quarta-feira, 25 de março de 2026

Tuvalu

Não recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Como parece acontecer sempre por um capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, e eu pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte de culpa.

Enfim, já há migrantes climáticos na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania. 

Um predador paciente, o mar.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as. 

Gosto de ouvir os pássaros de olhos fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora, as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga, absurda.

Gosto de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me tome sem pedir licença.


sexta-feira, 20 de março de 2026


Caminhar por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.


Dias do meu Pai

Às vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto, porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais. Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está bem.

Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?, disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.

As primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.

A guerra é um nojo.


quinta-feira, 19 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026


Em vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram (não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.

A administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes, ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar. 



Mesmo sob as ruínas existem lugares para habitar. Fragmentos de esperança que sobrevivem à dissolução. Podem ser palavras; a palavra encontra sempre um caminho.


domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026


Não há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença: a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível. Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome. Céus, as saudades que eu tenho de ti…


quarta-feira, 11 de março de 2026




Pequenos campos de batalha, as palavras
ama-se. sangra-se, morre-se.