Demorei
séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para
ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de um quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um
desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um
quarto, e continuaria, nessa claustrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem
garanta que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não
as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou
insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da
arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o
leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita
é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do
quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é
o génio de Navokov que permite sucumbir.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Livros e capas de Livros
terça-feira, 21 de abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Automat
Pegam-se
as duas porque uma não suporta que a outra me critique – lá estás tu, não vês
as horas que trabalha, como chega tarde, o que importa a planta que precisa de cuidados
–, e sou obrigada a intervir em meu desfavor, que sim, que me esqueço muitas
vezes de regar os vasos da varanda, de aniversários de gente que me importa, do meu até, da liturgia dos dias de, que deixo luzes acesas em quartos vazios, que também sou capaz de
odiar, mas não levianamente porque é um acto que exige morrer um pouco por
dentro e não estou disposta a sacrificá-lo por muitas causas nem por muita gente. Mas evito promessas; mata-me mais uma palavra por cumprir.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sobre
o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som
de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem
sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como
nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de
desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.
Não
ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a
harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e
fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se
dizer.
A
violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua
a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana
imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas,
ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados
controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com
eles.
Enfim.
Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da
avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a
Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.
Breviário
Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra.
Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar.
Não forçar as portas que o tempo não abriu.
Não violentar a quietude da clausura.
Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.
Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.
Caminhar sobre raízes secretas.
Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.
Desdobrar um mapa inscrito na pele.
Vestígios de um altar onde ninguém ora.
Hubris et Orbi
A
minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a
tivermos aqui, o mundo lá fora pode
explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos
anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para
o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas
iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez
fosse apenas uma piada de Abril.
O
presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua
excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das
chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder
pode permitir-se o impensável.
O
escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas
as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu
a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa,
histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso
político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos
distinguia dos crazy bastards
que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária
é uma incógnita.
O
regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda
executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou
no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer
simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase
mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.
Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros…
Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar.
Um sucesso completo.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"Vai-te,
dia maldito;
guarda
sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha
sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para
que todos creiam que não estou,
que
sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha
de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como
se fosse já a invulnerável,
aquela
que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e
deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o
sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta
geada que percorre a minha cara.
Ainda
assim, hei-de chegar contigo.
Ainda
assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."
Olga Orozco
terça-feira, 7 de abril de 2026
Toda a Magia tem um Preço
Éric
Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma
Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.
Toda a
magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e
continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços,
nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego
bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que
nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar,
de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O
caminho que conduz ao deserto de nós próprios.
Alicia
Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três
ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e
defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para
que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por
que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e
também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de
outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há
os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções
romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a
televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA
propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o
lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores,
executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a
arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é
escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de
linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir,
na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de
mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo
analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão
de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um
esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa,
predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda
a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de
possibilidades, na facilidade com que nos permitimos desistir.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Rosalía
Não
gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é
sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom
título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca
municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã
Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.
Pode
ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.
Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho.
Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"We're finishing the job"
A
História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência
dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma
imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro,
era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para
acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em
honra do senhor.
Não
se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o
descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe
um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está
aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si,
cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais
civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de
mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um
pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa,
inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem
nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade,
entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de
Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o
gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte
inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto
a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do
mandato…
Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto –garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.
Por
falar em outros.
A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar
atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados
de Meloni?
O
Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires,
porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e
abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas
políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos
EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de
dentes.
Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.
terça-feira, 31 de março de 2026
Natureza(s)
"Se
não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo
para não viver inteiramente como animais,"
Mas, se calhar, podíamos. Os animais matam sem prazer, sem metáforas. A sua crueldade é rigorosa e funcional, não mente e não pede absolvição. É a nossa superioridade que nos torna maléficos, afinal.
sexta-feira, 27 de março de 2026
...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.
quarta-feira, 25 de março de 2026
Tuvalu
Não
recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui
pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um
capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa
notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado
pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores
serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha
ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação
ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram
as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um
futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu
pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte
de culpa.
Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania.
Um predador paciente,
o mar.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as.
Gosto de ouvir os pássaros de olhos
fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso
certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O
mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora,
as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga,
absurda.
Gosto
de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar
o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me
tome sem pedir licença.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Caminhar
por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada
sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir
a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza
de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de
mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me
as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.
Dias do meu Pai
Às
vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto,
porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e
parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção
de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais.
Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai
sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e
angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois
competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e
que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com
gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner
e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está
bem.
Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?,
disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de
olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.
As
primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu
pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os
Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das
feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra
contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum
conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser
pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas
envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.
A
guerra é um nojo.
quinta-feira, 19 de março de 2026
quarta-feira, 18 de março de 2026
Em
vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e
geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade
empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se
porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram
(não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente
egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.
A
administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem
pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas
para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura
de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear
as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes,
ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar.
domingo, 15 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
Não
há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a
chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença:
a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao
espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do
corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível.
Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da
minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos
arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o
ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome.
Céus, as saudades que eu tenho de ti…
quarta-feira, 11 de março de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Nem todas as vidas importam
O Chega fica calado sobre os polícias maus, ou sobre os neonazis do grupo 1143,
porque André Ventura e o seu bando consideram, não só, aceitável como merecido
que se abuse, maltrate e torture imigrantes pobres e de pele escura. Tal como
os discípulos de Donald Trump consideram aceitável, talvez merecido, que se
bombardeie e mate, eventualmente, crianças numa escola, porque as vidas dos que
professam como nós valem mais; valem tudo. O mesmo aceitável que tolera a
Israel um êxtase de destruição, bombardeando tudo o que mexe, em cada esquina
um inimigo a abater, até à expulsão do último palestiniano, até à ocupação pela
força bruta de toda a terra desejada; há muito que esta Israel deixou de lutar
para se defender.
Todas as guerras são sujas e há sempre danos colaterais, esse eufemismo infame para suavizar a morte de inocentes. Trump e a sua gente – entre eles e elas, o detestável Pete Hegseth – não inauguraram uma forma de conflito que mata por descaso com a consciência anestesiada na ideia de um bem maior e que a toda a hora atropela o esgotado, moribundo, direito internacional. O que Trump inaugurou – em democracia, porque, na verdade, importou dos piores regimes que finge desdenhar, mas cobiça, inebriado com a amplitude de poder que o cargo lhe confere – foi um desprezo total, patológico, pela moralidade, pela decência, pela lei, pelas consequências dos seus actos. Qualquer semelhança com os ditadores que jura combater é pouco mais que um pormenor: o presidente dos EUA vê-se como um ungido, inimputável, e o mais assombroso é perceber quantos (e como) o bajulam e lhe obedecem. O que se diria de Joe Biden, de Barack Obama, da esquerda que tanto incomoda os arautos da laicidade e da liberdade de expressão (tão) selectiva, se algum desses se deixasse filmar, no Oval Office, liturgicamente rodeado de pastores e fervores religiosos. Donald Trump é o líder de uma seita e a Casa Branca tornou-se um covil de fanáticos, aduladores e, felizmente, de oportunistas – provavelmente, a derradeira esperança reside nos últimos….
Não
se trata de lamentar a deposição ou a morte de ditadores execráveis, ou a punição
severa de violadores e assassinos, como alguns gostam de difundir e confundir
para acomodar a consciência, como se ser-se contra um facínora nos atirasse
inevitavelmente e sem pudor para os braços de outro; trata-se de manter o
mínimo de empatia e humanidade, de honrar acordos, de preservar o que faz de nós menos
iguais aos bárbaros que desprezamos.
Presidenciáveis?
