quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Devia ter aproveitado o tempo que durou aquele lapso da DGS para ir ao cinema. Sem teste e sem pipocas. Ninguém me apanha, por minha livre vontade, numa daquelas filas intermináveis de testagem em série, e menos ainda em zaragatoamentos públicos à entrada de eventos, por muito que o evento me apeteça. E apetecem-me alguns. As pipocas no cinema podiam ser banidas. Definitivamente. Mesmo sob o protesto do meu filho.

O ano termina com balanços e promessas de renovação, como deve ser. Eu não balanço, nem prometo. Vivo. Nem sempre tão plenamente como devia, mas vivo. Em cada ano novo, mais intensamente do que no ano passado. A professora de filosofia do meu filho pediu aos alunos que escrevessem numa folha uma palavra para definir o futuro. O meu filho escreveu Morte, e não sei porque é que isso ainda me espanta. Sei que, muitas vezes, é uma provocação, e, ainda assim, invejo-lhe a renúncia.  

Entretanto, perdi-me na contagem das vagas e das letras do alfabeto grego; dos números do pior dia de, do novo máximo, e todos esses superlativos ameaçadores que os nossos jornalistas anunciam em pregões vesúvios, tomados de incontroláveis fremências. Sinto-me capaz de aceitar qualquer teoria da conspiração: do vírus que se escapou de um laboratório chinês, à propagação do bicho por tecnologia 5G; da magnetização da zona inoculada, ao chipe controlador do Bill Gates, passando pela negação da pandemia, ou aceitando-a apenas como um expediente maquiavélico dos estados democráticos para dominar os povos pela exaltação paranoica do medo. Estou por tudo, porque há já demasiado a que começo a não encontrar qualquer sentido. Hoje. Amanhã, passa-me.

Por falar em cinema, prefiro um bom filme a uma boa série. Não tenho muita paciência para séries. A última que vi inteira e merece tudo o que de bom se diga e se diz dela foi Mare of Easttown. Nunca consegui seguir a Casa de Papel, falta-me a inteligência necessária para alinhar reflexões filosóficas sobre a morte no Squid Game – achei demasiado ridículo o pouco que vi: não tem nada a ver com o fenómeno violência; a violência de Joker é avassaladora e tudo naquele filme é magnífico –, e não passei do segundo episódio de Glória. Diz a minha irmã (de algumas séries portuguesas) que, às vezes, parece nem as falas se entendem bem. Por vezes, parece-me o mesmo. É como se a língua portuguesa servisse “apenas” aos grandes romances, aos poetas, às confissões dos amantes murmuradas ao ouvido. A língua portuguesa de Portugal. A do Brasil também serve à música que se quer bem cantada. O pau, a pedra, o fim do caminho, o pouco sozinho, a vida, o sol, a chuva chovendo, madeira de vento, mistério profundo, o queira ou não queira, e eu ainda quero muito.



Bom Ano de 2022

Obrigada a todos os que se perdem por aqui.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

“A minha vida – vivi-a nos seus altos e baixos, no sofrimento mais pungente e na alegria mais extasiante, no desespero mais negro e na esperança fervorosa. Bebi a taça até à última gota. Vivi a minha vida. Oxalá tenha tido o talento para pintar o quadro da vida que vivi!”


 Emma Goldman



quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

“Por vezes creio que os bons leitores são cisnes ainda mais tenebrosos e singulares que os bons autores.”

Jorge Luís Borges, História Universal da Infâmia





quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

De "Oil Dourado" a Saint-Tropez"

Somos um país que não cuida do seu e não cuida dos seus. Um país que se vende a retalho, de costas voltadas aos problemas da gente real; que sonha com os unicórnios das feiras que servem as vaidades dos empreendedores amparados por um Estado deslumbrado, que fala inglês, às vezes francês, e não se importa de servir de concierge aos grandes investidores. É assim que vamos deixando morrer um Alentejo entregue ao lucro das monoculturas intensivas e à exploração de mão-de-obra barata, no limite da escravatura, de onde as gentes da terra são enxotadas com fastio, enquanto parte do nosso litoral é entregue aos promotores dos “grandes projectos turísticos”, em negócios babilónicos onde vale quase tudo o que possa ser comprado, inclusive acessos privados a bens que são e devem ser públicos, uma usurpação descarada de recursos com a bênção dos nossos governantes. É isto o progresso?

Agora que se volta a falar de “regionalização”, podíamos aproveitar para encher emissões televisivas de análise e comentário, directos sobre directos, também sobre a forma como delapidamos (ou deixamos delapidar) o nosso património. A "regionalização" vai servir exactamente a quê e a quem; vai fazer-nos mais atentos e presentes, ou, apenas, multiplicar cargos e carguinhos e saciar desejos de poder? Gastar com este assunto o mesmo tempo que gastamos a espreitar os centros de vacinação, a afluência às farmácias para comprar testes-covid, ou os interstícios da detenção – e, agora, da audição – de João Rendeiro. Mas não. Talvez se isto fosse um fora-de-jogo mal marcado.

Tão Bom



terça-feira, 14 de dezembro de 2021

"Fall, Leaves, Fall"















Sou do Outono tardio. Dos dourados exuberantes, em fim de estação. Sou do Outono que morre sem agonia num imprevisto de cores, em pinceladas lentas como chuviscos, ou no vôo pendulado das folhas que tombam dos ramos. Sou do Outono em metamorfose, com sabor a despedida. O Outono das nuvens que murmuram sombras aos ouvidos do Sol, e dos passos arrastados sobre tapetes de folhos.

