sexta-feira, 15 de maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 " - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."

Memórias Minhas, Manuel Alegre


Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.

Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis. 

Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cristo Velato

A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe. 

O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo. 

Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.

Hoje há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do vazio.

Sento-me na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.


sábado, 9 de maio de 2026

"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit group. I am well aware that some members of the household are more prominent than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the inevitable result of lack of biographical information but it is, I think, preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method can lead.

The Brontë story has always been riddled with myths."

The Brontës, Juliet Barker


Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026


E eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação. Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e meigo. Reescrever a noite sem urgência.

Desfaz-se a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência. Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome, sob a pele.

Gosto que fiques.



sexta-feira, 1 de maio de 2026


Imagem e Semelhança

Quando a noite vier, e a relva se parecer com o mar, e as ondas se parecerem com os arbustos do jardim, e o teu rosto se parecer com o que foi suposto e o meu rosto se parecer com o que deveria ser, e os livros contarem o que deveria ser vivido, e a vida se aproximar do sonho que foi sonhado, e esse sonho se parecer com o que irá acontecer na manhã seguinte  e o ouvinte julgar que escutou o que está prometido desde aquele tempo e desde aquela parte, e a criança se parecer com o homem que há-de haver e a mulher com a criança feita que lhe prometeram ter, as pálpebras descidas parecer-se-ão com o sol entrando no horizonte e tudo terá a mesma origem, tudo se reunirá na mesma fonte, e os sete mil milhões conhecerão a imagem de quem sem saber são pajem.

O Livro das Tréguas

Lídia Jorge não escreveu assim, ou, pelo menos, não se editou assim, mas eu gosto de lê-lo assim, corrido, de um trago.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Fio de Ariadne

Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos, trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa, partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa, o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das ruas.

Fez é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito, tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas. Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um corpo.

Também tenho saudades de ti.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

A virtude de ler poemas, ou contos, ou crónicas, é poder alterar a ordem da leitura sem obediência, sem contradições, abusando de todos os atalhos e caminhos incoerentes, desconhecidos, e com isso fingir que ainda sou dona da minha vontade.



Atentados

A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune, fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos, que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight, fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática, mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento, absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –, sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço obcecada com isto, e devo estar.

Fui ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.  

Os filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético da Terra, acho impressionante.

Caçámo-las, comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.





sábado, 25 de abril de 2026




Transcrevo as “52 frases de Pacheco Pereira que André Ventura tentou boicotar”, e que Bárbara Reis recompilou. Agradeço-lhe o sacrifício. Imagino que foi preciso ouvir aquilo tudo outra vez, e é preciso coragem. Eu aguentei mal a primeira, e de algumas frases já nem me lembrava, tal foi a berraria.


1. Se Ventura pensa que a guerra foi “no Ultramar”, os presos nas colónias eram portugueses. Se pensa que foi uma “guerra colonial”, como é nacionalista, dará razão aos angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos que se revoltaram contra Portugal.

2. Se diz que “traímos” a seguir ao 25 de Abril é porque Angola, Moçambique e Cabo Verde eram parte de Portugal, logo, os presos eram portugueses.

3. Se “lutava pelo seu país” caso a Espanha invadisse Portugal, concordará que os angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos estavam a fazer o mesmo: a lutar pelo seu país.

4. A maioria dos presos nas colónias que eram guerrilheiros ia parar à PIDE ou aos aquartelamentos militares e muitos foram executados.

5. Grande parte dos presos em Angola, Moçambique e Cabo Verde eram enfermeiros, funcionários dos Correios, professores primários, pastores protestantes e estudantes aliciados para regressarem da metrópole.

6. Os povos das colónias eram tidos pelo governo como portugueses e isso vê-se nos cartazes da propaganda dirigida aos movimentos de libertação. Um tema dominante dos cartazes é sempre a mensagem: “Vocês são portugueses.”

7. Comparar os casos de tortura antes e depois do 25 de Abril é um absurdo. Depois do 25 de Abril, são casos isolados.

8. Durante anos, o Exército português tinha a função de impedir os abusos dos fazendeiros. Isso está altamente documentado.

9. A palmatória era usada nos castigos corporais dos colonizados. Quando um criado se portava mal, mandavam-no ao posto para receber palmatoadas.

