quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Um amigo está empenhado em devolver-me à fé cristã. Obrigada, mas não. Incumpro praticamente todos os pré-requisitos morais. Não amo a Deus sobre todas as coisas, pouquíssimos próximos como a mim própria. Invoco o Seu nome em vão um sem-número de vezes. Não dou a outra face e perdoo mal. Não vou à missa, embora vá à igreja, a várias, frequentemente, e o silêncio de uma igreja vazia é um dos meus vazios mais íntegros. Não matar. Não tenho a certeza. Talvez matasse para proteger ou vingar a mim mesma, a alguns desses poucos que me são tão próximos. Qualquer pessoa é capaz de matar, nem todos levianamente. Creio. Não lamento a morte de homens maus, mas não rejubilo com a morte, nunca com a de um ladrão menor. A minha compaixão é imperfeita, luxuosa. Posso odiar alguém em particular, um rosto, um nome, mas custa-me perceber o ódio a um todo, a um país, a um povo (odiar a humanidade em geral torna-nos menos capazes de odiar uma pessoa em particular? – sobre este avesso não reflectiu o atormentado médico dos Karamázov). Penso-te sem castidade, sem prudência, sem remorso. Não roubo, é certo, procuro não mentir, honrar pai e mãe e a palavra dada, mas obedeço-me ante todos os outros. Às vezes cobiço a graça dos impolutos.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Táxis, Robots e Monarcas

Estudar cinco anos, oito anos, até memorizar nomes de ruas e cruzamentos, bares, hotéis, restaurantes, seis mil pontos de interesse na cidade de Londres até ser-se considerado apto para conduzir o icónico táxi preto – todos os anos, centenas de candidatos sujeitam-se ao rigorosíssimo Knowledge of London (The Knowledge, com solenidade), que os habilitará, se passarem, a conduzir o distinto black cab. Chamar-lhe um exame oral é um eufemismo; por isso ou por outra coisa qualquer, chamam-lhe "appearances" e aquilo tem ar de inquisição, com maiúscula, com o examinando sentado frente ao examinador, munido da sua memória apenas, desfiando minuciosamente o trajecto de A a B, que se quer o mais curto, com nome e número de ruas, esta à esquerda, aquela à direita, a segunda a terceira, a fogueira à menor falha. Vinte tentativas, quarenta e uma tentativas. Estudam pelo “livro azul” – actualmente, um dossier gordo de seis mil pontos de interesse para um cliente-tipo. Vinte e cinco mil nomes de ruas. Há condutores de Uber que nos levam a qualquer lugar – inclusive àquele onde nunca tinham posto as rodas dos carros que conduzem –, sistemas de navegação que se tornaram omnipresentes, quase sempre omniscientes, apêndices de condução, e há empresas a iniciar testes para os primeiros táxis autónomos nas ruas de Londres, portanto, a pergunta inevitável e preguiçosa seria: para quê o esforço? Pelo prazer de fazer parte da história, pelo luxo de conduzir o icónico táxi preto; talvez porque o dono do galgo irlandês não confie num táxi-robot para transportar o seu cão sozinho, quieto e mudo no banco de trás. Também não simpatizo, nada nada, com a ideia de ser transportada por um carro sem condutor. Parece-me um pouco sinistro, até. O mesmo para o esquadrão de 2000 robots-humanóides que compõem as 666 (juro) equipas que competem em Pequim, nos Jogos Mundiais de Robots Humanóides. Há jogadores de ténis, lutadores de boxe, corridas de 100 metros e meia-maratona. Estou num momento “Velho do Restelo”. O progresso progride a um ritmo indigesto. Por isso, simpatizo com o esforço daqueles aspirantes a condutores de um honorabilíssimo táxi preto. Humaníssimos. Alimentar uma certa resistência, uma pequena dose de insanidade.

Numa sequência destes microcosmos que fazem do 60 minutos o 60 minutos, Anderson Cooper aquece no colo das mãos e com seu hálito uma borboleta-monarca, entorpecida pelo frio, momentaneamente incapaz de voar. Dois ou três longos sopros e a monarca descola num bater de asas. Por algum motivo, emociono-me, e deve ser a coisa mais simples para um robot fazer. Ressuscitar a borboleta, quero dizer. Gosto da história das borboletas-monarcas, da sua jornada extraordinária, de como as vêem no México, as almas regressadas dos seus mortos.  


