segunda-feira, 2 de março de 2026

É mesmo aberrante...

O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...


“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”


domingo, 1 de março de 2026

Outro Monte dos Vendavais

Emerald Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo, cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX, que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.

Um livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel. Não é.

Há um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e, francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido. Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).

Depois, parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.

Não interessa nada.

Há um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Gostar de, Gostar do/a – ou, a arte é maior se criada por patifes, infelizes e afins?

Esbarrei num texto insolente. No substack, essa outra plataforma que desconhecia em absoluto até pouco antes da morte anunciada do SapoBlogs – e onde, pelo sim, pelo não, decidi criar uma cópia o mais fiel possível desta página, não vá o diabo do economês tecê-las e a blogspot decretar a expulsão compulsiva destas crónicas de coisa nenhuma. 

Um parêntesis para dizer que, pese embora eu ter exterminado sem grandes arrependimentos o meu primeiro blog, alojado na Sapo, precisamente, parece-me bárbaro que se apaguem, literalmente, vinte e não sei quantos anos de escritos, sejam válidos ou menos válidos. Por outro lado, encetar esforços, financeiros e outros, para deixar em arquivo páginas inteiras de irrelevâncias, na base em o que importa é ler e escrever não importa o quê, também me parece inglório. Que interesse teria, para a posteridade, guardar ad aeternum o que vai por estas páginas, por exemplo e por arrasto com boa literatura, fios de pensamento interessado e interessante, gente com uma visão aguda e insaciada do mundo e do outro, rastros de intelectualidade genuína, como ouço por aí dizer e bem? Nenhum.

O texto que encontrei orbita colericamente esta tensão; um bardamerda – cheio de F´s e C´s pronunciadíssimos – para os intelectuais de estufa, citadores oficiais de eloquências conhecidas e várias, a cultivada improfundidade que é não ler grandes clássicos, por mais penoso. Leitura estética versus leitura viva (serão mutuamente exclusivas?). As grandes obras nascem da dor, da angústia, da obsessão, da miserabilidade de ser humano. Também me parece. O ódio, o rancor, a inveja, também são fontes legítimas. Sangrar, não embelezar. É maior a arte que nasce do feio? E, depois, deixamos o génio compensar o carácter? A pergunta é recorrente e talvez nem faça sentido assim.  Dali era um intratável e eu adoro a obra que criou. Picasso tratava as mulheres como descartáveis, era manipulador, cruel, emocionalmente abusivo. Caravaggio matou um homem. Sylvia Plath era intensamente auto-destrutiva; Patricia Highsmith, odiosamente antissemita, tal como Wagner, descaradamente. Tolstói pregava a fraternidade universal e esgotava a mulher Sofia em silêncios e desmandos. Simone de Beauvoir escreveu sobre opressão, autonomia, condição feminina, enquanto explorava a vulnerabilidade de mulheres mais jovens. Tragédia íntima, violência concreta, nem todo o feio é da mesma ordem. Podemos gostar de e não gostar do, não gostar da. Há um conflito demasiadas vezes.

Divago um pouco. O que li é mais sobre quem consome e menos sobre quem cria; mais sobre a distinção entre o sentir e o fingir.

Os patifes mortos são mais fáceis de suportar.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Lembro-me de ser miúda e deslumbrada com a patinagem artística. Ficava maravilhada com aquela dança sobre gelo, tão ágil, aparentemente tão fácil, e sofria horrores quando via cair alguém; doía-me na alma de menina. Sobretudo, achava espantoso que, depois de tanto rodopiar, fossem capazes de manter o mínimo de equilíbrio, quanto mais seguir inteiros, deslizando elegantemente sobre o gelo. Às vezes tentava eu, rodopiar no chão da sala, e acabava enjoadíssima. Momento angular para totós.

O meu filho chama-me para ver o par Miura-Kihara. Quero saber se já acabaram. Continua a custar-me vê-los cair…

– És tão estranha, mamã…

Não sou?




Brava Ucrânia


Wolfgang Schwan/AgênciaAnadolu | Getty Images

Também me espanta a resistência ucraniana. Quatro anos de violação continuada e bruta suportados com uma coragem que roça a loucura. Vladimir Putin enganou-se nos cálculos, subestimou o Presidente Zelensky. Quatro anos e milhares de mortos depois, a “operação militar especial” traduz-se numa carnificina que rendeu quanto de território ucraniano à Rússia? É inacreditável.

