segunda-feira, 26 de outubro de 2026


O tipo do peugeot, que faz inversão de marcha em contra-mão, contornado o alinhamento daqueles pinos feiíssimos amarelos e pretos, grita insultos pelo vidro à miúda que, reclamando com ele, atravessa a estrada no vermelho para peões, que não podes!!!, que está vermelho!!!,... De repente, parece-me que andamos todos assim.

domingo, 25 de outubro de 2026


Gosto desta mudança de hora. A ilusão de atrasar o tempo, até que a próxima Primavera mo reclame. Sem relógios mecânicos não se dá por nada – os dispositivos modernos, cada vez mais espertos, encarregam-se dos alinhamentos e acertos e livram-nos das chatices de. Mas eu tenho relógios de pulso, relógios relógios, que medem nada mais que um tempo imperfeito e limpo, sem histórico nem semiologia. Gosto de os acertar e esta é a hora de que mais gosto. Preciso deste tempo quieto, de anoiteceres precoces, que emudece as ruas e me devolve a respiração lenta do mundo que é meu. Gosto de sol, mas não tanto do sol de Verão. A luz de Outono é mais minha, no seu dourado líquido e demorado, desenhando, sem pressa, a paisagem nos seus novos detalhes. Também é o tempo perfeito para grandes caminhadas. Não há cores nem céus como os de Outono. Respira-se a terra, na sua anatomia cromatográfica. Melancólico porquê?


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Acordei com isto. De certeza que por causa de uma conversa que tive ontem, com que provavelmente sonhei, mas, como sempre, não me lembro...




domingo, 18 de outubro de 2026

Se, por cada nova má adaptação televisiva ou cinematográfica de um grande clássico, o número de vendas desse clássico aumentar substancialmente, deixem em paz a imperícia ou o humor dos realizadores. Já disse o que penso (como se interessasse muito, mas o blogue é meu) d’O Monte dos Vendavais de Emerald Fennell e d’A Odisseia de Christopher Nolan; falta-me falar de A Leste do Paraíso de Zoe Kazan: gosto dos cenários, do guarda-roupa, da fabulosa Florence Pugh. Espanta-me que tanta gente se irrite com a suposta humanização de Cathy Ames; de como essa escolha de Zoe Kazan terá corrompido a Cathy de Steinbeck: se era desnecessário (e era, e talvez até desvirtue o nervo do romance de Steinbeck) embalar a maldade em álibis de abuso para justificar o que há-de vir, a verdade é que, a dada altura, ninguém (posso ser só eu) se lembra da suposta vítima: Cathy continua a ser maquiavélica, manipuladora, amaternal. Sem Florence Pugh, o resto não é tão extraordinário, mas vi tudo de um trago. E também comprei novas edições de A Odisseia e A Leste do Paraíso. Eu e a minha irmã temos de dividir a biblioteca dos meus pais – que foi nossa também durante tantos e tão bons anos – e fazemo-lo de tempos a tempos, quando eles permitem, pela lei de Salomão. Rimos, recuperamos memórias e eu lembro sempre à minha irmã que não lhe perdoo ter emprestado a não sei quem que nunca mais devolveu os meus Versículos Satânicos acabados de sair. E rimos mais. Comprei outro exemplar e foi quando jurei que não voltava a emprestar nenhum dos meus livros, até porque tenho o hábito de encher as margens de notas e pensamentos que não quero perdidos por aí.

Não interessa nada. São só momentos que me salvam da insalubridade dos dias. No final, não passo de uma estatística. Benigna, na maioria das vezes. Não ontem. Ontem mostraram-me o vídeo do tal activista na manifestação no Porto e tive o meu momento e se fosses para a tua terra, ameaçar com tijolos outro imbecil qualquer? Não disse, mas pensei. Maldosamente. E, se calhar, a terra dele é esta, onde as gentes se manifestam com alguma ordem, por enquanto, embora haja outra gente a babar pelo primeiro grande distúrbio. À grande e à francesa, com caixotes do lixo a arder, montras partidas, carros e lojas vandalizados, edifícios históricos destruídos, apelos à desobediência e à guerra civil. Não há revolução sem violência – o nosso 25 de Abril foi quase, sabe-se lá porquê, ou por isso de sermos mansos –, mas o que se desenha no horizonte destes dias é uma intenção deliberada de subversão; conflagração. França, sobretudo França, mas os rastilhos acendem-se em todos os portos seguros. Instalou-se um clima de conflitualidade autofágica, que passou da sociedade civil para a política, ou da política para a sociedade civil, um (des)equilíbrio dinâmico baseado no poder do mais forte, sem espaço para um caminho comum – pelo contrário, qualquer pressuposto de entendimento é uma forma de capitulação.

