Um amigo está empenhado em devolver-me à fé cristã. Obrigada, mas não. Incumpro praticamente todos os pré-requisitos morais. Não amo a Deus sobre todas as coisas, pouquíssimos próximos como a mim própria. Invoco o Seu nome em vão um sem-número de vezes. Não dou a outra face e perdoo mal. Não vou à missa, embora vá à igreja, a várias, frequentemente, e o silêncio de uma igreja vazia é um dos meus vazios mais íntegros. Não matar. Não tenho a certeza. Talvez matasse para proteger ou vingar a mim mesma, a alguns desses poucos que me são tão próximos. Qualquer pessoa é capaz de matar, nem todos levianamente. Creio. Não lamento a morte de homens maus, mas não rejubilo com a morte, nunca com a de um ladrão menor. A minha compaixão é imperfeita, luxuosa. Posso odiar alguém em particular, um rosto, um nome, mas custa-me perceber o ódio a um todo, a um país, a um povo (odiar a humanidade em geral torna-nos menos capazes de odiar uma pessoa em particular? – sobre este avesso não reflectiu o atormentado médico dos Karamázov). Penso-te sem castidade, sem prudência, sem remorso. Não roubo, é certo, procuro não mentir, honrar pai e mãe e a palavra dada, mas obedeço-me ante todos os outros. Às vezes cobiço a graça dos impolutos.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Táxis, Robots e Monarcas
Estudar cinco anos, oito anos, até memorizar nomes de
ruas e cruzamentos, bares, hotéis, restaurantes, seis mil pontos de interesse
na cidade de Londres até ser-se considerado apto para conduzir o icónico táxi
preto – todos os anos, centenas de candidatos sujeitam-se ao rigorosíssimo Knowledge
of London (The Knowledge, com solenidade), que os habilitará, se passarem, a conduzir o distinto black cab. Chamar-lhe um exame oral é um eufemismo; por isso ou por
outra coisa qualquer, chamam-lhe "appearances" e aquilo tem ar de inquisição,
com maiúscula, com o examinando sentado frente ao examinador, munido da sua
memória apenas, desfiando minuciosamente o trajecto de A a B, que se quer o mais curto, com nome e número de ruas, esta à esquerda, aquela à direita, a segunda
a terceira, a fogueira à menor falha. Vinte tentativas, quarenta e uma tentativas.
Estudam pelo “livro azul” – actualmente, um dossier gordo de seis mil pontos de
interesse para um cliente-tipo. Vinte e cinco mil nomes de ruas. Há condutores
de Uber que nos levam a qualquer lugar – inclusive àquele onde nunca tinham
posto as rodas dos carros que conduzem –, sistemas de navegação que se tornaram
omnipresentes, quase sempre omniscientes, apêndices de condução, e há empresas
a iniciar testes para os primeiros táxis autónomos nas ruas de Londres, portanto,
a pergunta inevitável e preguiçosa seria: para quê o esforço? Pelo prazer de
fazer parte da história, pelo luxo de conduzir o icónico táxi preto; talvez porque o dono do galgo irlandês não confie num táxi-robot para transportar o seu cão sozinho, quieto e mudo no banco de trás.
Também não simpatizo, nada nada, com a ideia de ser transportada por um carro
sem condutor. Parece-me um pouco sinistro, até. O mesmo para o esquadrão de 2000 robots-humanóides que compõem as 666 (juro) equipas que competem em Pequim, nos Jogos Mundiais de Robots Humanóides. Há jogadores de ténis, lutadores de
boxe, corridas de 100 metros e meia-maratona. Estou num momento “Velho do Restelo”.
O progresso progride a um ritmo indigesto. Por isso, simpatizo com o esforço
daqueles aspirantes a condutores de um honorabilíssimo táxi preto. Humaníssimos. Alimentar
uma certa resistência, uma pequena dose de insanidade.
Numa sequência destes microcosmos que fazem do 60
minutos o 60 minutos, Anderson Cooper aquece no colo das mãos e com seu hálito uma borboleta-monarca, entorpecida pelo frio, momentaneamente incapaz
de voar. Dois ou três longos sopros e a monarca descola num bater de asas. Por algum motivo, emociono-me,
e deve ser a coisa mais simples para um robot fazer. Ressuscitar a
borboleta, quero dizer. Gosto da história das borboletas-monarcas, da sua jornada
extraordinária, de como as vêem no México, as almas regressadas dos seus mortos.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
terça-feira, 11 de agosto de 2026
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
E A Odisseia? Não é uma Tese de Doutoramento...
