quinta-feira, 30 de julho de 2026

Gosto de morar junto ao mar. Em noites de lua cheia, a Lua paira como um lustre rico e posso sentar-me à varanda e ver como o luar se derrama sobre a água quieta. Uma criatura adormecida sob a gravidade implacável de uma força muda e primordial. A água responde a essa tracção bruta, entre o abandono e a fúria. 

Há um erotismo acerado no inalcançável. Na impossibilidade. Não há quem não saiba. 

Não tocar. 

Não escrever. Permanecer nas margens da palavra, como a água contida do meu mar em pousio.

Não contar.

Não amar. Não deixar de amar. Ficar nesse lugar inteiro, intacto.

A luz que não pertence inteiramente ao lugar onde se deita, mesmo quando nele se demora. Toda a luz procura uma forma de fuga. Como a distância, que não separa, mas preserva. Há uma intimidade, uma cumplicidade, que sobrevive apenas na ausência e na recusa, no gesto por cumprir. Pressentir o corpo antes da pele, o nome antes da voz. Decantar o silêncio. 

Talvez o erotismo não seja mais do que uma inteligência da separação. 

O Mar e a Lua não se encontram, não se extinguem.


Um prestigiado director da PJ

Luís Neves era alguém cuja imagem pública assentava na exigência ética na investigação e combate à corrupção, ao crime económico-financeiro, ao tráfico de droga e ao terrorismo. O próprio fez questão de o lembrar. As explicações que apresentou naquela conferência de imprensa são incompatíveis com essa imagem. O caso do atrelado é o exemplo mais alarmante. Um bem apreendido numa operação antidroga, com produtos químicos potencialmente perigosos, exige regras e cuidados que vão muito além das questões de tesouraria – chamar-lhe um "acto de extraordinária gestão" é uma tentativa arrogante, no mínimo, de desviar a atenção da gravidade daquela decisão. Mesmo sem benefício pessoal provado – vamos acreditar que João Carvalho teve um acto de extraordinária caridade –, o que está também em causa é a quebra de um padrão de procedimentos que o próprio cargo exigia que se mantivesse. Inacreditável, tudo isto.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Esopo para Canalha

Era uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se, pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok, mas a televisão continua a ser a televisão.

Um dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido – mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados; inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram desmentidos.

Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade. Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém desse o devido crédito ao alegado assalto?

E, assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.


terça-feira, 28 de julho de 2026





O teatro é assim. O espectáculo pode ser fabuloso numa noite e apenas competente noutra. Até a disposição do público, quase no duplo sentido, pode afectar a experiência. A linguagem arcaizante e densa é outro desafio, para actores e para espectadores. Rei Lear é particularmente exigente também nesse aspecto. Fui ver a peça ao Casino de Lisboa, na tradução a que Álvaro Cunhal se dedicou enquanto esteve preso. Foram cerca de três horas de espectáculo, e é preciso, sem dúvida, um certo aquecimento, de voz e de ouvido, até a aspereza da palavra por lavrar ceder lugar a uma corrente musical. Adriano Luz dá corpo e alma a um Lear trágico e louco, às vezes cómico, Cláudio da Silva como o bobo, e de bobo nada, as falas, a postura, o silêncio que encarnava como outra presença, observando e conspirando com a plateia; os dois, só por si, já teriam valido a pena, se não houvesse mais, mas houve. Até as mudanças de cenário, mínimas e coreografadas, musicadas, acção e não interrupção. Foi bom.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ontem à noite, a RTP1 passou o concerto que os Trovante deram na Meo Arena, no passado Março. Estive para ir e não fui. Este ano tenho tentado e aproveitado, muito, concertos, teatro, orquestra, mas Março foi um mês difícil e, já não sei porquê, deixei passar. Tinha tempo. Não sabia que o Luís não tinha. Não sabia nada da doença, mas, agora, vendo-o ali, percebe-se a fragilidade; até na voz. Ainda assim, parece impossível; estávamos em Março, passaram quatro meses.

Foi bom, o concerto. É quase inócuo na televisão, mas a alegria em palco era visível, vibrante. Viver tudo numa noite já seria a metáfora perfeita para o reencontro; de repente, é como se o verso ganhasse a espessura crua, intimamente lúcida da despedida.



quarta-feira, 22 de julho de 2026

Luís Represas

 Para Ti, Mãe, Para Ti, Pai



Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praias
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias

Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram menina das sete saias

Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijai-as
Sete mortes evitaram menina das sete saias

Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras montaram menina das sete saias

Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias aos sete encomendaram
Menina das sete saias

Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e sete deixaram
Menina das sete saias

Sete danças que bailaram
Sete vezes que desmaias
Sete luas te ansiaram menina das sete saias

Sete vezes se encantaram
No bosque das sete faias
Sete sonhos desfolharam
Menina das sete saias


terça-feira, 21 de julho de 2026

Descaminho

Há uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.

É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós." 

O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu. 

Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade. 

Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer. 

O meu descaminho é de outra natureza.



A propósito, diz a minha irmã que devíamos estar à janela, a bater palmas aos professores, aos directores das escolas e aos funcionários, e eu acho que tem razão.

sábado, 18 de julho de 2026

 

O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre

O ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo. A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia, a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?

Sobre as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar, talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo, onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada corresponde integralmente à prova que entregou.

Já de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas

Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero. 

O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso, a incompetência gritante com que foi implementado.

Não sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.