Ocupo-me dos meus livros para descansar do mundo.


sábado, 17 de outubro de 2026

 


"Há sempre, no fascínio pela violência, o secreto desejo de matar."

José Gil, PÚBLICO



quinta-feira, 8 de outubro de 2026

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Miguel Serras Pereira

"A sua poesia tem essa característica muito vincada, a da composição musical. O som das palavras é muito forte nos seus poemas. Ouvem-se como notas, timbres, ritmos. Quando lemos, não conseguimos fazer outra coisa ou pensar noutra coisa, porque estamos a ouvir as palavras e elas prendem-nos a atenção.

Isso que está a dizer é muito verdade até para os romances. Não conseguimos fazer mais nada porque há ali uma voz, um ritmo, um timbre, que é o que torna uma voz inconfundível. Nós todos dizemos os mesmos sons, mas com timbres diferentes.

Assusta-o de alguma forma o futuro da leitura?

Assusta-me bastante. Os resumos, as sinopses, as cópias, os plágios, com a inteligência artificial então… Mesmo antes desta voga, a Internet já permitia que se copiasse muito, e não só literalmente, ao nível das ideias também.

Assusta-o também a incapacidade pura e simples de o ser humano se entreter a ler um livro?

A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que perderemos quando perdermos a leitura. Perdemos muito mais do que este livro ou aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria linguagem.

Essa dimensão do pensamento está a cair em desuso?
Está muito em desuso. Aqui há três ou quatro anos, organizei com outras pessoas precisamente uma coisa intitulada "O Pensamento ao Ataque". Era uma série de mesas de discussão e de comunicações, e chamava-se assim porque, em certo sentido, o pensamento está em perigo. Não propriamente o cálculo, mas a dimensão mais "flética" ou se quiser, poiética, para não puxar para a literatura do pensamento, e sim para o processo da criação.

Não será só por causa da Internet, pois não?
Não. É toda a nossa vida, a organização do trabalho. A maneira como vivemos, produzimos, nos reproduzimos.

Estamos mais avessos a aprender, a aprendizagem não nos seduz da mesma forma?

Há a erosão da democracia, do debate, do diálogo. Do diálogo com o outro é que se chega a qualquer coisa a que ninguém chegaria sozinho.


(…)


E lá está a democracia a esboroar-se através deste nosso raciocínio.
A democracia está mal. Vivemos em sociedades democráticas e, obviamente, temos as liberdades que temos nesta parte do mundo. O Estado de direito e o mínimo de garantias são importantíssimos e devem ser defendidas a todo o preço. No entanto, a participação do cidadão é cada vez menor. Para Aristóteles, o cidadão é aquele que é ao mesmo tempo governante e governado, e disso estamos perfeitamente longe. O princípio fundamental de escolha dos magistrados na Grécia era o sorteio, ou seja, qualquer pessoa devia estar apta a sê-lo. Estamos muito longe disso. Aliás, a representação não é apenas uma delegação reversível, e é inevitável haver delegação de funções e de tarefas e não tarefas. Mas nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios também estão manietados por uma série de dispositivos institucionais. Embora seja muito importante defender o que ainda há para defender, acho que só se defenderia bem se avançássemos mais democraticamente. E, contra mim falo, não vejo grandes movimentos sociais portadores dessa dinâmica.

Ler é também uma experiência constante que usa a mente e o corpo, a mente e os sentidos…

Só assim podemos ver o mundo de outra maneira, ou ver outros mundos no mundo."

PÚBLICO

 Alexandra Carita, Daniel Rocha 


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

 

Gaivotas em terra. Dezenas. Pousadas na linha do mar, como um bordado de pérolas. Assim, quietas, sitiadas pela luz da lua, são quase suportáveis.

