sexta-feira, 10 de abril de 2026

 

"Vai-te, dia maldito;

guarda sob as pálpebras de gesso o olhar de lobo que melhor me esquece;

caminha sobre mim com passo selvagem, simulando um deserto entre fome e sede,

para que todos creiam que não estou,

que sou um sinal de despedida sobre as pedras;

fecha de par em par, longe de mim, as tuas faces sem crueldade e sem misericórdia,

como se fosse já a invulnerável,

aquela que sem pena pode provar os gestos dos outros;

e deita-te a adormecer, debaixo da lona cega dos séculos,

o sonho em que me lançaste de ontem para amanhã:

esta geada que percorre a minha cara.

Ainda assim, hei-de chegar contigo.

Ainda assim, hás-de ressuscitar comigo entre os mortos."


Olga Orozco