sexta-feira, 15 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
" - É a última vez que o cavalheiro vem fazer queixinhas. Da próxima leva e dá."
Memórias Minhas, Manuel Alegre
Sem o "cavalheiro", foi mais ou menos o que tentei ensinar ao meu filho, pequenino. Não bates em ninguém, mas, se te baterem, defendes-te: bates de volta, não há queixinhas, choras em casa.
Lembrou-me Fernando Alves, de volta à TSF, que Manuel Alegre comemorava 90 anos de vida. Pensei que era quase um pecado nunca ter lido nada de Manuel Alegre, conhecer apenas o político. Como tinha tempo, corri a uma livraria e comprei os três livros disponíveis.
Os livros são o meu ópio, e vai de mal a pior... Entre a casa de Emily Brontë e as memórias de Manuel Alegre.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cristo Velato
A primeira vez que vi o busto de “Isabel II, velada”, fiquei assombrada. Parecia-me impossível – ainda me parece – que uma mão humana pudesse esculpir em mármore a ilusão da transparência. Impossível. Imagino a impressão que causará o Cristo Velado de Giuseppe Sanmartino, que ainda não vi. Diz-se que, durante anos, circularam lendas sobre a alquimia que teria petrificado o véu translúcido que cobre o corpo do Cristo num único bloco de mármore. O patrono de Sanmartino, Raimondo di Sangro, tinha fama de feiticeiro. Antonio Canova teria dado dez anos da sua vida para ter sido ele a criar o Cristo de Giuseppe.
O mesmo prodígio atravessa o Êxtase de Santa Teresa de Bernini: a pedra que é carne e é pele, a luz que cede no limite do erotismo.
Havia uma herança clássica, soberba, como matéria-prima viva. Uma aprendizagem que atravessou séculos, longa, depurada nas oficinas dos Mestres, brutalmente eficaz. A competição; o tempo. O tempo tinha o preço e o valor da espera: tomai e criai, este é o meu dinheiro, a minha vontade, entregue a vós em memória do belo. O mármore de Carrara era a pedra filosofal.
Hoje
há o dinheiro, mas não a paciência, a entrega, e o belo – como a arte – tornou-se
menos consensual. E o que se diria, nos nossos dias, de um di Sangro (um
Lorenzo de Médici, os Papas de Roma, os Sforza, todos esses
senhores da velha Itália), que custeassem durante anos o sustento e os
caprichos de um artista? Teria qualquer coisa de obsceno. Mas também me parece
obscena a sofreguidão carnavalesca destes dias, a exaltação tonitruante do
vazio.
Sento-me
na margem do mármore velado, velando o prazer da intemporalidade.
sábado, 9 de maio de 2026
"In this biography I have deliberately chosen to write about the whole
Brontë family, hoping that this will redress the balance and enable the reader
to see the Brontës as they lived, not in isolation, but as a tightly knit
group. I am well aware that some members of the household are more prominent
than others. Aunt Branwell and Tabby Aykroyd, despite my best endeavors, remain
mere ciphers. Regrettably, Emily and Anne are also shadowy figures. This is the
inevitable result of lack of biographical information but it is, I think,
preferable to fanciful interpretation of their fiction. Virginia Moore's
misreading of 'Love's Farewell' as 'Louis Parensell', resulting in an elaborate
theory about Emily's secret lover, is a dire warning as to where such a method
can lead.
The Brontë story has always been riddled with myths."
The Brontës, Juliet Barker
Comecei agora. Enquanto isto dura (são mil páginas em letra miudinha), posso fingir ignorar o mundo lá fora.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
terça-feira, 5 de maio de 2026
E
eu, o silêncio cru do deserto. O avançar esquivo das dunas. Transmutação.
Pequenas pérolas de areia fina guiadas pelo vento, quando o vento é paciente e
meigo. Reescrever a noite sem urgência.
Desfaz-se
a fronteira entre o céu e a terra, um rio sem margens lavrado na ausência.
