Os
iranianos estão a enterrar os seus mortos entre danças e música pop. Choram os
familiares abatidos às ordens do líder supremo Ali Khamenei celebrando e homenageando a vida, não a morte, numa manifestação de resistência continuada e rebeldia, depois de pagarem, em muitos casos,
pequenas fortunas para resgatar os corpos. Desafiam a lógica perversa do poder
teocrático daquele regime brutalmente destrutivo; rejeitam, com uma coragem que
ultrapassa o heroísmo, transcendental, uma moralidade castradora que instiga o
medo e exige a submissão dos cordeiros, de Deus nenhum. Gente brava – ou louca,
às vezes, não se distingue bem – para quem a sobrevivência é do domínio da metafísica;
o corpo é a expressão primeira e última do território de liberdade. Impossível não admirar. Não sei se
seria capaz…
outradecoisanenhuma
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Resistir...
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Por
motivos que não vêm ao caso, apenas no Sábado comecei a ver as imagens da
destruição que a depressão Kristin provocou em Leiria. É desolador. Desde aqui,
onde o temporal não fez, desta vez, grandes estragos, parece outro país.
Os
ministros Maria Lúcia Amaral e Leitão Amaro são, no mínimo, dois imprestáveis, quanto
a isso, não há a menor dúvida, mas a falência do país e do Estado é mais profunda e
transversal. Não há prevenção, previsão, preparação, mas também não há certezas
de que outro governo faria melhor gestão. Pedrogão Grande foi a desgraça que se
sabe. O que nunca falha é a solidariedade do tal povo de quem os políticos falam
tantas vezes e com tanta soberba e abuso; vizinhos, amigos e desconhecidos, que
se desdobram em boa vontade e entreajuda, com urgência e sem lamentações.
Diogo
Pacheco de Amorim deu uma entrevista ao Observador e, segundo li, afirmou não
ter dúvidas de que o Chega substituirá o PSD depois destas eleições
presidenciais. É espantoso pensar que pode ter razão, e pode ter razão. Por
algum motivo ininteligível para mim, há mesmo quem veja no Chega uma
alternativa competente para guiar os destinos do país; talvez porque o nível de
mediocridade de alguns ministros desta AD é tão confrangedoramente evidente que
permite, a uns sonhar, a outros desbaratar.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
2+2=5
Sempre
que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou
invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas,
com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em
tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda
assim, era irreal; surreal.
A
colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George
Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O
documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do
presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e
exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu
tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a
compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada
dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não
invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como
Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um
tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico
dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação.
A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores
ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à
expressão pura de liberdade.
Prestar
vassalagem.
Rebanhos
são os outros.
Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo – são quase duas horas de filme – por recompensado.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Senilidade e Bom Senso
Dizem
que Donald Trump está senil. Não faço ideia. Para mim, é apenas um traste, com
todos os apensos: narcisista patológico, ridiculamente vingativo, doentiamente
invejoso, quase psicopata e, não acumulasse com uma cobardia soez,
perfeitamente capaz de arrancar a cabeça a alguém por puro prazer. Senil estava (ou está) Joe Biden de uma forma,
simultaneamente, mais evidente e mais moderada; talvez a senilidade seja menos compassiva com os mais canalhas. Podíamos pensar que os EUA estão há cinco
anos, pelo menos, a mando de dois perturbados mentais, mas, provavelmente, erraríamos
por defeito. E eu simpatizo com Biden.