Rui Rio é um desastre comunicacional sempre à espera de acontecer. Não é possível tanta falta de habilidade. O homem parece empenhado em esmagar num dia o pouco que foi capaz de consolidar no dia anterior. Alguém que o convença a apagar a conta do Twitter; ou, no mínimo, a contar até dez antes de publicar o que quer que seja, por precaução. Não sei, um duche de água fria, declamar um soneto de Bocage, qualquer coisa que o refresque e o distraia antes de cair em tentação. No limite da paciência, digam-lho em alemão, pode ser que resulte melhor. Ainda assim, continuo a pensar que o Twitter tem a demoníaca capacidade de despertar o Mr Hyde que há em cada um de nós. Um estranho caso, efectivamente.

No resto, Rui Rio tem razão. Também achei pornográfico o desdobramento em entrevistas a que se prestou o director da PJ. Não tendo sido por desejo de protagonismo – e creio que não foi –, sobra a demanda por reclamar um orgulho ferido de morte. Também é importante, mas soa quase a desespero. Teria bastado aquela conferência de imprensa da parte da manhã.

Esperemos, agora, que a montanha de vénias e parabenizações exaltadas pelo alívio de nos mostrarmos menos papalvos do que Rendeiro nos fez parecer, não venha a parir um rato – mas não é cinismo duvidar. A advogada de João Rendeiro já fez saber que a extradição do nosso contentamento – e encantamento – colectivo poderá demorar anos. Que os tempos de lá não são os tempos de cá, e, francamente, não sei bem que tempos serão os mais inférteis em matéria de justiça. Os de cá parecem ser sempre os tempos adequados a garantir o eterno descanso dos prevaricadores. De alguns, evidentemente. Eventualmente, de prescrição em prescrição até que a morte, finalmente, separe o criminoso do crime. Ou o inocente da possibilidade de reclamar reparação, o que constitui outro atropelo insuportável. E não há nada de justiça em exibir, nas televisões, a imagem de um João Rendeiro em pijama no momento da detenção; não tem nada a ver com o que eu penso dele, e penso muito mal.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Estamos sentadas lado-a-lado, num banco de madeira corrido e pouco robusto. Ela aguarda a hora do casting e eu acompanho uma amiga no mesmo propósito. Estão a rodar o Legionário e já avistei, de longe, o herói. O que o grande écran faz de um homem. É bastante mais velha do que eu. Mais eloquente, também. Fala atirando para trás o cabelo negro, em gestos rasgados, ensaiando poses que fazem tremelicar os adereços emprestados pelo staff entre mil cuidados, como quem roga pragas. Conversamos fundindo o espanhol e o francês numa amálgama frequente e natural por aquelas paragens, até eu dizer que sou portuguesa e ela me atirar um eu também! estridente, antes de puxar do passaporte, que reluz com alegria e uma excitação desmedida, num alvoroço improvável que atribuo menos à exaltação da nacionalidade lusa e mais ao aparato dos cenários e à exuberância do guarda-roupa que enfeita a sala-de-estar improvisada. Ingenuamente, pergunto-lhe se fala português. Não fala. Não sabe nada de Portugal, a não ser que não pertence a Espanha, o que já é bastante e nem sempre evidente a um estrangeiro, mesmo nos nossos dias, e estes que recordo estão tão longe que me parece impossível. Vai começar a explicar-me que deve a nacionalidade ao avô paterno, que era português, quando a chamam, em pressas retumbantes, a prova, é a hora da prova, e não chego a inteirar-me da dimensão da sua jovial portugalidade: se esgotada nas páginas do passaporte, se enraizada na profundez da pertença a uma causa maior. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021



Uma amiga ligou-me para, diz ela, me ouvir rir. Os dias não andam para grandes piadas, mas é verdade que, quando nos encontramos, seja apenas pela voz, acabámos sempre por rir de uma parvoíce qualquer, do passado ou do presente. O futuro é demasiado precioso para antecipar. 

Frequentemente, perdemo-nos as duas em coisas inúteis. Entendemo-nos de forma quase telepática, e isso eu sou capaz de compreender. Conhecemo-nos há anos e a empatia foi imediata. É essa outra cumplicidade, alquímica, forjada apenas em palavras escritas por mãos desconhecidas e, ainda assim, visceral, que me espanta. Ainda não lhe falei de ti.

Vacinar ou Não Vacinar: Mais do que Uma Questão

Nos últimos dias, ouvi várias intervenções do presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos. Entre outras coisas, Jorge Amil Dias, referiu que o estudo realizado em crianças dos cinco aos onze anos – de cuja avaliação pela Agência Europeia do Medicamento resultou o parecer favorável à vacinação de crianças naquela faixa etária – avaliou, apenas, se as crianças desenvolveram anticorpos: “não mostrou que aquela população ficasse mais protegida, não mostrou que tinha diminuído a contagiosidade ou que tinha alterado a epidemiologia". Referiu, ainda, que “a vacina tem sido muito eficaz a evitar mortalidade, a reduzir morbilidade nas populações que têm esse risco”, mas, “não impede a transmissão, nem a aquisição do vírus". Além da reduzida dimensão da amostra. 

Jorge Amil Dias não é um perigoso negacionista, que eu saiba. E, devo dizer, os negacionistas, mais ou menos chalupas, merecem todo o género de piadas que se possa urdir à sua custa. Mas, há-de haver um meio termo entre a alucinação anti-vacinas-barra-teorias-estrambólicas-da-conspiração e a outra, para onde parecemos estar a resvalar, mesmo os que, como eu, são pela Ciência, nomeadamente, pelas vacinas. As dúvidas sobre os benefícios de vacinar crianças entre os cinco e os onze anos são mais do que legítimas, face ao que (não) se sabe até ao momento. Qual é a normalidade que a vacinação em crianças daquela faixa etária vai trazer? Há dúvidas ou não há dúvidas no binómio risco/benefício, naquela faixa etária? Aparentemente, há. E usar a vacinação de crianças tendo como maior benefício a prevenção de confinamentos – mesmo sabendo que o “confinamento” seja potenciador de problemas maiores de saúde mental, limitação de aprendizagens, e outros igualmente preocupantes – parece-me uma subversão do acto de vacinar. 