Também aqui há uma melodia, um respirar umbelino sob o eco das coisas sem nome,
sob a pele.
Gosto que fiques.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Fio de Ariadne
Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos,
trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de
um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas
estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos
pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes
desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa,
partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da
identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou
não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a
pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa
de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa,
o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das
ruas.
Fez
é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito,
tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas.
Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra
na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma
língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um
corpo.
Também
tenho saudades de ti.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Atentados
A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem
representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune,
fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise
acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos,
que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de
assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight,
fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de
forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática,
mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento,
absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas
últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –,
sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido
uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um
tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo
o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem
aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump
transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não
sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço
obcecada com isto, e devo estar.
Fui
ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para
desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em
oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para
limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante
séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.
Os
filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente
para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do
campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela
praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético
da Terra, acho impressionante.
Caçámo-las,
comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.
sábado, 25 de abril de 2026
Transcrevo as “52 frases de Pacheco Pereira que André Ventura tentou boicotar”,
e que Bárbara Reis recompilou. Agradeço-lhe o sacrifício. Imagino que foi
preciso ouvir aquilo tudo outra vez, e é preciso coragem. Eu aguentei mal a primeira,
e de algumas frases já nem me lembrava, tal foi a berraria.
1. Se Ventura pensa que a guerra foi “no Ultramar”, os presos nas colónias eram portugueses. Se pensa que foi uma “guerra colonial”, como é nacionalista, dará razão aos angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos que se revoltaram contra Portugal.
2. Se diz que “traímos” a seguir ao 25 de Abril é porque Angola, Moçambique e Cabo Verde eram parte de Portugal, logo, os presos eram portugueses.
3. Se “lutava pelo seu país” caso a Espanha invadisse Portugal, concordará que os angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos estavam a fazer o mesmo: a lutar pelo seu país.
4. A maioria dos presos nas colónias que eram guerrilheiros ia parar à PIDE ou aos aquartelamentos militares e muitos foram executados.
5. Grande parte dos presos em Angola, Moçambique e Cabo Verde eram enfermeiros, funcionários dos Correios, professores primários, pastores protestantes e estudantes aliciados para regressarem da metrópole.
6. Os povos das colónias eram tidos pelo governo como portugueses e isso vê-se nos cartazes da propaganda dirigida aos movimentos de libertação. Um tema dominante dos cartazes é sempre a mensagem: “Vocês são portugueses.”
7. Comparar os casos de tortura antes e depois do 25 de Abril é um absurdo. Depois do 25 de Abril, são casos isolados.
8. Durante anos, o Exército português tinha a função de impedir os abusos dos fazendeiros. Isso está altamente documentado.
9. A palmatória era usada nos castigos corporais dos colonizados. Quando um criado se portava mal, mandavam-no ao posto para receber palmatoadas.
10. Há comparações que são elas próprias mentiras.
11. Comparar o que aconteceu no PREC com o que aconteceu nos 48 anos anteriores é uma comparação que é uma mentira.
12. Quarenta e oito anos de violência, prisão, tortura, censura e humilhação das pessoas comuns pelas autoridades deixou uma herança de ressentimento e vontade de vingança.
13. Comparar dez ou 20 mil casos de tortura em 48 anos com meia dúzia de casos a seguir ao 25 de Abril é dizer que a democracia é igual à ditadura.
14. Só se pode comparar os dois anos do PREC com os 48 anos da ditadura se o que aconteceu nesses dois anos tivesse acontecido nos 50 da democracia. E não aconteceu.
15. Salazar não precisava de dar ordens directas. Tinha uma polícia política que prendia sem qualquer espécie de regras. E também a GNR, a PSP e a Legião Portuguesa.
16. Um caso em que Salazar teve responsabilidade: Humberto Delgado.
17. Houve prisões e violências no PREC, mas a maioria das pessoas foram libertadas poucos meses depois e nunca passaram por cadeia efectiva decidida por um tribunal.