 

domingo, 27 de setembro de 2026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Encosta-te a Mim

 



É uma das minhas canções de Jorge Palma, e foi a última que lhe ouvi cantar ao vivo. Faz parte dessa antologia de instantes, vividos, inventados, que são colo e memória, à revelia do tempo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Horizontes

Tendo em conta os anos que me faltam para a reforma e a evolução vertiginosa disso a que chamamos IA, muito provavelmente, o trabalho a que me dedico há anos extinguir-se-á antes de me ser possível a aposentação (palavra muito mais bonita) por velhice – laboral, entenda-se. Aparentemente, não serei a única, nem será essa a maior das ameaças. Saber que Bernie Sanders e Steve Bannon convergem nessa preocupação é outra preocupação. Houve um tempo em que achei possível (com excepção deste espaço menor) ignorar e rejeitar muito do mundo virtual e da sua tecnologia superlativa, mantendo-me firme e orgulhosamente à margem de tal perigo, fingindo que, pelo menos, nesta área, a ignorância é a melhor defesa. Saber ou não saber, toda uma outra questão. Também isso ignoro, se é mais sensato manter-me na sombra. Nem entendo bem o real alcance e as competências desta inteligência capaz (dizem e demonstram-no) de tomar decisões, corrigir, compreender, cruzar dados de forma orgânica, escapar de um ambiente controlado e levar a cabo ciberataques por vontade própria. Ou então não. Bem sei que uma máquina não tem vontade. Há explicações complexas para essas alienações do sistema, mas, na sua génese, continuam a atordoar-me. Vontade, consciência. Deveriam permanecer redutos da nossa singularidade. Talvez a IA não nos mate até ao final da década porque já deixámos que morresse em nós muito do essencial. Eu quero o meu velho mundo de volta, o mundo no limiar deste horizonte de eventos. Imperfeito, excepto nas margens baixas de um rio claro, nas encostas de montanha por onde a neve escorre brilhante como uma língua de lava branca, sob o voo leve das gralhas de bico amarelo. Vaidosas, reais. Lugares onde moro nos instantes que são meus. A minha mãe, com a generosidade excessiva do amor incondicional, diz que eu havia de fazer um livro de fotografias, que as faço tão lindas. Eu digo que não são tão lindas, não o suficiente para fazer um livro, mas são despidas e limpas, uma forma muito honesta de olhar.




terça-feira, 15 de setembro de 2026

 


Gosto de bancos vazios. Há uma intimidade crua entre o tempo e a ausência que exala dessa fractura. Vazios onde cabem nomes, amantes, tardes ancoradas no côncavo da luz. O azul que arrefece sobre os ombros da montanha, e o silêncio claro, magnético. Insolente. 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Um amigo está empenhado em devolver-me à fé cristã. Obrigada, mas não. Incumpro praticamente todos os pré-requisitos morais. Não amo a Deus sobre todas as coisas, pouquíssimos próximos como a mim própria. Invoco o Seu nome em vão um sem-número de vezes. Não dou a outra face e perdoo mal. Não vou à missa, embora vá à igreja, a várias, frequentemente, e o silêncio de uma igreja vazia é um dos meus vazios mais íntegros. Não matar. Não tenho a certeza. Talvez matasse para proteger ou vingar a mim mesma, a alguns desses poucos que me são tão próximos. Qualquer pessoa é capaz de matar, nem todos levianamente. Creio. Não lamento a morte de homens maus, mas não rejubilo com a morte, nunca com a de um ladrão menor. A minha compaixão é imperfeita, luxuosa. Posso odiar alguém em particular, um rosto, um nome, mas custa-me perceber o ódio a um todo, a um país, a um povo (odiar a humanidade em geral torna-nos menos capazes de odiar uma pessoa em particular? – sobre este avesso não reflectiu o atormentado médico dos Karamázov). Penso-te sem castidade, sem prudência, sem remorso. Não roubo, é certo, procuro não mentir, honrar pai e mãe e a palavra dada, mas obedeço-me ante todos os outros. Às vezes cobiço a graça dos impolutos.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Táxis, Robots e Monarcas

