segunda-feira, 18 de outubro de 2021



Não dei pelo dia da libertação, nem pelo apagão das redes sociais. Tudo por minha culpa, que levo uma vida bastante desinteressante. Ainda assim, não me deve bastar para chegar ao céu: é sabido que sou invejosa, de uma inveja mui nobre a minha, isso sim, e farto-me de pecar por pensamentos e palavras. A minha alma há-de arder no fogo do Inferno, depois de o meu corpo se desfazer num fogo menos eterno. Mas, mantive-me fiel à promessa de apenas usar aquelas máscaras horrorosas, cirúrgicas, e sempre no mesmo tom de azul deslavado. Nem verde, nem rosa. Nem branco, sei que também as há em branco. Espero ter preservado, sem mácula, as partes de mim que valem alguma coisa, ou até esse sacrifício terá sido em vão.

domingo, 17 de outubro de 2021


 

Também invejo quem sabe escrever poemas. Espanta-me o assombro capaz de se contrair num verso. A dor e a carne, a paixão e a saudade. O sobressalto, o desconhecido. Para não falar de ti, escreveria solenemente sobre novelos de nuvens em bando ao nascer do dia, e vórtices de luz magenta derramando-se sobre o mar quieto, liso liso, um imenso lago de mercúrio enrubescido pelo absurdo impudente das cores da alvorada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021


 

Imaginar, como Michel Houellebecq, que, dentro de um ou dois anos, forças políticas muçulmanas chegam ao poder na Europa, começando pela França e pela Bélgica. E que, em pouco tempo, esses partidos acabam por impor o Islão como eixo político-religioso, ou religioso-político, não sei se a ordem importa, em torno do qual gira uma agenda de reconstrução e reconquista de um império assente na submissão: islam. Submissão da mulher ao homem e do homem a Deus, fórmula única, infalível, para aceder à felicidade eterna mesmo antes da morte. Um “grafo” quase perfeito, vastíssimo, de paz e harmonia, todos os pontos do mundo ligados por linhas sólidas, urdidas nos mais belos versos do Corão. Pensar que essa imensidão de felicidade plena está ao virar da segunda volta de umas eleições presidenciais em França, cujo resultado, ainda que inesperado, empurra uma sociedade inconvulsa – o alvoroço preludiado dos tumultos que se anunciam nas curtas linhas da sinopse não ocupa muito mais nas páginas do livro – para o restabelecimento de um patriarcado muito desejado, afinal. A elite masculina – a intelectual primeiro, e a académica por ser mais permeável (na ficção, talvez apenas na ficção) – ungida na promessa de bons salários e boas esposas, até quatro, uma por cada um dos mais estimados prazeres, Insha'Allah, concupiscência a que nem o mais guloso dos amantes escapa, o espanto de François ao descobrir o benefício evidente de tapar as mulheres em público, o seu insaciável desejo sempre no ponto, pronto como uma mola, rápida e disciplinadamente amansado pelo castrar da vista, nada do prenúncio de seios cordilheiros, nem pernas subindo vertiginosamente a lugares pecaminosos cavados no contorno das calças justas ou antecipados na antecâmara impudica de uma saia demasiado curta, que a carne dos homens é fraca se as mulheres não zelarem por ela, como é do conhecimento comum mulheres recatadas passam sempre impunes à cobiça dos homens, só as de um certo tipo, as tipas, é que se põem a jeito, já dizia a Raquel Varela, e também é sabido que o clero em geral e alguns padres e bispos em particular, não são dados a desejos carnais por não a verem desnuda. À carne. Enfim, numa apetecível, e a curto prazo, Europa islamizada, toda essa devassidão atirada para as profundezas do passado, um emergente mundo apaziguado e feliz.

Diz-se que Houellebecq é um provocador, inteligente que só visto, ou lido, e sei que já chego tarde: o livro saiu em 2015, no mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo. Se Deus existe, também é dado a paródias.

Mas, não se pense que não gostei do seu “Submissão”. Gostei. É preciso lê-lo para perceber que não só da falta de carne – feminina, essencialmente feminina – à mostra viverá melhor o homem. Nem mesmo e apenas na imaginação de Houellebecq. É até possível que o cenário não seja totalmente irrealista, embora padeça de uma dimensão quase infantil pensar-se que, para evitar ceder espaço no poder a partidos de extrema-direita, um país como a França jurasse tão resolutamente obediência a uma ideia de felicidade requentada no fervor dos versículos islâmicos. Mas gostei mais da ideia do livro do que do livro em si. Como da primeira vez que vi o Matrix. O que me leva a outro escritor francês  posso ser exasperadamente incoerente: Hervé Le Tellier mais o seu “A Anomalia”, que também li. Não existe nenhuma prova de que o mundo é real; excepto que, se assim não fosse, se o mundo fosse um programa de computador, sempre seria possível desligá-lo. Reiniciar, actualizar. Reset. Sem eleições, sem ilusões. Não gostava nada de ficar frente-a-frente comigo mesma, materialmente falando. Se ficasse, queria ser, não a de Março, não a de Junho: a de Novembro. Uma anomalia de Outono.

Vi um cretino esbofetear uma mulher na rua. Nunca tinha visto um homem bater numa mulher, eu à janela, alarmada por um ruído infame, eles ali em baixo à distância de dois lanços de escada. Nunca. Nem no outro mundo em que já vivi. Árabe e muçulmano. Odiei-me por não ter descido as escadas a tempo, porque não ter sido capaz de chamar a polícia a tempo. E no meu Porto, uma discussão idiota com agressões à altura, resultou na morte de um rapaz de vinte e pouquíssimos anos. Li que os agressores, cidadãos muito franceses, foram detidos pela PSP; no entretanto, filmaram um vídeo. O mundo do lado de cá, um pedaço do mundo do lado de cá, do dito civilizado, mergulhado num filme do faroeste bastante mais decadente do que o próprio gozo supõe, e nenhuma das anomalias é capaz de resolver tamanha loucura.