18.
Antes do 25 de Abril, muitos presos já tinham a pena cumprida e eram sujeitos a
“medidas de segurança” que, na prática, significavam prisão perpétua.
19. Exemplos de torturas usadas pela PIDE em Moçambique: violação anal com garrafas de cerveja ou paus; acirrar cães para morderem prisioneiros nas suas celas; mutilação do pénis com queimaduras; aplicação de choques eléctricos em diferentes partes do corpo; privação prolongada de água e alimentos; fracturas de pernas e braços por meio de pancada; tortura da pendura, suspensão do tecto com a cabeça para baixo; agressões com chamboco, vergasta, palmatórias, correntes de bicicleta, cavalo-marinho com pontas de aço; imobilização dos presos, atando pés e mãos um suporte fixo. São três páginas. Sabe qual é o problema? Eles são pretos. O problema é que estes homens presos eram tratados como sub-homens.
20. A violência nas colónias aconteceu durante todo o período colonial.
21. Não tente interromper quando vou dizer uma coisa que não quer ouvir.
22. As Audiências Sakarov, sobre as violações dos direitos humanos na União Soviética, organizadas em Lisboa em 1983, não contaram com uma única das pessoas do passado de que Ventura gosta. Por uma razão: tinham medo. O medo que, em 1975, os socialistas, Mário Soares e alguns oficiais do Exército não tiveram.
23. O Chega está a propor o nome do tenente-coronel Marcelino da Mata para uma rua de Lisboa. Ele foi torturado. Mas sabe a quantidade de referências que ele tem, nos documentos, a violência e assassinatos? Era um assassino. Fazia incursões no Senegal e regressava gabando-se de ter matado 50 ou 60 homens, mulheres e crianças.
24. A indignação selectiva tira o direito a fazer comparações.
25. Comparar as prisões depois do 25 de Abril com o que aconteceu antes é dúplice. Antes, tivemos entre 30 mil a 40 mil presos políticos.
26. Na ditadura, a tortura era sistemática. A seguir ao 25 de Abril, a violência nunca foi sistemática.
27. Tivemos liberdade a partir do 25 de Abril e só tivemos democracia dez anos depois. No processo, houve turbulência política porque tivemos a mais longa ditadura da Europa, com excepção da União Soviética.
28. A revolução começa com a PIDE a disparar, matando quatro pessoas, no próprio dia 25 de Abril.
29.
Em 1975, a direita de que André Ventura gosta fez terrorismo.
30. Se vai falar de mortes e de torturados, dou-lhe vários exemplos de mortes que o ELP e o MDLP, de extrema-direita, fizeram.
31. Ao falar como fala, Ventura está a justificar a ditadura.
32. Ao fazer uma comparação que é falsa, está a dizer que o que aconteceu depois do 25 de Abril era semelhante ao que acontecia antes.
33. Mais do que uma geração de portugueses nunca pôde, com excepções, associar-se, nunca pôde criar partidos, nunca pôde ter liberdade política.
34. A quem é que deve a separação de poderes? À Constituição de 1976 que insultou.
35. Há uma razão para o que aconteceu nas colónias: a maioria dos países ligados ao colonialismo inglês e francês descolonizaram: Sudão em 1956, Marrocos em 1956, Senegal em 1960, Mali em 1960, Congo em 1960, Benim em 1960.
36. Em 1961, os soldados que ficaram em Goa foram recebidos vergonhosamente quando regressaram a Portugal.
37. A grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar, Marcelo Caetano e dos seus apaniguados, como o general Kaúlza de Arriaga.
38. Kaúlza de Arriaga defendia a tese de que os homens eram mais inteligentes quando vinham dos climas frios do que dos climas quentes.
39. Pouco patriota é ter atrasado a descolonização em Portugal.
40.Pouco patriota é eximirmo-nos das nossas responsabilidades em relação aos que foram a uma dada altura portugueses. É natural que lhes dêmos um tratamento de favor.