Claro que fui ver a Odisseia de Christopher Nolan. Um
realizador que implode edifícios reais, que compra aviões reais para os guiar
contra hangares reais, tudo em proveito de uma sétima arte maior merece que se
lhe dê crédito. Dizer que quase fez Matt Damon afogar-se talvez não seja
exagero, e gostei muito do seu Oppenheimer, com o ali
extraordinário Cillian Murphy.
Não sei bem quando é que começou esta agonia entre espectadores, esta tantas vezes infantilizada determinação em racionalizar e julgar a ficção – muito além de um cilindro de gás na quadriga de Gladiador, ou um starbucks no Game of Thrones –, mas descobri-a tarde: já o Titanic levava mais de vinte anos quando soube da histérica demanda sobre se naquele pedaço de porta de madeira em que Jack, sacrificando-se, salvou a vida de Rose, cabiam ou não cabiam os dois amantes, estudos científicos e tudo, como se o guião de Cameron fosse sobre uma aula de física. Desta vez, há os escândalos de uma Helena de Troia negra e uns cachorrinhos atirados por um penhasco. No total, Lupita Nyong'o deve aparecer uns cinco minutos no filme, e a produção veio confirmar o bem-estar e a integridade física dos bichos, que não, que nenhum cão foi magoado. Não sei se alguém achou que um ciclope numa caverna tinha realmente comido quatro ou cinco homens do elenco. Não admira que se conjuguem discussões bizantinas sobre quem, afinal, anda a gozar com o autismo, se a Joana se a Mafalda. Já para entrar no debate sobre a corrupção orquestrada por Nolan, faltam-me competências. Li o poema de Homero há anos, e as minhas memórias vão sendo adulteradas por todas as produções que precederam esta. Vi, gostei, talvez tenha demorado demasiado, sobretudo porque há sempre aquela sequência interminável de anúncios-estreias-anúncios antes do filme propriamente dito, mas gostei. Sobre ser tudo aquilo também uma lição sobre bem tratar o estrangeiro e, com isso, proteger uma civilização, lamento, mas, estrangeiros ou não, os maus continuam a morrer no fim. Quatro lugares à minha esquerda uma mulher jovem esbracejava a sua indignação porque faltou não-sei-quê, que era o que fazia d’A Odisseia A Odisseia, e mais um tanto de coisas que não percebi. O homem que a acompanhava acenava e encolhia-se, mas podia muito bem ser apenas para nos facilitar a saída.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Crocodilos do Nilo
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, quer crocodilos do Nilo a patrulhar uns fossos escavados numa prisão de alta segurança do país, onde estão alguns dos palestinianos presos na sequência do infame 7 de Outubro. A proposta, dizem, foi aceite pelos serviços prisionais e aprovada no parlamento. Valeram aos prisioneiros, perdão, aos crocodilos, as organizações ambientalistas e pelos direitos dos bichos, e a Let the Animals Live – todos os animais são iguais, mas uns são mais animais do que outros – conseguiu que o Tribunal Distrital de Jerusalém bloqueasse, para já, o plano de Ben-Gvir, a bem dos crocodilos e dos funcionários da prisão. Prisioneiros em fuga devorados por mandíbulas pré-históricas não constam, que se saiba, das preocupações cautelares.
Há tempos, uma conversa sobre a desumanidade de salvar um cão em vez de um homem provocou uma enorme comoção. Depende da pessoa, depende do cão, esse era o escândalo, possivelmente um crime. Confesso em voz alta que se, por absurdo, tivesse de escolher entre salvar o meu cão ou um Donald Trump (já agora, um Ben-Gvir), preferiria o meu cão; o meu filho, quem, aparentemente, não eduquei com devida sensatez, diz que até podia ser um cão qualquer. Ninguém tinha ainda posto a hipótese de salvar crocodilos e, com isso, salvar uns homens.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Mama Mia...
Graça Morais
"Como se prepara uma perdiz?
Como se cozinha? Para pintar é muito simples. Quando os
meus irmãos me traziam as perdizes, pegava nelas e punha-as em cima da minha
mesa de trabalho. Às vezes estava a olhar imenso tempo, antes de começar a ter
coragem de pintar a perdiz. Nunca cozinhei nenhuma. No tempo que estou a
observar a perdiz, crio um afeto e sou incapaz de a comer. Acho-a bonita
demais. Ultrapassa a dimensão da forma para se transformar num símbolo do
martírio, do sacrifício das mulheres.
