... que, de tempos a tempos, me devolve pedaços dos sítios mais belos por onde andei.
Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito.
Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto –, apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo.
Era isto. Está um calor de morrer, literalmente,
diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para
ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por
umas horas.
E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.
No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.
Julguei
o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu
ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha
lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas
como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois
queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais
incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas,
sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague
outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda
aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um
encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé,
senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até
agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem
sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é
inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar
palavras. Mea Culpa…
Os
crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da
pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de
fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com
medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos,
rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena
Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um
poço de contradições.
Se
pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties.
O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em
boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica,
frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria
para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que
pertenço, que desconheço, que me renega.
Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.
Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente – são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.
À parte o circo mediático do costume – com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância – comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.