Se isto não é uma forma de chantagem, parece.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

"Eu sou passageiro"

Às vezes, bastam poucas palavras para denunciar o carácter de um homem. Eduardo Cabrita é um homem fraco. Do carácter dos cobardes. António Costa não pode continuar a compactuar com isto, a não ser que seja feito da mesma massa. A que “aproveitamento político” se refere o senhor ainda ministro da Administração Interna? Deve ser o “aproveitamento” que o próprio agarra com o zelo dos infames.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Céus de Outono

Os pássaros pousados nos cabos de alta tensão lembram claves de sol. Um alinhamento prolongado, quase mudo, de notas e palavras que conjuram histórias, das que importam, vividas, contadas, que roubo para mim. Uma constelação de pensamentos soltos, declinações esquadradas que moldo à minha vontade, na lentidão morna do tempo que me sobra. A chuva calou-se deixando no céu um rastro lustroso como um espelho de água. Corre, num fio fino, uma linha recta mesmo acima do horizonte, absurdamente paralela, sobre a qual o vento dourado fez pousar nuvens encaracoladas como espuma, cujos reflexos tombam, invertidos, numa simetria tão perfeita que é quase irreal. Os céus mais bonitos são os meus; os de Outono.

domingo, 28 de novembro de 2021

Por vários motivos, têm sido dias de música





 

A Democracia (ainda) Vive (e, pessoalmente, recomendo)

Ia chamar a isto “são onze contra onze e no fim ganha o Rio”, mas uma senhora na SIC Notícias levou-me a graça (há graças demasiado evidentes…), e parece que o futebol viveu ontem outro momento infame. Fica assim.


Até ao discurso de Rui Rio, ontem à noite, eu era das que pensava que as notícias sobre a morte de André Ventura eram manifestamente exageradas. Ao dia de hoje, começo a achar que talvez. Talvez. 

Por falta de tempo e de vontade, deixei uma data de resmungos inacabados sobre os nervos que me fazia a certeza com que “todos” davam como ganha a batalha de Rangel, sendo que “todos” eram todos menos os que contam: quem vai às urnas dizer de sua justiça. Nem Lisboa chegou para refrear ânsias de análise que, às vezes, não passam de desejos dos grávidos do costume e de si mesmos. 

Rui Rio vai na terceira vida à frente do PSD e, de repente, até parece possível que venha a ganhar as próximas eleições legislativas. E não me refiro ao seu “Eu vou ganhar”, que, naquele momento, foi uma reposta com algum sarcasmo a (mais) uma pergunta idiota.

Adiante.


Álvaro Beleza dizia, há dias, que quando o PSD tivesse um líder carismático, o Chega desaparecia. Rui Rio não é bem a encarnação de um líder carismático, mas André Ventura pode refrear o gozo: bem pode continuar a ensaiar poses de comediante ao melhor-pior estilo Trump, que há um tipo de propaganda que só resulta em inglês, como não se cansam de nos dizer muitos dos nossos marketers. Rui Rio tem mais autenticidade num átomo de sisudez e mau feitio, do que André Ventura na sua roupagem armandi. Assim mesmo, com d. Para ser lobo não basta vestir-lhe a pele, e o mesmo vale para os vilões. Há um cansaço geral, zangado, desconsolado, que tem aberto caminho à "falta de carisma" de Rui Rio.


Entretanto, os jornalistas, analistas e comentadores – partindo do princípio de que ainda se distinguem uns dos outros – manifestaram espanto pela vitória de Rui Rio, “contra o que era esperado”. Mas “esperado” por quem? Parece um milagre da multiplicação, os diferentes portugais que separam o povo das castas. Não usar transportes públicos excepto, eventualmente, em dias de campanha é capaz de distorcer o que se entende por competência na análise política. Há uma percepção da realidade que só se percepciona devidamente mergulhando nela.


Rui Rio tem uma lista enorme de pecados. Não lhe perdoo o José Silvano, o fim dos debates quinzenais, a Suzana Garcia, o artigo da Isabel Meirelles (não é que Marcelo não merecesse, não fosse o caso de Marcelo ser Presidente da República e, pelo menos, ao cargo ainda devemos algum respeito) e o acordo dos Açores; mas, olhando para os vizinhos da frente, do lado e arredores, o meu desgosto talvez seja ele também manifestamente exagerado. O caso é que, se Rui Rio chegasse (posso dizer chegar?; já pareceu mais longe) a primeiro-ministro e fizesse pelo País o que fez na Câmara Municipal do Porto – ainda que a minha mãe não lhe perdoe (esta coisa do perdão é mal de família) ter retirado as árvores da Avenida –, talvez houvesse alguma esperança para Portugal. Afinal, tantos anos de socialismo e de esquerda não têm evitado que continuemos a caminhar em contramão nos desígnios do tal projecto europeu. Nem só de socialismo e da esquerda vive o nosso atraso crónico, bem sei, mas dos vícios de todos os que tinham obrigação de não nos falhar e falharam. Os nosso políticos, se não são todos iguais, parecem. Talvez Rio seja, de facto, menos igual do que outros.


António Costa que se cuide e Rui Rio que se concentre na missão que tem em mãos. Responsabilidade, como lhe chamou. A Democracia ainda mexe, e, por ingenuidade minha, seguramente, continuo a achá-la o melhor de todos os regimes. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres



Leonardo da Vinci

“Conseguir que o mestre de aritmética me mostre como realizar a quadratura de um triângulo (…) Perguntar a Benedetto Protinari de que maneira caminham sobre o gelo na Flandres (…) Observar a pata do ganso: se estivesse sempre aberta ou sempre fechada, o animal não seria capaz de efectuar qualquer movimento (…) Descrever a língua do pica-pau (...) Ir todos os sábados às termas para ver homens nus.”

