
assim, hei-de chegar contigo.
Ainda
assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."
Olga Orozco