10. Há comparações que são elas próprias mentiras.

11. Comparar o que aconteceu no PREC com o que aconteceu nos 48 anos anteriores é uma comparação que é uma mentira.

12. Quarenta e oito anos de violência, prisão, tortura, censura e humilhação das pessoas comuns pelas autoridades deixou uma herança de ressentimento e vontade de vingança.

13. Comparar dez ou 20 mil casos de tortura em 48 anos com meia dúzia de casos a seguir ao 25 de Abril é dizer que a democracia é igual à ditadura.

14. Só se pode comparar os dois anos do PREC com os 48 anos da ditadura se o que aconteceu nesses dois anos tivesse acontecido nos 50 da democracia. E não aconteceu.

15. Salazar não precisava de dar ordens directas. Tinha uma polícia política que prendia sem qualquer espécie de regras. E também a GNR, a PSP e a Legião Portuguesa.

16. Um caso em que Salazar teve responsabilidade: Humberto Delgado.

17. Houve prisões e violências no PREC, mas a maioria das pessoas foram libertadas poucos meses depois e nunca passaram por cadeia efectiva decidida por um tribunal.

18. Antes do 25 de Abril, muitos presos já tinham a pena cumprida e eram sujeitos a “medidas de segurança” que, na prática, significavam prisão perpétua.

19. Exemplos de torturas usadas pela PIDE em Moçambique: violação anal com garrafas de cerveja ou paus; acirrar cães para morderem prisioneiros nas suas celas; mutilação do pénis com queimaduras; aplicação de choques eléctricos em diferentes partes do corpo; privação prolongada de água e alimentos; fracturas de pernas e braços por meio de pancada; tortura da pendura, suspensão do tecto com a cabeça para baixo; agressões com chamboco, vergasta, palmatórias, correntes de bicicleta, cavalo-marinho com pontas de aço; imobilização dos presos, atando pés e mãos um suporte fixo. São três páginas. Sabe qual é o problema? Eles são pretos. O problema é que estes homens presos eram tratados como sub-homens.

20. A violência nas colónias aconteceu durante todo o período colonial.

21. Não tente interromper quando vou dizer uma coisa que não quer ouvir.

22. As Audiências Sakarov, sobre as violações dos direitos humanos na União Soviética, organizadas em Lisboa em 1983, não contaram com uma única das pessoas do passado de que Ventura gosta. Por uma razão: tinham medo. O medo que, em 1975, os socialistas, Mário Soares e alguns oficiais do Exército não tiveram.

23. O Chega está a propor o nome do tenente-coronel Marcelino da Mata para uma rua de Lisboa. Ele foi torturado. Mas sabe a quantidade de referências que ele tem, nos documentos, a violência e assassinatos? Era um assassino. Fazia incursões no Senegal e regressava gabando-se de ter matado 50 ou 60 homens, mulheres e crianças.

24. A indignação selectiva tira o direito a fazer comparações.

25. Comparar as prisões depois do 25 de Abril com o que aconteceu antes é dúplice. Antes, tivemos entre 30 mil a 40 mil presos políticos.

26. Na ditadura, a tortura era sistemática. A seguir ao 25 de Abril, a violência nunca foi sistemática.

27. Tivemos liberdade a partir do 25 de Abril e só tivemos democracia dez anos depois. No processo, houve turbulência política porque tivemos a mais longa ditadura da Europa, com excepção da União Soviética.

28. A revolução começa com a PIDE a disparar, matando quatro pessoas, no próprio dia 25 de Abril.

29. Em 1975, a direita de que André Ventura gosta fez terrorismo.

30. Se vai falar de mortes e de torturados, dou-lhe vários exemplos de mortes que o ELP e o MDLP, de extrema-direita, fizeram.

31. Ao falar como fala, Ventura está a justificar a ditadura.

32. Ao fazer uma comparação que é falsa, está a dizer que o que aconteceu depois do 25 de Abril era semelhante ao que acontecia antes.

33. Mais do que uma geração de portugueses nunca pôde, com excepções, associar-se, nunca pôde criar partidos, nunca pôde ter liberdade política.

34. A quem é que deve a separação de poderes? À Constituição de 1976 que insultou.

35. Há uma razão para o que aconteceu nas colónias: a maioria dos países ligados ao colonialismo inglês e francês descolonizaram: Sudão em 1956, Marrocos em 1956, Senegal em 1960, Mali em 1960, Congo em 1960, Benim em 1960.

