A
História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência
dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma
imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro,
era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para
acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em
honra do senhor.
Não
se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o
descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe
um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está
aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si,
cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais
civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de
mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um
pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa,
inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem
nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade,
entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de
Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o
gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte
inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto
a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do
mandato…
Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto –garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.
Por
falar em outros.
A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar
atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados
de Meloni?
O
Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires,
porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e
abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas
políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos
EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de
dentes.
Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.