quarta-feira, 31 de março de 2021

Ontem à noite fiquei a ouvir o concerto dos Dire Straits em Estrasburgo, em 2019. Eu sei que os Dire Straits já não são os Dire Straits, mas 2019 também não parece ter sido há um ano. Além disso, o texto é meu. Mark Knopfler será sempre Mark Knopfler. Mesmo sem o ar esgadelhado de tenista no final do treino e o desassombro dos anos 80, continua um monstro. Por duas ou três vezes, precisei de fazer um esforço enorme para me manter inteira. Há músicas que habitam a minha pele; assaltam-me quando menos espero. É preciso estar alerta. Os homens não choram e as mulheres menos ainda, se quiserem ser levadas a sério; toda a gente sabe, mesmo que não pratique. O choro só se tolera a solo, para não despertar pena. Antes o ódio. A não ser que se chore de alegria partilhada.

Há uns anos, numa daquelas conversas parvas entre gente que se quer muito, perguntaram-me aquela coisa trivial e pateta em conversas do género: se houvesse uma calamidade (ah!, ah!, ah!; mas era uma calamidade a fingir, daquelas que jamais nos beliscaria) e ficasses totalmente sozinha, sobreviverias sem música ou sem livros? Respondi uma heresia – mas era a fingir, não esquecer, e a segunda opção era um outro pecado mortal: sobreviveria sem música, mas nunca sem livros. Música, posso trautear algumas. Não é bem (nada!) a mesma coisa, mas aguentava-me. “Estar-se sem livros é já ter morrido.”

Claro que a poesia (também) se faz de música. Ou a música de poesia, tanto faz. Tão bom. Como se tocasse ali mesmo, o Mark Knopfler, no meio da sala, para um grupo estimado de amigos. Um resgate dos dias que sangram. Do lamaçal asfixiante, nojento, em que se transformou isto a que chamamos actualidade.

O que já é mau pode sempre piorar. Alguém havia de acrescentar isto às leis de Murphy, como (outro) corolário; não é bem a mesma coisa que, se pode correr mal, corre mal de certeza. Ou: se alguém, de repente, lhe prometer um banho de ética, é provável que acabe afogado de intenções. Se em vez de um banho de ética, o desafiarem para um combate de MMA, é provável que seja um juiz com complexos de verdade (ah, se eu tivesse a mínima competência para fazer piadas, o que por aí viria; sendo assim, é melhor não).

Não sei se à ministra sueca Magdalena Andersson lhe sobrará qualquer coisa de paciência para com as singularidades do nosso regime fiscal. Se fosse o caso, adoraria ouvi-la a propósito, por exemplo, do tal negócio das barragens da EDP, que não são da EDP. É que, depois de ter ouvido o Pedro Marques Lopes e de ter lido o João Vieira Pereira, estive quase, quase a esbofetear-me. Por estulta. Que bom que haja gente capaz de nos explicar, pilim por pilim, o que são negócios respeitáveis.

O que se passa em Cabo Delgado é um horror indescritível. Ouvi a história da Aida e da sua filha de um mês, Jacinta, em três breves minutos, de manhã na TSF – que fui ler, depois, no DN – e senti-me minúscula. Não sei onde é que esta gente vai buscar força, coragem, ou essa outra coisa qualquer para que não existe, ainda, uma definição condigna.

 

E, hoje, acordei mais cedo do que o habitual. Ainda era noite quando entrei na sala. Tinha deixado aberta uma das portadas, com a cortina corrida a um canto, e a primeira coisa que vi foi uma lua enorme na minha varanda, magnífica, contra a negritude absoluta do céu. Se esticasse um braço, podia tocar-lhe. 

Por um momento, fiquei paralisada, sem saber bem o que fazer. Corri para a máquina fotográfica, de qualquer maneira, tive preguiça de montar o tripé (mas, quem é pensaria nisto?), não fosse perdê-la de repente. Depois, fiquei sentada lá fora, na cadeira de madeira, a namorá-la lá no alto. Até que o céu se foi acendendo lentamente, e a minha lua dissolveu-se na alvorada.