A Rússia não está a ganhar, mas não sei se está a perder. Quanto tempo mais vão os ucranianos resistir? São bravos, mas parece impossível Putin recuar. É-lhe indiferente quantos mais recrutas enviará para a morte  russos, norte-coreanos, quenianos , apostou a sua sobrevivência política e fez-se refém da sua própria infâmia. 

Brava Ucrânia.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Águas Passadas não Movem Moinhos

"– E porquê Génova?

– Tem gente espantosa nas ruas. À noitinha, quando saímos do hotel, é um mar de gente. E deixamo-nos ir, conduzidos ao sabor da multidão, sem objectivo, aos ziguezagues, numa direcção, na outra, sentindo que a nossa vida está ligada àquela massa de gente, fundida nessa massa psicologicamente. Começamos a acreditar que é possível uma alma única do mundo, muito semelhante àquela que a Nina Zarechnaya interpretou na sua peça, Konstantin Gravilovich. A propósito, onde está agora a Zarechnaya? O que será feito dela?"

 

E enquanto Konstantin vai narrando as desgraças de Nina – o filho que morreu, o desamor de Trigorin e o fracasso da sua carreira como actriz –, as duas velhotas ao meu lado direito vão conjurando espantos, um ahhhh… de cada vez. Já antes tinham reprovado o beijo prolongado de Trigorin a Nina (ou seria o de Ivo Canelas a Rita Rocha Silva?), um ahh bastante mais austero. Uma delícia.

Recuo no tempo, por momentos. Mulheres nos seus vestidos de cauda, homens de fraque, o exagero do teatro, o escândalo, a sobriedade, não sei se muito longe desta, competente, sim, mas muito longe do brilhantismo anunciado. Sempre aplaudido de pé, isso sim, tudo hoje se aplaude de pé, santo deus, que gente tão fácil de deslumbrar. Ou serei eu, um pouco deslocada. Devia deixar-me ir, como a multidão na Génova de Tchékhov. O meu mais recente aplauso de pé foi para os JaFumega, no CCB. Quarenta e cinco anos de carreira, e o meu pai viu nascer parte daquele projecto. Merecia. Toca a banda no coreto, que vontade de dançar. Vou sair e comer um duchesse. Porque posso.




O título disto é um acaso. Acabo de ouvi-lo a um desses vagabundos de rua que se juntam à entrada do mini-mercado onde passo todos os dias. Não a ouvia há imenso tempo, uma maravilha de expressão. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


Sabes-me a pecado capital, leito de lua em quarto crescente, seda, renda, madrepérola, lamento de corpo presente, prelúdio de Outono dourado, ancorado no meu ombro nu.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tangos de Satanás

 – Hamnet está nos cinemas…ouviste? O Hamnet de Maggie O’Farrel está nos cinemas, devíamos já ter aqui o livro, porque as pessoas vão começar a pedir. E o Monte dos Vendavais. Ouviste? Puseram a Catherine de olhos azuis e o Heathcliff é branco. Imagina. Uma relação tóxica, e transformaram aquilo numa grande história de amor.