(...)
O que há de especial num olival?
Depende das horas do dia. De manhã, um olival tem uma luz
muito bonita. As folhas são verdes de um lado e prateadas do outro, ganham uma
cor muito especial. Como hei de dizer? Quase sagrada. Um olival antigo, não
estou a falar dessas oliveiras raquíticas que dão muito dinheiro, mas que eu
detesto. As oliveiras centenárias, além de terem um corpo em que apetece mexer,
a gente sente que é quase o corpo de uma pessoa. Sobretudo de uma mulher. Ao
escurecer, há uma dimensão muito triste, que tem a ver com a nossa tristeza. O
olival é o lugar onde tenho sentimentos mais extremos, mais intensos. De paz,
mas ao mesmo tempo de uma tristeza imensa.
(...)
Falta-lhe pintar muito?
Ai, oxalá ainda consiga pintar muito. Ainda queria ver se
fazia muita coisa. Gosto muito das exposições, mas a partir de certa altura
começo a querer é pintar. Já estou a ferver, com outras ideias."
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Antecâmara
Das varandas brancas descendo em cascata sobre a falésia avista-se a costa espanhola. A proximidade é hipnótica, quase ofensiva. Espanha está mesmo ali, a uma distância ridícula, proibida pelo acaso.
Nos dias quentes de Verão, as árvores emprestam sombra, confortam, embalam a espera. Há uma sala interior que entrevejo, com cobiça, sempre que subo e desço os degraus escarpados, uma sala atapetada, de janelas amplas e abertas para o Estreito, onde os homens se deitam e se ausentam, entre baforadas de kif; não se vê um móvel, apenas cachimbos de água em coloridos berrantes, alguns espalhados, aguardando vez. O Café Hafa é um desses lugares onde a crueldade se instala devagar, fermenta, corrói. Para quem chega, é fácil entregar-se à beleza, apenas. A imensidão dos mares que se namoram e atormentam lá em baixo. Beber do hálito bruto a maresia. Assim se embriagaram escritores, poetas, músicos, expatriados privilegiados como eu. Para quem ali nasce, a geografia é uma emboscada. Lembro-me dos rapazes sentados horas a fio, ruminando o estupor. O desespero visceral. Alguns enchem-se de coragem e fogem, muitas vezes a nado, mas nada como se viu há dias, brotando às centenas das águas de Ceuta. Não há lei que os impeça de partir, antes ou agora, e não terá sido uma lei, uma decisão judicial, a empurrá-los para a fuga, em manada, no espaço de poucas horas. Mensagens sincronizadas, em massa nas redes sociais, a “informar” de fronteiras abertas, teriam tido outro desfecho com outros Governos, noutros locais? Não sei. Há quem instrumentalize a miséria dos outros em proveito próprio, por vingança ou por agenda, e para quem marroquinos, espanhóis de Ceuta ou de Melilla contam pouco. Morreram dezenas de pessoas. Em poucas horas, entraram em Ceuta quase tantos estrangeiros quantos os habitantes. É espantoso que não tenha havido confrontos graves, mais mortos, maiores tumultos. É espantoso que quase todos tenham já regressado ao seu país. Muitos voltarão a tentar, com toda a certeza. Noutro tempo, noutra oportunidade. Nenhuma lei pode revogar a esperança ali à mão, do lado certo do mar.
Para quem visita, certos lugares não passam de "imperdíveis" exóticos, para fotografar e arquivar. Eu também o faço. Mas outros lugares são incorruptíveis como a ilusão de qualquer coisa que se assemelhe a um futuro. Não há uma maneira fácil de resolver isto...
domingo, 2 de agosto de 2026
A primeira esposa mostra o apartamento para alugar. Um décimo e último andar, de amplos terraços e grinaldas de pedra maciça, ogivas perfeitas como arcos de catedral. Não sei a partir de quantos andares um prédio ameaça arranhar os céus, de um décimo andar não será, mas, dali, é espantosa a vista sobre a parte mais baixa do bairro antigo, sobre outros terraços de outros prédios.
Todos os edifícios residenciais crescem para um terraço comum, com estendais de roupa a secar ao sol e tapetes debruçados sobre os parapeitos de betão – e, uma vez por ano, altar de sacrifício onde os homens velhos vêm degolar o cordeiro de Deus para o desjejum (não haverá algo de profano nisto?)
