sábado, 30 de maio de 2026

 


"Le mot “élucider” devient dangereux si l'on croit que l'on peut faire en toutes choses toute la lumière."


Edgar Morin


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente  são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.

À parte o circo mediático do costume  com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância  comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.


domingo, 24 de maio de 2026

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Escrevo anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente, quem por aqui se perde. Sinceramente grata.

É possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior, suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente. Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes, tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.

Também leio anonimamente...


terça-feira, 19 de maio de 2026


Era um casamento. A minha amiga passou o tempo a zurzir no moreno de longo cabelo negro-negro, bem tratado, bem hidratado, impecavelmente trajado no seu fato grenat, o casaco de fecho em V cavado, deixando a nu o peito bronzeado e depilado, as calças de comprimento perfeito, mal roçando a pele dos mules, salto kitten heel. Admirável, francamente. Muito pior ia o tipo de túnica azul, descalço como Jesus, cabelo menos longo e (muito) menos limpo, e igualzinho na manhã seguinte, ao pequeno-almoço. A "liberdade individual" deve impedir que funcionários de hotéis de quatro estrelas barrem a entrada a gente descalça nos espaços de restaurante, não sei. Já o moreno de cabelo negro-negro chegou num pijama de seda, descaindo o ombro do casaco sobre a t-shirt branca, de alças, um tamanho abaixo: excepto por esse detalhe, irrepreensível como na véspera.

segunda-feira, 18 de maio de 2026




Da vida que se arranca aos dias, um rio de sangue, surdo, que atravessa o ventre e incendeia a boca. No corpo, no meu corpo, geografia de sal suor e espanto, a existência escreve-se e esgota-se. Exijo silêncio. Ainda que atiçando o vento. Um rasgão húmido sob as costelas. Tactear o escuro onde o tempo deixou de ser meu. E a memória voraz do que se ausenta.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 " - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."

Memórias Minhas, Manuel Alegre


Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.

Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis. 

Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cristo Velato

A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe. 

O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo. 

Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Havia (também) uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.

Hoje há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do vazio.

Sento-me na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.