No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.
outradecoisanenhuma
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Inconseguimento...
Julguei
o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu
ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha
lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas
como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois
queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais
incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas,
sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague
outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda
aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um
encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé,
senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até
agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem
sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é
inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar
palavras. Mea Culpa…
sábado, 20 de junho de 2026
Exílio
Os
crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da
pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de
fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com
medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos,
rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena
Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um
poço de contradições.
Se
pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties.
O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em
boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica,
frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria
para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que
pertenço, que desconheço, que me renega.
domingo, 31 de maio de 2026
Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente – são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.
À parte o circo mediático do costume – com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância – comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.
domingo, 24 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Escrevo
anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma
razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar
a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da
blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial
e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente,
quem por aqui se perde. Sinceramente grata.
É
possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se
acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a
ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior,
suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente.
Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor
plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir
comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é
o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas
também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes,
tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de
coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.
Também leio anonimamente...