outradecoisanenhuma
segunda-feira, 13 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
“Eu pensava muito durante as longas horas das
noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e
tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me
parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar
conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a
sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui
aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”
O Outro que Era Eu
Ruben A.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Da imprudência
Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida.
Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário.
Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco.
Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável.
Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Esse Cristiano Ronaldo
Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito.
Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto –, apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo.
Era isto. Está um calor de morrer, literalmente,
diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para
ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por
umas horas.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A Sócrates o que é de Sócrates
E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.
Inconseguimento...
Julguei
o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu
ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha
lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas
como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois
queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais
incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas,
sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague
outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda
aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um
encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé,
senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até
agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem
sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é
inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar
palavras. Mea Culpa…
sábado, 20 de junho de 2026
Exílio
Os
crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da
pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de
fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com
medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos,
rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena
Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um
poço de contradições.
Se
pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties.
O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em
boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica,
frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria
para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que
pertenço, que desconheço, que me renega.