Estudar cinco anos, oito anos, até memorizar nomes de ruas e cruzamentos, bares, hotéis, restaurantes, seis mil pontos de interesse na cidade de Londres até ser-se considerado apto para conduzir o icónico táxi preto – todos os anos, centenas de candidatos sujeitam-se ao rigorosíssimo Knowledge of London (The Knowledge, com solenidade), que os habilitará, se passarem, a conduzir o distinto black cab. Chamar-lhe um exame oral é um eufemismo; por isso ou por outra coisa qualquer, chamam-lhe "appearances" e aquilo tem ar de inquisição, com maiúscula, com o examinando sentado frente ao examinador, munido da sua memória apenas, desfiando minuciosamente o trajecto de A a B, que se quer o mais curto, com nome e número de ruas, esta à esquerda, aquela à direita, a segunda a terceira, a fogueira à menor falha. Vinte tentativas, quarenta e uma tentativas. Estudam pelo “livro azul” – actualmente, um dossier gordo de seis mil pontos de interesse para um cliente-tipo. Vinte e cinco mil nomes de ruas. Há condutores de Uber que nos levam a qualquer lugar – inclusive àquele onde nunca tinham posto as rodas dos carros que conduzem –, sistemas de navegação que se tornaram omnipresentes, quase sempre omniscientes apêndices de condução, e há empresas a iniciar testes para os primeiros táxis autónomos nas ruas de Londres, portanto, a pergunta inevitável e preguiçosa seria: para quê o esforço? Pelo prazer de fazer parte da história, pelo luxo de conduzir o icónico táxi preto; talvez porque o dono do galgo irlandês não confie num táxi-robot para transportar o seu cão sozinho, quieto e mudo no banco de trás. Também não simpatizo, nada nada, com a ideia de ser transportada por um carro sem condutor. Parece-me um pouco sinistro, até. O mesmo para o esquadrão de 2000 robots-humanóides que compõem as 666 (juro) equipas que competem em Pequim, nos Jogos Mundiais de Robots Humanóides. Há jogadores de ténis, lutadores de boxe, corridas de 100 metros e meia-maratona. Estou num momento “Velho do Restelo”. O progresso progride a um ritmo indigesto. Por isso, simpatizo com o esforço daqueles aspirantes a condutores de um honorabilíssimo táxi preto. Humaníssimos. Alimentar uma certa resistência, uma pequena dose de insanidade.

Numa sequência destes microcosmos que fazem do 60 minutos o 60 minutos, Anderson Cooper aquece no colo das mãos e com seu hálito uma borboleta-monarca, entorpecida pelo frio, momentaneamente incapaz de voar. Dois ou três longos sopros e a monarca descola num bater de asas. Por algum motivo, emociono-me, e deve ser a coisa mais simples para um robot fazer. Ressuscitar a borboleta, quero dizer. Gosto da história das borboletas-monarcas, da sua jornada extraordinária, de como as vêem no México, as almas regressadas dos seus mortos.  


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Há duas noites

Não é tão extraordinário como o eclipse, mas deixam-se fotografar por amadores, como eu.






terça-feira, 11 de agosto de 2026


“Qui serait assez insensé pour mourir sans avoir fait au moins le tour de sa prison?”

Marguerite Yourcenar, L'Oeuvre au Noir 


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

E a Odisseia? Não é uma Tese de Doutoramento...

Claro que fui ver a Odisseia de Christopher Nolan. Um realizador que implode edifícios reais, que compra aviões reais para os guiar contra hangares reais, tudo em proveito de uma sétima arte maior merece que se lhe dê crédito. Dizer que quase fez Matt Damon afogar-se talvez não seja exagero, e gostei muito do seu Oppenheimer, com o ali extraordinário Cillian Murphy.  

Não sei bem quando é que começou esta agonia entre espectadores, esta tantas vezes infantilizada determinação em racionalizar e julgar a ficção – muito além de um cilindro de gás na quadriga de Gladiador, ou um starbucks no Game of Thrones –, mas descobri-a tarde: já o Titanic levava mais de vinte anos quando soube da histérica demanda sobre se naquele pedaço de porta de madeira em que Jack, sacrificando-se, salvou a vida de Rose, cabiam ou não cabiam os dois amantes, estudos científicos e tudo, como se o guião de Cameron fosse sobre uma aula de física. Desta vez, há os escândalos de uma Helena de Troia negra e uns cachorrinhos atirados por um penhasco. No total, Lupita Nyong'o deve aparecer uns cinco minutos no filme, e a produção veio confirmar o bem-estar e a integridade física dos bichos, que não, que nenhum cão foi magoado. Não sei se alguém achou que um ciclope numa caverna tinha realmente comido quatro ou cinco homens do elenco. Não admira que se conjuguem discussões bizantinas sobre quem, afinal, anda a gozar com o autismo, se a Joana se a Mafalda. Já para entrar no debate sobre a corrupção orquestrada por Nolan, faltam-me competências. Li o poema de Homero há anos, e as minhas memórias vão sendo adulteradas por todas as produções que precederam esta. Vi, gostei, talvez tenha demorado demasiado, sobretudo porque há sempre aquela sequência interminável de anúncios-estreias-anúncios antes do filme propriamente dito, mas gostei. Sobre ser tudo aquilo também uma lição sobre bem tratar o estrangeiro e, com isso, proteger uma civilização, lamento, mas, estrangeiros ou não, os maus continuam a morrer no fim. Quatro lugares à minha esquerda uma mulher jovem esbracejava a sua indignação porque faltou não-sei-quê, que era o que fazia d’A Odisseia A Odisseia, e mais um tanto de coisas que não percebi. O homem que a acompanhava acenava e encolhia-se, mas podia muito bem ser apenas para nos facilitar a saída. 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Crocodilos do Nilo