 

Leonardo da Vinci morreu há tempo suficiente para eu poder dizer que o adoro. Esgotou-se o prazo para a desilusão, sem direito a recurso. Adoro-o. Comecei a ler a biografia que lhe escreveu Walter Isaacson, e tem sido difícil arrancar-me de lá. São vários os livros de onde é difícil arrancar-me, também é verdade; sou muito fácil de sepultar entre linhas bem escritas e estórias de encantar. Até de desencantar, se quem escreve merece. E escreve Isaacson que o ponto de partida para o livro não foram as obras-primas de Leonardo, mas os seus cadernos. Sinto uma pontinha de inveja. Mentira, sinto uma inveja enorme. Mergulhar na loucura curiosa, obsessiva e íntima, dos cadernos de da Vinci.

Ainda estou no início e já adivinho uma história de amor.

O Fim do Tempo



terça-feira, 23 de novembro de 2021

 

Photograph: Anadolu Agency/Getty Images

Rendeiro e Marcelo entram num bar. Ou, de um país. Alegadamente.

Nem sei bem por onde começar. Há momentos em que o absurdo atordoa.

João Rendeiro – que fugiu do País e, agora, deixa a mulher a cumprir uma pena de prisão domiciliária, enquanto o próprio leva uma vida normal, sem peruca e sem rabo de cavalo, num outro país voltado para o mar onde se fala português (já não sei quem disse que, às tantas, nunca de cá saiu, está escondido na cave lá de casa, entre matisses falsificados: também parece absurdo, mas, nunca fiando…) – deu uma inacreditável entrevista a Júlio Magalhães na estreia desse novo canal de televisão que dá pelo nome CNN Portugal e que promete “credibilidade”. Como, dessa entrevista, só ouvi o resumo extremamente desagradável (ou brilhante) da Joana Marques, pode ser que aquilo tenha tido menos de desagradável (para evitar outros palavrões) e mais de credível. Absolutamente inacreditável é ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, presidente desta República cada vez mais de faz-de-conta responder ao ultraje com graçolas.

Como é que aguentamos isto sem escândalo, é coisa que me transcende. Tal como a história dos negócios de Luís Filipe Vieira, que a SIC Notícias tem vindo a retratar na  reportagem imperdível  "Testa de Ferro". Ou aquela outra, no EXPRESSO, assinada por Inês Serra Lopes, onde se dá conta de como o Estado e algumas empresas, as que podem, se concubinam com a bênção dos advogados que facilitam a coisa como experientes matronas, alternando entre o interesse do Estado e os interesses das empresas, com os "tribunais arbitrais" como cama de fundo de onde o Estado sai quase sempre condenado e a pagar indemnizações generosas. Mas, tudo isto nos passa diante, e adiante. Sem dor, sem um pestanejar. Às vezes penso se a indignação inflamada que nos assalta pontualmente com os casos Rendeiro, Berardo, Salgado e todos os seus acólitos, e que se apaga sem passar, afinal, de um fogacho, é por convicção e princípio ou apenas por inveja, de facto; porque a orgia nos está vedada a nós, reles pagadores de impostos, a quem nem um miserável atraso no pagamento do IUC o mesmo Estado folgazão é capaz de perdoar.

Apetece desistir.

“Descaminho”. Até há algum tempo desconhecia a palavra “descaminho” para designar um crime. Ouço dizer “descaminho” e soa-me a desamor, a desgosto intolerável. Há dias, demasiados, em que Portugal me sabe assim.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Liberdade...



Escapa-me a noção de liberdade reclamada sobre a violência gratuita. O rastro que a população dita livre e civilizada vai largando a reboque desse “direito à resistência”: soa lindamente; principalmente quando o direito à resistência pode ser invocado e exercido em países sem tradição de envenenar, torturar, ou fazer desaparecer os que não estão com o rebanho

Com algumas excepções (poucas, muito poucas), a maioria dos argumentos que vou ouvindo de quem se decide pela não vacinação acenando com o trunfo da “liberdade individual” assemelha-se à “liberdade individual” daqueles fumadores convictos que, de forma prepotente e muito livre, fumam de rosto voltado para a mesa do lado, sem qualquer pudor em cuspir o fumo sobre o alheio. Ou daqueles donos de cães, livres, mas tão livres, que não vergam as costas para apanhar os cocós dos bichanos, o que seria, fica a liberdade individual ali mesmo, desde que o ali mesmo seja no caminho dos outros.

As imagens da “luta pela liberdade” que lavra pelas ruas de algumas cidades de países europeus não são só assustadoras, são vergonhosas.

Dito isto, não estou completamente certa quanto à linha que podemos ou não podemos cruzar, no que toca às medidas mais adequadas para minimizar a propagação da doença que nos tem (e mantém) reféns há quase dois anos. Isto também a propósito das “sanções” que alguns países começam a impor sobre os seus não vacinados por opção e direito, como a obrigação de suportar os custos de saúde, ou o confinamento individualizado. Tenho muitas dúvidas, e não é por achar comparável – coisa que não acho – com os casos de fumadores a braços com tratamentos contra o cancro, ou dos obesos que esperam anos por uma cirurgia de banda gástrica no SNS, como atiram alguns só para baralhar e esvaziar discussões sérias sobre o assunto. Mas rejeito veementemente uma liberdade forjada sobre a imbecilidade.

domingo, 21 de novembro de 2021



Seria sobre a luz e a sombra; para mim, também é sobre generosidade.


sábado, 20 de novembro de 2021



Perdoo-lhe o mal de não saber cantar pelo tão bem que sabe compor. Diz o próprio que não sabe cantar, eu não sei se concordo. Não é a voz de um Tom Waits, é certo, e não gosto especialmente do chapéu, mas há poucas canções cantadas em português que me levem pelo mesmo caminho, mau caminho, bom caminho, a belíssima estação de São Bento, solene e lenta, debruando silêncios entre linhas, entre notas. Não há nada de passageiro naquele “Se eu fosse um dia o teu olhar”. Pode haver quem ouça aquilo impunemente, mas eu não sou dessas. Sou das que se deixam tomar de assalto logo aos primeiros acordes. Sou das palavras bem lavradas, sem regresso. Deixo que se me adentremurgentes, como raízes esventrando a terra. 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

