sexta-feira, 5 de abril de 2024

Viver a vida como num questionário de Proust


Uma volúpia de lucidez. Há dias em que o invejo. Saber sempre apontar o pior defeito a melhor virtude o maior medo o melhor livro. Um lema de vida, santo Deus, um lema de vida, e eu que a levo de mãos tão vazias. Serve-me, talvez, o de António-Pedro Vasconcelos, com a devida vénia: também eu desejo tudo e desejo muito, espero pouquíssimo e tento não pedir nada, mais por orgulho que por modéstia. Mas, não raras vezes, danço com o Diabo, consciente da sua malícia, de todas as tentações com que me embala, inclusive a leviandade perversa, tão doce, de crer em ti.



quinta-feira, 4 de abril de 2024

In Your Room




Fui vê-los. Era uma promessa por cumprir, e só isso teria bastado. Depois, como diz outro amigo, porque parece haver sempre qualquer coisa por descobrir. Quarenta e tal anos e, afinal, é sempre e apenas um ontem. Como reler um clássico, voltar, sim, aos lugares onde já fomos felizes, um Bolero de Ravel, amar-te todos os dias, um cardume de pássaros de guelras brilhantes nas asas, voluteando em espiral como confetti de festa.

"Gahan é uma garça a mexer-se: é ginga, gangster e bailarino, é mestre de cerimónias e sex symbol a fazer simulações provocantes, é um monstro de palco sem idade", escreveu-se. E é. E foi. E Martin Gore é outra coisa qualquer espantosa de que me lembrava pouco; lamento não me ter atrevido também a gravar o seu "Strangelove" acústico (não propriamente angélico, mas despido, e lento, e belo), mas sou do tempo do cinema sem pipocas e dos concertos sem telemóveis – quais filhos, é isto que me põe velha.

Nem sou muito destes concertos; uma mole de gente arrebanhada, aos pulos, a tresandar à vulgaridade do espectáculo de massas, comercial e afins, e, com excepção de que não pulo nem grito (pelo menos, entre desconhecidos), foi tudo fantástico. Memento Mori, e faço por não esquecer. 

Ainda hei-de vê-los em Berlim, parecem-me sempre mais felizes nos concertos em Berlim. 


quarta-feira, 3 de abril de 2024

"Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar

as que só por Amor te não desprezam!"


Sebastião da Gama 

MNAA

 



Não é a orgia de talento que ressoa pelos corredores do Prado, mas não desmerece nada do tempo que lhe entreguei. 

Há uma pequena multidão (eu sei, é como o "beijinho grande") em frente às Tentações de Santo Antão, atenta às explicações (im)possíveis sobre os mistérios de Bosch, e vem-me à memória, o rapaz de barba curta e rosto de Cleópatra, unhas azuis impecavelmente pontiagudas e clutch pelo ombro, corrente dourada e fina, pasmado também diante d’ O Jardim das Delícias Terrenas, não sei se entre o Céu e o Inferno, se por amor a Deus ou ao Pecado.


do tríptico Tentações de Santo Antão, Hieronymus Bosch, MNAA

 


um arcanjo de Berlinde de Bruychere, entre Zurbarán e Ribera




Adoração dos Magos (pormenor), Domingos António de Sequeira


terça-feira, 2 de abril de 2024

Vemo-nos em Agosto

Gabriel García Márquez não queria, e lá teria as suas razões. Nem inconfundível, nem fascinante (ou nem por isso). E exuberante deve ser o que se diz quando não se quer dizer mal, porque o senhor não merece. A culpa foi dos filhos, ao que parece.

Não é mau, claro que não é mau, é Gabriel García Marquez, e um mestre há-de ser sempre um mestre; até na autocrítica. Mas está longe de ser fantástico. Digo eu, que faço tudo o que não se deve fazer na escrita: misturo o trigo e o joio, complico o que por natureza é simples, adjectivo compulsivamente e, obviamente, adverbo, muitoem modo, lugar, tempo, e tudo o resto que me apeteça mesmo sabendo que não devo.

Vou ali esbofetear-me. Ou reler Cem Anos de Solidão.


"Mona Lisa, Mona Lisa, Men Have Named You..."



O luxo que é viver em Madrid. Três magníficos museus no coração da cidade, dois deles com duas horas diárias de entrada gratuita a todos os públicos. Pasmar diante do Guernica de Picasso, uma experiência quase física, do arrepio na espinha à quase náusea. Pela brutalidade; do talento, da tragédia, do colosso.

Já não recordo a última vez antes desta que visitei o Museu do Prado, Dispensam-se grandes adjectivos ou outros espantos pungentes, até porque serão sempre insuficientes: aquilo é gente de conluio com o divino, não há outra explicação para que mentes e mãos humanas possam produzir arte assim. Para além do Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, há o Deus desceu à Terra para encarnar no seio da Virgem Maria e se fazer, não um, mas vários homens que, por sua obra e Graça, se tornam também sobrenaturais; à “sua imagem”, só alguns. E algumas. Outro museu, o Thyssen-Bornemisza, rende, por estes dias (sendo que "estes dias" foram algures em Dezembro passado), homenagem a algumas dessas pintoras eventualmente esquecidas. Artemísia Gentileschi é, talvez, das mais conhecidas, Frida Kahlo mais actual, mas gosto especialmente de Henrietta Browne.

