quarta-feira, 18 de março de 2026


Em vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram (não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.

A administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes, ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar. 



Mesmo sob as ruínas existem lugares para habitar. Fragmentos de esperança que sobrevivem à dissolução. Podem ser palavras; a palavra encontra sempre um caminho.


domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026


Não há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença: a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível. Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome. Céus, as saudades que eu tenho de ti…


quarta-feira, 11 de março de 2026




Pequenos campos de batalha, as palavras
ama-se. sangra-se, morre-se.



Eu, que sou totalmente incapaz de seguir uma coreografia, por mais simples, acho isto extraordinário...



terça-feira, 10 de março de 2026

Nem todas as vidas importam

O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143, porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar para se defender.

Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Officeliturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….

Não se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos iguais aos bárbaros que desprezamos.

 

Presidenciáveis?

“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.


segunda-feira, 9 de março de 2026


E este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono, imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.


quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes

 

Morreu outro dos meus.

Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.