O marido está na Europa, em lua-de-mel com a segunda esposa. São uma família relativamente liberal, ela pode tratar de alguns negócios na ausência dele, e algum nervo do meu rosto, do meu corpo, deve ter-me traído, para abrir um parêntesis de explicações copiosas à margem de uma conversa rasa sobre detalhes de arrendamento. Aceno que sim, esforço-me por sorrir, finjo que tudo me parece conforme, tão conforme como os tapetes pendurados nos murais brancos, um debrum ininterrupto de cores vivas como pássaros, e deixo de ouvi-la por momentos. O vento traz uma brisa de mar, que sei perto, mas talvez não passe de imaginação minha, como as sombras longas, rastejantes, na parede branca defronte.
No cimo da avenida, na torre da Grande Mesquita, anuncia-se a hora da oração; sempre aquele grito áspero que nunca deixará de me sobressaltar, a que nunca me habituarei, Allah hu Akbar, e não sei há quanto tempo estou ali sozinha, no terraço, sem rasto da primeira esposa. Vou encontrá-la na cozinha, de costas voltadas para a porta, ajoelhada sobre um tapete improvisado que me parece o mesmo lenço que ainda há pouco lhe cobria o cabelo negro, negro corvo, sedoso ao olhar, que só algumas destas mulheres podem orgulhosamente exibir. Toda a beleza no cabelo e nos olhos.
Volto ao terraço. Gosto das ruas que se vêem dali, dos olhares que não se cruzam e desses outros que carregam sonhos, da gente que sobe, apressada, a avenida larga, dos homens encostados aos muros baixos, encerrados nas suas histórias por contar, do cheiro a pão cozido a lenha que subiu comigo no elevador estreito de portas verde-musgo. Sei, desde o primeiro momento, que vou ficar.
sábado, 1 de agosto de 2026
"Fecho a porta
oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
Olhos, cenas que não vou lembrar
Hei-de encontrar, dignificar, o sol de uma manhã
E agora, fraco ou
forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
E existe um só
céu, uma febre pagã
E depois de um sim ou não há sempre um amanhã
E agora sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu
Fecho a porta
oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
E o mar e o sol e a chuva só me fazem ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Eu vou
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
E o mar e o sol e
a chuva só me fazem ir
E no fim da grande estrada há sempre um partir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu
Só eu
Só eu
Juntos sou eu
Juntos sou eu
Só eu
Eu vou
E sinto que algo
em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
E agora sinto que
algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu"
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Gosto de morar junto ao mar. Em noites de lua cheia, a Lua paira como um lustre rico e posso sentar-me à varanda e ver como o luar se derrama sobre a água quieta. Uma criatura adormecida sob a gravidade implacável de uma força muda e primordial. A água responde a essa tracção bruta, entre o abandono e a fúria.
Há um erotismo acerado no inalcançável. Na impossibilidade. Não há quem não saiba.
Não tocar.
Não escrever. Permanecer nas margens da
palavra, como a água contida do meu mar em pousio.
Não contar.
Não amar. Não deixar de amar. Ficar nesse lugar inteiro,
intacto.
A luz que não pertence inteiramente ao lugar onde se deita, mesmo quando nele se demora. Toda a luz procura uma forma de fuga. Como a distância, que não separa, mas preserva. Há uma intimidade, uma cumplicidade, que sobrevive apenas na ausência e na recusa, no gesto por cumprir. Pressentir o corpo antes da pele, o nome antes da voz. Decantar o silêncio.
Talvez o erotismo não seja mais do que uma inteligência da separação.
O Mar e a Lua não se encontram, não se extinguem.
Um prestigiado director da PJ
Luís
Neves era alguém cuja imagem pública assentava na exigência ética na
investigação e combate à corrupção, ao crime económico-financeiro, ao tráfico de droga e ao terrorismo. O próprio fez questão de o lembrar. As explicações que apresentou
naquela conferência de imprensa são incompatíveis com essa imagem. O caso do
atrelado é o exemplo mais alarmante. Um bem apreendido numa operação antidroga,
com produtos químicos potencialmente perigosos, exige regras e cuidados que vão
muito além das questões de tesouraria – chamar-lhe um "acto de extraordinária
gestão" é uma tentativa arrogante, no mínimo, de desviar a atenção da gravidade
daquela decisão. Mesmo sem benefício pessoal provado – vamos acreditar que João
Carvalho teve um acto de extraordinária caridade –, o que está também em causa
é a quebra de um padrão de procedimentos que o próprio cargo exigia que se
mantivesse. Inacreditável, tudo isto.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Esopo para a Canalha
Era
uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho
era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos
de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se,
pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok,
mas a televisão continua a ser a televisão.
