sexta-feira, 25 de setembro de 2026

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Encosta-te a Mim

 



É uma das minhas canções de Jorge Palma, e foi a última que lhe ouvi cantar ao vivo. Faz parte dessa antologia de instantes, vividos, inventados, que são colo e memória, à revelia do tempo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Horizontes

Tendo em conta os anos que me faltam para a reforma e a evolução vertiginosa disso a que chamamos IA, muito provavelmente, o trabalho a que me dedico há anos extinguir-se-á antes de me ser possível a aposentação (palavra muito mais bonita) por velhice – laboral, entenda-se. Aparentemente, não serei a única, nem será essa a maior das ameaças. Saber que Bernie Sanders e Steve Bannon convergem nessa preocupação é outra preocupação. Houve um tempo em que achei possível (com excepção deste espaço menor) ignorar e rejeitar muito do mundo virtual e da sua tecnologia superlativa, mantendo-me firme e orgulhosamente à margem de tal perigo, fingindo que, pelo menos, nesta área, a ignorância é a melhor defesa. Saber ou não saber, toda uma outra questão. Também isso ignoro, se é mais sensato manter-me na sombra. Nem entendo bem o real alcance e as competências desta inteligência capaz (dizem e demonstram-no) de tomar decisões, corrigir, compreender, cruzar dados de forma orgânica, escapar de um ambiente controlado e levar a cabo ciberataques por vontade própria. Ou então não. Bem sei que uma máquina não tem vontade. Há explicações complexas para essas alienações do sistema, mas, na sua génese, continuam a atordoar-me. Vontade, consciência. Deveriam permanecer redutos da nossa singularidade. Talvez a IA não nos mate até ao final da década porque já deixámos que morresse em nós muito do essencial. Eu quero o meu velho mundo de volta, o mundo no limiar deste horizonte de eventos. Imperfeito, excepto nas margens baixas de um rio claro, nas encostas de montanha por onde a neve escorre brilhante como uma língua de lava branca, sob o voo leve das gralhas de bico amarelo. Vaidosas, reais. Lugares onde moro nos instantes que são meus. A minha mãe, com a generosidade excessiva do amor incondicional, diz que eu havia de fazer um livro de fotografias, que as faço tão lindas. Eu digo que não são tão lindas, não o suficiente para fazer um livro, mas são despidas e limpas, uma forma muito honesta de olhar.




terça-feira, 15 de setembro de 2026

 


Gosto de bancos vazios. Há uma intimidade crua entre o tempo e a ausência que exala dessa fractura. Vazios onde cabem nomes, amantes, tardes ancoradas no côncavo da luz. O azul que arrefece sobre os ombros da montanha, e o silêncio claro, magnético. Insolente. 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Um amigo está empenhado em devolver-me à fé cristã. Obrigada, mas não. Incumpro praticamente todos os pré-requisitos morais. Não amo a Deus sobre todas as coisas, pouquíssimos próximos como a mim própria. Invoco o Seu nome em vão um sem-número de vezes. Não dou a outra face e perdoo mal. Não vou à missa, embora vá à igreja, a várias, frequentemente, e o silêncio de uma igreja vazia é um dos meus vazios mais íntegros. Não matar. Não tenho a certeza. Talvez matasse para proteger ou vingar a mim mesma, a alguns desses poucos que me são tão próximos. Qualquer pessoa é capaz de matar, nem todos levianamente. Creio. Não lamento a morte de homens maus, mas não rejubilo com a morte, nunca com a de um ladrão menor. A minha compaixão é imperfeita, luxuosa. Posso odiar alguém em particular, um rosto, um nome, mas custa-me perceber o ódio a um todo, a um país, a um povo (odiar a humanidade em geral torna-nos menos capazes de odiar uma pessoa em particular? – sobre este avesso não reflectiu o atormentado médico dos Karamázov). Penso-te sem castidade, sem prudência, sem remorso. Não roubo, é certo, procuro não mentir, honrar pai e mãe e a palavra dada, mas obedeço-me ante todos os outros. Às vezes cobiço a graça dos impolutos.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Táxis, Robots e Monarcas

Estudar cinco anos, oito anos, até memorizar nomes de ruas e cruzamentos, bares, hotéis, restaurantes, seis mil pontos de interesse na cidade de Londres até ser-se considerado apto para conduzir o icónico táxi preto – todos os anos, centenas de candidatos sujeitam-se ao rigorosíssimo Knowledge of London (The Knowledge, com solenidade), que os habilitará, se passarem, a conduzir o distinto black cab. Chamar-lhe um exame oral é um eufemismo; por isso ou por outra coisa qualquer, chamam-lhe "appearances" e aquilo tem ar de inquisição, com maiúscula, com o examinando sentado frente ao examinador, munido da sua memória apenas, desfiando minuciosamente o trajecto de A a B, que se quer o mais curto, com nome e número de ruas, esta à esquerda, aquela à direita, a segunda a terceira, a fogueira à menor falha. Vinte tentativas, quarenta e uma tentativas. Estudam pelo “livro azul” – actualmente, um dossier gordo de seis mil pontos de interesse para um cliente-tipo. Vinte e cinco mil nomes de ruas. Há condutores de Uber que nos levam a qualquer lugar – inclusive àquele onde nunca tinham posto as rodas dos carros que conduzem –, sistemas de navegação que se tornaram omnipresentes, quase sempre omniscientes, apêndices de condução, e há empresas a iniciar testes para os primeiros táxis autónomos nas ruas de Londres, portanto, a pergunta inevitável e preguiçosa seria: para quê o esforço? Pelo prazer de fazer parte da história, pelo luxo de conduzir o icónico táxi preto; talvez porque o dono do galgo irlandês não confie num táxi-robot para transportar o seu cão sozinho, quieto e mudo no banco de trás. Também não simpatizo, nada nada, com a ideia de ser transportada por um carro sem condutor. Parece-me um pouco sinistro, até. O mesmo para o esquadrão de 2000 robots-humanóides que compõem as 666 (juro) equipas que competem em Pequim, nos Jogos Mundiais de Robots Humanóides. Há jogadores de ténis, lutadores de boxe, corridas de 100 metros e meia-maratona. Estou num momento “Velho do Restelo”. O progresso progride a um ritmo indigesto. Por isso, simpatizo com o esforço daqueles aspirantes a condutores de um honorabilíssimo táxi preto. Humaníssimos. Alimentar uma certa resistência, uma pequena dose de insanidade.

Numa sequência destes microcosmos que fazem do 60 minutos o 60 minutos, Anderson Cooper aquece no colo das mãos e com seu hálito uma borboleta-monarca, entorpecida pelo frio, momentaneamente incapaz de voar. Dois ou três longos sopros e a monarca descola num bater de asas. Por algum motivo, emociono-me, e deve ser a coisa mais simples para um robot fazer. Ressuscitar a borboleta, quero dizer. Gosto da história das borboletas-monarcas, da sua jornada extraordinária, de como as vêem no México, as almas regressadas dos seus mortos.  


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Há duas noites

Não é tão extraordinário como o eclipse, mas deixam-se fotografar por amadores, como eu.






terça-feira, 11 de agosto de 2026


“Qui serait assez insensé pour mourir sans avoir fait au moins le tour de sa prison?”

Marguerite Yourcenar, L'Oeuvre au Noir