...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.
outradecoisanenhuma
sexta-feira, 27 de março de 2026
quarta-feira, 25 de março de 2026
Tuvalu
Não
recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui
pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um
capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa
notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado
pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores
serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha
ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação
ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram
as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um
futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu
pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte
de culpa.
Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania.
Um predador paciente,
o mar.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as.
Gosto de ouvir os pássaros de olhos
fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso
certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O
mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora,
as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga,
absurda.
Gosto
de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar
o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me
tome sem pedir licença.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Caminhar
por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada
sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir
a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza
de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de
mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me
as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.
Dias do meu Pai
Às
vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto,
porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e
parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção
de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais.
Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai
sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e
angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois
competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e
que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com
gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner
e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está
bem.
Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?,
disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de
olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.
As
primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu
pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os
Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das
feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra
contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum
conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser
pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas
envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.
A
guerra é um nojo.
quinta-feira, 19 de março de 2026
quarta-feira, 18 de março de 2026
Em
vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e
geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade
empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se
porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram
(não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente
egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.
A
administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem
pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas
para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura
de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear
as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes,
ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar.