domingo, 29 de julho de 2018

O Murmúrio da Água

O caminho de terra amarelecida serpenteava por entre o tapete verde manchado de folhas secas e estaladiças que, ao pisar, libertavam um intenso cheiro a Outono. As árvores semi-nuas ofereciam, languidamente, os seus ramos à brisa soalheira da tarde que com eles dançava num vibrante e alegre corrupio.

Caminhava devagar. Acenando aos pássaros e aos esquilos, detendo-se um momento mais nas derradeiras folhas, briosas do seu ar, que teimavam em manter-se agarradas aos caules, viçosas, vermelhas, ostensivamente belas, enchendo o ar de contrastantes perfumes, numa luxuriante orgia de odores intensos. Enquanto as admirava, surgiu-lhe ao caminho um pequeno riacho encimado por uma elegante ponte de madeira, em arco. Surpreendeu-se; nunca, até aí, o vira. Correu para a água clara e cristalina que escorria tranquila sob a romântica ponte e depressa tratou de mergulhar os pés pequenos e delicados naquele manto fresco, brilhante e vivo. Brincou com os seixos, lisos, de diferentes cores, formas e tamanhos, alheia ao passar das horas e às variações das sombras, ora espreitando, ora fugindo, em constante mudança.

O tempo foi escoando, derramando-se esquivo e sorrateiro até a envolver devagar e suavemente, como uma fina teia de aranha. Alarmada, deu-se conta do inusitado silêncio que pairava no ar. Não se ouviam os pássaros, nem os esquilos. Os arbustos não se agitavam, como antes, e os pavões, que já tinha visto passar arrastando as suas majestosas mantilhas azuis e verdes, pareciam ter existido apenas na sua lembrança.  Como um quadro mal pendurado, subitamente desajustado ao redor, a paisagem alterara-se, transfigurara-se, como uma tela pintada e toscamente sobreposta na mancha verde da floresta. Um arrepio agoirento fê-la levantar, em sobressalto.

   Ergueu os olhos para as copas despidas das árvores. Uma neblina densa ameaçava irromper em fúria por entre os troncos quietos e mudos. Não queria que o fim de tarde, sempre tão adiantado nesta época, a apanhasse ainda no coração daquele bosque encantado. Que imprevidente fora! Teria muito que explicar, quando chegasse a casa!

Sentiu outro arrepio e uma aragem fria afagou-lhe o rosto, de forma insidiosa e sombria. Antes que pudesse voltar-se, em desassossego, uma escuridão profunda engoliu tudo ao derredor. O chão afundou-se como um mar agitado de tempestade e sentiu-se desfalecer como a chama periclitante de uma vela à mercê de um sopro breve e sinistro, os cachos de cabelo doirado impecavelmente dispersos na água fria da corrente, como nenúfares.

 

 ..

 

Acordou banhado em suor, esgotado. Ainda a ouvia chorar. Os pesadelos eram, agora, menos frequentes, mas ainda o atormentavam. A imagem do corpo a flutuar no riacho, como uma boneca de trapos, materializava-se, frequentemente, nas suas memórias, desde o dia em que a encontrara.

Levantou-se e tomou o pequeno-almoço, antes de se perder entre as flores do jardim e as verduras da horta. Havia que preparar as encomendas, pois logo começaria a chegar a freguesia. Deixara de ir à vila para poder dedicar mais tempo à edificação, abnegada, do seu santuário, mas os seus produtos eram frescos e a oferta não era muita, entre os habitantes, pelo que, as pessoas subiam até à ilha, para se abastecerem. Na realidade, muitas vinham impelidas por uma curiosidade mórbida, mas a azáfama fazia-lhe bem. Distraía-o dos sonhos maus e das alucinações constantes dos últimos meses.

Por vezes, os sussurros tornavam-se insuportáveis e cuidar da terra ajudava-o a manter alguma serenidade. Isso e cuidar do tétrico relicário. Sabia que eram muitos os que o consideravam louco, mas não o incomodavam e ele também não. Desde que o deixassem sozinho com as suas lembranças e as suas bonecas.

Nos dias mais curtos, notava-a mais inquieta. Os lamentos cresciam e um burburinho de vozes enfurecidas, em uníssono, ameaçavam enlouquecê-lo. As noites tornavam-se demasiado longas, os passos urgentes e desordeiros, ameaçadores. Tapava os ouvidos e entoava as suas preces, baixinho, mas, sabia que precisava de lhe acalmar o espírito, por isso, as recolhia e as usava como ornamentos que outros viam como macabros, mas não ele. Muitas vezes, mais recentemente, costurava-as ele, enchia-as de trapos velhos e dava-lhes forma, embalado pela recordação dos seus cabelos loiros e do corpo franzino de menina.

O culto tornara-se parte reclamada da sua rotina e surtia efeito. Acalmava-o a ele, mas, sobretudo, apaziguava-a a ela. Não sabia bem quando iniciara, como iniciara, a inusitada jornada. Depois de começar a ouvi-las, seguramente. As vozes. E os passos miúdos e ansiosos, quando deambulava pelo bosque, sozinha, atordoada, pisando as folhas secas e murmurejando as canções de embalar que aprendera da mãe. Pressentir a voz da mãe sempre tivera o poder de a acalentar, como se nenhum mal pudesse medrar desde que fosse capaz de continuar a ouvi-la.

Nesse dia, acabara de costurar outra linda boneca de trapos. Contemplou-a longamente, admirando a arte que fora aperfeiçoando ao longo do tempo. Era maravilhosa! Encantá-la-ia! Mais do que a última, menos do que a próxima. Assim se ia dando conta do aprimorar da sua obra, a cada etapa, pelo silêncio reparador que se seguia. As longas noites permaneceriam tranquilas durante algumas semanas, cessariam os passos e os murmúrios aflitos e incansáveis. E, desejosamente, deixaria, por algum tempo, de escutar a corrente apressada e caprichosa, implacável como uma tormenta.

Sim, estava linda! Sabia, exactamente, onde colocá-la, mas, haveria tempo amanhã. Por ora, precisava de descansar e dispor prazerosamente do raro sossego da noite.

 

...

 

A lua enchia o céu limpo, imenso, derramando a sua luz prateada como um manto de seda macia que escorria, indolente, pela paisagem adormecida.

Viu-se a entrar na floresta, descalço e obediente, pois há muito que lhe pertencia. Percebia a urgência do seu apelo. Ele também estava muito cansado. Não tinha tanta pressa, mas rendera-se à agonia dela e consumira-se. Chegara a hora e sentia-se em paz.

A corrente estava calma, desmaiada entre os seixos polidos como um amante saciado. Os pássaros chilreavam em notas aliviadas e harmoniosas, sem o habitual prenúncio de morte, que ironia! Talvez pudesse ficar; cuidando dos esquilos, voando com os colibris e admirando os pavões com as suas magníficas caudas garridas de penas aveludadas. Mas, não. Ela reclamava-o e ele pertencia-lhe desde o instante em que a descobrira, repousando nas águas frias do riacho, como uma eterna e adorável bela adormecida.

Um calor doce e tranquilizador envolveu-o com deleite. Abandonou-se à volúpia da morte e permitiu-se repousar, por fim.

 

(Mal) Inspirado na lenda da ilha das bonecas, México


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Pela Boca...

…Morre o Peixe. Lá diz o ditado. E os ditados, como se sabe, alimentam-se (também) dos vícios e das fraquezas dos Homens.

O problema de apregoar virtudes sem lhes seguir a linha é que, tarde ou cedo, o dissimulado virtuoso há-de tropeçar, com mais ou menos estrondo, derramando, irremediavelmente, toda a sua putrefacta pureza.

 “Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo”. Pobre Confúcio. Vivesse ele agora e ainda não teria visto ninguém que amasse tanto a virtude quanto ama a sua conta bancária.

A virtude tem destes defeitos. Como a coerência, estão destinadas aos imbecis. É mais prudente não as levar demasiado a sério, não vá dar-se o caso de termos que renunciar a uma magnífica oportunidade de entrarmos para o rol dos privilegiados por uma qualquer convicção chocha que tivemos que defender no passado (mesmo que esse passado não esteja muito longe). Foi assim com a casinha de 600 mil euros de Pablo Iglesias, em Espanha, é assim com o imóvel em Alfama de Ricardo Robles (será do apelido?). Afinal, a perspectiva de lucrar, em pouco mais de quatro anos, 4-vírgula-qualquer-coisa milhões de euros numa transação comercial (legal, legítima e blá, blá, blá, blá…) choca de frente - e de forma muito violenta e dolorosa, diga-se! - com a indignação contra a especulação imobiliária. Como não ser sensível a tantos dígitos? O vereador Ricardo pode continuar a insurgir-se contra a malévola Cristas mais a sua lei, enquanto o (co-)proprietário Robles evoca as mesmas para mostrar, até, benevolência na actualização das suas rendas. Assim uma espécie de Heckel and Jeckel do fantástico mercado imobiliário.

“Quanto à virtude, não basta conhecê-la, devemos tentar também possuí-la e colocá-la em prática.” Ora, essa! Quem disse?

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Jornalismo Poucochinho

“Quem é que paga e quanto é que custa”, (ajudar a salvar uma vida), perguntou, insistentemente e em directo, o jornalista da Sic, Rodrigo Pratas, terça-feira à noite, ao Secretário de Estado da Protecção Civil, José Artur Neves. Face à manifesta falta de vontade e desconforto do visado em responder à questão, naquele contexto, o jornalista puxou da legitimidade daquela.

Os jornalistas têm o inequívoco e incontestável dever de interpelar o poder político, e outros, em relação a todos os temas que dizem respeito à gestão dos cargos exercidos, pagos com dinheiros públicos (de nós todos, portanto!) e, particularmente, no que se prende com gastos e custos, pois com certeza! E, claro, o nosso direito à informação plena e detalhada não deve compadecer-se com incómodos dos interpelados, ora essa! A pergunta é, por isso, legítima. E oportuna, é? Naquele dia?

Teria adorado ver tanta assertividade, tanta transparência e firmeza, por parte da imprensa, em geral, e dos jornalistas, em particular, nas várias entrevistas a tipos como Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, António Mexia e tantos outros que por aí pululam, onde a legitimidade de perguntar e o direito à informação esbarram, tantas vezes, com a deferência patética e a quase vassalagem a quem se julga à margem do justo escrutínio…Talvez, Rodrigo Pratas ainda não tenha tido essa oportunidade.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Presumíveis Culpados, ou a Vergonha de Ser Honesta

Quando alguém atira uma beata de cigarro pela janela do carro que vai à nossa frente ou quando temos que afastar as beatas da areia para estender as toalhas de praia – mesmo naquelas praias que ostentam o típico símbolo de qualidade ambiental – não poucas vezes o meu marido desabafa um resignado “todos os fumadores são porcos até prova em contrário”. Assim mesmo. Em tom depreciativo. Para os porcos, porque, aparentemente, os animais até são limpos, sensíveis e inteligentes. Não os que atiram as beatas para o chão, os outros.

Adiante. Na política e nas elites sociais será mais assim: todos os suspeitos são culpados até prova em contrário. Se não é assim, parece exactamente assim. De José Sócrates a Manuel Pinho, de Armando Vara a Henrique Granadeiro, de Ricardo Salgado a Zeinal Bava, e tantos, mas tantos, etceteras mais que já ninguém acredita numa palavra desta gente.

Quando algum peixe graúdo surge apontado como suspeito ou arguido de qualquer crime, há três coisas que me fazem sempre suspeitar da suposta vontade que manifestam no cabal esclarecimento da verdade: a evocação do eterna e selectivamente violado segredo de justiça, a reclamação da presunção de inocência e a escolha dos doutos advogados de defesa.

Este fim de semana, ler o jornal Expresso e as revistas Visão e Sábado foi um exercício de levar à náusea qualquer pessoa de bem; impróprio para pessoas decentes que, apesar de tudo, ainda existem neste maravilhoso país. Deviam ter sido vendidos com bolinha vermelha acompanhada da indicação as publicações que se seguem contêm notícias susceptíveis de ferir o sentido de honra e decência dos leitores.

Quando se diz que, em Portugal, as pessoas são invejosas em relação a quem tem dinheiro deve ser porque, quando se vê como é que algum dinheiro é ganho, a margem é pouca para acreditar no mérito próprio. Entre as amnésias selectivas, os desconhecimentos súbitos e altamente oportunos, os procedimentos legais-barra-imorais e outras coisas que tais, sobra pouco para o benefício da dúvida e para a tal presunção de inocência. A promiscuidade entre política, negócios e alta finança é tanta e tão descarada que é impossível não desconfiar de toda a gente. E os esquemas estão tão enraizados na nossa maneira de estar que há quem conviva bem com ter uma “casa” recuperada com dinheiro que portugueses de bem (alguns, sabe-se lá com que sacrifício próprio!) reuniram para acudir às vítimas dos acontecimentos mais dramáticos que se viveram em Portugal, no verão passado. Não é nada de mais, certo? Os deputados também dão moradas de casas onde não vivem para poder engordar os ordenados mais um bocadinho e muitos encarregados de educação fornecem moradas falsas para matricular os seus filhos nas melhores escolas. Dir-se-á que não é comparável, é um facto, mas a questão é aceitação do que é errado como sendo normal. Os que entram no esquema são expeditos e inteligentes; os honestos, basicamente, otários e pouco eruditos.