 


quarta-feira, 24 de março de 2021

Entre o "Interessante" e o "Fascinante", suponho que para não dizer outra coisa.

"Portugal é livre de ter esse regime fiscal. E a Suécia também é livre de rescindir o tratado. [A convenção de 2002] prevê uma taxa de imposto para evitar a dupla tributação, mas o resultado, depois de Portugal ter alterado o seu regime fiscal, é uma não tributação. E isso é inaceitável. De uma perspectiva sueca, é muito interessante [observar] a forma como os cidadãos comuns em Portugal aceitam isto. É fascinante. Se um paciente sueco e um paciente português estiverem lado a lado num hospital [português], o português pagou impostos pelos dois, porque os suecos têm todos os direitos — cuidados de saúde, transportes públicos —, mas não pagam impostos. É fascinante que isto seja aceite pelos cidadãos portugueses."

Magdalena Andersson, Ministra das Finanças da Suécia


Shuuuush...

(close your eyes)

 


terça-feira, 23 de março de 2021

 



EDP: novos capítulos de uma novela antiga. Portuguesa, com certeza.

Hoje é dia de novos episódios na novela habitual: a tal dos tais negócios-que-se-fossem-feitos-por-nós-eram-ilegais-mas-feitos-por-grandes-empresas, blá, blá, blá, não me lembro do resto, mas percebe-se o essencial. E o essencial é que Portugal é um paraíso fiscal para quem os tenha no sítio. Aos amigos. Quem diz amigos, diz advogados. Daqueles que conhecem a lei à letra. Da letra à vírgula e da vírgula a todos os expedientes legais que garantam que, em caso de dúvida – e de dívida – o Estado saia sempre a perder. Sempre. Depois, é só encher comissões de inquérito, audições e mais uma série de teatros a fingir o normal funcionamento das instituições – que não guardo memória, que não tinha que saber, que tenho dificuldade em dar esses números, que abonos de família há muitos e a EDP está como um desses para o Estado, que coincidências também e o diabo em todas. Voilà em vez de jamais.

Para coisas mais sérias, leia-se, por exemplo, aqui. E aqui.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Odeio que me deixem no pára-brisas aqueles papelinhos, Sr Fulano compra carros usados, de todas as marcas, de todos os anos, paga em dinheiro, e mais umas quantas ameaças do género. Às vezes, deixo-os ficar durante dois ou três dias. Enquanto está aquele não pousa lá outro. Mas depois enervo-me. Além do ar desfigurado, não posso usar o limpa-vidros. Ou aquela porra (escrevi porra?) fica toda colada, pegajosa, numa papa nojenta que me desgraço a tentar remover com receio de estraçalhar uma unha – coisa que odeio mais ainda do que os azucrinantes papeluchos como pregadeiras ordinárias –, ou aquilo esvoaça como um desastrado ensaio de vôo num avião de papel, e, aí, é como se eu própria o atirasse ao chão, coisa que jamais faria; não faço. Como se não bastasse, vi um homem com uma daquelas máscaras totalmente transparente. Eu sei da importância; sei mesmo. Da necessidade associada à linguagem gestual, da expressão do rosto, da boca. Mas fica-se com um ar medonho, muito pior do que deixar apenas descobrir-se os olhos. Ou talvez não fosse da máscara, não sei. Não interessa nada, era só por escrever qualquer coisa. Qualquer coisa que me afastasse um pouco do país e do mundo, que me livrasse de pensar demasiado sobre verdadeiras desgraças.

domingo, 21 de março de 2021

Não é poema, mas podia.


Look again at that dot. That's here. That's home. That's us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every "superstar," every "supreme leader," every saint and sinner in the history of our species lived there-on a mote of dust suspended in a sunbeam.

The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot.

Carl Sagan

Gosto mais de ler prosa do que de ler poesia, confesso. Não sei se porque sou incapaz de escrever poesia. Como é que se faz, tudo dizer, tudo fazer caber num pequeno verso, tudo contar numa palavra intoleravelmente precisa, certeira como uma flecha? Há a poesia da música, é verdade, e há poemas que prefiro ouvir musicados, talvez porque tenha ouvido assim da primeira vez. Mas, falava da musicalidade de um poema falado, mesmo que falado em silêncio.