Tudo isto vai disparando contra a colega, os ouviste carregados num crescendo de indignação, e a outra encolhendo os ombros, enquanto eu deambulo entre as estantes à procura d’O Tango de Satanás. Já decidi: vou ver Hamnet daí a umas horas. O Monte dos Vendavais ainda não sei. O livro de Brontë é um dos que mantenho a curta distância, à cabeceira da cama, mas, de repente, não recordo a cor dos olhos de Catherine. É importante? Jacob Elordi é assim tão branco? Ou é o talentoso Owen Cooper, na pele do jovem Heathcliff? Preciso de lá voltar, à brutalidade crua de Emily Brontë. Não adorei Saltburn de Emerald Fennell, mas, de momento, posso ser facilmente subornada pelo erotismo medíocre de uma história de amor plastificada. Ouvi descrevê-lo assim. Ao filme. O romance de Emily Brontë é incorruptível. Se ao menos todas as relações tóxicas se esvaziassem nas páginas da ficção, vampirizadas apenas pela liberdade aleatória dos roteiristas. Não sou capaz de começar sequer a compreender o submundo sinistro de Jeffrey Epstein. “Escravatura sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratos desumanos e degradantes, e feminicídio”? Como se constrói e como se mantém tal rede de contactos e intimidade, daquela dimensão, hedionda, obscenamente impune durante tanto tempo, mesmo depois de denúncias sólidas e documentadas? O poder e o dinheiro, o dinheiro e o poder, o ovo ou a galinha, tanto poder, tantíssimo dinheiro, tanta gente – se não todos patologicamente depravados –, tanta gente disposta a fingir que não vê, porque ver e deixar saber que se vê obriga a tomar uma atitude, e uma atitude arrasta consequências, renúncia, o pesadíssimo ónus de bater com a porta. A cumplicidade pelo silêncio é sedutora, e o mundo está cheio de gente disposta a não ouvir, a não ver. Epstein foi um competentíssimo arquitecto dessa geometria degradante, entre a chantagem e o interesse, mas jamais o conseguiria sem aquela constelação grotesca de silêncios e obediência deslumbrada.  Se nos sentirmos inatingíves, impunes, ebriamente permeáveis a tudo o que o dinheiro pode comprar, até onde estaremos dispostos a ir? A depravação extrema pode tornar-se aditiva. É assim desde o ventre da civilização. Sem consequências, a culpa, o medo, a repulsa, diluem-se, tornam-se administráveis. A virtude nasce do hábito, e a desvirtude também, se contar com a permissão de muitos e a demissão de outros. A rede de Epstein, os homens de Pelicot. É doentio. Monsieur Pelicot. Acreditar cegamente no companheiro de uma vida, porque racionalizar o que a própria Gisèle Pelicot sentia estar errado era demasiado. Dez anos drogada e abusada por mais de cinquenta homens com o marido como anfitrião da devassa. É admirável a sua coragem, tornar público o julgamento, a serenidade com que narra o seu horror. Encarar e apontar, um-a-um, os seus algozes. A vergonha tem mesmo de mudar de lado.

Os tangos de satanás não deviam sair do papel.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Rio Atmosférico

 

É quase poético, mas já chegava. Mesmo para quem gosta da chuva, como eu.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Xeque-Mate

László Polgár teve três filhas. Convencido de que o génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração, resolveu educá-las em casa e fazer delas exímias jogadoras de xadrez. Poderia ter escolhido outra coisa qualquer, mas a família era muito pobre e um tabuleiro de xadrez era tangível e barato. Chamaram-no pai tirano. Desde muito pequenas e durante várias horas por dia, Susana, Sofia e Judit estudaram as regras, as tácticas; competiram, ganharam e desafiaram estereótipos. Judit era a do 1%. Tornou-se, entre homens e mulheres, a mais jovem grã-mestre internacional, batendo Bobby Fischer, que achava as mulheres, todas as mulheres, pouco inteligentes para o jogo de xadrez; sobreviveu à batota infame de Garry Kasparov em Linares, acabando por vencê-lo 14 jogos depois desse, em 2002. Kasparov também participa no documentário da Netflix, finalmente rendido à mestria de Judit – “ela provou que uma jogadora feminina pode ser uma concorrente de topo” –, que vai narrando a sua história com uma alegria serena e contagiante. Apenas no final do documentário, Judit Polgár surge um pouco perturbada ao tentar racionalizar sobre a experiência de que foi objecto, juntamente com as irmãs, por parte do pai, empenhado em criar três génios, quase por acaso, do xadrez.

Vi tudo isto, para entreter a espera, antes dos resultados eleitorais, em que António José Seguro, longe de ser um génio, foi capaz de um retumbante xeque-mate. Escolhi-o conscientemente e desejo-lhe sorte. Precisamos de um pouco de paz no discurso político. André Ventura e o seu séquito de apóstolos histéricos, alimentado ad nauseam por uma comunicação social medíocre, continuará incansável na sua senda viciosa, mas, de momento, terá de engolir a soberba. Quanto à novidade de Cotrim Figueiredo comentador, não é novidade nenhuma: é ouvir com atenção a sua entrevista à SIC Notícias, quando lá foi apresentar o tal movimento 2031:  imagina-se a fazer o quê, comentador televisivo, como Luís Marques Mendes?; – não, a menos que me estejam a oferecer o spot de Domingo à noite, que ficou livre… Não sei se o comentário será aos Domingos, mas era só fazer contas. Pelos dedos.