"O sol está raso com a cumeada dos montes, adivinha-se o mar do outro lado. A estrada desce em curvas, duas colinas parecem estrangulá-la lá em baixo, mas é ilusão dos olhos e da distância. Em frente, a meia encosta, há uma casa grande, de arquitectura simples, tem um ar de abandono, antigo, apesar de haver sinais de cultivo nos campos que a rodeiam. Parte da casa está já na sombra, a luz vai-se amortecendo, parece o mundo todo que se afunda em desmaio e solidão. Joaquim Sassa parou o carro. Todos saíram. O silêncio ouve-se, vibra como um eco final, talvez não seja mais que o bater distante das ondas nos penhascos, é sempre a melhor explicação, até dentro dos búzios a lembrança interminável das vagas ressoa, porém não é este o caso, aqui o que se ouve é o silêncio, ninguém deveria morrer antes de conhecê-lo, o silêncio, ouviste-o, podes ir, já sabes como é."


A Jangada de Pedra, José Saramago



Um amigo que, infelizmente, já não está entre nós – como é comum dizer-se dos que morreram – defendia, meio a brincar, meio a sério, que a Península Ibérica deveria ser um único país, com capital em Lisboa. Era de Múrcia e adorava o mar. Ríamos muito, e a brincar discutíamos quanto à escolha da língua: ele achava que, nesse país que sonhava, devia falar-se castelhano, e, claro, eu achava que o que devia era falar-se português. 

Lembro-me dele várias vezes. Lembrei-o hoje a propósito da comemoração do aniversário de José Saramago, talvez porque a magnífica metáfora do seu livro A Jangada de Pedra tenha servido, muitas vezes, de pano de fundo para o ensaio teórico desse país imaginado. Não necessariamente espanhol, não necessariamente português, cómico muitas vezes, trágico quase sempre.


Um abraço, onde quer que estejas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Quando me toca levar os miúdos à escola, ouvimos o “Eu é que sei”, na Comercial. É tão bom poder começar o dia a rir um riso leve, breve, sem mácula.

Todos os dias há um dia de, e, embora me escape a maioria dos assinaláveis assinaláveis, parece que um destes dias foi “dia do solteiro”. “O que é um solteiro?” serviu-se a quente, como sempre, no improviso da infância solta e despreocupada, como deviam ser todas as infâncias. Esclarecido, mais ou menos, que “um solteiro é alguém que não tem namorado" – não necessariamente alguém que solta pessoas (lindo!) –, o que se seguiu foi puro prazer. “O nosso cérebro derrete” quando estamos apaixonados, ou “levamos um casaquinho” para procurar namorado “porque às vezes fica frio”, é do melhor. “O amor é uma surpresa”, diz a última criança, e é capaz de ser a melhor definição dessa coisa avassaladora que surge quase sempre sem aviso.

De resto, há dias em que Portugal me parece um país falido. Seja qual for o ângulo por onde o olhe, a frequência por onde o ouça. 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021



Por um acaso que não vem ao caso, ouvi uma versão nova da velhinha “Olá, então como vais?”, do Tozé Brito e do Paulo de Carvalho. Fui procurar a antiga, de que gosto muito mais. Mas, a mim, o crepitar da chuva lá fora, ainda há pouco, sabe-me ao mesmo que o estalar laborioso da lenha que arde na lareira, por isso, que sei eu? 

Agora sou capaz de andar a cantarolar isto o dia inteiro.

sábado, 30 de outubro de 2021



“Os romancistas dizem geralmente que as personagens ganham vida própria, que um escritor segue a sua personagem, tanto quanto a determina. Quem vive connosco são as nossas personagens, não porque as tenhamos inventado, mas porque povoam a nossa memória e imaginação, e além de mais representam épocas, lugares, abatimentos, alegrias. De algumas dessas pessoas podemos falar durante horas, de outras pouco mais temos que um episódio meio esquecido, mas nunca esquecido por completo. São as nossas “dramatis personae”. E mesmo que não se vejam agora no palco, aparecem em flashes, em sonhos, nas desaconselháveis mas surpreendentes horas em que passamos a vida em revista. Estamos ligados a eles e elas por pequenas cumplicidades de que não ficou registo, casos passageiros, coisas de nada. Ninguém mais sabe, mas vivem connosco.”

Pedro Mexia, EXPRESSO


E eu a pensar que o Pedro Mexia só percebia de livros e, nas horas livres, ensaiava uns passos em análise política. Afinal, percebe é de gente, o que, na verdade, não devia espantar porque, nos livros como na política, é de gente que se trata. Dos “dramatis personae” aos "amigos-fantasma".

sexta-feira, 29 de outubro de 2021



É preciso fazer um esforço para permanecer indiferente aos dias de nojo. Ocupo-me de coisas inúteis nos tempos homólogos. A mancha de vinho tinto na toalha de linho, o jarro grande de vidro da mesa da sala que não sei se deixe vazio ou encha de tulipas ou de girassóis. Ainda encontrei tulipas e também gosto de girassóis. O creme de mãos que me esqueci de adicionar à última lista de compras e o verniz das unhas que só uso em tom beringela tão escuro como o fundo do poço onde, por vezes, me deixo naufragar. Sem culpa, sem drama. A pele do salto do sapato, vertiginoso, a reclamar conserto pelo uso imoderado. O pequeno brinco de ouro baço daquele par que adoro e perdi não sei bem quando nem onde, o perfume que não uso há anos porque há cheiros que acendem memórias, algumas vorazes, movediças, e as minhas armam-me ciladas de onde nem sempre consigo escapar ilesa. Depois, há a beleza perfeita do erguer do dia. O milagre das cores da alvorada, o silêncio cavo da noite assaltado pelo ronronar espumoso das ondas do mar adormecido, ainda, sob o ondular da água à superfície, lento, lento, um resfolgar degradé de azuis celestes que se arrastam sedosos como véus, como a língua sobre a pele. Ah, o Universo sabe bem o que faz. Não quer é saber nada de nós.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

 



Paulo Rangel deve estar a salivar, num frenesim de anunciação, com Marcelo a fazer as vezes do anjo. É inacreditável que o Presidente tenha recebido, nesta altura, o candidato a líder do PSD, como se o PSD não tivesse, neste momento, um líder eleito democraticamente e em funções, goste-se ou não se goste de Rui Rio. “Só dança quem está na roda”? Mas, isto é coisa que se diga para responder a uma crítica legítima?