Não sei se é possível aprender a escrever poesia. Há talentos impossíveis de fingir para lá das imprudências que rabiscamos, por exemplo, em cantos insabidos e enxabidos como este.

A poesia é astuta, caprichosa e implacável com os impostores. Não se deixa manipular. E há poemas escritos intencionalmente para nós. Sabem-nos de cor. Cada interstício da nossa alma, todos os tons dos nossos abismos, as esquinas afiadas dos nossos labirintos. Os pecados que já cometemos, os que ainda não ousamos. Os que só descobrimos (e admitimos) por vê-los ali expostos, na crueldade opulenta de uns versos sangrados. E também os nossos espantos, claro. Todos os caminhos maravilhosos em que nos perdemos.

"Estrela perigosa

Rosto ao vento

Barulho e silêncio

leve porcelana

templo submerso

trigo e vinho

tristeza de coisa vivida

árvores já floresceram

o sal trazido pelo vento

conhecimento por encantação

esqueleto de ideias

ora pro nobis

Decompor a luz

mistério de estrelas

paixão pela exactidão

caça aos vagalumes.

Vagalume é como orvalho

Diálogos que disfarçam conflitos por explodir

Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia

nodosas raízes.

Missa negra, feiticeiros.

Na proximidade de fontes,

lagos e cachoeiras

braços e pernas e olhos,

todos mortos se misturam e clamam por vida.

Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: 

excrucitante.

Que medo alegre,

o de te esperar."

Clarice Lispector

sábado, 20 de março de 2021

No silêncio espesso da noite, sobram agora os gemidos das cordas grossas que seguram os barcos no cais improvisado à entrada da praia. Soam como lamentos de almas malditas, num ranger tormentoso embalado pelo baloiçar compassado das carcaças. As luzes amareladas dos candeeiros de rua, ao longe, emprestam ao ar uma luminosidade sépia, bruxuleante como a chama de uma vela. Uma brisa suave arrasta-se sobre a superfície lustrosa da água ondulando-a sob o seu toque, uma massa espelhada de prata subindo e descendo, drapeada a pulsos lentos, lânguidos como desmaios.

Do lado de cá do molhe, o pequeno farol permanece aninhado na sua torre listrada, acendendo o céu, de tempos a tempos, num esgar mudo. Escarlate.

Billy Idol

 


quinta-feira, 18 de março de 2021

 


Sarah Everard

 



 



Um pedaço revigorante de nonsense. O meu corrector ortográfico em português diz-me que “nonsense” se pode escrever, enquanto “corrector”, não. 

Preciso tanto. De uma dose generosa de nonsense. Ando demasiado séria. Fastidiosamente séria. Capaz de me aborrecer à náusea a mim mesma.

Na maioria das vezes, não, não lavo a chávena imediatamente depois de tomar o café. Desconfio que tal como a esmagadora maioria da gente que toma café; inclusive, a gente que o Miguel conhece. Além disso, o meu dia tem vários cafés, abuso desmiolamente de chávenas. Com confinamento e sem confinamento.




domingo, 14 de março de 2021

 

“As for me, I am tormented with an everlasting itch for things remote. I love to sail forbidden seas, and land on barbarous coasts.”

 

Herman Melville, Moby-Dick

segunda-feira, 8 de março de 2021

 



"Saudade é um pouco como fome. 
Só passa quando se come a presença. 
Mas às vezes a saudade é tão profunda 
que a presença é pouco: 
quer-se absorver a outra pessoa toda. 
Essa vontade de um ser o outro 
para uma unificação inteira 
é um dos sentimentos mais urgentes 
que se tem na vida."

Clarice Lispector

 


Ismael Adnan/Picture Alliance/Getty Images




8 de Março

“The true republic: men, their rights and nothing more; women, their rights and nothing less.”

Susan Brownell Anthony

Tão simples, não era?

