sábado, 18 de julho de 2026

 

O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre

O ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo. A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia, a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?

Sobre as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar, talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo, onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada corresponde integralmente à prova que entregou.

Já de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas

Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero. 

O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso, a incompetência gritante com que foi implementado.

Não sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.


sexta-feira, 17 de julho de 2026


Um clarão dourado, primitivo, pousado sobre a palidez da pele. Velar tudo o que nela persiste de morte. O êxtase consagrado ascendendo em espirais, sem nunca encontrar um porto, sem nunca encontrar paz. Há um instante suspenso onde o beijo pertence a tempo nenhum, e o corpo que se torna templo, labirinto e abismo. Braços esguios como ramos, frisos caleidoscópicos no contra-azul do céu, e raízes febris bebendo o esquecimento no osso da terra. A beleza veste-se de uma obstinação pregueada para que nenhum olhar suspeite da sua avidez. Sob a sua opulência a sombra espreita e espera, mordendo em sangue a própria eternidade. Gosto.


Margaret Atwood

(...)

"De repente, os cenários previstos em distopias literárias tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?

Poderíamos perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985, muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando, volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo, seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.

Como interpreta então este novo momento mundial de grande impulso bélico?

Pense no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder. Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.

 (...)

Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões. Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?

Não, não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor, elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e reformulada.

Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se descreve no livro?

Sou uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui [no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as pode provar nem refutar."


EXPRESSO


quarta-feira, 15 de julho de 2026

David Byrne, Cool Jazz

 




Muito bom. 
Espectacular a miúda do baixo, Kely Cristina Pinheiro.


Descaramento



Se as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.

O primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê, mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame, sempre rasteiro.  

Nojo.


terça-feira, 14 de julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

domingo, 12 de julho de 2026


“Eu pensava muito durante as longas horas das noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”

O Outro que Era Eu

Ruben A.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Da imprudência

Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida. 

Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário. 

Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco. 

Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável. 

Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto. 



Aubrey Beardsley