quarta-feira, 13 de maio de 2026

 " - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."

Memórias Minhas, Manuel Alegre


Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.

Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis. 

Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cristo Velato

A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe. 

O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo. 

Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.

Hoje há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do vazio.

Sento-me na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.


sábado, 9 de maio de 2026

"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit group. I am well aware that some members of the household are more prominent than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the inevitable result of lack of biographical information but it is, I think, preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method can lead.

The Brontë story has always been riddled with myths."

The Brontës, Juliet Barker


Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026


E eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação. Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e meigo. Reescrever a noite sem urgência.

Desfaz-se a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência. Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome, sob a pele.

Gosto que fiques.



sexta-feira, 1 de maio de 2026


Imagem e Semelhança

Quando a noite vier, e a relva se parecer com o mar, e as ondas se parecerem com os arbustos do jardim, e o teu rosto se parecer com o que foi suposto e o meu rosto se parecer com o que deveria ser, e os livros contarem o que deveria ser vivido, e a vida se aproximar do sonho que foi sonhado, e esse sonho se parecer com o que irá acontecer na manhã seguinte  e o ouvinte julgar que escutou o que está prometido desde aquele tempo e desde aquela parte, e a criança se parecer com o homem que há-de haver e a mulher com a criança feita que lhe prometeram ter, as pálpebras descidas parecer-se-ão com o sol entrando no horizonte e tudo terá a mesma origem, tudo se reunirá na mesma fonte, e os sete mil milhões conhecerão a imagem de quem sem saber são pajem.

O Livro das Tréguas

Lídia Jorge não escreveu assim, ou, pelo menos, não se editou assim, mas eu gosto de lê-lo assim, corrido, de um trago.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Fio de Ariadne

Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos, trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa, partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa, o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das ruas.

Fez é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito, tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas. Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um corpo.

Também tenho saudades de ti.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

A virtude de ler poemas, ou contos, ou crónicas, é poder alterar a ordem da leitura sem obediência, sem contradições, abusando de todos os atalhos e caminhos incoerentes, desconhecidos, e com isso fingir que ainda sou dona da minha vontade.



Atentados

A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune, fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos, que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight, fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática, mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento, absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –, sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço obcecada com isto, e devo estar.

Fui ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.  

Os filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético da Terra, acho impressionante.

Caçámo-las, comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.





sábado, 25 de abril de 2026