Uma vantagem do confinamento: hoje ninguém me vai irritar oferecendo-me flores. Não é que eu não goste de receber flores, mas dispenso recebê-las neste dia. Há sempre o perigo de nos esquecermos do resto.

domingo, 7 de março de 2021

“(…) ahora, a los setenta y tantos, la Muerte es mi amiga. No es cierto que sea un esqueleto armado de una guadaña y com olor a podredumbre; es una mujer madura, elegante y amable perfumada a gardénias. Antes andaba rondando en mi vecindad, después en la casa de al lado y ahora está esperando pacientemente en mi jardin. A veces al passar frente a ella nos saludamos y ella me recuerda que debo aprovechar cada día como si fuera de los últimos.”

 

Há muito tempo que não lia nada de Isabel Allende. Li, há poucas semanas, o seu último livro. Na verdade, não chega bem a ser um livro. É uma conversa íntima, de letras gordas e páginas curtas, de pensamento fluido e humor cáustico, desconcertante, desfiando capítulos de uma vida cheia, uma idade generosa e límpida como a água fresca que jorra da fonte. Um recontar. “Sobre o amor impaciente, a vida longa e as bruxas boas”. Sobre generosidade. Sobre ser mulher; sobre a obrigação de se ser feminista. Creio que haverá alturas em que pensamos no "feminismo" como uma coisa um pouco esdrúxula. Principalmente no mundo ocidental. Ou serei só eu que o penso. Às vezes vejo-me perfeitamente como a Paula, a filha já morta de Isabel Allende, suspirando e revirando os olhos ao assunto, quando o assunto ainda lhe parecia uma coisa de somenos. Depois lembro-me, não há muito tempo, de um miúdo com idade para ser meu filho se ter atrevido a tocar-me indevidamente, propositadamente, aproveitando um pequeno momento de confusão. De como a seguir ao choque como uma chicotada (não deve haver uma única mulher no mundo que não a tenha sentido alguma vez), a primeira coisa que me ocorreu pensar foi, precisamente, na forma como estava vestida. É inacreditável como ainda posso, por um breve instante que seja, dar por mim aí. Lembro-me de pensar que até estava decente. Só depois veio o escândalo. E isto sou eu, do alto do meu privilégio de mulher ocidental, educada e culta. Às vezes. Longe, tão longe!, de todas as outras formas de violência aberrante, insuportável, que ainda se exerce sobre milhões de mulheres, sobre milhões de meninas, em todo o mundo. Aqui mesmo, num país onde a violência sobre mulheres, nomeadamente a violência doméstica, ainda se trata com uma boa dose de desmerecimento; quando não se trata pior. Portanto, sim, talvez haja uma certa obrigação de se ser feminista. Pelo menos, enquanto houver meninas vendidas como escravas num qualquer canto do mundo.

Lê-se numa tarde de chuva como a minha, o "Mulheres da Minha Alma". Entre três cafés, no colo de uma manta macia, por detrás da janela voltada para o mar. Aquele trecho lá em cima não é o mais importante do livro. E nem sequer estou próximo dos setenta y tantos. Como se a idade fosse a única distância que nos separa da morte. Mas, se viver inteira até lá, como desejo, quero olhá-la assim. À Morte.

 

Também li “Eva”, de Arturo Pérez-Reverte. Não fiquei fascinada. Um descritivo cheio de lugares-comuns, alguns demasiado previsíveis. Até a minha tão amada cidade de Tânger me pareceu mutilada, mesmo sabendo que a cidade que conheço agora não é a mesma que conheci há vinte anos, e que nenhuma das duas é aquela que se pretende retratada no livro. É bem possível, sim, que tenha sido um problema de idioma. Mas não gostei o suficiente para voltar a lê-lo, agora, em português, como faço às vezes com outros livros. 

Em contrapartida, continuo a adorar ler e reler Clarice Lispector.


Também me falta um café de rua. O resto da não-rotina, da velha, vou tolerando mais ou menos bem. Creio. Dou-me conta de que tenho transformado o tempo dedicado à compra de bens essenciais numa espécie de ritual; e, com isso, vou acumulando edições em papel da National Geographic. Mais do que o velho normal. Hoje trouxe a edição especial sobre Números Notáveis. Mas ainda não li a edição dedicada a Cleópatra; nem a d’ Os Primeiros Faraós; nem aquela outra, dedicada ao ano da nossa peste.