41. Devemos respeitar os antigos combatentes, mas isso não legitima a guerra.
42. O que aconteceu nas antigas colónias a seguir ao 25 de Abril não foi culpa nem de Mário Soares, nem de Almeida Santos. Foi culpa de Salazar e de Marcelo Caetano.
43. O colonialismo português é melhor do que os outros? Não. É igual. Tem o mesmo cortejo de violências.
44. Onde há traição à pátria? Na crueldade que o Chega transporta.
45. Se temos orgulho na nossa pátria e na língua portuguesa, devemos ter orgulho nos crioulos.
46. A “revolução miserável” de que está a falar deu a liberdade para dizer o que diz e a democracia para poder estar no Parlamento.
47. Quem lutou contra a ditadura antes do 25 de Abril, lutou por Portugal.
48. Há duas organizações terroristas depois do 25 de Abril: o ELP e as FP-25. O ELP beneficiou de uma complacência gigantesca das autoridades. Quer o ELP, quer as FP-25, foram amnistiados. Os das FP-25 foram condenados e os do ELP não porque, nos anos 1980, a democracia estava a funcionar.
49. Porque é que não pôs um cartaz a dizer “100 anos de corrupção” e pôs só “50”? Ao pôr “50”, está a dizer que a democracia é um regime naturalmente corrupto e que o Estado Novo não era.
50. Você não luta contra a corrupção. O que faz é lutar contra a democracia.
51.
Associar a corrupção à democracia é lutar contra a democracia.
52.
Crueldade em relação às pessoas que vivem miseravelmente. Crueldade em relação
à pobreza. Crueldade em relação aos imigrantes. O Chega é o mais anticristão
dos partidos que conheço.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Livros e capas de Livros
Demorei
séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para
ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de um quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um
desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um
quarto, e continuaria, nessa claustrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem
garanta que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não
as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou
insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da
arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o
leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita
é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do
quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é
o génio de Navokov que permite sucumbir.
terça-feira, 21 de abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Automat
Pegam-se
as duas porque uma não suporta que a outra me critique – lá estás tu, não vês
as horas que trabalha, como chega tarde, o que importa a planta que precisa de cuidados
–, e sou obrigada a intervir em meu desfavor, que sim, que me esqueço muitas
vezes de regar os vasos da varanda, de aniversários de gente que me importa, do meu até, da liturgia dos dias de, que deixo luzes acesas em quartos vazios, que também sou capaz de
odiar, mas não levianamente porque é um acto que exige morrer um pouco por
dentro e não estou disposta a sacrificá-lo por muitas causas nem por muita gente. Mas evito promessas; mata-me mais uma palavra por cumprir.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sobre
o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som
de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem
sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como
nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de
desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.
Não
ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a
harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e
fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se
dizer.
A
violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua
a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana
imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas,
ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados
controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com
eles.
Enfim.
Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da
avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a
Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Há noites em que a
noite cheira a mar. Depois do céu todo o dia barrento, arenoso e baço, as
gaivotas voam em círculos excêntricos, evaporando-se de encontro ao pôr-do-sol,
sumindo-se em gritos estrídulos. Conjurando agoiros. E o cheiro a mar vai
subindo de mansinho como um nevoeiro invertido até encharcar a noite. É um
instante até deixar-se pousar na minha pele.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deixei-me contagiar pelo entusiasmo da Bárbara Reis e decidi-me a assistir ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura. Não sei se agradecer-lhe ou lamentá-lo, por ter escolhido meter-se naquele lamaçal. André Ventura é um rolo compressor. Ignorante e demagógico, como apontou Pacheco Pereira, mas eficaz na sua capacidade de destruição e conspurcação. Obviamente, não está nada interessado em debater ou esclarecer: o único objectivo é excitar a matilha, alimentar-lhe a raiva. Os apartes como ruído de fundo, a distracção constante pela interrupção constante, a provocação entre a arrogância e a injúria, a berraria crescente como as vacas no cio. Aquilo não cansa?
domingo, 12 de abril de 2026
Rise, o Quinto Passageiro
Se a NASA vender, sou bem capaz de comprar. É amoroso, o Rise, e o mais próximo que um comum mortal como eu poderá estar da extraordinária missão Ártemis II.