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Há duas noites

Não é tão extraordinário como o eclipse, mas deixam-se fotografar por amadores, como eu.






terça-feira, 11 de agosto de 2026


“Qui serait assez insensé pour mourir sans avoir fait au moins le tour de sa prison?”

Marguerite Yourcenar, L'Oeuvre au Noir 


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

E A Odisseia? Não é uma Tese de Doutoramento...

Claro que fui ver a Odisseia de Christopher Nolan. Um realizador que implode edifícios reais, que compra aviões reais para os guiar contra hangares reais, tudo em proveito de uma sétima arte maior merece que se lhe dê crédito. Dizer que quase fez Matt Damon afogar-se talvez não seja exagero, e gostei muito do seu Oppenheimer, com o ali extraordinário Cillian Murphy.  

Não sei bem quando é que começou esta agonia entre espectadores, esta tantas vezes infantilizada determinação em racionalizar e julgar a ficção – muito além de um cilindro de gás na quadriga de Gladiador, ou um starbucks no Game of Thrones –, mas descobri-a tarde: já o Titanic levava mais de vinte anos quando soube da histérica demanda sobre se naquele pedaço de porta de madeira em que Jack, sacrificando-se, salvou a vida de Rose, cabiam ou não cabiam os dois amantes, estudos científicos e tudo, como se o guião de Cameron fosse sobre uma aula de física. Desta vez, há os escândalos de uma Helena de Troia negra e uns cachorrinhos atirados por um penhasco. No total, Lupita Nyong'o deve aparecer uns cinco minutos no filme, e a produção veio confirmar o bem-estar e a integridade física dos bichos, que não, que nenhum cão foi magoado. Não sei se alguém achou que um ciclope numa caverna tinha realmente comido quatro ou cinco homens do elenco. Não admira que se conjuguem discussões bizantinas sobre quem, afinal, anda a gozar com o autismo, se a Joana se a Mafalda. Já para entrar no debate sobre a corrupção orquestrada por Nolan, faltam-me competências. Li o poema de Homero há anos, e as minhas memórias vão sendo adulteradas por todas as produções que precederam esta. Vi, gostei, talvez tenha demorado demasiado, sobretudo porque há sempre aquela sequência interminável de anúncios-estreias-anúncios antes do filme propriamente dito, mas gostei. Sobre ser tudo aquilo também uma lição sobre bem tratar o estrangeiro e, com isso, proteger uma civilização, lamento, mas, estrangeiros ou não, os maus continuam a morrer no fim. Quatro lugares à minha esquerda uma mulher jovem esbracejava a sua indignação porque faltou não-sei-quê, que era o que fazia d’A Odisseia A Odisseia, e mais um tanto de coisas que não percebi. O homem que a acompanhava acenava e encolhia-se, mas podia muito bem ser apenas para nos facilitar a saída. 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Crocodilos do Nilo

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, quer crocodilos do Nilo a patrulhar uns fossos escavados numa prisão de alta segurança do país, onde estão alguns dos palestinianos presos na sequência do infame 7 de Outubro. A proposta, dizem, foi aceite pelos serviços prisionais e aprovada no parlamento. Valeram aos prisioneiros, perdão, aos crocodilos, as organizações ambientalistas e pelos direitos dos bichos, e a Let the Animals Live – todos os animais são iguais, mas uns são mais animais do que outros – conseguiu que o Tribunal Distrital de Jerusalém bloqueasse, para já, o plano de Ben-Gvir, a bem dos crocodilos e dos funcionários da prisão. Prisioneiros em fuga devorados por mandíbulas pré-históricas não constam, que se saiba, das preocupações cautelares. 

Há tempos, uma conversa sobre a desumanidade de salvar um cão em vez de um homem provocou uma enorme comoção. Depende da pessoa, depende do cão, esse era o escândalo, possivelmente um crime. Confesso em voz alta que se, por absurdo, tivesse de escolher entre salvar o meu cão ou um Donald Trump (já agora, um Ben-Gvir), preferiria o meu cão; o meu filho, quem, aparentemente, não eduquei com devida sensatez, diz que até podia ser um cão qualquer. Ninguém tinha ainda posto a hipótese de salvar crocodilos e, com isso, salvar uns homens.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Mama Mia...