36. Em 1961, os soldados que ficaram em Goa foram recebidos vergonhosamente quando regressaram a Portugal.

37. A grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar, Marcelo Caetano e dos seus apaniguados, como o general Kaúlza de Arriaga.

38. Kaúlza de Arriaga defendia a tese de que os homens eram mais inteligentes quando vinham dos climas frios do que dos climas quentes.

39. Pouco patriota é ter atrasado a descolonização em Portugal.

40.Pouco patriota é eximirmo-nos das nossas responsabilidades em relação aos que foram a uma dada altura portugueses. É natural que lhes dêmos um tratamento de favor.

41. Devemos respeitar os antigos combatentes, mas isso não legitima a guerra.

42. O que aconteceu nas antigas colónias a seguir ao 25 de Abril não foi culpa nem de Mário Soares, nem de Almeida Santos. Foi culpa de Salazar e de Marcelo Caetano.

43. O colonialismo português é melhor do que os outros? Não. É igual. Tem o mesmo cortejo de violências.

44. Onde há traição à pátria? Na crueldade que o Chega transporta.

45. Se temos orgulho na nossa pátria e na língua portuguesa, devemos ter orgulho nos crioulos.

46. A “revolução miserável” de que está a falar deu a liberdade para dizer o que diz e a democracia para poder estar no Parlamento.

47. Quem lutou contra a ditadura antes do 25 de Abril, lutou por Portugal.

48. Há duas organizações terroristas depois do 25 de Abril: o ELP e as FP-25. O ELP beneficiou de uma complacência gigantesca das autoridades. Quer o ELP, quer as FP-25, foram amnistiados. Os das FP-25 foram condenados e os do ELP não porque, nos anos 1980, a democracia estava a funcionar.

49. Porque é que não pôs um cartaz a dizer “100 anos de corrupção” e pôs só “50”? Ao pôr “50”, está a dizer que a democracia é um regime naturalmente corrupto e que o Estado Novo não era.

50. Você não luta contra a corrupção. O que faz é lutar contra a democracia.

51. Associar a corrupção à democracia é lutar contra a democracia.

52. Crueldade em relação às pessoas que vivem miseravelmente. Crueldade em relação à pobreza. Crueldade em relação aos imigrantes. O Chega é o mais anticristão dos partidos que conheço.



Gosto, sobretudo, da 52. Epílogo perfeito. 
Não temos todos de ser bons cristãos, só os que gostam de se deixar filmar a entrar e a sair da missa.
Se não fosse a “revolução miserável”, André Ventura e os seus mariolas estariam encolhidos em casa, caladinhos e apavorados, ou marchando obedientemente às ordens dos três Salazares que o líder do bando gostava de parir. Ou finge a gritos que gostava, parece-me ser mais isso: o espectáculo deve continuar, há tique-toques para alimentar.
De resto, eu gosto do 25 de Abril. Gosto que tenha acontecido o 25 de Abril. Gosto do vermelho profundo dos cravos, do debrum macio das pétalas, rendilhado. Gosto do sabor a teimosia.




quinta-feira, 23 de abril de 2026

Livros e capas de Livros

Demorei séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de um quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um quarto, e continuaria, nessa claustrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem garanta que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é o génio de Navokov que permite sucumbir.




terça-feira, 21 de abril de 2026

Não declaro morte ao Sol, não é caso para tanto, mas é verdade que suporto melhor estes dias cinza. É mais fisiológico do que um estado de alma (mentira, é bastante dos dois), a minha pele clara clara escalda-se até na sombra do Verão Verão, e tenho uma tensão arterial incompatível com temperaturas acima de 20ºC. Gosto de uma tarde luminosa, sim, mas na brevidade de um quadro de Vermeer.




domingo, 19 de abril de 2026

Automat

Pegam-se as duas porque uma não suporta que a outra me critique – lá estás tu, não vês as horas que trabalha, como chega tarde, o que importa a planta que precisa de cuidados –, e sou obrigada a intervir em meu desfavor, que sim, que me esqueço muitas vezes de regar os vasos da varanda, de aniversários de gente que me importa, do meu até, da liturgia dos dias de, que deixo luzes acesas em quartos vazios, que também sou capaz de odiar, mas não levianamente porque é um acto que exige morrer um pouco por dentro e não estou disposta a sacrificá-lo por muitas causas nem por muita gente. Mas evito promessas; mata-me mais uma palavra por cumprir.


sexta-feira, 17 de abril de 2026



pretensiosismo dos zelosamente enojados com o pretensiosismo dos outros não é pretensiosismo?