Mas é o Museu do Prado que me tem perdida; é um dos meus Museus. Tudo vive, tudo vibra. O Triunfo da Morte, de Bruegel, é uma visão assombrosa, e as pinturas negras de Goya, uma descoberta curiosa. Há, claro, As Meninas de Diego Velázquez. Rubens, van Dyck, Ribera, El Greco, Jordaens, Mengs, Ticiano, Caravaggio, Rembrandt, os demónios de Bosch, uma Gioconda que talvez seja mais original que a original exposta no Louvre. Apresentam-na como uma cópia  não vulgar, mas uma cópia –, embora as duas tenham sido produzidas paralela e simultaneamente: aquela, por discípulos de Leonardo Da Vinci e terminada antes, diz a placa identificativa. São idênticas. Menos do sfumato de Leonardo, diz quem sabe. Há as cores, claro, não são exactamente as mesmas. Não se pode fotografar. Com raríssimas e desinteressantes excepções, nada no Museu do Prado se pode fotografar. Um cão de guarda em cada sala zela ferozmente pela inviolabilidade da regra, e, embora haja sempre um prevaricador, entre o ousado e o fingidor, a senhora que olha pela Mona Lisa é vigilantíssima. Nem se percebe bem, porque algumas obras transitam do Prado para o Thyssen, e no Thyssen é possível fotografar. Sem flash. Não importa. Há que ir.


"Leave the World Behind"



Como é que a Júlia se meteu nisto?




segunda-feira, 1 de abril de 2024

Redenção



O rapaz do carro preto suicidou-se. Um mês antes do Natal. 

A coberto de uma ida às compras, coisa de última hora, una lámpara de Navidad, atirou-se para a linha de comboio. Deixara, no porta-luvas, a aliança de um casamento aparentemente banal, o fio de ouro que trazia sempre ao pescoço e um bilhete de despedida com um pedido de perdão. Foi naquele dia, mas poderia ter sido em qualquer outro antes desse, ou num qualquer dia depois – faltava apenas dizer sim.

Recordo como não o via há algum tempo. Cruzávamo-nos praticamente todas essas manhãs ditas úteis, no estacionamento comum do prédio, na saída dos miúdos para a escola. Recordo o ar taciturno com que carregava o mundo que se lhe fez insuportável. Nunca prestei muita atenção. É espantoso, o vazio em que podemos viver. E os filhos, duas crianças pequenas, a quem, em cerca de cinco anos, não dei mais do que os bons dias, naquela pressa rotineira, sem nunca suspeitar da quase ausência de resposta, são miúdos, nem do ar demasiado sério, e pálido, e envelhecido para tão tenra idade. Nada como o dia seguinte para fazer bons prognósticos, como dizia aquele entendido em coisas do futebol. Há gente a quem nem o futebol basta.

Quarenta e quase nada de anos, que puta de vida. E o carro preto, estacionado ainda na garagem do prédio, uma amolgadela por reparar desde que me lembro sobre a roda traseira esquerda, como um prenúncio desse outro abandono que ninguém viu chegar. 

A mulher do rapaz do carro preto parece anestesiada pela perda, que ainda não é bem dor. Conta que o marido se suicidou com a mesma secura com que diz salió a comprar la lámpara de NavidadPode-se viver com uma pessoa, dormir na mesma cama, rir, chorar, amar, criar filhos e cuidá-los e, ainda assim, não perceber o abismo que se abre diante de nós? A vizinha do segundo andar diz que ainda não acredita. Pois se há dias, assegura, em que parece vê-lo chegar, a recolher o correio à mesma hora, depois de ir buscar os miúdos à escola. Não é, não voltará a vê-lo, lembra-lhe a viúva como se ralhasse. Conheço o choque. Não é negação, sequer, não houve tempo. A vida de quem fica não se atrasa, não espera. O Luto, como a Morte, tem os seus caprichos.


Mas despedi-me, não foi?, que não sei quê, que não voltava, e o mundo virtual, blá, blá, blá. Parece que não fui capaz, desta vez, de apagar isto. Não sei bem se isso me basta, ou se preciso deste pequeno reduto de insanidade para melhor lidar com o outro lá fora. Além disso, são pouquíssimos os que conhecem o caminho que aqui vem dar, e, desses, menos ainda os que me importam; de modo que, o "abandono" disto, a acontecer, parece-me muito menos dramático do que há uns meses  talvez porque estes meses, de repente, me pareçam em tudo demasiado. E não é verdade absoluta que o que chega (bater na madeira para cima de um milhão de vezes) à Internet permaneça na Internet, alguns de nós ainda têm a sorte de poder zarpar sem deixar rasto. 


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Podia, simplesmente, deixar este canto ao abandono, sem dar cavaco… salvo seja. Até porque será a segunda vez que apago um blogue. Da primeira vez pensei que o problema estava na plataforma, e agora sei que o problema sou mesmo eu. E problema é apenas uma forma de expressão infeliz. Acabou; é só. Não sou do mundo virtual. 

Podia deixar este canto ao abandono, blogues ao abandono é coisa que não falta, mas tal renúncia requer também um certo desapego de que não sou capaz. Parte disto sou eu, custar-me-ia bastante; mas, se por um lado já não quero, por outro, sabe quem me conhece, sou desastradamente incompetente nas despedidas. Isto nem chega bem a ser uma despedida – o blogue termina, mas, para lá do blogue, estarei onde sempre estive: a um email de distância, no máximo. Uma coisa quase arcaica, isso do email, mas muito razoável ainda.

Grata pelo vosso tempo.

Vivam bem.


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sexta-feira, 15 de setembro de 2023