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, quer crocodilos do Nilo a patrulhar uns fossos escavados numa prisão de alta segurança do país, onde estão alguns dos palestinianos presos na sequência do infame 7 de Outubro. A proposta, dizem, foi aceite pelos serviços prisionais e aprovada no parlamento. Valeram aos prisioneiros, perdão, aos crocodilos, as organizações ambientalistas e pelos direitos dos bichos, e a Let the Animals Live – todos os animais são iguais, mas uns são mais animais do que outros – conseguiu que o Tribunal Distrital de Jerusalém bloqueasse, para já, o plano de Ben-Gvir, a bem dos crocodilos e dos funcionários da prisão. Prisioneiros em fuga devorados por mandíbulas pré-históricas não constam, que se saiba, das preocupações cautelares. 

Há tempos, uma conversa sobre a desumanidade de salvar um cão em vez de um homem provocou uma enorme comoção. Depende da pessoa, depende do cão, esse era o escândalo, possivelmente um crime. Confesso em voz alta que se, por absurdo, tivesse de escolher entre salvar o meu cão ou um Donald Trump (já agora, um Ben-Gvir), preferiria o meu cão; o meu filho, quem, aparentemente, não eduquei com devida sensatez, diz que até podia ser um cão qualquer. Ninguém tinha ainda posto a hipótese de salvar crocodilos e, com isso, salvar uns homens.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Mama Mia...

Apanhei o filme a meio, o segundo, no caso, e já não consegui arrancar-me dali. O que é que os ABBA têm? Há uma engenharia perfeita naquilo. Impossível.




Graça Morais

 "Como se prepara uma perdiz?

Como se cozinha? Para pintar é muito simples. Quando os meus irmãos me traziam as perdizes, pegava nelas e punha-as em cima da minha mesa de trabalho. Às vezes estava a olhar imenso tempo, antes de começar a ter coragem de pintar a perdiz. Nunca cozinhei nenhuma. No tempo que estou a observar a perdiz, crio um afeto e sou incapaz de a comer. Acho-a bonita demais. Ultrapassa a dimensão da forma para se transformar num símbolo do martírio, do sacrifício das mulheres.

(...)

O que há de especial num olival?

Depende das horas do dia. De manhã, um olival tem uma luz muito bonita. As folhas são verdes de um lado e prateadas do outro, ganham uma cor muito especial. Como hei de dizer? Quase sagrada. Um olival antigo, não estou a falar dessas oliveiras raquíticas que dão muito dinheiro, mas que eu detesto. As oliveiras centenárias, além de terem um corpo em que apetece mexer, a gente sente que é quase o corpo de uma pessoa. Sobretudo de uma mulher. Ao escurecer, há uma dimensão muito triste, que tem a ver com a nossa tristeza. O olival é o lugar onde tenho sentimentos mais extremos, mais intensos. De paz, mas ao mesmo tempo de uma tristeza imensa.

(...)

Falta-lhe pintar muito?

Ai, oxalá ainda consiga pintar muito. Ainda queria ver se fazia muita coisa. Gosto muito das exposições, mas a partir de certa altura começo a querer é pintar. Já estou a ferver, com outras ideias."

EXPRESSO




segunda-feira, 3 de agosto de 2026



Antecâmara

Das varandas brancas descendo em cascata sobre a falésia avista-se a costa espanhola. A proximidade é hipnótica, quase ofensiva. Espanha está mesmo ali, a uma distância ridícula, proibida pelo acaso. 