Entretanto, reparei que a Bertrand reabriu. Pelo menos, no meu Centro Comercial. Também me fazem falta as livrarias. Não sei se reabriram as livrarias de rua, não tenho andado muito na rua. Ainda assim, apercebo-me, não só do cansaço, mas do menosprezo. O desconfinamento está em curso, queiram ou não queiram António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. 

E, se não for pedir muito, deixem Os Maias em paz

sexta-feira, 5 de março de 2021

 



"Se eu me demorar demais olhando "Paysage aux Oiseaux Jaunes" nunca mais poderei voltar atrás."

Clarice Lispector

 

Começou tão bem o meu dia. Com duas boas leituras. Curtas e deliciosas. O PÚBLICO faz 31 anos e, como já tinha ameaçado, convidou Sobrinho Simões para director por um dia. Foi a ele, afinal, ao Sobrinho Simões – e não ao António Damásio – a quem ouvi falar de uma sociedade deslassada. Lembrei-me há dias, de repente, quando a memória nos esmurra a despropósito e sem aviso.

 

“Desde logo porque vamos controlar a pandemia com a imunidade, as vacinas e o desenvolvimento dos tratamentos. Palavra de honra. Os verbos-chave são controlar e cuidar (e também curar, mas só às vezes). É um bom ponto de partida. E também é bom perceber que nem a pandemia nem as destrutivas alterações climáticas são desastres naturais. É verdade que a natureza está metida nisto, mas a natureza não tem culpa — os desastres são fruto dos nossos comportamentos e das nossas acções.”

 

“Progrediremos, se apostarmos na educação de todos, antes de mais das crianças e jovens. A educação visa mudar comportamentos e faz-se sobretudo do exemplo, tantas vezes contagioso. Na organização das comunidades humanas, muito mais analógicas do que digitais, tudo é político. Seria um desperdício inaceitável não aprender com a experiência que vivemos este ano.”

 

A outra foi a das favas do Miguel Esteves Cardoso. Acho que cada vez gosto mais de o ler. Passei de não adorar a não perder uma crónica. Creio que veio com a pandemia. Ler qualquer coisa que fosse sobre rabanetes, à margem dos números da pandemia. De todos os números da pandemia.

 

“Este ano as favas estão paradigmáticas. Reparei logo quando coziam que tinham um perfume que apetecia salpicar depois do banho. Mergulhei um dedo na água de cozer e abri as narinas: parecia uma água de colónia, ténue mas teimosa, irmã do aroma da fava tonka.”

 

Tão bom.

 

De resto, continuam a sobrar-me temas e a faltar-me tempo. Mas, ultimamente, também me falta paciência e boa vontade e sobra-me um profundo nojo pela actualidade. Pela nossa, principalmente. Como é que fazemos para sair disto?

Mas gosto imenso de favas. E já comi as flores das curgetes “fritinhas em tempura”. No Momentos, em Évora, nem sei se ainda existe. O meu filho começou logo a torcer o nariz à porta por causa do aviso de que não se servem batatas fritas, e, depois, não falava de outra coisa, as flores de curgete fritinhas em tempura. O Miguel Esteves Cardoso tem razão: são melhores do que as próprias curgetes.



terça-feira, 2 de março de 2021

Passaporte Sanitário

Outra vez: esta coisa do passaporte sanitário causa-me calafrios. Tanto ou mais do que aquela aplicação de que, aparentemente, já ninguém se lembra. Mas, preciso de tempo de que não disponho agora mesmo.

 


segunda-feira, 1 de março de 2021

Uma não questão de cor




Tropecei nesta notícia por acaso, quando o sempre atento Google assume que eu estou à procura de uma coisa de que não estou realmente à procura; mesmo que digam que a culpa é nossa, não é sempre, mas, sim, o título acabou por fazer o resto. 

