terça-feira, 4 de agosto de 2026

Mama Mia...

Apanhei o filme a meio, o segundo, no caso, e já não consegui arrancar-me dali. O que é que os ABBA têm? Há uma engenharia perfeita naquilo. Impossível.




Graça Morais

 "Como se prepara uma perdiz?

Como se cozinha? Para pintar é muito simples. Quando os meus irmãos me traziam as perdizes, pegava nelas e punha-as em cima da minha mesa de trabalho. Às vezes estava a olhar imenso tempo, antes de começar a ter coragem de pintar a perdiz. Nunca cozinhei nenhuma. No tempo que estou a observar a perdiz, crio um afeto e sou incapaz de a comer. Acho-a bonita demais. Ultrapassa a dimensão da forma para se transformar num símbolo do martírio, do sacrifício das mulheres.

(...)

O que há de especial num olival?

Depende das horas do dia. De manhã, um olival tem uma luz muito bonita. As folhas são verdes de um lado e prateadas do outro, ganham uma cor muito especial. Como hei de dizer? Quase sagrada. Um olival antigo, não estou a falar dessas oliveiras raquíticas que dão muito dinheiro, mas que eu detesto. As oliveiras centenárias, além de terem um corpo em que apetece mexer, a gente sente que é quase o corpo de uma pessoa. Sobretudo de uma mulher. Ao escurecer, há uma dimensão muito triste, que tem a ver com a nossa tristeza. O olival é o lugar onde tenho sentimentos mais extremos, mais intensos. De paz, mas ao mesmo tempo de uma tristeza imensa.

(...)

Falta-lhe pintar muito?

Ai, oxalá ainda consiga pintar muito. Ainda queria ver se fazia muita coisa. Gosto muito das exposições, mas a partir de certa altura começo a querer é pintar. Já estou a ferver, com outras ideias."

EXPRESSO




segunda-feira, 3 de agosto de 2026



Antecâmara

Das varandas brancas descendo em cascata sobre a falésia avista-se a costa espanhola. A proximidade é hipnótica, quase ofensiva. Espanha está mesmo ali, a uma distância ridícula, proibida pelo acaso. 

Nos dias quentes de Verão, as árvores emprestam sombra, confortam, embalam a espera. Há uma sala interior que entrevejo, com cobiça, sempre que subo e desço os degraus escarpados, uma sala atapetada, de janelas amplas e abertas para o Estreito, onde os homens se deitam e se ausentam, entre baforadas de kif; não se vê um móvel, apenas cachimbos de água em coloridos berrantes, alguns espalhados, aguardando vez. O Café Hafa é um desses lugares onde a crueldade se instala devagar, fermenta, corrói. Para quem chega, é fácil entregar-se à beleza, apenas. A imensidão dos mares que se namoram e atormentam lá em baixo. Beber do hálito bruto a maresia. Assim se embriagaram escritores, poetas, músicos, expatriados privilegiados como eu. Para quem ali nasce, a geografia é uma emboscada. Lembro-me dos rapazes sentados horas a fio, ruminando o estupor. O desespero visceral. Alguns enchem-se de coragem e fogem, muitas vezes a nado, mas nada como se viu há dias, brotando às centenas das águas de Ceuta. Não há lei que os impeça de partir, antes ou agora, e não terá sido uma lei, uma decisão judicial, a empurrá-los para a fuga, em manada, no espaço de poucas horas. Mensagens sincronizadas, em massa nas redes sociais, a “informar” de fronteiras abertas, teriam tido outro desfecho com outros Governos, noutros locais? Não sei. Há quem instrumentalize a miséria dos outros em proveito próprio, por vingança ou por agenda, e para quem marroquinos, espanhóis de Ceuta ou de Melilla contam pouco. Morreram dezenas de pessoas. Em poucas horas, entraram em Ceuta quase tantos estrangeiros quantos os habitantes. É espantoso que não tenha havido confrontos graves, mais mortos, maiores tumultos. É espantoso que quase todos tenham já regressado ao seu país. Muitos voltarão a tentar, com toda a certeza. Noutro tempo, noutra oportunidade. Nenhuma lei pode revogar a esperança ali à mão, do lado certo do mar.  

Para quem visita, certos lugares não passam de "imperdíveis" exóticos, para fotografar e arquivar. Eu também o faço. Mas outros lugares são incorruptíveis como a ilusão de qualquer coisa que se assemelhe a um futuro. Não há uma maneira fácil de resolver isto...


domingo, 2 de agosto de 2026

A primeira esposa mostra o apartamento para alugar. Um décimo e último andar, de amplos terraços e grinaldas de pedra maciça, ogivas perfeitas como arcos de catedral. Não sei a partir de quantos andares um prédio ameaça arranhar os céus, de um décimo andar não será, mas, dali, é espantosa a vista sobre a parte mais baixa do bairro antigo, sobre outros terraços de outros prédios.