“Se eu lesse isto, contratava-me…”, dizia do próprio curriculum vitae, há anos, um amigo acabado de formar, embebido na azáfama que se segue, o melhor currículo, a melhor figura, o melhor emprego. Aqueles discursos na Assembleia da República, a eloquência que serve a transição de cargos, lembram-me, por vezes, esse excesso quase primário. Muita pompa, muita circunstância, e parece mesmo que é desta que o país se faz país, e não um feudo de apaniguados. E eu insisto em pensar que algum dia terá de ser. Algum dia o país há-de fazer-se moderno e próspero. O Presidente da República não pode muito, mas pode escolher não ser uma distracção. Conforta-me a insipidez de António José Seguro, pasme-se. Um pouco mais de decoro. Marcelo Rebelo de Sousa falou demais, beijou demais, esgotou-se. Esgotou-nos. Acabou.
segunda-feira, 9 de março de 2026
E
este silêncio rubro, ondeando lento sobre os ombros nus de um tempo suspenso. Luas
de pedra sobre o ar quieto, cristalizado: a vida, a morte, o amor e o ódio, paixões
dissolutas, lagos de luz dourada no regaço côncavo da rocha cinzelada de
séculos. Cicatrizes do passado. A névoa ocre, fino véu em decomposição, e o
odor macerado do abandono. Mil cambiantes de cinza sobre o dorso do vento átono,
imperial, e o latejar compassado, visível, sob a pele de mármore do meu
pulso fino, habitáculo de memórias ancestrais.
quinta-feira, 5 de março de 2026
António Lobo Antunes
Morreu outro dos meus.
Já escrevi: Há um motivo, incorrigível, para que nunca até esta data tenha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura a António Lobo Antunes: é um dizer (ou escrever) intraduzível. Não basta a fluência na Língua, em ambas, traduzida e tradutora: é preciso ser-se português dos quatro costados e outras tantas gerações no mínimo para pasmar com aquilo primeiro, e ser capaz de conduzi-lo a outro idioma depois, sem corromper o espanto. É um não-sei-quê que vem não-sei-de-onde, que, sim, ao fim de alguns parágrafos intermináveis e uns quantos livros mais ao estilo pode levar ao fastio; mas não a mim.
terça-feira, 3 de março de 2026
“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim
esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha
atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há
rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho,
com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se
esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar
sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as
ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e
cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas
enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco
empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido,
angustioso, rasga o horizonte.”
Páscoa Feliz
José Rodrigues Miguéis
Também
sou dessas; citações e etc.
Ontem
também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas
ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.
segunda-feira, 2 de março de 2026
É mesmo aberrante...
O que se relata nesta reportagem do PÚBLICO é absolutamente chocante. As respostas dadas pelos responsáveis, irresponsáveis, escolares, são tão confrangedoras que é difícil conter o espanto. Não sabiam, não tinham de saber, então ia agora investigar-se quem os miúdos querem trazer à escola. Deseducar pela demissão. É chocante, preocupante e é tão triste...
“Quando vi os nomes que os alunos me entregaram para a direcção autorizar, fui ao TikTok e vi-o sempre em tronco nu”, recorda a directora adjunta. Acaba, porém, a admitir entre risos que foi apenas nos dias seguintes à vinda do influenciador que soube, pelos alunos, que Gonçalo Maia “faz filmes pornográficos”. “E eu disse-lhes: Oh, não tenho nada a ver com isso. Ele aqui portou-se bem”
domingo, 1 de março de 2026
Outro Monte dos Vendavais
Emerald
Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação
entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os
cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo,
cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX,
que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está
lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.
Um
livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os
realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros
saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel.
Não é.
Há
um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de
Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e,
francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot
Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez
seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja
essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido.
Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do
romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa
transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).
Depois,
parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é
bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e
ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me
desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da
comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder
nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.
Não
interessa nada.
Há
um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de
brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Gostar de, Gostar do/a – ou, a arte é maior se criada por patifes, infelizes e afins?
Esbarrei
num texto insolente. No substack, essa outra plataforma que desconhecia em
absoluto até pouco antes da morte anunciada do SapoBlogs – e onde, pelo sim, pelo
não, decidi criar uma cópia o mais fiel possível desta página, não vá o diabo
do economês tecê-las e a blogspot decretar a expulsão compulsiva destas
crónicas de coisa nenhuma.
Um
parêntesis para dizer que, pese embora eu ter exterminado sem grandes
arrependimentos o meu primeiro blog, alojado na Sapo, precisamente, parece-me
bárbaro que se apaguem, literalmente, vinte e não sei quantos anos de escritos,
sejam válidos ou menos válidos. Por outro lado, encetar
esforços, financeiros e outros, para deixar em arquivo páginas inteiras de
irrelevâncias, na base em o que importa é ler e escrever não importa o quê,
também me parece inglório. Que interesse teria, para a posteridade, guardar ad
aeternum o que vai por estas páginas, por exemplo e por arrasto com boa
literatura, fios de pensamento interessado e interessante, gente com uma visão
aguda e insaciada do mundo e do outro, rastros de intelectualidade
genuína, como ouço por aí dizer e bem? Nenhum.
O texto que encontrei orbita colericamente esta tensão; um bardamerda – cheio de F´s e C´s pronunciadíssimos – para os intelectuais de estufa, citadores oficiais de eloquências conhecidas e várias, a cultivada improfundidade que é não ler grandes clássicos, por mais penoso. Leitura estética versus leitura viva (serão mutuamente exclusivas?). As grandes obras nascem da dor, da angústia, da obsessão, da miserabilidade de ser humano. Também me parece. O ódio, o rancor, a inveja, também são fontes legítimas. Sangrar, não embelezar. É maior a arte que nasce do feio? E, depois, deixamos o génio compensar o carácter? A pergunta é recorrente e talvez nem faça sentido assim. Dali era um intratável e eu adoro a obra que criou. Picasso tratava as mulheres como descartáveis, era manipulador, cruel, emocionalmente abusivo. Caravaggio matou um homem. Sylvia Plath era intensamente auto-destrutiva; Patricia Highsmith, odiosamente antissemita, tal como Wagner, descaradamente. Tolstói pregava a fraternidade universal e esgotava a mulher Sofia em silêncios e desmandos. Simone de Beauvoir escreveu sobre opressão, autonomia, condição feminina, enquanto explorava a vulnerabilidade de mulheres mais jovens. Tragédia íntima, violência concreta, nem todo o feio é da mesma ordem. Podemos gostar de e não gostar do, não gostar da. Há um conflito demasiadas vezes.
Divago
um pouco. O que li é mais sobre quem consome e menos sobre quem cria; mais
sobre a distinção entre o sentir e o fingir.
Os
patifes mortos são mais fáceis de suportar.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Lembro-me
de ser miúda e deslumbrada com a patinagem artística. Ficava maravilhada com
aquela dança sobre gelo, tão ágil, aparentemente tão fácil, e sofria horrores
quando via cair alguém; doía-me na alma de menina. Sobretudo, achava espantoso
que, depois de tanto rodopiar, fossem capazes de manter o mínimo de equilíbrio,
quanto mais seguir inteiros, deslizando elegantemente sobre o gelo. Às vezes
tentava eu, rodopiar no chão da sala, e acabava enjoadíssima. Momento angular
para totós.
O meu
filho chama-me para ver o par Miura-Kihara. Quero saber se já acabaram. Continua
a custar-me vê-los cair…
–
És tão estranha, mamã…
Não sou?
Brava Ucrânia
Wolfgang Schwan/AgênciaAnadolu | Getty Images
Também
me espanta a resistência ucraniana. Quatro anos de violação continuada e bruta suportados
com uma coragem que roça a loucura. Vladimir Putin enganou-se nos cálculos, subestimou
o Presidente Zelensky. Quatro anos e milhares de mortos depois, a “operação
militar especial” traduz-se numa carnificina que rendeu quanto de
território ucraniano à Rússia? É inacreditável.
