outradecoisanenhuma
sexta-feira, 15 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
" - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."
Memórias Minhas, Manuel Alegre
Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.
Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis.
Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cristo Velato
A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe.
O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo.
Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.
Hoje
há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se
menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um
Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses
senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os
caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece
obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do
vazio.
Sento-me
na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.
sábado, 9 de maio de 2026
"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole
Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader
to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit
group. I am well aware that some members of the household are more prominent
than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain
mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the
inevitable result of lack of biographical information but it is, I think,
preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's
misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate
theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method
can lead.
The Brontë story has always been riddled with myths."
The Brontës, Juliet Barker
Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
terça-feira, 5 de maio de 2026
E
eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação.
Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e
meigo. Reescrever a noite sem urgência.
Desfaz-se
a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência.
Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome,
sob a pele.
Gosto que fiques.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Fio de Ariadne
Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos,
trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de
um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas
estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos
pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes
desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa,
partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da
identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou
não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a
pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa
de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa,
o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das
ruas.
Fez
é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito,
tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas.
Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra
na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma
língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um
corpo.
Também
tenho saudades de ti.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Atentados
A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem
representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune,
fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise
acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos,
que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de
assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight,
fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de
forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática,
mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento,
absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas
últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –,
sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido
uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um
tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo
o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem
aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump
transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não
sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço
obcecada com isto, e devo estar.
Fui
ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para
desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em
oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para
limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante
séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.
Os
filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente
para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do
campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela
praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético
da Terra, acho impressionante.
Caçámo-las,
comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.