Um
dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido
– mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação
conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência
artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados;
inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a
cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a
verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram
desmentidos.
Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou
o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo
o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade.
Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o
partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém
desse o devido crédito ao alegado assalto?
E,
assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.
terça-feira, 28 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Ontem
à noite, a RTP1 passou o concerto que os Trovante deram na Meo Arena, no passado Março. Estive para ir e não fui. Este ano tenho tentado e aproveitado,
muito, concertos, teatro, orquestra, mas Março foi um mês difícil e, já não sei
porquê, deixei passar. Tinha tempo. Não sabia que o Luís não tinha. Não sabia nada
da doença, mas, agora, vendo-o ali, percebe-se a fragilidade; até na voz. Ainda
assim, parece impossível; estávamos em Março, passaram quatro meses.
Foi
bom, o concerto. É quase inócuo na televisão, mas a alegria em palco era
visível, vibrante. Viver tudo numa noite já seria a metáfora perfeita para o
reencontro; de repente, é como se o verso ganhasse a espessura crua, intimamente
lúcida da despedida.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Luís Represas
Para Ti, Mãe, Para Ti, Pai
Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praias
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias
Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram menina das sete saias
Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijai-as
Sete mortes evitaram menina das sete saias
Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras montaram menina das sete saias
Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias aos sete encomendaram
Menina das sete saias
Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e sete deixaram
Menina das sete saias
Sete danças que bailaram
Sete vezes que desmaias
Sete luas te ansiaram menina das sete saias
Sete vezes se encantaram
No bosque das sete faias
Sete sonhos desfolharam
Menina das sete saias
terça-feira, 21 de julho de 2026
Descaminho
Há
uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros
do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento
que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do
valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura
final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a
exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como
se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe
que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura
e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.
É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós."
O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu.
Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade.
Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer.
O meu descaminho é de outra natureza.
sábado, 18 de julho de 2026
O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre
O
ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a
confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de
ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo.
A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia,
a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa
situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e
alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade
que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota
máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?
Sobre
as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de
respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser
agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno
de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar,
talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de
continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao
contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo,
onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou
seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada
corresponde integralmente à prova que entregou.
Já
de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs
um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no
cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas.
Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero.
O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso,
a incompetência gritante com que foi implementado.
Não
sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem
ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de
resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Um
clarão dourado, primitivo, pousado sobre a palidez da pele. Velar tudo o que
nela persiste de morte. O êxtase consagrado ascendendo em espirais, sem nunca
encontrar um porto, sem nunca encontrar paz. Há um instante suspenso onde o
beijo pertence a tempo nenhum, e o corpo que se torna templo, labirinto e
abismo. Braços esguios como ramos, frisos caleidoscópicos no contra-azul do
céu, e raízes febris bebendo o esquecimento no osso da terra. A beleza veste-se
de uma obstinação pregueada para que nenhum olhar suspeite da sua avidez. Sob a
sua opulência a sombra espreita e espera, mordendo em sangue a própria
eternidade. Gosto.
Margaret Atwood
(...)
"De repente, os cenários previstos em distopias literárias
tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?
Poderíamos
perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra
Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da
democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985,
muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que
tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais
disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro
disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca
tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se
diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas
apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de
forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por
isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer
coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa
linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando,
volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande
Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo,
seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece
que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.
Como interpreta então este novo momento mundial de grande
impulso bélico?
Pense
no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude
relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu
estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava
congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os
líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder.
Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e
as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a
independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê
agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.
Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões.
Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?
Não,
não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente
do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a
linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor,
elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende
da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a
certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em
funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que
longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização
emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e
reformulada.
Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se
descreve no livro?
Sou
uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que
sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui
[no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem
Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e
comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em
que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para
acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era
necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à
procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso
provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema
de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum
se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as
crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as
pode provar nem refutar."
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Descaramento
Se
as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar
os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de
Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.
O
primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê,
mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame,
sempre rasteiro.
Nojo.
terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
“Eu pensava muito durante as longas horas das
noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e
tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me
parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar
conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a
sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui
aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”
O Outro que Era Eu
Ruben A.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Da imprudência
Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida.
Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário.
Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco.
Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável.
Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Esse Cristiano Ronaldo
Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito.
Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto –, apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo.
Era isto. Está um calor de morrer, literalmente,
diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para
ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por
umas horas.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A Sócrates o que é de Sócrates
E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón.
Inconseguimento...
Julguei
o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu
ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha
lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas
como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois
queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais
incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas,
sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague
outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda
aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um
encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé,
senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até
agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem
sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é
inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar
palavras. Mea Culpa…
sábado, 20 de junho de 2026
Exílio
Os
crimes contra crianças são, talvez, os únicos em que me pronunciaria a favor da
pena de morte. Não a cadeira eléctrica, não a injecção letal, não o pelotão de
fuzilamento do cretino-mor-in-chief. Não. Uma morte refinada e lenta, com
medievais requintes de malvadez – touros de bronze, empalamentos, estiramentos,
rodas e damas de ferro, e assim todos vingados: a Joana, a Valentina, a pequena
Jéssica, a Lara, os meninos franceses, o pequeno Preston, tantos, tantos outros. De resto, sou um
poço de contradições.
Se
pudesse viajar no tempo, a minha amiga recuaria aos anos vinte. Os roaring twenties.
O jazz, o charleston, os bares clandestinos em meias de seda e cigarros em
boquilhas longas. Mulheres de cabelo curto como o meu, uma tensão eléctrica,
frenética, o desejo aberto de cortar com o passado e viver. Mas eu não. Eu viajaria
para um futuro distante, de onde pudesse dissecar a frio este presente a que
pertenço, que desconheço, que me renega.
domingo, 31 de maio de 2026
Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Ainda não digeri a história sinistra dos dois meninos vendados e abandonados pela mãe e por um suposto padrasto, enganados a pretexto de uma brincadeira inocente. Como, porquê, como foram capazes – a mãe, principalmente, obviamente – são perguntas impossíveis de responder, porque é impossível procurar racionalidade na maldade de que somos capazes. Não havendo castigos divinos, confie-se na justiça dos homens, e que seja implacável.
À parte o circo mediático do costume – com o desfile de psicólogos, advogados, agentes da autoridade e por aí adiante, o pai que estava a caminho, que já tinha chegado, que, afinal, continua a dois mil e qualquer coisa quilómetros de distância – comove-me sempre a comoção e bondade do homem que encontrou os meninos, a sorte que tiveram no meio daquela desgraça.
domingo, 24 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Escrevo
anonimamente; com pouquíssimas excepções, lêem-me anonimamente. E, por alguma
razão, lêem-me mais fora de Portugal. A diferença é tão significativa que fui perguntar
a um bot se as estatísticas deste lugar perdido na imensidão da
blogosfera podiam ser coisa de outros bots: um interrogatório quase policial
e várias trocas de dados depois, que não, que é de carne e osso, maioritariamente,
quem por aqui se perde. Sinceramente grata.
É
possível estar meses e meses a escrever num blog sem que uma única “visita” se
acerque: foi assim quando aqui cheguei, em dois mil e vinte, sem contar a
ninguém. Percebo o sentimento de orfandade com que se sai do Sapo Blogs (pior,
suponho, quando se é escorraçado). Quem escreve gosta de ser lido. Indiscutivelmente.
Podemos é não matar por isso. O blogspot talvez não seja a melhor
plataforma para quem quer ser visto, lido, admirado, acarinhado. Sem permitir
comentários, sem publicitar e sem exibir “seguidores”, sem uma forma de contacto, é
o mais anónimo que se pode estar, mantendo um perfil público. Eu gosto assim. Mas
também gosto daquela paleta de cores que identificam tantos e tão diferentes,
tão distantes lugares da gente que me empresta um pouco do seu tempo a troco de
coisa nenhuma, nada disto tem interesse, excepto para mim.
Também leio anonimamente...
terça-feira, 19 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Da vida que se arranca aos dias, um rio de sangue, surdo, que atravessa o ventre e incendeia a boca. No corpo, no meu corpo, geografia de sal suor e espanto, a existência escreve-se e esgota-se. Exijo silêncio. Ainda que atiçando o vento. Um rasgão húmido sob as costelas. Tactear o escuro onde o tempo deixou de ser meu. E a memória voraz do que se ausenta.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
" - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."
Memórias Minhas, Manuel Alegre
Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.
Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis.
Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cristo Velato
A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe.
O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo.
Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Havia (também) uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.
Hoje
há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se
menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um
Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses
senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os
caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece
obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do
vazio.
Sento-me
na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.