NASA
Eu não era nascida quando Neil Armstrong pisou a Lua. O primeiro homem, o pequeno-grande passo. A minha bisavó jurava que tinha sido uma mentira, aquilo era lá possível. Os homens do tempo não acertavam no tempo, como seria alguém capaz de pôr um homem na Lua. Não acreditava, ponto.
Mas foi verdade, avó. É verdade. Se visses agora, a alegria daqueles quatro. A Lua ali tão perto, a negritude, o vazio. A Terra ao fundo, tão pequenina e frágil. Acreditavas, avó, ainda que pasmasses como eu.
Breviário
Ser paciente com tudo o que ainda repousa na sombra.
Percorrer quartos fechados e jardins onde a luz hesita antes de pousar.
Não forçar as portas que o tempo não abriu.
Não violentar a quietude da clausura.
Ouvir o rumorejar antigo das marés que se adentram na memória, arrastando os detritos dos sonhos que não tenho.
Tactear paredes vivas que sopram os nomes que habitam em mim.
Caminhar sobre raízes secretas.
Pressentir a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas.
Desdobrar um mapa inscrito na pele.
Vestígios de um altar onde ninguém ora.
Hubris et Orbi
A
minha amiga húngara diz que a paz vive dentro de nós, que se a
tivermos aqui, o mundo lá fora pode
explodir. De certeza que não é tão fácil se o nosso mundo lá fora é um dos
anéis do inferno. Também diz que Viktor Orbán sairá derrotado destas eleições. Eu digo que vivemos num tempo em que é mais avisado deixar os prognósticos para
o fim do jogo, como dizia já não sei quem. Se, há uma semana, me dissessem que embaixadas
iranianas tornariam públicas, ainda que no Twitter, mensagens ridicularizando Donald Trump e os Estados Unidos da América eu diria que talvez
fosse apenas uma piada de Abril.
O
presidente dos EUA, inchado de sobranceria e sempre convencido da sua
excepcionalidade, instituiu a humilhação como estratégia de poder, a par das
chantagens económicas, e tornou-se um fácil alvo de chacota: quem nada tem a perder
pode permitir-se o impensável.
O
escárnio iraniano é sintoma da erosão da autoridade que revestia, apesar de todas
as falhas e omissões, o poder ocidental, o poder democrático. Donald Trump reduziu
a Presidência a um púlpito de vaidades. Substituindo a diplomacia pela farsa,
histriónico e hiperbólico na sua absoluta arrogância, maculou o discurso
político, esvaziou o poder da palavra e despedaçou uma autoridade moral que nos
distinguia dos crazy bastards
que ameaçava extinguir numa noite. Até onde escalará esta bestialidade primária
é uma incógnita.
O
regime sanguinário que prende, espanca e mata mulheres que não usam véu, que manda
executar opositores e manifestantes por hostilidade contra Deus, encontrou
no presidente dos EUA um semelhante que pode enxovalhar. Gente sem qualquer
simpatia pela teocracia sinistra dos Ayatollahs não disfarça uma satisfação quase
mórbida no deboche, na derrota da América de Donald Trump.
Mark Rutte, no seu afã palaciano, fez saber que o homem está desapontado porque a NATO – nem tida nem achada no desencadear da famosa fúria épica – não ajuda a colar os cacos de uma guerra com pouca razão e, aparentemente, nenhuma estratégia. Ou toda a estratégia de Benjamin Netanyahu. Gaza é uma ruína. A Cisjordânia, o Líbano. Uma guerra que há muito não conhece fronteiras éticas. Dos terroristas e dos seus regimes não se espera compaixão ou pudor. Já de quem luta com monstros…
Não há acordo de paz entre o Irão e os EUA. Talvez houvesse, talvez não houvesse, de uma maneira ou de outra it is going well ou talvez não, mas os EUA já ganharam. Donald Trump continua em roda livre, não sei se demente como dizem, mas grávido de si, embriagado pelo poder que detém. Só ao lado de Melania, a impenetrável esfinge de gelo, parece vacilar.