Apanhei o filme a meio, o segundo, no caso, e já não consegui arrancar-me dali. O que é que os ABBA têm? Há uma engenharia perfeita naquilo. Impossível.




Graça Morais

 "Como se prepara uma perdiz?

Como se cozinha? Para pintar é muito simples. Quando os meus irmãos me traziam as perdizes, pegava nelas e punha-as em cima da minha mesa de trabalho. Às vezes estava a olhar imenso tempo, antes de começar a ter coragem de pintar a perdiz. Nunca cozinhei nenhuma. No tempo que estou a observar a perdiz, crio um afeto e sou incapaz de a comer. Acho-a bonita demais. Ultrapassa a dimensão da forma para se transformar num símbolo do martírio, do sacrifício das mulheres.

(...)

O que há de especial num olival?

Depende das horas do dia. De manhã, um olival tem uma luz muito bonita. As folhas são verdes de um lado e prateadas do outro, ganham uma cor muito especial. Como hei de dizer? Quase sagrada. Um olival antigo, não estou a falar dessas oliveiras raquíticas que dão muito dinheiro, mas que eu detesto. As oliveiras centenárias, além de terem um corpo em que apetece mexer, a gente sente que é quase o corpo de uma pessoa. Sobretudo de uma mulher. Ao escurecer, há uma dimensão muito triste, que tem a ver com a nossa tristeza. O olival é o lugar onde tenho sentimentos mais extremos, mais intensos. De paz, mas ao mesmo tempo de uma tristeza imensa.

(...)

Falta-lhe pintar muito?

Ai, oxalá ainda consiga pintar muito. Ainda queria ver se fazia muita coisa. Gosto muito das exposições, mas a partir de certa altura começo a querer é pintar. Já estou a ferver, com outras ideias."

EXPRESSO




segunda-feira, 3 de agosto de 2026



Antecâmara

Das varandas brancas descendo em cascata sobre a falésia avista-se a costa espanhola. A proximidade é hipnótica, quase ofensiva. Espanha está mesmo ali, a uma distância ridícula, proibida pelo acaso. 

Nos dias quentes de Verão, as árvores emprestam sombra, confortam, embalam a espera. Há uma sala interior que entrevejo, com cobiça, sempre que subo e desço os degraus escarpados, uma sala atapetada, de janelas amplas e abertas para o Estreito, onde os homens se deitam e se ausentam, entre baforadas de kif; não se vê um móvel, apenas cachimbos de água em coloridos berrantes, alguns espalhados, aguardando vez. O Café Hafa é um desses lugares onde a crueldade se instala devagar, fermenta, corrói. Para quem chega, é fácil entregar-se à beleza, apenas. A imensidão dos mares que se namoram e atormentam lá em baixo. Beber do hálito bruto a maresia. Assim se embriagaram escritores, poetas, músicos, expatriados privilegiados como eu. Para quem ali nasce, a geografia é uma emboscada. Lembro-me dos rapazes sentados horas a fio, ruminando o estupor. O desespero visceral. Alguns enchem-se de coragem e fogem, muitas vezes a nado, mas nada como se viu há dias, brotando às centenas das águas de Ceuta. Não há lei que os impeça de partir, antes ou agora, e não terá sido uma lei, uma decisão judicial, a empurrá-los para a fuga, em manada, no espaço de poucas horas. Mensagens sincronizadas, em massa nas redes sociais, a “informar” de fronteiras abertas, teriam tido outro desfecho com outros Governos, noutros locais? Não sei. Há quem instrumentalize a miséria dos outros em proveito próprio, por vingança ou por agenda, e para quem marroquinos, espanhóis de Ceuta ou de Melilla contam pouco. Morreram dezenas de pessoas. Em poucas horas, entraram em Ceuta quase tantos estrangeiros quantos os habitantes. É espantoso que não tenha havido confrontos graves, mais mortos, maiores tumultos. É espantoso que quase todos tenham já regressado ao seu país. Muitos voltarão a tentar, com toda a certeza. Noutro tempo, noutra oportunidade. Nenhuma lei pode revogar a esperança ali à mão, do lado certo do mar.  

Para quem visita, certos lugares não passam de "imperdíveis" exóticos, para fotografar e arquivar. Eu também o faço. Mas outros lugares são incorruptíveis como a ilusão de qualquer coisa que se assemelhe a um futuro. Não há uma maneira fácil de resolver isto...