Tudo isto é tão miserável. Não sei se é a eterna sina do país pequeno, mas são com certeza pequenos os políticos a que entregamos o país. É assustador olhar para o painel

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Não imagino o que é viver presa a um corpo que se odeia. Nem estou sequer a falar de “aceitação”, que sou bastante mais frágil, mais fútil, do que isso. Nasci mulher, gosto de ser mulher e a genética foi minha amiga. Sou bastante saudável em todos os sentidos do termo que importam e vivo muito bem com todos os meus defeitos e virtudes. Não imagino a dimensão do drama e do sofrimento de alguém que se vê como mulher encarcerada num corpo de homem, ou de outro alguém que se vê como homem refém de um corpo de mulher e, embora não entenda o conceito “não-binário” – por defeito meu e só meu –, entendo, e defendo, que todas as pessoas merecem ser tratadas como pessoas. Devem, aliás, esperar ser tratadas com respeito, exigir ser tratadas com respeito. 

É-me bastante indiferente, só por isso, pela diferença, ou pelo que eu possa ou não possa deixar de entender, que o meu semelhante do lado seja branco, preto, amarelo às bolinhas ou cor de burro quando foge, e o mesmo é válido para o género, a orientação sexual, taras, crenças, credos e afins: desde que sejam maiores, vacinados ou não, e não cometam abusos contra terceiros, estou-me perfeitamente nas tintas para que o que começou pela sigla LGBT venha a ter mais letras do que aquelas que o alfabeto permite. Mas – voilà, há sempre um mas; é aqui que me acusam de uma fobia qualquer, e tenho várias, algumas inclusive contra dois, três ou mais, de certeza mais, dos meus semelhantes – custa-me bastante aceitar uma inclusão que pretende, afinal, excluir, anular em vez de integrar. A linguagem neutra é, em muitos contextos, absurda porque torna a comunicação impossível: não aproxima, afasta.

Depois de J.K. Rowling ter sido atacada por dizer em público que já existe um nome para “pessoas que menstruam”, são "mulheres", chegou a vez de Margaret Atwood (e há, com certeza, muito mais boa gente pelo meio) ser chamada de trans-excludente por ter partilhado um artigo com um título em forma de pergunta: “Why can’t we say ‘woman’ anymore?”. Não encontrei o artigo aberto e, por isso, não consegui lê-lo ainda, mas imagino que será de teor idêntico a este, a este, ou a este, e, se for esse o caso, sinto-me bastante tentada a subscrever. E só se entende tal como “transfobia” porque vivemos mergulhados num absurdo de polémicas para todos os gostos. Literalmente. Deixou de haver espaço para pensar, duvidar, discutir. Ou se pertence a um extremo, de arma em riste, ou não se pertence a lugar nenhum. Prefiro não pertencer a lugar nenhum. Tenho demasiadas dúvidas, nomeadamente, sobre este tema: há uns anos – lembro-me porque o escrevi – Bernardinho, um “lendário treinador brasileiro de voleibol” de quem eu nunca tinha ouvido falar, ficou debaixo de fogo por ter chamado “homem” a Tifanny. Tifanny era, na altura, uma atleta transexual que jogava numa equipa de voleibol feminina. O insulto foi captado pelas câmaras, daí ao levantar da respectiva onda de indignação foi um instante e Bernardinho acabou por pedir desculpa, dizendo que se “referia ao gesto técnico e ao controle físico que ela tem, comum aos jogadores do masculino e que a maior parte das jogadoras não tem”. Um sacrilégio. E, uns meses antes disso, uma atleta transgénero, tendo ganho uma prova de velocidade numa competição feminina de ciclismo, tornou-se alvo de críticas, nomeadamente, da atleta que ficou em terceiro lugar e que considerou a vitória injusta, e, como não podia deixar de ser, de mensagens de ódio de “fanáticos transfóbicos”. E eu tenho sentimentos bastante confusos em relação a tudo isto, onde também cabe a linguagem inclusiva. Sobretudo, porque não tenho quaisquer dúvidas em relação à imbecilidade dos insultos proferidos por uns quantos “fanáticos transfóbicos”, que os há com toda a certeza, nem sobre a “igualdade” consagrada na Declaração Universal dos Direitos que agora se dizem Humanos, e parece-me bem: é aqui que é urgente defender a inclusão, lado a lado com a Justiça. Fazer a ponte entre isso e a realidade desportiva da Tifanny e da Rachel McKinnon, custa-me bastante mais, independentemente dos direitos e do respeito que merecem ambas. E rejeito veementemente ser chamada “corpo que menstrua”, ou “corpo com vagina”, ou qualquer outra coisa que atente contra a integridade plena daquilo que realmente sou: mulher. Com todas as letras e todas as marcas e todos os abusos que já sofri por causa disso e que serão, seguramente, menos do que os abusos que sofreram outros, nomeadamente, os transexuais.