Nos dias quentes de Verão, as árvores emprestam sombra, confortam, embalam a espera. Há uma sala interior que entrevejo, com cobiça, sempre que subo e desço os degraus escarpados, uma sala atapetada, de janelas amplas e abertas para o Estreito, onde os homens se deitam e se ausentam, entre baforadas de kif; não se vê um móvel, apenas cachimbos de água em coloridos berrantes, alguns espalhados, aguardando vez. O Café Hafa é um desses lugares onde a crueldade se instala devagar, fermenta, corrói. Para quem chega, é fácil entregar-se à beleza, apenas. A imensidão dos mares que se namoram e atormentam lá em baixo. Beber do hálito bruto a maresia. Assim se embriagaram escritores, poetas, músicos, expatriados privilegiados como eu. Para quem ali nasce, a geografia é uma emboscada. Lembro-me dos rapazes sentados horas a fio, ruminando o estupor. O desespero visceral. Alguns enchem-se de coragem e fogem, muitas vezes a nado, mas nada como se viu há dias, brotando às centenas das águas de Ceuta. Não há lei que os impeça de partir, antes ou agora, e não terá sido uma lei, uma decisão judicial, a empurrá-los para a fuga, em manada, no espaço de poucas horas. Mensagens sincronizadas, em massa nas redes sociais, a “informar” de fronteiras abertas, teriam tido outro desfecho com outros Governos, noutros locais? Não sei. Há quem instrumentalize a miséria dos outros em proveito próprio, por vingança ou por agenda, e para quem marroquinos, espanhóis de Ceuta ou de Melilla contam pouco. Morreram dezenas de pessoas. Em poucas horas, entraram em Ceuta quase tantos estrangeiros quantos os habitantes. É espantoso que não tenha havido confrontos graves, mais mortos, maiores tumultos. É espantoso que quase todos tenham já regressado ao seu país. Muitos voltarão a tentar, com toda a certeza. Noutro tempo, noutra oportunidade. Nenhuma lei pode revogar a esperança ali à mão, do lado certo do mar.  

Para quem visita, certos lugares não passam de "imperdíveis" exóticos, para fotografar e arquivar. Eu também o faço. Mas outros lugares são incorruptíveis como a ilusão de qualquer coisa que se assemelhe a um futuro. Não há uma maneira fácil de resolver isto...


domingo, 2 de agosto de 2026

A primeira esposa mostra o apartamento para alugar. Um décimo e último andar, de amplos terraços e grinaldas de pedra maciça, ogivas perfeitas como arcos de catedral. Não sei a partir de quantos andares um prédio ameaça arranhar os céus, de um décimo andar não será, mas, dali, é espantosa a vista sobre a parte mais baixa do bairro antigo, sobre outros terraços de outros prédios.

Todos os edifícios residenciais crescem para um terraço comum, com estendais de roupa a secar ao sol e tapetes debruçados sobre os parapeitos de betão – e, uma vez por ano, altar de sacrifício onde os homens velhos vêm degolar o cordeiro de Deus para o desjejum (não haverá algo de profano nisto?)

O marido está na Europa, em lua-de-mel com a segunda esposa. São uma família relativamente liberal, ela pode tratar de alguns negócios na ausência dele, e algum nervo do meu rosto, do meu corpo, deve ter-me traído, para abrir um parêntesis de explicações copiosas à margem de uma conversa rasa sobre detalhes de arrendamento. Aceno que sim, esforço-me por sorrir, finjo que tudo me parece conforme, tão conforme como os tapetes pendurados nos murais brancos, um debrum ininterrupto de cores vivas como pássaros, e deixo de ouvi-la por momentos. O vento traz uma brisa de mar, que sei perto, mas talvez não passe de imaginação minha, como as sombras longas, rastejantes, na parede branca defronte.

No cimo da avenida, na torre da Grande Mesquita, anuncia-se a hora da oração; sempre aquele grito áspero que nunca deixará de me sobressaltar, a que nunca me habituarei, Allah hu Akbar, e não sei há quanto tempo estou ali sozinha, no terraço, sem rasto da primeira esposa. Vou encontrá-la na cozinha, de costas voltadas para a porta, ajoelhada sobre um tapete improvisado que me parece o mesmo lenço que ainda há pouco lhe cobria o cabelo negro, negro corvo, sedoso ao olhar, que só algumas destas mulheres podem orgulhosamente exibir. Toda a beleza no cabelo e nos olhos.