Na Holanda – a que, agora, chamamos Países Baixos – uma autora e tradutora branca, assim mesmo, branca, foi obrigada a recusar traduzir a obra de Amanda Gorman. Amanda Gorman é aquela magnífica jovem e poetisa negra que, na tomada de posse de Joe Biden, leu o poema da sua autoria “The Hill We Climb”. O momento foi bastante acarinhado, e aplaudido, e o talento de Amanda Gorman bastante elogiado.

E, afinal, qual é o problema com a tradutora holandesa? Aparentemente, nenhum. Com excepção da cor da pele; como parece que também já tinha acontecido com a dobragem da versão portuguesa do filme “Soul”.

Não podemos fingir que vivemos no tal mundo igualitário que John Lennon imaginou, escreveu com a sua amada Yoko Ono, e, depois, cantou e converteu num quase hino à paz. Mas não sei se, à custa de tanto nos balizarmos, histericamente, nessa espécie de paz asseada, fingida – que só não é estéril porque acabará por gerar novos(velhos) monstros , não acabaremos nós a embrionar um mundo pior. A preto e branco. Outra vez. É insuportável.

A notícia revela ainda que Marieke Lucas Rijneveld – a também tradutora que, afinal, não pode ser – se disse chocada com o tumulto que assunto gerou e que entende as pessoas que se sentiram magoadas com a sua escolha. Haja alguém que entenda alguma coisa desta insanidade. Porque é uma insanidade, se, à custa de uma tentativa de discriminação positiva, acabamos a cometer os mesmos erros. 

Acho miserável alguém ser obrigado a desculpar-se por ser negro, como acho miserável alguém ser obrigada a desculpar-se por ser branco. Mesmo sabendo do abismo que pode existir entre as duas realidades no nosso maravilhoso mundo ocidental em suspenso, acho tudo isto bastante obtuso. No mínimo.

Salva-se a elegância de Amanda Gorman recitando o seu poema. Encontrei esta tradução no PÚBLICOExactamente como copiei. Feita por um homem, advogado, branco, aparentemente com idade para ser pai da miúda. Tudo errado, portanto. A Amanda que me perdoe.

“Quando amanhece nós perguntamo-nos:

‘Nesta interminável sombra, onde podemos luz achar?’

‘Esta perda que carregamos, o mar que temos de cruzar’.

Nós afrontámos a barriga da besta,

nós aprendemos que a quietude não é sempre paz.

E que as normas e noções do que é justo

nem sempre são justiça.

E no entanto o amanhecer é nosso num ápice,

de alguma forma conseguimos. De alguma forma resistimos

e vimos uma nação que não está quebrada, mas apenas inacabada.

Nós, os herdeiros de um país e de um tempo

em que uma pequena rapariga Negra descendente de escravos

e criada por uma mãe solteira pode sonhar ser presidente

e logo ver-se a declamar para um.

E, sim, estamos longe de ser polidos, longe de ser impolutos,

e isso não significa que estejamos a procurar formar uma união que seja perfeita.

Nós estamos a procurar erguer uma união com propósito.

Formar um país aberto a todas as culturas,

cores, caracteres e condições humanas.

E assim nós erguemos o olhar não para aquilo que nos separa,

mas para o que está diante de nós. Nós vemos o fosso fechar,

por sabermos que para colocar o nosso futuro em primeiro lugar

temos em primeiro lugar de colocar de lado as nossas diferenças.

Nós abandonamos as armas para darmos as mãos uns aos outros.

Nós não queremos dano para ninguém mas harmonia para todos.

Deixemos o mundo, ao menos, dizer que isto é verdade:

que mesmo quando sofríamos, crescíamos;

que mesmo quando doía, tínhamos esperança;

que mesmo quando nos cansávamos, tentávamos;

que estaremos sempre juntos na vitória,

não por nunca voltarmos a sofrer derrota

mas por nunca voltarmos a semear divisão.

As escrituras dizem-nos para imaginarmos que ‘todos se sentem debaixo da sua própria vinha e figueira e que ninguém os faça recear.’