A Rússia não está a ganhar, mas não sei se está a perder. Quanto tempo mais vão os ucranianos resistir? São bravos, mas parece impossível Putin recuar. É-lhe indiferente quantos mais recrutas enviará para a morte – russos, norte-coreanos, quenianos –, apostou a sua sobrevivência política e fez-se refém da sua própria infâmia.
Brava Ucrânia.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Águas Passadas não Movem Moinhos
"– E porquê Génova?
– Tem gente espantosa nas ruas. À noitinha, quando saímos
do hotel, é um mar de gente. E deixamo-nos ir, conduzidos ao sabor da multidão,
sem objectivo, aos ziguezagues, numa direcção, na outra, sentindo que a nossa
vida está ligada àquela massa de gente, fundida nessa massa psicologicamente.
Começamos a acreditar que é possível uma alma única do mundo, muito semelhante
àquela que a Nina Zarechnaya interpretou na sua peça, Konstantin Gravilovich. A
propósito, onde está agora a Zarechnaya? O que será feito dela?"
E
enquanto Konstantin vai narrando as desgraças de Nina – o filho que morreu, o
desamor de Trigorin e o fracasso da sua carreira como actriz –, as duas velhotas
ao meu lado direito vão conjurando espantos, um ahhhh… de cada vez. Já
antes tinham reprovado o beijo prolongado de Trigorin a Nina (ou seria o de Ivo Canelas a Rita Rocha Silva?), um ahh bastante mais austero. Uma delícia.
Recuo
no tempo, por momentos. Mulheres nos seus vestidos de cauda, homens de fraque,
o exagero do teatro, o escândalo, a sobriedade, não sei se muito longe desta, competente,
sim, mas muito longe do brilhantismo anunciado. Sempre aplaudido de pé, isso
sim, tudo hoje se aplaude de pé, santo deus, que gente tão fácil de deslumbrar.
Ou serei eu, um pouco deslocada. Devia deixar-me ir, como a multidão na Génova
de Tchékhov. O meu mais recente aplauso de pé foi para os JaFumega, no CCB. Quarenta
e cinco anos de carreira, e o meu pai viu nascer parte daquele projecto.
Merecia. Toca a banda no coreto, que vontade de dançar. Vou sair e comer um duchesse.
Porque posso.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Tangos de Satanás
– Hamnet está nos
cinemas…ouviste? O Hamnet de Maggie O’Farrel está nos cinemas, devíamos já ter
aqui o livro, porque as pessoas vão começar a pedir. E o Monte dos Vendavais.
Ouviste? Puseram a Catherine de olhos azuis e o Heathcliff é branco. Imagina.
Uma relação tóxica, e transformaram aquilo numa grande história de amor.
Tudo isto vai disparando contra a colega, os ouviste carregados num crescendo de indignação, e a outra encolhendo os ombros, enquanto eu deambulo entre as estantes à procura d’O Tango de Satanás. Já decidi: vou ver Hamnet daí a umas horas. O Monte dos Vendavais ainda não sei. O livro de Brontë é um dos que mantenho a curta distância, à cabeceira da cama, mas, de repente, não recordo a cor dos olhos de Catherine. É importante? Jacob Elordi é assim tão branco? Ou é o talentoso Owen Cooper, na pele do jovem Heathcliff? Preciso de lá voltar, à brutalidade crua de Emily Brontë. Não adorei Saltburn de Emerald Fennell, mas, de momento, posso ser facilmente subornada pelo erotismo medíocre de uma história de amor plastificada. Ouvi descrevê-lo assim. Ao filme. O romance de Emily Brontë é incorruptível. Se ao menos todas as relações tóxicas se esvaziassem nas páginas da ficção, vampirizadas apenas pela liberdade aleatória dos roteiristas. Não sou capaz de começar sequer a compreender o submundo sinistro de Jeffrey Epstein. “Escravatura sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratos desumanos e degradantes, e feminicídio”? Como se constrói e como se mantém tal rede de contactos e intimidade, daquela dimensão, hedionda, obscenamente impune durante tanto tempo, mesmo depois de denúncias sólidas e documentadas? O poder e o dinheiro, o dinheiro