quarta-feira, 15 de julho de 2026
Descaramento
Se
as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar
os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de
Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.
O
primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê,
mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame,
sempre rasteiro.
Nojo.
terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
“Eu pensava muito durante as longas horas das
noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e
tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me
parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar
conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a
sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui
aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”
O Outro que Era Eu
Ruben A.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Da imprudência
Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida.
Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário.
Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco.
Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável.
Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Esse Cristiano Ronaldo
Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito.
Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto –, apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo.
Era isto. Está um calor de morrer, literalmente,
diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para
ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por
umas horas.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A Sócrates o que é de Sócrates
E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.
Inconseguimento...
Julguei
o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu
ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha
lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas
como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois
queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais
incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas,
sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague
outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda
aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um
encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé,
senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até
agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem
sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é
inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar
palavras. Mea Culpa…
sábado, 20 de junho de 2026
Exílio
Os
crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da
pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de
fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com
medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos,
rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena
Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um
poço de contradições.
Se
pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties.
O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em
boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica,
frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria
para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que
pertenço, que desconheço, que me renega.
domingo, 31 de maio de 2026
Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente – são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.
À parte o circo mediático do costume – com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância – comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.
domingo, 24 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Escrevo
anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma
razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar
a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da
blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial
e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente,
quem por aqui se perde. Sinceramente grata.
É
possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se
acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a
ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior,
suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente.
Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor
plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir
comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é
o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas
também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes,
tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de
coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.
Também leio anonimamente...
terça-feira, 19 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Da vida que se arranca aos dias, um rio de sangue, surdo, que atravessa o ventre e incendeia a boca. No corpo, no meu corpo, geografia de sal suor e espanto, a existência escreve-se e esgota-se. Exijo silêncio. Ainda que atiçando o vento. Um rasgão húmido sob as costelas. Tactear o escuro onde o tempo deixou de ser meu. E a memória voraz do que se ausenta.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
" - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."
Memórias Minhas, Manuel Alegre
Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.
Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis.
Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cristo Velato
A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe.
O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo.
Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Havia (também) uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.
Hoje
há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se
menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um
Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses
senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os
caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece
obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do
vazio.
Sento-me
na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.
sábado, 9 de maio de 2026
"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole
Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader
to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit
group. I am well aware that some members of the household are more prominent
than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain
mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the
inevitable result of lack of biographical information but it is, I think,
preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's
misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate
theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method
can lead.
The Brontë story has always been riddled with myths."
The Brontës, Juliet Barker
Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
terça-feira, 5 de maio de 2026
E
eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação.
Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e
meigo. Reescrever a noite sem urgência.
Desfaz-se
a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência.
Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome,
sob a pele.
Gosto que fiques.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Fio de Ariadne
Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos,
trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de
um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas
estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos
pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes
desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa,
partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da
identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou
não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a
pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa
de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa,
o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das
ruas.
Fez
é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito,
tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas.
Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra
na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma
língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um
corpo.
Também
tenho saudades de ti.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Atentados
A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem
representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune,
fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise
acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos,
que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de
assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight,
fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de
forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática,
mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento,
absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas
últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –,
sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido
uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um
tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo
o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem
aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump
transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não
sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço
obcecada com isto, e devo estar.
Fui
ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para
desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em
oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para
limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante
séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.
Os
filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente
para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do
campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela
praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético
da Terra, acho impressionante.
Caçámo-las,
comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.
sábado, 25 de abril de 2026
Transcrevo as “52 frases de Pacheco Pereira que André Ventura tentou boicotar”,
e que Bárbara Reis recompilou. Agradeço-lhe o sacrifício. Imagino que foi
preciso ouvir aquilo tudo outra vez, e é preciso coragem. Eu aguentei mal a primeira,
e de algumas frases já nem me lembrava, tal foi a berraria.
1. Se Ventura pensa que a guerra foi “no Ultramar”, os presos nas colónias eram portugueses. Se pensa que foi uma “guerra colonial”, como é nacionalista, dará razão aos angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos que se revoltaram contra Portugal.
2. Se diz que “traímos” a seguir ao 25 de Abril é porque Angola, Moçambique e Cabo Verde eram parte de Portugal, logo, os presos eram portugueses.
3. Se “lutava pelo seu país” caso a Espanha invadisse Portugal, concordará que os angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos estavam a fazer o mesmo: a lutar pelo seu país.
4. A maioria dos presos nas colónias que eram guerrilheiros ia parar à PIDE ou aos aquartelamentos militares e muitos foram executados.
5. Grande parte dos presos em Angola, Moçambique e Cabo Verde eram enfermeiros, funcionários dos Correios, professores primários, pastores protestantes e estudantes aliciados para regressarem da metrópole.