Se quisermos estar à altura do nosso tempo,

a vitória não estará na lâmina da destruição

mas em todas as pontes em construção.

Esta é a prometida clareira,

a colina que nós subimos se isso ousarmos,

porque  ser Americano

é mais do que um orgulho que herdamos –

é o passado em que mergulhamos e a forma como o reparamos.

Nós vimos uma força que fragmentaria a nossa nação

em vez de a partilhar,

que destruiria o nosso país se adiasse a democracia.

E quase conseguiram.

Mas se a democracia pode às vezes ser adiada,

não pode nunca ser permanentemente derrotada.

Confiamos nesta verdade, nesta fé

porque quando pomos os olhos no futuro

o futuro põe os olhos em nós.

Esta é a era da justa redenção.

Receámos no início.

Não nos sentíamos preparados para ser os herdeiros de tão aterradora hora

mas no seu seio descobrimos o poder

de escrever um novo capítulo, de nos oferecermos confiança e riso.

Assim, enquanto outrora perguntávamos ‘como podemos vencer a catástrofe’,

agora dizemos: ‘como pode a catástrofe alguma vez vencer-nos?’

Não vamos marchar de regresso ao que foi, mas avançar para o que deve ser:

um país que está ferido mas inteiro,

benevolente mas audaz, forte e livre.

Nós não recuaremos ou nos deteremos

ante a intimidação porque sabemos que a nossa inacção

e inércia serão o legado da próxima geração.

Os nossos erros serão os seu encargos

mas uma coisa é certa:

 Se juntarmos perdão com poder, e poder com rectidão,

 então o amor torna-se o nossa herança

 e a mudança um direito inato das nossas crianças.

Vamos pois deixar um país melhor do que aquele que nos deixaram.

Com cada fôlego do meu peito cinzelado a bronze,

nós transformaremos este mundo ferido num mundo maravilhoso.

Ressurgiremos das colinas douradas do Oeste,

ressurgiremos do Noroeste varrido pelos ventos,

onde os nossos antepassados começaram a revolução.

Ressurgiremos das cidades à beira dos lagos dos estados do Midwest.

Ressurgiremos do Sul banhado pelo sol.

Nós reconstruiremos, reconciliaremos e recuperaremos todos os recantos conhecidos da nossa nação

e em cada canto que chamamos nosso país, o nosso povo diverso e belo surgirá fustigado e belo.

Quando amanhecer, nós deixaremos a sombra,

ardentes e sem medo.

Uma nova madrugada floresce enquanto a libertamos.

Porque há sempre luz se formos suficientemente bravos para a ver,

se formos suficientemente bravos para o ser.”

Só no Sábado é que percebi que está a decorrer o Festival da Canção. Não costumo ver, e só me lembrei disto a propósito da entrevista do Salvador Sobral ao Ricardo Araújo Pereira. E nem foi pela entrevista em si, foi pela música que o Salvador cantou. Muito mais bonita do que o “Amar pelos Dois”, com que nos ganhou a Eurovisão. A loucura. A nova música ainda não tem nome, aparentemente. É provável que, depois de ontem, já tenha. Começa a dizer-se mal do Ricardo Araújo Pereira, mas continua a fazer-me rir. Mesmo quando é absurdamente imbecil. Ou, se calhar, por isso mesmo; ando pouco exigente. Diz-se que é preguiçoso, pouco criativo, popularucho, a resvalar para o boçal, ultimamente, o humorista do regime, a antítese do Herman José, sei lá. Pode ser isso tudo, e está bastante longe, é verdade, da genialidade dos Gato Fedorento, mas, ainda o aturo relativamente bem.  

Não interessa nada, era por causa da música. E de outra música, que ouvi ontem e já não ouvia há anos. Já nem me lembrava que a Manuela Moura Guedes chegou a cantar. Como o João Loureiro, mas sem o percalço dos aviões. Também não me lembrava que a música era tão bonita e que a letra tinha sido escrita pelo Miguel Esteves Cardoso. A da Manuela Moura Guedes. É linda. 




Também gosto de a ouvir pela voz dos Ritual Tejo. Ainda não sei de qual gosto mais.