Também não sei se existe uma intenção – disfarçada de integração – de eliminar a palavra "mulher" e, com isso, regressar a um passado (que para demasiadas mulheres e meninas ainda é um presente feito de horror) de invisibilidade e violência. No que toca a géneros, ou a sexos, sou bastante bruta, primária, selvagem, e continuo a achar poucas coisas mais belas do que o entendimento perfeito entre o corpo de um homem e o corpo de uma mulher.




terça-feira, 26 de outubro de 2021



Queria ter qualquer coisa a dizer sobre a ameaça de chumbo do orçamento de estado. Uma opinião sólida, bem formada (das outras, tenho uma diferente para cada dia da semana), acerca da crise que paira sobre o dia depois de amanhã, se amanhã se confirmar o desentendimento definitivo das esquerdas. Não tenho. A política, como o amor, tem razões que a própria razão desconhece. Sobre o coração poder assumir-se de maior sensatez do que a razão, como presumem os mais românticos para suavizar a angústia, não arrisco considerações. Mas, em política, o que predomina demasiadas vezes é a azia dos maus fígados. Ingovernabilidade, é a palavra que se segue, enquanto comentadores e analistas tentam fazer encaixar novas peças que ajudem a reconstruir o puzzle. Enternece-se saber que não sou só eu: anda tudo aos papéis, e não são exactamente os das contas do orçamento. A bazuca era outra, afinal, um torpedo de grandes dimensões que, aparentemente, ninguém viu chegar. Pode ser que ainda venha a falhar o alvo, embora haja já danos irreparáveis. “Irreparável” (ou é "irregovável"?), em política, vale o que vale, mas, adiante. Vou colecionando títulos de notícias na esperança de encontrar também a vontade e o tempo que merecem que lhes dedique. Preciso de equilibrar o tempo entre o dever e o prazer, nenhum deles necessariamente no singular. E ler um poema dura-me por um dia inteiro. Às vezes mais. Guardo os versos na boca, deixo que se desfaçam lentamente, sílaba a sílaba, letra a letra, o quente e o frio, o doce, o salgado, um atropelo descarado de repetições inquietas. Irrequietas. Como as contas de um rosário, se fosse meu o hábito de rezar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Sobre "Corpos com Vaginas"...

...ou da estupidez de uma (suposta) linguagem inclusiva.

"Quando se é notificada pela “The Lancet”, uma revista médica com mais de 100 anos, de que está na hora de dizer “corpos com vaginas” em vez de “mulheres”, justifica-se um momento de desorientação. Perante o espernear de muitos dos corpos assim rebatizados, apareceu um pedido de desculpas e uma justificação: a nova nomenclatura pretende não deixar de fora quem, tendo órgãos genitais femininos, não se identifica como mulher. Em nome da linguagem inclusiva das pessoas transgénero e intersexuais, temos direito a todo um novo campo lexical para evitar cuidadosamente a palavra “mulher”. As grávidas são “seres gestantes” no orçamento para a saúde norte-americano; as associações contra o cancro dirigem campanhas aos “indivíduos com colo do útero”.

"Aquelas cujo nome não pode ser pronunciado” são sempre as mulheres. Quem nasceu sob o signo biológico da masculinidade parece ter mais que fazer do que exigir “corpos com pénis”, “pessoas com próstata” ou “fornecedores de espermatozoides”. Esta batalha semântica entre o mulherio biológico deve estar a dar jeito ao patriarcado. Não há como dividir para reinar. Intimados a tomar posição sobre a qualificação do colo do útero como exclusivamente feminino, os líderes dos partidos ingleses, todos homens, responderam “é complicado…”. Escaparam assim a perguntas incómodas sobre a representatividade das mulheres ou a situa­ção dos cuidados médicos para a comunidade transgénero.

Dizem que esta terminologia abrangente é libertadora. Pode ser, mas só com um glossário debaixo do braço. Quantas portadoras de um colo do útero estão realmente cientes desse facto? Os “seres gestantes” vão mesmo compreender que são eles os destinatários de uma verba especial para combater a mortalidade infantil nas comunidades mais desfavorecidas norte-americanas, logo onde a literacia é mais baixa? Eu própria tive de me concentrar para perceber que não podia tomar um medicamento por não ter sido testado em indivíduos at-risk from receptive vaginal sex. E também não garanto conseguir dar com a ala da maternidade no hospital quando a renomearem UCG — Unidade de Cuidados Gestatórios.

Se o que está em causa é a forma como a linguagem influen­cia o mundo, o palavreado usado arrisca-se a transformá-lo num filme de ficção científica, com toques pornossádicos e cenas de terror. Todo ele desumaniza. Na capa da “The Lancet” temos uma boneca insuflável de carne e osso à espera de ser retalhada por um assassino em série ou pelo médico legista. Os “seres gestantes” reduzem quem é mãe à sua função reprodutora, uma boa parideira com ancas adequadas ao ofício.

A identidade é uma afirmação individual, mas também algo que um grupo partilha. É definida pelo grupo perante os outros grupos, o que levanta sempre problemas na demarcação das fronteiras. Neste momento, as fronteiras identitárias entre mulheres e pessoas transgénero estão a ser policiadas por seguidores do Humpty Dumpty no livro “Alice no País das Maravilhas” — quem grita mais alto é quem manda e decide o que se diz.

Dispensar a palavra “mulher” é abdicar de uma identidade. Se o objetivo da linguagem inclusiva é dar visibilidade, o resultado aqui é um apagão de metade da Humanidade com uma etiqueta que serve sempre e não diz nada. Se queremos mesmo ser inclusivos, vamos ter de negociar. Talvez começar por desistir deste jargão supostamente neutro e usar a adição em vez da subtração. Não sei se repararam, mas dá para dizer “mulheres e todos os que partilham com elas um aparelho genital”. Incluindo os “dois espíritos”, matéria que vou ter de estudar."