e o poder, o ovo ou a galinha, tanto poder, tantíssimo dinheiro, tanta gente – se não todos patologicamente depravados –, tanta gente disposta a fingir que não vê, porque ver e deixar saber que se vê obriga a tomar uma atitude, e uma atitude arrasta consequências, renúncia, o pesadíssimo ónus de bater com a porta. A cumplicidade pelo silêncio é sedutora, e o mundo está cheio de gente disposta a não ouvir, a não ver. Epstein foi um competentíssimo arquitecto dessa geometria degradante, entre a chantagem e o interesse, mas jamais o conseguiria sem aquela constelação grotesca de silêncios e obediência deslumbrada. Se nos sentirmos inatingíves, impunes, ebriamente permeáveis a tudo o que o dinheiro pode comprar, até onde estaremos dispostos a ir? A depravação extrema pode tornar-se aditiva. É assim desde o ventre da civilização. Sem consequências, a culpa, o medo, a repulsa, diluem-se, tornam-se administráveis. A virtude nasce do hábito, e a desvirtude também, se contar com a permissão de muitos e a demissão de outros. A rede de Epstein, os homens de Pelicot. É doentio. Monsieur Pelicot. Acreditar cegamente no companheiro de uma vida, porque racionalizar o que a própria Gisèle Pelicot sentia estar errado era demasiado. Dez anos drogada e abusada por mais de cinquenta homens com o marido como anfitrião da devassa. É admirável a sua coragem, tornar público o julgamento, a serenidade com que narra o seu horror. Encarar e apontar, um-a-um, os seus algozes. A vergonha tem mesmo de mudar de lado.
Os
tangos de satanás não deviam sair do papel.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Xeque-Mate
László
Polgár teve três filhas. Convencido de que o génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração, resolveu educá-las em casa e fazer delas exímias jogadoras
de xadrez. Poderia ter escolhido outra coisa qualquer, mas a família era muito
pobre e um tabuleiro de xadrez era tangível e barato. Chamaram-no pai tirano. Desde
muito pequenas e durante várias horas por dia, Susana, Sofia e Judit estudaram
as regras, as tácticas; competiram, ganharam e desafiaram estereótipos. Judit
era a do 1%. Tornou-se, entre homens e mulheres, a mais jovem grã-mestre internacional,
batendo Bobby Fischer, que achava as mulheres, todas as mulheres, pouco
inteligentes para o jogo de xadrez; sobreviveu à batota infame de Garry Kasparov
em Linares, acabando por vencê-lo 14 jogos depois desse, em 2002. Kasparov
também participa no documentário da Netflix, finalmente rendido à mestria de Judit
– “ela provou que uma jogadora feminina pode ser uma concorrente de topo” –, que
vai narrando a sua história com uma alegria serena e contagiante. Apenas no
final do documentário, Judit Polgár surge um pouco perturbada ao tentar racionalizar
sobre a experiência de que foi objecto, juntamente com as irmãs, por parte do
pai, empenhado em criar três génios, quase por acaso, do xadrez.
Vi tudo isto, para entreter a espera, antes dos resultados eleitorais, em que António José Seguro, longe de ser um génio, foi capaz de um retumbante xeque-mate. Escolhi-o conscientemente e desejo-lhe sorte. Precisamos de um pouco de paz no discurso político. André Ventura e o seu séquito de apóstolos histéricos, alimentado ad nauseam por uma comunicação social medíocre, continuará incansável na sua senda viciosa, mas, de momento, terá de engolir a soberba. Quanto à novidade de Cotrim Figueiredo comentador, não é novidade nenhuma: é ouvir com atenção a sua entrevista à SIC Notícias, quando lá foi apresentar o tal movimento 2031: – imagina-se a fazer o quê, comentador televisivo, como Luís Marques Mendes?; – não, a menos que me estejam a oferecer o spot de Domingo à noite, que ficou livre… Não sei se o comentário será aos Domingos, mas era só fazer contas. Pelos dedos.