sexta-feira, 3 de julho de 2026

Cortesia do Google...

 


... que, de tempos a tempos, me devolve pedaços dos sítios mais belos por onde andei.


Esse Cristiano Ronaldo

Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito. 

Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto , apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo. 

Era isto. Está um calor de morrer, literalmente, diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por umas horas.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Sócrates o que é de Sócrates

E se assim fosse não andaríamos nisto. 

Ninguém com o mínimo de inteligência acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.

Mas.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto, na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e, aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que, no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro: depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos e insuspeita de estados de alma.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón



Inconseguimento...

Julguei o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas, sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé, senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar palavras. Mea Culpa


sábado, 20 de junho de 2026

Exílio

Os crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos, rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um poço de contradições.

Se pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties. O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica, frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que pertenço, que desconheço, que me renega. 


domingo, 31 de maio de 2026




Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que me enche de ti.



sábado, 30 de maio de 2026

 


"Le mot “élucider” devient dangereux si l'on croit que l'on peut faire en toutes choses toute la lumière."


Edgar Morin


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente  são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.

À parte o circo mediático do costume  com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância  comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.