– Hamnet está nos
cinemas…ouviste? O Hamnet de Maggie O’Farrel está nos cinemas, devíamos já ter
aqui o livro, porque as pessoas vão começar a pedir. E o Monte dos Vendavais.
Ouviste? Puseram a Catherine de olhos azuis e o Heathcliff é branco. Imagina.
Uma relação tóxica, e transformaram aquilo numa grande história de amor.
Tudo
isto vai disparando contra a colega, os ouviste carregados num crescendo
de indignação, e a outra encolhendo os ombros, enquanto eu deambulo entre as
estantes à procura d’O Tango de Satanás. Já decidi: vou ver Hamnet daí a
umas horas. O Monte dos Vendavais ainda não sei. O livro de Brontë é um dos que mantenho a curta distância, à cabeceira da cama, mas, de repente, não recordo a cor dos
olhos de Catherine. É importante? Jacob Elordi é assim tão branco? Ou é o talentoso
Owen Cooper, na pele do jovem Heathcliff? Preciso de lá voltar, à brutalidade
crua de Emily Brontë. Não adorei Saltburn de Emerald Fennell, mas, de
momento, posso ser facilmente subornada pelo erotismo medíocre de uma história
de amor plastificada. Ouvi descrevê-lo assim. Ao filme. O romance de Emily Brontë é incorruptível. Se ao menos todas as relações tóxicas se esvaziassem
nas páginas da ficção, vampirizadas apenas pela liberdade aleatória dos roteiristas.
Não sou capaz de começar sequer a compreender o submundo sinistro de Jeffrey Epstein. “Escravatura sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado,
tortura, tratos desumanos e degradantes, e feminicídio”? Como se constrói e como
se mantém tal rede de contactos e intimidade, daquela dimensão, hedionda,
obscenamente impune durante tanto tempo, mesmo depois de denúncias sólidas e
documentadas? O poder e o dinheiro, o dinheiro e o poder, o ovo ou a galinha,
tanto poder, tantíssimo dinheiro, tanta gente – se não todos patologicamente
depravados –, tanta gente disposta a fingir que não vê, porque ver e deixar
saber que se vê obriga a tomar uma atitude, e uma atitude arrasta consequências,
renúncia, o pesadíssimo ónus de bater com a porta. A cumplicidade pelo silêncio
é sedutora, e o mundo está cheio de gente disposta a não ouvir, a não ver. Epstein foi um
competentíssimo arquitecto dessa geometria degradante, entre a chantagem e o
interesse, mas jamais o conseguiria sem aquela constelação grotesca de
silêncios e obediência deslumbrada. Se
nos sentirmos inatingíves, impunes, ebriamente permeáveis a tudo o que o dinheiro
pode comprar, até onde estaremos dispostos a ir? A depravação extrema pode
tornar-se aditiva. É assim desde o ventre da civilização. Sem
consequências, a culpa, o medo, a repulsa, diluem-se, tornam-se administráveis.
A virtude nasce do hábito, e a desvirtude também, se contar com a permissão de
muitos e a demissão de outros. A rede de Epstein, os homens de Pelicot. É
doentio. Monsieur Pelicot. Acreditar cegamente no companheiro de uma vida, porque
racionalizar o que a própria Gisèle Pelicot sentia estar errado era demasiado. Dez anos drogada e abusada por mais de cinquenta homens com o marido como anfitrião da devassa. É admirável a sua coragem, tornar público o julgamento, a
serenidade com que narra o seu horror. Encarar e apontar, um-a-um, os seus algozes. A vergonha
tem mesmo de mudar de lado.
Os
tangos de satanás não deviam sair do papel.