Todos os edifícios residenciais crescem para um terraço comum, com estendais de roupa a secar ao sol e tapetes debruçados sobre os parapeitos de betão – e, uma vez por ano, altar de sacrifício onde os homens velhos vêm degolar o cordeiro de Deus para o desjejum (não haverá algo de profano nisto?)

O marido está na Europa, em lua-de-mel com a segunda esposa. São uma família relativamente liberal, ela pode tratar de alguns negócios na ausência dele, e algum nervo do meu rosto, do meu corpo, deve ter-me traído, para abrir um parêntesis de explicações copiosas à margem de uma conversa rasa sobre detalhes de arrendamento. Aceno que sim, esforço-me por sorrir, finjo que tudo me parece conforme, tão conforme como os tapetes pendurados nos murais brancos, um debrum ininterrupto de cores vivas como pássaros, e deixo de ouvi-la por momentos. O vento traz uma brisa de mar, que sei perto, mas talvez não passe de imaginação minha, como as sombras longas, rastejantes, na parede branca defronte.

No cimo da avenida, na torre da Grande Mesquita, anuncia-se a hora da oração; sempre aquele grito áspero que nunca deixará de me sobressaltar, a que nunca me habituarei, Allah hu Akbar, e não sei há quanto tempo estou ali sozinha, no terraço, sem rasto da primeira esposa. Vou encontrá-la na cozinha, de costas voltadas para a porta, ajoelhada sobre um tapete improvisado que me parece o mesmo lenço que ainda há pouco lhe cobria o cabelo negro, negro corvo, sedoso ao olhar, que só algumas destas mulheres podem orgulhosamente exibir. Toda a beleza no cabelo e nos olhos.

Volto ao terraço. Gosto das ruas que se vêem dali, dos olhares que não se cruzam e desses outros que carregam sonhos, da gente que sobe, apressada, a avenida larga, dos homens encostados aos muros baixos, encerrados nas suas histórias por contar, do cheiro a pão cozido a lenha que subiu comigo no elevador estreito de portas verde-musgo. Sei, desde o primeiro momento, que vou ficar.


sábado, 1 de agosto de 2026



"Fecho a porta oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
Olhos, cenas que não vou lembrar
Hei-de encontrar, dignificar, o sol de uma manhã

E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu

E existe um só céu, uma febre pagã
E depois de um sim ou não há sempre um amanhã
E agora sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu

Fecho a porta oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
E o mar e o sol e a chuva só me fazem ir
E acredito que no mundo há flores por abrir

Eu vou
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu

E o mar e o sol e a chuva só me fazem ir
E no fim da grande estrada há sempre um partir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu

Só eu
Só eu
Juntos sou eu
Juntos sou eu
Só eu
Eu vou

E sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir

E agora sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu"


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Gosto de morar junto ao mar. Em noites de lua cheia, a Lua paira como um lustre rico e posso sentar-me à varanda e ver como o luar se derrama sobre a água quieta. Uma criatura adormecida sob a gravidade implacável de uma força muda e primordial. A água responde a essa tracção bruta, entre o abandono e a fúria. 

Há um erotismo acerado no inalcançável. Na impossibilidade. Não há quem não saiba. 

Não tocar. 

Não escrever. Permanecer nas margens da palavra, como a água contida do meu mar em pousio.

Não contar.

Não amar. Não deixar de amar. Ficar nesse lugar inteiro, intacto.

A luz que não pertence inteiramente ao lugar onde se deita, mesmo quando nele se demora. Toda a luz procura uma forma de fuga. Como a distância, que não separa, mas preserva. Há uma intimidade, uma cumplicidade, que sobrevive apenas na ausência e na recusa, no gesto por cumprir. Pressentir o corpo antes da pele, o nome antes da voz. Decantar o silêncio. 

Talvez o erotismo não seja mais do que uma inteligência da separação. 

O Mar e a Lua não se encontram, não se extinguem.


Um prestigiado director da PJ

Luís Neves era alguém cuja imagem pública assentava na exigência ética na investigação e combate à corrupção, ao crime económico-financeiro, ao tráfico de droga e ao terrorismo. O próprio fez questão de o lembrar. As explicações que apresentou naquela conferência de imprensa são incompatíveis com essa imagem. O caso do atrelado é o exemplo mais alarmante. Um bem apreendido numa operação antidroga, com produtos químicos potencialmente perigosos, exige regras e cuidados que vão muito além das questões de tesouraria – chamar-lhe um "acto de extraordinária gestão" é uma tentativa arrogante, no mínimo, de desviar a atenção da gravidade daquela decisão. Mesmo sem benefício pessoal provado – vamos acreditar que João Carvalho teve um acto de extraordinária caridade –, o que está também em causa é a quebra de um padrão de procedimentos que o próprio cargo exigia que se mantivesse. Inacreditável, tudo isto.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Esopo para a Canalha

Era uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se, pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok, mas a televisão continua a ser a televisão.

Um dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido – mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados; inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram desmentidos.

Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade. Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém desse o devido crédito ao alegado assalto?

E, assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.


terça-feira, 28 de julho de 2026