Eugénia Galvão Teles, Expresso

terça-feira, 19 de outubro de 2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021



Não dei pelo dia da libertação, nem pelo apagão das redes sociais. Tudo por minha culpa, que levo uma vida bastante desinteressante. Ainda assim, não me deve bastar para chegar ao céu: é sabido que sou invejosa, de uma inveja mui nobre a minha, isso sim, e farto-me de pecar por pensamentos e palavras. A minha alma há-de arder no fogo do Inferno, depois de o meu corpo se desfazer num fogo menos eterno. Mas, mantive-me fiel à promessa de apenas usar aquelas máscaras horrorosas, cirúrgicas, e sempre no mesmo tom de azul deslavado. Nem verde, nem rosa. Nem branco, sei que também as há em branco. Espero ter preservado, sem mácula, as partes de mim que valem alguma coisa, ou até esse sacrifício terá sido em vão.

domingo, 17 de outubro de 2021


 

Também invejo quem sabe escrever poemas. Espanta-me o assombro capaz de se contrair num verso. A dor e a carne, a paixão e a saudade. O sobressalto, o desconhecido. Para não falar de ti, escreveria solenemente sobre novelos de nuvens em bando ao nascer do dia, e vórtices de luz magenta derramando-se sobre o mar quieto, liso liso, um imenso lago de mercúrio enrubescido pelo absurdo impudente das cores da alvorada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021


 

Imaginar, como Michel Houellebecq, que, dentro de um ou dois anos, forças políticas muçulmanas chegam ao poder na Europa, começando pela França e pela Bélgica. E que, em pouco tempo, esses partidos acabam por impor o Islão como eixo político-religioso, ou religioso-político, não sei se a ordem importa, em torno do qual gira uma agenda de reconstrução e reconquista de um império assente na submissão: islam. Submissão da mulher ao homem e do homem a Deus, fórmula única, infalível, para aceder à felicidade eterna mesmo antes da morte. Um “grafo” quase perfeito, vastíssimo, de paz e harmonia, todos os pontos do mundo ligados por linhas sólidas, urdidas nos mais belos versos do Corão. Pensar que essa imensidão de felicidade plena está ao virar da segunda volta de umas eleições presidenciais em França, cujo resultado, ainda que inesperado, empurra uma sociedade inconvulsa – o alvoroço preludiado dos tumultos que se anunciam nas curtas linhas da sinopse não ocupa muito mais nas páginas do livro – para o restabelecimento de um patriarcado muito desejado, afinal. A elite masculina – a intelectual primeiro, e a académica por ser mais permeável (na ficção, talvez apenas na ficção) – ungida na promessa de bons salários e boas esposas, até quatro, uma por cada um dos mais estimados prazeres, Insha'Allah, concupiscência a que nem o mais guloso dos amantes escapa, o espanto de François ao descobrir o benefício evidente de tapar as mulheres em público, o seu insaciável desejo sempre no ponto, pronto como uma mola, rápida e disciplinadamente amansado pelo castrar da vista, nada do prenúncio de seios cordilheiros, nem pernas subindo vertiginosamente a lugares pecaminosos cavados no contorno das calças justas ou antecipados na antecâmara impudica de uma saia demasiado curta, que a carne dos homens é fraca se as mulheres não zelarem por ela, como é do conhecimento comum mulheres recatadas passam sempre impunes à cobiça dos homens, só as de um certo tipo, as tipas, é que se põem a jeito, já dizia a Raquel Varela, e também é sabido que o clero em geral e alguns padres e bispos em particular, não são dados a desejos carnais por não a verem desnuda. À carne. Enfim, numa apetecível, e a curto prazo, Europa islamizada, toda essa devassidão atirada para as profundezas do passado, um emergente mundo apaziguado e feliz.

Diz-se que Houellebecq é um provocador, inteligente que só visto, ou lido, e sei que já chego tarde: o livro saiu em 2015, no mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo. Se Deus existe, também é dado a paródias.

Mas, não se pense que não gostei do seu “Submissão”. Gostei. É preciso lê-lo para perceber que não só da falta de carne – feminina, essencialmente feminina – à mostra viverá melhor o homem. Nem mesmo e apenas na imaginação de Houellebecq. É até possível que o cenário não seja totalmente irrealista, embora padeça de uma dimensão quase infantil pensar-se que, para evitar ceder espaço no poder a partidos de extrema-direita, um país como a França jurasse tão resolutamente obediência a uma ideia de felicidade requentada no fervor dos versículos islâmicos. Mas gostei mais da ideia do livro do que do livro em si. Como da primeira vez que vi o Matrix. O que me leva a outro escritor francês  posso ser exasperadamente incoerente: Hervé Le Tellier mais o seu “A Anomalia”, que também li. Não existe nenhuma prova de que o mundo é real; excepto que, se assim não fosse, se o mundo fosse um programa de computador, sempre seria possível desligá-lo. Reiniciar, actualizar. Reset. Sem eleições, sem ilusões. Não gostava nada de ficar frente-a-frente comigo mesma, materialmente falando. Se ficasse, queria ser, não a de Março, não a de Junho: a de Novembro. Uma anomalia de Outono.

Vi um cretino esbofetear uma mulher na rua. Nunca tinha visto um homem bater numa mulher, eu à janela, alarmada por um ruído infame, eles ali em baixo à distância de dois lanços de escada. Nunca. Nem no outro mundo em que já vivi. Árabe e muçulmano. Odiei-me por não ter descido as escadas a tempo, porque não ter sido capaz de chamar a polícia a tempo. E no meu Porto, uma discussão idiota com agressões à altura, resultou na morte de um rapaz de vinte e pouquíssimos anos. Li que os agressores, cidadãos muito franceses, foram detidos pela PSP; no entretanto, filmaram um vídeo. O mundo do lado de cá, um pedaço do mundo do lado de cá, do dito civilizado, mergulhado num filme do faroeste bastante mais decadente do que o próprio gozo supõe, e nenhuma das anomalias é capaz de resolver tamanha loucura.