6. Os povos das colónias eram tidos pelo governo como portugueses e isso vê-se nos cartazes da propaganda dirigida aos movimentos de libertação. Um tema dominante dos cartazes é sempre a mensagem: “Vocês são portugueses.”
7. Comparar os casos de tortura antes e depois do 25 de Abril é um absurdo. Depois do 25 de Abril, são casos isolados.
8. Durante anos, o Exército português tinha a função de impedir os abusos dos fazendeiros. Isso está altamente documentado.
9. A palmatória era usada nos castigos corporais dos colonizados. Quando um criado se portava mal, mandavam-no ao posto para receber palmatoadas.
10. Há comparações que são elas próprias mentiras.
11. Comparar o que aconteceu no PREC com o que aconteceu nos 48 anos anteriores é uma comparação que é uma mentira.
12. Quarenta e oito anos de violência, prisão, tortura, censura e humilhação das pessoas comuns pelas autoridades deixou uma herança de ressentimento e vontade de vingança.
13. Comparar dez ou 20 mil casos de tortura em 48 anos com meia dúzia de casos a seguir ao 25 de Abril é dizer que a democracia é igual à ditadura.
14. Só se pode comparar os dois anos do PREC com os 48 anos da ditadura se o que aconteceu nesses dois anos tivesse acontecido nos 50 da democracia. E não aconteceu.
15. Salazar não precisava de dar ordens directas. Tinha uma polícia política que prendia sem qualquer espécie de regras. E também a GNR, a PSP e a Legião Portuguesa.
16. Um caso em que Salazar teve responsabilidade: Humberto Delgado.
17. Houve prisões e violências no PREC, mas a maioria das pessoas foram libertadas poucos meses depois e nunca passaram por cadeia efectiva decidida por um tribunal.
18.
Antes do 25 de Abril, muitos presos já tinham a pena cumprida e eram sujeitos a
“medidas de segurança” que, na prática, significavam prisão perpétua.
19. Exemplos de torturas usadas pela PIDE em Moçambique: violação anal com garrafas de cerveja ou paus; acirrar cães para morderem prisioneiros nas suas celas; mutilação do pénis com queimaduras; aplicação de choques eléctricos em diferentes partes do corpo; privação prolongada de água e alimentos; fracturas de pernas e braços por meio de pancada; tortura da pendura, suspensão do tecto com a cabeça para baixo; agressões com chamboco, vergasta, palmatórias, correntes de bicicleta, cavalo-marinho com pontas de aço; imobilização dos presos, atando pés e mãos um suporte fixo. São três páginas. Sabe qual é o problema? Eles são pretos. O problema é que estes homens presos eram tratados como sub-homens.
20. A violência nas colónias aconteceu durante todo o período colonial.
21. Não tente interromper quando vou dizer uma coisa que não quer ouvir.
22. As Audiências Sakarov, sobre as violações dos direitos humanos na União Soviética, organizadas em Lisboa em 1983, não contaram com uma única das pessoas do passado de que Ventura gosta. Por uma razão: tinham medo. O medo que, em 1975, os socialistas, Mário Soares e alguns oficiais do Exército não tiveram.
23. O Chega está a propor o nome do tenente-coronel Marcelino da Mata para uma rua de Lisboa. Ele foi torturado. Mas sabe a quantidade de referências que ele tem, nos documentos, a violência e assassinatos? Era um assassino. Fazia incursões no Senegal e regressava gabando-se de ter matado 50 ou 60 homens, mulheres e crianças.
24. A indignação selectiva tira o direito a fazer comparações.
25. Comparar as prisões depois do 25 de Abril com o que aconteceu antes é dúplice. Antes, tivemos entre 30 mil a 40 mil presos políticos.
26. Na ditadura, a tortura era sistemática. A seguir ao 25 de Abril, a violência nunca foi sistemática.
27. Tivemos liberdade a partir do 25 de Abril e só tivemos democracia dez anos depois. No processo, houve turbulência política porque tivemos a mais longa ditadura da Europa, com excepção da União Soviética.
28. A revolução começa com a PIDE a disparar, matando quatro pessoas, no próprio dia 25 de Abril.
29.
Em 1975, a direita de que André Ventura gosta fez terrorismo.
30. Se vai falar de mortes e de torturados, dou-lhe vários exemplos de mortes que o ELP e o MDLP, de extrema-direita, fizeram.
31. Ao falar como fala, Ventura está a justificar a ditadura.
32. Ao fazer uma comparação que é falsa, está a dizer que o que aconteceu depois do 25 de Abril era semelhante ao que acontecia antes.
33. Mais do que uma geração de portugueses nunca pôde, com excepções, associar-se, nunca pôde criar partidos, nunca pôde ter liberdade política.
