O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143,
porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido
que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como
os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se
bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que
professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a
Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina
um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela
força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar
para se defender.
Todas
as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame
para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o
detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por
descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a
hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump
inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que
finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe
confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência,
pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os
ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA
vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda
que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão)
selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Office, liturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos,
aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança
reside nos últimos….
Não
se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição
severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir
para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse
inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o
mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos
iguais aos bárbaros que desprezamos.