outradecoisanenhuma
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Miguel Serras Pereira
"A sua poesia tem essa característica muito vincada, a da composição musical. O som das palavras é muito forte nos seus poemas. Ouvem-se como notas, timbres, ritmos. Quando lemos, não conseguimos fazer outra coisa ou pensar noutra coisa, porque estamos a ouvir as palavras e elas prendem-nos a atenção.
Isso que está a dizer é muito verdade até para os romances. Não conseguimos fazer mais nada porque há ali uma voz, um ritmo, um timbre, que é o que torna uma voz inconfundível. Nós todos dizemos os mesmos sons, mas com timbres diferentes.
Assusta-o de alguma forma o futuro da leitura?
Assusta-me bastante. Os resumos, as sinopses, as cópias,
os plágios, com a inteligência artificial então… Mesmo antes desta voga, a
Internet já permitia que se copiasse muito, e não só literalmente, ao nível das
ideias também.
Assusta-o também a incapacidade pura e simples de o ser humano se entreter a
ler um livro?
A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que
perderemos quando perdermos a leitura. Perdemos muito mais do que este livro ou
aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria
linguagem.
Essa dimensão do pensamento está a
cair em desuso?
Está muito em desuso. Aqui há três ou quatro anos, organizei com outras pessoas
precisamente uma coisa intitulada "O Pensamento ao Ataque". Era uma
série de mesas de discussão e de comunicações, e chamava-se assim porque, em
certo sentido, o pensamento está em perigo. Não propriamente o cálculo, mas a
dimensão mais "flética" ou se quiser, poiética, para não puxar para a
literatura do pensamento, e sim para o processo da criação.
Não será só por causa da Internet, pois não?
Não. É toda a nossa vida, a organização do trabalho. A maneira como vivemos,
produzimos, nos reproduzimos.
Estamos mais avessos a aprender, a aprendizagem não nos seduz da mesma
forma?
Há a erosão da democracia, do debate, do diálogo. Do
diálogo com o outro é que se chega a qualquer coisa a que ninguém chegaria
sozinho.
(…)
E lá está a democracia a esboroar-se através deste nosso raciocínio.
A democracia está mal. Vivemos em sociedades democráticas e, obviamente, temos
as liberdades que temos nesta parte do mundo. O Estado de direito e o mínimo de
garantias são importantíssimos e devem ser defendidas a todo o preço. No
entanto, a participação do cidadão é cada vez menor. Para Aristóteles, o
cidadão é aquele que é ao mesmo tempo governante e governado, e disso estamos
perfeitamente longe. O princípio fundamental de escolha dos magistrados na
Grécia era o sorteio, ou seja, qualquer pessoa devia estar apta a sê-lo.
Estamos muito longe disso. Aliás, a representação não é apenas uma delegação
reversível, e é inevitável haver delegação de funções e de tarefas e não
tarefas. Mas nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos
representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios também estão
manietados por uma série de dispositivos institucionais. Embora seja muito
importante defender o que ainda há para defender, acho que só se defenderia bem
se avançássemos mais democraticamente. E, contra mim falo, não vejo grandes
movimentos sociais portadores dessa dinâmica.
Ler é também uma experiência constante que usa a mente e o corpo, a mente e
os sentidos…
Só assim podemos ver o mundo de outra maneira, ou ver
outros mundos no mundo."
Alexandra Carita, Daniel Rocha
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
domingo, 27 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Encosta-te a Mim
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Horizontes
Tendo em conta os anos que me faltam para a reforma e a
evolução vertiginosa disso a que chamamos IA, muito provavelmente, o trabalho a
que me dedico há anos extinguir-se-á antes de me ser possível a aposentação
(palavra muito mais bonita) por velhice – laboral, entenda-se. Aparentemente,
não serei a única, nem será essa a maior das ameaças. Saber que Bernie Sanders e Steve Bannon convergem nessa preocupação é outra preocupação.
Houve um tempo em que achei possível (com excepção deste espaço menor) ignorar
e rejeitar muito do mundo virtual e da sua tecnologia superlativa, mantendo-me
firme e orgulhosamente à margem de tal perigo, fingindo que, pelo menos, nesta
área, a ignorância é a melhor defesa. Saber ou não saber, toda uma outra
questão. Também isso ignoro, se é mais sensato manter-me na sombra. Nem entendo bem o real alcance e as competências
desta inteligência capaz (dizem e demonstram-no) de tomar decisões, corrigir, compreender, cruzar dados de forma orgânica, escapar de um ambiente controlado e levar a cabo ciberataques por vontade própria. Ou então não. Bem sei que uma
máquina não tem vontade. Há explicações complexas para essas alienações do
sistema, mas, na sua génese, continuam a atordoar-me. Vontade, consciência.
Deveriam permanecer redutos da nossa singularidade. Talvez a IA não nos mate
até ao final da década porque já deixámos que morresse em nós muito do
essencial. Eu quero o meu velho mundo de volta, o mundo no limiar deste
horizonte de eventos. Imperfeito, excepto nas margens baixas de um rio claro,
nas encostas de montanha por onde a neve escorre brilhante como uma língua de
lava branca, sob o voo leve das gralhas de bico amarelo. Vaidosas, reais.
Lugares onde moro nos instantes que são meus. A minha mãe, com a generosidade
excessiva do amor incondicional, diz que eu havia de fazer um livro de
fotografias, que as faço tão lindas. Eu digo que não são tão lindas, não o
suficiente para fazer um livro, mas são despidas e limpas, uma forma muito
honesta de olhar.