Um sucesso completo.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"Vai-te,
dia maldito;
guarda
sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;
caminha
sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,
para
que todos creiam que não estou,
que
sou um sinal de despedida sobre as pedras;
fecha
de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,
como
se fosse já a invulnerável,
aquela
que sem pena pode provar os gestos dos outros;
e
deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,
o
sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:
esta
geada que percorre a minha cara.
Ainda
assim, hei-de chegar contigo.
Ainda
assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."
Olga Orozco
terça-feira, 7 de abril de 2026
Toda a Magia tem um Preço
Éric
Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma
Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.
Toda a
magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e
continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços,
nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego
bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que
nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar,
de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O
caminho que conduz ao deserto de nós próprios.
Alicia
Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três
ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e
defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para
que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por
que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e
também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de
outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há
os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções
romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a
televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA
propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o
lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores,
executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a
arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é
escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de
linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir,
na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de
mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo
analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão
de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um
esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa,
predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda
a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de
possibilidades, na facilidade com que nos permitimos desistir.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Rosalía
Não
gosto de ouvir o Henrique Raposo, não gosto de ler o Henrique Raposo, mas é
sabido que gosto de bons títulos. “As Três Mortes de Lucas Andrade” é um bom
título e apetece-me ler. Adio, porque não quero comprar e a minha biblioteca
municipal não tem. Mas posso ouvir Mio Cristo Piange Diamanti, da catalã
Rosalía, que Henrique Raposo recomenda, e o meu filho também.
Pode
ser que seja só do italiano, mas isto parece mais, parece bom.
Perguntam-me pela tradição de esconder os ovos de Páscoa, para delícia dos miúdos. Desconhecia até há pouco tempo, como é possível? Todos os anos descubro uma tradição. Fui educada para as coisas práticas, tentei educar para as coisas práticas. Nem ovos de Páscoa escondidos, nem fada dos dentes, nem meias à lareira à espera do Pai Natal. Às vezes acho que não mimei como devia a infância do meu filho. Em minha defesa, as primeiras tentativas para lhe explicar, infantilmente, para onde ia o Sol à noite, por exemplo, esbarravam numa desconfiança imprópria para a idade, com refutações veementes – como não haver camas onde o Sol coubesse (? como assim, então daqui não parece tão pequeno, pensava eu) – até que desisti. Com duas bolinhas de plasticina enfiadas nuns palitos contei o básico e venci. Agora, os meninos do outro lado da Terra estão a dormir, não é mamã?; e, agora, os meninos do outro lado da Terra estão a acordar, não é mamã? E isto todas as manhãs e todas as noites durante uma semana. Em contrapartida, narrávamos as nuvens, as copas das árvores, as teias de aranha orladas de orvalho.
Gosto da Páscoa em Espanha, o que pode ser outro contra-senso, porque não sou religiosa. Não no sentido prático do termo. Um sagrado que resiste na ausência de um Deus, talvez.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"We're finishing the job"
A
História há-de explicar como foi possível alguém como Donald Trump chegar à presidência
dos EUA. Sozinha, não chego lá. Olho para aquela criatura bárbara, de uma
imbecilidade narcísica e canalha, e, como diz um amigo, não me explico. Primeiro,
era a rejeição do wokismo, depois, o socialismo, depois a economia, para
acabar no estúpido, incensado por um fidelíssimo rebanho disposto à imolação em
honra do senhor.