Não devia, mas espanta-me que quem se diz democrata possa apoiar tão fervorosamente alguém como Donald Trump; ou, a propósito, alguém como André Ventura, com as devidas distâncias, porque até para ser traste se impõem certos pergaminhos que, por muito que ensaie e tente, Ventura não tem. Quase percebo melhor quem presta reverência ao presidente dos EUA: se a ideia é corromper, subverter a ordem vigente, prefira-se o original. Mas não se digam democratas. Também não sinto a minha democracia particularmente violentada pelo facto de Luís Montenegro recusar dizer se apoia ou não a candidatura de José Seguro a Presidente desta despedaçada República: o que seria, além de tudo o resto, andar mais duas ou três semanas a ouvir o líder espiritual do Chega a vangloriar-se de ter o país inteiro ou quase contra si, na pessoa do primeiro-ministro. Dispenso. Para mim a escolha é muito fácil: se é de nojo que se trata, o socialismo de José Seguro enoja-me menos.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Ana Margarida de Carvalho
Neste
momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos
à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato,
O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do
Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem
um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é
descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais,
adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor
resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do
rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à
noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é
seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o
eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de
navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana
Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se
sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Do Meu Quarto com Vista
Não sendo uma fanática defensora do ambiente, faço os possíveis por cumprir os mínimos: recolho e separo o lixo, evito o desperdício e não sou propriamente consumista – com excepção de livros, já se sabe; e material de escrita, dos cadernos às canetas de tinta permanente, outro pequeno vício. Sou, claro, bastante imperfeita. Apago as luzes, mas posso manter o aquecimento ligado e a janela entreaberta; gosto do choque do ar frio que penetra o calor morno do quarto. Tomo duche em vez de encher duas banheiras, mas demoro-me escandalosamente a ouvir o tamborilar da água quente sobre a porcelana branca, a corrente macia sobre a minha pele, o cheiro inebriante do meu sabonete preferido, pequenas nuvens de espuma entre os dedos da minha mão. Estou num décimo quarto andar, sem prédios em frente, e pela janela ampla da casa-de-banho ergue-se um arco-íris perfeito, a luz refractada em cores absurdamente marcadas, impecavelmente curvilíneas. Uma das mais simples e harmoniosas manifestações da física. É tão, tão bonito.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
2026, ou a Geopolítica do Caos
Ai, mi barbie, y esa cara más guapa…
À porta do Alcázar a cigana oferece-me um raminho de alecrim; quer ler-me a mão, presumir sobre o advir. Tem as mãos grossas, telúricas, não quero que toque nas minhas; não quero o raminho de alecrim; sobretudo não quero previsões ou antevisões que distorçam os meus momentos de paz. Dois mil e vinte e seis já me esmurrou. Além disso, daí a poucos dias vou regressar ao mundo dos vivos para saber que morreu Brigitte Bardot (Deus criou a mulher para criar a Brigitte Bardot), que os EUA sequestraram a Venezuela – ou o demiurgo Donald Trump sequestrou o ditador Nicolás Maduro, o que não me parece muito diferente –; que aquela América se tornou um Estado semi-terrorista que caça imigrantes e mata activistas com a graça do presidente; que, em Portugal, pelo menos mais duas pessoas morreram à espera do socorro do INEM, mas a ministra não pediu nem pede para sair e outro ministro, o primeiro, indigna-se à vermelhidão pela defesa da dama: saber do futuro para quê? Parei o tempo por uma causa maior: ficar onde estava, embrulhada no que me restava de ausência, sem desejo de ouvir o que teria a cigana para me contar.
Mas, por teimosia, Bom 2026...
sábado, 27 de dezembro de 2025
Manias
Assino o PÚBLICO (entre outros: também sou leitora compulsiva de jornais…) para ler a Bárbara Reis, sendo que tenho uma mania idêntica – e dura há mais de um ano.
Há um ano que registo numa folha pequenas coisas que leio
nos jornais.
Um responsável pela manutenção dos faqueiros do Palácio do Eliseu, residência
oficial do Presidente francês, é detido por roubar pratas e porcelanas. Tem em
casa peças que valem entre 15 mil e 40 mil euros. Um dos cúmplices é guarda no
Museu do Louvre. O advogado explica o motivo: “paixão” por antiguidades raras.
Sem sonhar a ajuda que me ia dar, um empregado de mesa acaba de pousar o prato
e remata a conversa de circunstância com um desabafo:
– Somos apenas humanos, não é?”