34. A quem é que deve a separação de poderes? À Constituição de 1976 que insultou.
35. Há uma razão para o que aconteceu nas colónias: a maioria dos países ligados ao colonialismo inglês e francês descolonizaram: Sudão em 1956, Marrocos em 1956, Senegal em 1960, Mali em 1960, Congo em 1960, Benim em 1960.
36. Em 1961, os soldados que ficaram em Goa foram recebidos vergonhosamente quando regressaram a Portugal.
37. A grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar, Marcelo Caetano e dos seus apaniguados, como o general Kaúlza de Arriaga.
38. Kaúlza de Arriaga defendia a tese de que os homens eram mais inteligentes quando vinham dos climas frios do que dos climas quentes.
39. Pouco patriota é ter atrasado a descolonização em Portugal.
40.Pouco patriota é eximirmo-nos das nossas responsabilidades em relação aos que foram a uma dada altura portugueses. É natural que lhes dêmos um tratamento de favor.
41. Devemos respeitar os antigos combatentes, mas isso não legitima a guerra.
42. O que aconteceu nas antigas colónias a seguir ao 25 de Abril não foi culpa nem de Mário Soares, nem de Almeida Santos. Foi culpa de Salazar e de Marcelo Caetano.
43. O colonialismo português é melhor do que os outros? Não. É igual. Tem o mesmo cortejo de violências.
44. Onde há traição à pátria? Na crueldade que o Chega transporta.
45. Se temos orgulho na nossa pátria e na língua portuguesa, devemos ter orgulho nos crioulos.
46. A “revolução miserável” de que está a falar deu a liberdade para dizer o que diz e a democracia para poder estar no Parlamento.
47. Quem lutou contra a ditadura antes do 25 de Abril, lutou por Portugal.
48. Há duas organizações terroristas depois do 25 de Abril: o ELP e as FP-25. O ELP beneficiou de uma complacência gigantesca das autoridades. Quer o ELP, quer as FP-25, foram amnistiados. Os das FP-25 foram condenados e os do ELP não porque, nos anos 1980, a democracia estava a funcionar.
49. Porque é que não pôs um cartaz a dizer “100 anos de corrupção” e pôs só “50”? Ao pôr “50”, está a dizer que a democracia é um regime naturalmente corrupto e que o Estado Novo não era.
50. Você não luta contra a corrupção. O que faz é lutar contra a democracia.
51.
Associar a corrupção à democracia é lutar contra a democracia.
52.
Crueldade em relação às pessoas que vivem miseravelmente. Crueldade em relação
à pobreza. Crueldade em relação aos imigrantes. O Chega é o mais anticristão
dos partidos que conheço.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Livros e capas de Livros
Demorei
séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para
ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de um quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um
desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um
quarto, e continuaria, nessa claustrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem
garanta que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não
as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou
insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da
arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o
leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita
é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do
quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é
o génio de Navokov que permite sucumbir.
terça-feira, 21 de abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Automat
Pegam-se
as duas porque uma não suporta que a outra me critique – lá estás tu, não vês
as horas que trabalha, como chega tarde, o que importa a planta que precisa de cuidados
–, e sou obrigada a intervir em meu desfavor, que sim, que me esqueço muitas
vezes de regar os vasos da varanda, de aniversários de gente que me importa, do meu até, da liturgia dos dias de, que deixo luzes acesas em quartos vazios, que também sou capaz de
odiar, mas não levianamente porque é um acto que exige morrer um pouco por
dentro e não estou disposta a sacrificá-lo por muitas causas nem por muita gente. Mas evito promessas; mata-me mais uma palavra por cumprir.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sobre
o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som
de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem
sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como
nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de
desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.
Não
ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a
harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e
fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se
dizer.
A
violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua
a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana
imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas,
ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados
controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com
eles.
Enfim.
Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da
avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a
Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.
Breviário
Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra.
Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar.
Não forçar as portas que o tempo não abriu.
Não violentar a quietude da clausura.
Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.
Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.
Caminhar sobre raízes secretas.
Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.
Desdobrar um mapa inscrito na pele.
Vestígios de um altar onde ninguém ora.
Hubris et Orbi
A
minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a
tivermos aqui, o mundo lá fora pode
explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos
anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para
o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas
iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez
fosse apenas uma piada de Abril.
O
presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua
excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das
chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder
pode permitir-se o impensável.
O
escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas
as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu
a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa,
histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso
político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos
distinguia dos crazy bastards
que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária
é uma incógnita.
O
regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda
executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou
no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer
simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase
mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.
Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros…
Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar.
Um sucesso completo.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"Vai-te,
dia maldito;
guarda
sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha
sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para
que todos creiam que não estou,
que
sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha
de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como
se fosse já a invulnerável,
aquela
que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e
deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o
sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta
geada que percorre a minha cara.
Ainda
assim, hei-de chegar contigo.
Ainda
assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."
Olga Orozco