Sobre o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.

Não ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se dizer.

A violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas, ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com eles.

Enfim. Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.


quarta-feira, 15 de abril de 2026


Há noites em que a noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol, sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um instante até deixar-se pousar na minha pele.



terça-feira, 14 de abril de 2026


Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?


domingo, 12 de abril de 2026

Rise, o Quinto Passageiro

Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II. 


NASA

Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto. 

Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.



NASA

Breviário

Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra. 

Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar. 

Não forçar as portas que o tempo não abriu. 

Não violentar a quietude da clausura. 

Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.

Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.

Caminhar sobre raízes secretas.

Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.

Desdobrar um mapa inscrito na pele.

Vestígios de um altar onde ninguém ora.


Hubris et Orbi

 


A minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a tivermos aqui, o mundo lá fora pode explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez fosse apenas uma piada de Abril.

O presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder pode permitir-se o impensável.

O escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa, histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos distinguia dos crazy bastards que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária é uma incógnita.

O regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.

Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros… 

Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar. 

Um sucesso completo.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

 

"Vai-te, dia maldito;

guarda sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;

caminha sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,

para que todos creiam que não estou,

que sou um sinal de despedida sobre as pedras;

fecha de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,

como se fosse já a invulnerável,

aquela que sem pena pode provar os gestos dos outros;

e deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,

o sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:

esta geada que percorre a minha cara.

Ainda assim, hei-de chegar contigo.

Ainda assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."


Olga Orozco


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Belas

 


Annie Leibovitz
 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Ártemis II

 


"The Artemis II crew captured the moon eclipsing the sun. Photograph: AP"


Toda a Magia tem um Preço

Éric Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.

Toda a magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços, nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar, de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O caminho que conduz ao deserto de nós próprios.

Alicia Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores, executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir, na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa, predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de possibilidades,  na facilidade com que nos permitimos desistir.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Rosalía

Não gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.

Pode ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.  



Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho. 

Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

"We're finishing the job"

A História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro, era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em honra do senhor.

“overwhelming violence of action against those who deserve no mercy … We ask these things with bold confidence in the mighty and powerful name of Jesus Christ.”

Não se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si, cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa, inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade, entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do mandato…

Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.

Por falar em outros.

A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados de Meloni?

O Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires, porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de dentes.

Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.




terça-feira, 31 de março de 2026

Natureza(s)

"Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais,"

Mas, se calhar, podíamos. Os animais matam sem prazer, sem metáforas. A sua crueldade é rigorosa e funcional, não mente e não pede absolvição. É a nossa superioridade que nos torna maléficos, afinal.


Há uma violência muito particular em retirar às pessoas as palavras que as ajudam a nomear o mundo. Deixar fermentar uma cegueira sem cor, insidiosa e lenta como um bolor. Carnívora.


sexta-feira, 27 de março de 2026


...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.





quarta-feira, 25 de março de 2026

Tuvalu

Não recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte de culpa.

Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania. 

Um predador paciente, o mar.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as. 

Gosto de ouvir os pássaros de olhos fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora, as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga, absurda.

Gosto de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me tome sem pedir licença.


sexta-feira, 20 de março de 2026


Caminhar por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.


Dias do meu Pai

Às vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto, porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais. Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está bem.

Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?, disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.

As primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.

A guerra é um nojo.


quinta-feira, 19 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026


Em vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram (não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.

A administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes, ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar. 



Mesmo sob as ruínas existem lugares para habitar. Fragmentos de esperança que sobrevivem à dissolução. Podem ser palavras; a palavra encontra sempre um caminho.


domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026


Não há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença: a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível. Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome. Céus, as saudades que eu tenho de ti…


quarta-feira, 11 de março de 2026




Pequenos campos de batalha, as palavras
ama-se. sangra-se, morre-se.