Não
se pode chamar deploráveis aos deploráveis, é preciso entender o
descontentamento, o protesto, fazer um esforço por ouvir as razões de quem escolhe
um protofascista “apesar de”, excepto que quem escolhe Donald Trump já não está
aí – a crueldade deixou de ser um efeito secundário, tornou-se o produto em si,
cobiçado e apetecido. Havia um conjunto de regras que nos tornava mais
civilizados, enquanto sociedade, se não quiséssemos viver isolados num fim de
mundo, a beber água da chuva, comer o que provê a Natureza, usar a sombra de um
pinheiro como latrina, limpar o rabo às urtigas. Um conjunto de regras que, à custa,
inevitavelmente, de alguma hipocrisia diplomática, nos permitia funcionar sem
nos esgadanharmos para lá do essencial; ser cordatos. A cordialidade,
entretanto, como a empatia, tornou-se sinónimo de fraqueza. A aceitação de
Donald Trump como presidente dos Estados Unidos na América de 2026 consagrou o
gozo institucional em humilhar, violentar, perseguir. A lei do mais forte
inflamada pela consciência da impunidade. Até onde estará Donald Trump disposto
a ir, até quando permanecerá intocável? Pensar que não vai nem a meio do
mandato…
Um presunçoso histriónico, imperialista, enraivecido pela sede constante de vingança, apostado em perseguir no matter what cada um dos seus detractores, indiferente aos destroços que vai acumulando. Nem é o olho por olho, dente por dente com que Netanyahu e os seus ministros vão terraplanando fronteiras, encurralando quem já não tem para onde fugir, escudados na eterna vitimização, como se a infâmia do Holocausto – e é infame o Holocausto –garantisse por si a absolvição de todas as atrocidades. Não. É a cultura da força pela força, da violência pela violência. Donald Trump não tem a menor preocupação com os direitos humanos, ou com o regime torcionário, execrável, do Irão. É possível, não sei, que tenha sido atirado aos leões por Netanyahu, sem medir consequências, convencido na sua gritante arrogância protegida por um extraordinário assentimento servil de vassalos. Agora, ameaça virar as costas ao pesadelo, o resto do mundo que lide com a ruína, enquanto ele e os seus somam lucros obscenos à custa da sua habilíssima gestão – corrupção é o que fazem outros, em Trump é esperteza em bruto.
Por
falar em outros.
A Itália de Giorgia Meloni decidiu não autorizar aos EUA a utilização da Base Aérea de Sigonellae. Pedro Sanchez foi para desviar
atenções, perigosíssimo socialista, imoral, corrupto. Quais serão os pecados
de Meloni?
O
Irão vingar-se-á, a Palestina continuará a produzir terroristas e mártires,
porque é impossível resistir serenamente a décadas de ocupação, humilhação e
abuso, e, dizem os lúcidos, não existem soluções militares para problemas
políticos. Oxalá esteja tudo errado, excepto o magnânimo presidente dos
EUA, e esta nova ordem mundial traga alegria, não apenas choro e ranger de
dentes.
Mas, aqui, estou em paz. Comprei livros e uma nova camisa branca de linho. Já disse que adoro linho? Sobretudo branco. Uma amiga diz que é impossível usar linho, que se amarrota nada más que mirarle, mas eu gosto. Até amarrotado eu gosto.
terça-feira, 31 de março de 2026
Natureza(s)
"Se
não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo
para não viver inteiramente como animais,"
Mas, se calhar, podíamos. Os animais matam sem prazer, sem metáforas. A sua crueldade é rigorosa e funcional, não mente e não pede absolvição. É a nossa superioridade que nos torna maléficos, afinal.
sexta-feira, 27 de março de 2026
...mas sei do deserto e do desejo, do rumor do luar nas noites nuas de fim de mundo, sal de lágrimas por abrir, dunas de estrelas cadentes, ondas de mar a morder-me no ventre, segredos lavrados sobre o poente vermelho do Sol, trilhos de versos por desbravar, e uma muralha de nuvens negras caminhando sobre as águas ásperas de Primavera adiada.
quarta-feira, 25 de março de 2026
Tuvalu
Não
recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui
pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um
capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa
notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado
pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores
serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha
ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação
ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram
as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um
futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu
pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte
de culpa.
Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania.
Um predador paciente,
o mar.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as.
Gosto de ouvir os pássaros de olhos
fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso
certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O
mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora,
as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga,
absurda.
Gosto
de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar
o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me
tome sem pedir licença.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Caminhar
por entre raízes secretas, tateando paredes vivas que sopram verbos antigos, cada
sílaba estilhaçada em pó dourado antes de tocar o chão. E nesse estremecimento, pressentir
a faísca que acende o fogo e alarma as horas que morrem sem testemunhas, cinza
de incensos extintos, vestígios de altar onde ninguém ora. Sigo por dentro de
mim, como quem desdobra um mapa inscrito na pele. Esbatem-se fronteiras, fogem-me
as linhas na verticalidade do eu. Eu, um ponto sem margem.
Dias do meu Pai
Às
vezes esqueço-me da idade que têm os meus pais. É, como se diz, um não-assunto,
porque os vejo bem, lúcidos, saudáveis, por vezes resmungões, como convém, e
parece-me impossível. Excepto que os dias não são lineares; basta uma fracção
de segundo para fazer ruir todos os planos, todas as rotinas, por mais banais.
Com poucas horas de diferença da morte de António Lobo Antunes, o meu pai
sofreu uma queda horrível, à qual se seguiram outras horas de sofrimento e
angústia até sabermos que, afinal, a cirurgia não seria necessária, que dois
competentes ortopedistas do SNS foram capazes de colocar-lhe o ombro no sítio e
que a surpreendentemente pequena fractura não requeria uma imobilização com
gesso para sarar bem. À parte ter no peito, ombros e braço uma tela viva de Turner
e a face como se tivesse acabado de sair de um ringue de boxe, o meu pai está
bem.
Morreu o António Lobo Antunes, já sabes?,
disse-lhe quando o fui ver, depois do abraço contido ainda pela dor, depois de
olhar, perguntar, confirmar que, efectivamente, fora maior o susto.
As
primeiras histórias sobre os horrores da guerra do Ultramar contou-mas o meu
pai. A mim, à minha mãe, à minha irmã. Quando entrei nos livros de Lobo Antunes – Memória de Elefante, Os
Cus de Judas, que li primeiro – já conhecia algum daquele caos, algumas das
feridas que carregam os ex-combatentes. Fui crescendo com memórias da guerra
contadas na primeira pessoa, as possíveis de contar, e senti sempre algum
conforto em perceber que havia uma parte daquela barbaridade que podia ser
pacificada com conversas à nossa mesa, os quatro, de volta dos aerogramas
envelhecidos e respeitando, sempre, os silêncios do meu pai.
A
guerra é um nojo.
quinta-feira, 19 de março de 2026
quarta-feira, 18 de março de 2026
Em
vez de comentadores e analistas políticos, especialistas em geopolítica e
geoestratégia, contratem psicanalistas. É doloroso ouvir tanta sumidade
empenhada em dar forma e sentido aos humores de Donald Trump. Vá lá saber-se
porquê – e talvez a psicanálise explique – os EUA escolheram, toleram e veneram
(não sei até que ponto é credível a “baixa popularidade”), um homem doentiamente
egocêntrico, velhaco, estúpido, para seu presidente.
A
administração Trump não tem uma estratégia: vive pela velha máxima manda quem
pode, os homens comparando o tamanho dos mísseis e as mulheres tuninficadas
para exposição. Tentar encontrar um racional naquilo é como procurar a arquitectura
de um terramoto; podemos descrever os efeitos, medir a intensidade, rastrear
as consequências, mas não é um jogo de xadrez, é uma feira de vaidades decadentes,
ressentimento, um prazer quase erótico em ver o mundo reagir, ruir, ajoelhar.
domingo, 15 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
Não
há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a
chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença:
a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao
espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do
corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível.
Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da
minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos
arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o
ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome.
Céus, as saudades que eu tenho de ti…