quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Regresso várias vezes ao mesmo lugar. De cada vez, o mesmo assombro, o mesmo encanto. O mesmo desassossego. E outra coisa qualquer que ainda não aprendi a definir. Entre o silêncio frio das noites do deserto, que enrouquece os sentidos, e o brilho intenso das estrelas, lá em cima, bordando a ouro e prata o céu de veludo, de azul enegrecido como a asa lisa de um corvo. Entre o murmúrio da água antecipando o dilúvio e o cheiro agreste do vento afiado que sopra na minha memória, e há sempre uma ameaça de cólera no vento gelado do deserto. A areia fina e dourada que escorre, ébria, do cimo das dunas, em pérolas minúsculas, um xaile de faz-de-conta da mais rica renda resvalando lento como gotas de orvalho sobre os meus ombros nus, e o luar redondo, de dedos suaves e seguros, tatuando caminhos no ar à flor da pele. Da minha pele. Ou a ladainha das folhas secas de Outono que se soltam dos ramos esguios das árvores num crepitar de folhos, um sussurro glacé como o esvaziar estalado das ondas na beira da praia. Regresso como quem procura sem saber bem quem ou o quê. Onde, quando, o que és exactamente, se te tive alguma vez para lá das sombras com que te alimento. 


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

 



Super-Mulher

 


Trabalho, trabalho, trabalho. Linda. 


E paixão. Entretanto, dizem-me que me esqueci da paixão, tão ou mais importante que o trabalho. Não me esqueci, mas talvez tenha sido tomada por um nadinha de soberba, porque os tenho como indissociáveis. De qualquer forma, basta olhá-la. A paixão pelo trabalho que faz está toda lá. O sacrifício e a renúncia, também. Se tudo isso vale a pena, cada um saberá e a mais não é obrigado.

"El amor y la muerte se parecen: cuando estamos perdidos acudimos a ellos."

Silvina Ocampo


terça-feira, 27 de julho de 2021

Tão Bom!

 


Ou Bem Bom, como queiram. Um produto de ficção livremente baseado em factos reais. Doce, doce, numa realidade acre, como eu já tinha lido.

Não sei há quanto tempo não ia ao cinema. Muito antes do primeiro encarceramento, coisa que me parece já ter ocorrido há, pelo menos, duas vidas. E quando começaram a reabrir as salas de espectáculos – cinemas incluídos – não me atrevia. Mas quis muito ver o Bem Bom, da Patrícia Sequeira. Além disso, preciso urgentemente de retomar as rédeas da minha vontade, antes que a minha vontade decida empoderar-se, como se diz agora e as Doce assumiram muito antes do seu tempo, e me prive (mais ainda) da minha existência. Desencaminhei uma amiga, de férias como eu, e fomos. Mesmo com o regresso das amaldiçoadas pipocas, que era uma das coisas boas que a pandemia tinha trazido e que eu desejaria perpetuar, se mandasse: banir, definitivamente, as pipocas das salas de cinema. Eu gosto de pipocas, só não gosto de pipocas nas salas de cinema. Que sentido é que faz – no contexto que se conhece, por entre as bizarras regras que se conhece – permitir-se que se coma e beba no interior das salas de cinema? 

Mas valeu a pena. Tão bom, tão bom, neste tempo miserável. Saí com uma alegria de miúda. Da miúda de que ainda me lembro e que ainda me embala em horas sombrias. Apetecia-me cantar a plenos pulmões, com o volume no máximo como os palermas com que, por vezes, me cruzo na estrada, segui-la por mais umas horas, subi-la, sinuosa, sem rumo, esquecida do absurdo dos meses que se arrastam e nos arrastam sem um pingo de misericórdia.

As Doce do filme são igualmente maravilhosas. Os diálogos são fiéis à época de que também me lembro, as zangas surgem imaculadamente exasperantes e exasperadas, os dramas eram aqueles, rigorosamente, e parecem cada vez mais possíveis de ressuscitar ao terceiro ou quarto dia dos tempos modernos. Excepto aquele momento que a Laura ameaça um presidente de câmara de o denunciar nos jornais pela sua falta de palavra e o homem cede, receando o escândalo. Não faço ideia se terá sido assim, mas não seria assim hoje de certeza, já ninguém quer saber de palavra.

Bem Bom não é um documentário, mas podia. Adorei o princípio, o meio e o fim. Sim, era tudo bastante piroso.



segunda-feira, 26 de julho de 2021

Há séculos que não ouvia esta música. 


Há sempre uma memória onde reclinar a cabeça.