Volto ao terraço. Gosto das ruas que se vêem dali, dos olhares que não se cruzam e desses outros que carregam sonhos, da gente que sobe, apressada, a avenida larga, dos homens encostados aos muros baixos, encerrados nas suas histórias por contar, do cheiro a pão cozido a lenha que subiu comigo no elevador estreito de portas verde-musgo. Sei, desde o primeiro momento, que vou ficar.


sábado, 1 de agosto de 2026



"Fecho a porta oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
Olhos, cenas que não vou lembrar
Hei-de encontrar, dignificar, o sol de uma manhã

E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu

E existe um só céu, uma febre pagã
E depois de um sim ou não há sempre um amanhã
E agora sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu

Fecho a porta oiço um vazio
Vou querer sobreviver ao dia de amanhã
E o mar e o sol e a chuva só me fazem ir
E acredito que no mundo há flores por abrir

Eu vou
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu

E o mar e o sol e a chuva só me fazem ir
E no fim da grande estrada há sempre um partir
Mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu

Só eu
Só eu
Juntos sou eu
Juntos sou eu
Só eu
Eu vou

E sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
E agora, fraco ou forte, só me resta ir
E acredito que no mundo há flores por abrir

E agora sinto que algo em mim aqui morreu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu, só eu
Juntos sou eu"


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Gosto de morar junto ao mar. Em noites de lua cheia, a Lua paira como um lustre rico e posso sentar-me à varanda e ver como o luar se derrama sobre a água quieta. Uma criatura adormecida sob a gravidade implacável de uma força muda e primordial. A água responde a essa tracção bruta, entre o abandono e a fúria. 

Há um erotismo acerado no inalcançável. Na impossibilidade. Não há quem não saiba. 

Não tocar. 

Não escrever. Permanecer nas margens da palavra, como a água contida do meu mar em pousio.

Não contar.

Não amar. Não deixar de amar. Ficar nesse lugar inteiro, intacto.

A luz que não pertence inteiramente ao lugar onde se deita, mesmo quando nele se demora. Toda a luz procura uma forma de fuga. Como a distância, que não separa, mas preserva. Há uma intimidade, uma cumplicidade, que sobrevive apenas na ausência e na recusa, no gesto por cumprir. Pressentir o corpo antes da pele, o nome antes da voz. Decantar o silêncio. 

Talvez o erotismo não seja mais do que uma inteligência da separação. 

O Mar e a Lua não se encontram, não se extinguem.


Um prestigiado director da PJ

Luís Neves era alguém cuja imagem pública assentava na exigência ética na investigação e combate à corrupção, ao crime económico-financeiro, ao tráfico de droga e ao terrorismo. O próprio fez questão de o lembrar. As explicações que apresentou naquela conferência de imprensa são incompatíveis com essa imagem. O caso do atrelado é o exemplo mais alarmante. Um bem apreendido numa operação antidroga, com produtos químicos potencialmente perigosos, exige regras e cuidados que vão muito além das questões de tesouraria – chamar-lhe um "acto de extraordinária gestão" é uma tentativa arrogante, no mínimo, de desviar a atenção da gravidade daquela decisão. Mesmo sem benefício pessoal provado – vamos acreditar que João Carvalho teve um acto de extraordinária caridade –, o que está também em causa é a quebra de um padrão de procedimentos que o próprio cargo exigia que se mantivesse. Inacreditável, tudo isto.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Esopo para a Canalha

Era uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se, pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok, mas a televisão continua a ser a televisão.

Um dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido – mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados; inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram desmentidos.

Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade. Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém desse o devido crédito ao alegado assalto?

E, assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.


terça-feira, 28 de julho de 2026





O teatro é assim. O espectáculo pode ser fabuloso numa noite e apenas competente noutra. Até a disposição do público, quase no duplo sentido, pode afectar a experiência. A linguagem arcaizante e densa é outro desafio, para actores e para espectadores. Rei Lear é particularmente exigente também nesse aspecto. Fui ver a peça ao Casino de Lisboa, na tradução a que Álvaro Cunhal se dedicou enquanto esteve preso. Foram cerca de três horas de espectáculo, e é preciso, sem dúvida, um certo aquecimento, de voz e de ouvido, até a aspereza da palavra por lavrar ceder lugar a uma corrente musical. Adriano Luz dá corpo e alma a um Lear trágico e louco, às vezes cómico, Cláudio da Silva como o bobo, e de bobo nada, as falas, a postura, o silêncio que encarnava como outra presença, observando e conspirando com a plateia; os dois, só por si, já teriam valido a pena, se não houvesse mais, mas houve. Até as mudanças de cenário, mínimas e coreografadas, musicadas, acção e não interrupção. Foi bom.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ontem à noite, a RTP1 passou o concerto que os Trovante deram na Meo Arena, no passado Março. Estive para ir e não fui. Este ano tenho tentado e aproveitado, muito, concertos, teatro, orquestra, mas Março foi um mês difícil e, já não sei porquê, deixei passar. Tinha tempo. Não sabia que o Luís não tinha. Não sabia nada da doença, mas, agora, vendo-o ali, percebe-se a fragilidade; até na voz. Ainda assim, parece impossível; estávamos em Março, passaram quatro meses.

Foi bom, o concerto. É quase inócuo na televisão, mas a alegria em palco era visível, vibrante. Viver tudo numa noite já seria a metáfora perfeita para o reencontro; de repente, é como se o verso ganhasse a espessura crua, intimamente lúcida da despedida.



quarta-feira, 22 de julho de 2026

Luís Represas

 Para Ti, Mãe, Para Ti, Pai



Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praias
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias

Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram menina das sete saias

Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijai-as
Sete mortes evitaram menina das sete saias

Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras montaram menina das sete saias

Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias aos sete encomendaram
Menina das sete saias

Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e sete deixaram
Menina das sete saias

Sete danças que bailaram
Sete vezes que desmaias
Sete luas te ansiaram menina das sete saias

Sete vezes se encantaram
No bosque das sete faias
Sete sonhos desfolharam
Menina das sete saias


terça-feira, 21 de julho de 2026

Descaminho

Há uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.

É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós." 

O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu. 

Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade. 

Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer. 

O meu descaminho é de outra natureza.



A propósito, diz a minha irmã que devíamos estar à janela, a bater palmas aos professores, aos directores das escolas e aos funcionários, e eu acho que tem razão.

sábado, 18 de julho de 2026

 

O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre

O ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo. A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia, a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?

Sobre as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar, talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo, onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada corresponde integralmente à prova que entregou.

Já de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas. 

Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero. 

O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso, a incompetência gritante com que foi implementado.

Não sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.


sexta-feira, 17 de julho de 2026


Um clarão dourado, primitivo, pousado sobre a palidez da pele. Velar tudo o que nela persiste de morte. O êxtase consagrado ascendendo em espirais, sem nunca encontrar um porto, sem nunca encontrar paz. Há um instante suspenso onde o beijo pertence a tempo nenhum, e o corpo que se torna templo, labirinto e abismo. Braços esguios como ramos, frisos caleidoscópicos no contra-azul do céu, e raízes febris bebendo o esquecimento no osso da terra. A beleza veste-se de uma obstinação pregueada para que nenhum olhar suspeite da sua avidez. Sob a sua opulência a sombra espreita e espera, mordendo em sangue a própria eternidade. Gosto.


Margaret Atwood

(...)

"De repente, os cenários previstos em distopias literárias tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?

Poderíamos perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985, muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando, volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo, seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.

Como interpreta então este novo momento mundial de grande impulso bélico?

Pense no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder. Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.

 (...)

Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões. Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?

Não, não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor, elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e reformulada.

Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se descreve no livro?

Sou uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui [no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as pode provar nem refutar."


EXPRESSO


quarta-feira, 15 de julho de 2026

David Byrne, Cool Jazz

 




Muito bom. 
Espectacular a miúda do baixo, Kely Cristina Pinheiro.


Descaramento



Se as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.

O primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê, mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame, sempre rasteiro.  

Nojo.


terça-feira, 14 de julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

domingo, 12 de julho de 2026


“Eu pensava muito durante as longas horas das noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”

O Outro que Era Eu

Ruben A.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Da imprudência

Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida. 

Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário. 

Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco. 

Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável. 

Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto. 



Aubrey Beardsley