Não
há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a
chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença:
a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao
espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do
corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível.
Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da
minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos
arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o
ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome.
Céus, as saudades que eu tenho de ti…
outradecoisanenhuma
sexta-feira, 13 de março de 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Nem todas as vidas importam
O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143,
porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido
que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como
os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se
bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que
professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a
Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina
um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela
força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar
para se defender.
Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Office, liturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….
Não
se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição
severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir
para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse
inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o
mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos
iguais aos bárbaros que desprezamos.
Presidenciáveis?
“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.
segunda-feira, 9 de março de 2026
E
este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas
de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões
dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de
séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o
odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono,
imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu
pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.
quinta-feira, 5 de março de 2026
António Lobo Antunes
Morreu outro dos meus.
Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.
terça-feira, 3 de março de 2026
“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim
esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha
atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há
rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho,
com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se
esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar
sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as
ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e
cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas
enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco
empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido,
angustioso, rasga o horizonte.”
Páscoa Feliz
José Rodrigues Miguéis
Também
sou dessas; citações e etc.
Ontem
também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas
ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.
segunda-feira, 2 de março de 2026
É mesmo aberrante...
O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...
“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”
domingo, 1 de março de 2026
Outro Monte dos Vendavais
Emerald
Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação
entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os
cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo,
cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX,
que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está
lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.
Um
livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os
realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros
saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel.
Não é.
Há
um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de
Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e,
francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot
Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez
seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja
essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido.
Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do
romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa
transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).
Depois,
parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é
bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e
ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me
desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da
comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder
nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.
Não
interessa nada.
Há
um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de
brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.