Ser honesto não devia ser motivo de exultação, mas, pelo menos, não devia embaraçar-nos. Ainda assim, aqui há uns anos, vivi uma situação surreal que me fez ter alguma vergonha de ser séria. Encontrei-me com uma amiga na Fnac do Cascaishopping. Enquanto ela não chegava, sentei-me na parte da cafeteria, com um livro que pretendia comprar e comecei a ler, para ocupar o tempo. Quando a minha amiga chegou, trazia um embrulho que me entregou. Era uma T-shirt para o meu filho, pintada com um desenho do filho dela. Uma oferta de afectos. O caso é que coloquei o embrulho em cima do livro (tinham mais ou menos as mesmas dimensões) e fomos ficando por ali, a conversar. Quando, finalmente, saímos as duas da Fnac, nunca mais me lembrei do livro. O alarme, à porta da loja, não soou e só quando voltei a entrar no meu carro e pousei as coisas no banco ao lado é que reparei que saíra sem pagar o livro! Voltei à Fnac para fazer o pagamento e expliquei a situação, desculpando-me. A senhora que me atendeu chamou-me anjinho. Estive para lhe atirar o livro à cabeça. Nunca tinha tido vergonha de ser uma pessoa honrada, mas, parece que tinha sido mais avisado ter seguido o meu caminho. Parece o retrato perfeito da sociedade em que vivemos.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Sai um idiota fresquinho, se faz favor!

Não sei se me ria se chore:pesquisa-idiot-e-aparece-trump

Abomino tudo aquilo e mais alguma coisa que Donald Trump representa, mas isto é assustador. Será que podemos e devemos lutar com as mesmas armas que repudiamos?

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Circo dos Beras

As discussões públicas, nomeadamente sobre política e futebol, tornaram-se obscenos circos mediáticos com palco nas principais estações televisivas, mesmo nas ditas de referência. Não faltam, sequer, palhaços de estilos vários, em solo nacional e internacional.

Apresentadores e pivôs de telejornal fazem as honras da casa, com enorme entusiasmo e alarido, estendendo generosamente o tapete vermelho a toda a espécie de demagogos, populistas, mentirosos, corruptos e candidatos a corruptos, chico-espertos e mais outro tanto de artistas que usurparam o país como cadafalso privativo, fazendo dos restantes cidadãos os condenados. Hoje, os corninhos de Manuel Pinho seriam encarados com brandura, quiçá, com humor ou até com bravura.

Inaugurou-se uma forma de estar na política e na vida em que apenas os tolos se podem dar ao luxo de ter rasgos de seriedade e lisura. As elites, essas comportam-se como bandos organizados de arruaceiros envernizados, do chico-esperto mais básico ao finório mais ardiloso e matreiro. De dirigentes políticos a dirigentes desportivos, de ministros e ex-ministros a assessores, da cigarra à formiga, se não todos assim parece, procuram proveitosos fins quaisquer que sejam os meios.

O povo, mercê da voragem vertiginosa das redes sociais, entretém-se em intensas orgias de ódios instantâneos e fugazes repulsas, trocando de alvo como quem troca de par em bailes de swing. Um caderno para menina não pode ser cor-de-rosa sem que isso levante um coro de gritos furiosos, mas um ministro em funções pode acumular ordenados com milhares de euros mensais provenientes de recheados e famosos sacos azuis sem que os Facebooks e os Twitteres se incendeiem. Os que consideram uma aberração que uma avó possa parir um neto são intelectualmente atrasados, egoístas e inclementes com a dor dos que não podem ser pais de outra forma, mas um pedófilo pode continuar em liberdade e a conviver com crianças até serem esgotados todos os recursos, da primeira à última instância, pois é prova de elevado intelecto respeitar a lei até às últimas consequências. Apontar o dedo e duvidar, à margem de decisões judiciais, da idoneidade e honestidade de quem ostensivamente se comporta como embusteiro e larápio revolta as entranhas dos acérrimos defensores do estado de direito e das minudências da lei, mas a raposa, depois de condenada, pode voltar a assenhorar-se do galinheiro que já pilhou sem que, por isso, tremam as redes sociais.

Hoje, é possível mentir, ludibriar, roubar (muito, claro!) sem que isso cause grande alarme social, mas limitar os géneros ao masculino e feminino é motivo de perseguição cerrada pelas brigadas pró-tolerância. As plataformas virtuais censuram e eliminam, implacavelmente, imagens de nus sejam eles a origem da vida ou o terror da guerra, mas, negar o holocausto deve, delicada e elevadamente, enquadrar-se no direito à nossa(?) liberdade de expressão.

Somos implacáveis, mas, apenas quando isso dá likes. De outro modo, a ira esvazia-se. Cada um segue o seu caminho por entre os pingos da chuva. Tomadas de posição, só em massa, a reboque do rebanho e, claro, desde que esteja na moda.

Para não fugir à regra, parece que o último golpe de génio é o aproveitamento da tragédia de Pedrogão Grande. Como não? Segundo a revista Visão, o esquema consiste na alteração das moradas fiscais, já depois da data dos incêndios, para que habitações não permanentes fossem tratadas como primeiras casas - mesmo aquelas onde ninguém vivia há anos. Que valores queremos deixar às nossas crianças e jovens? Dá nojo.

A dupla negativa...

Já estávamos familiarizados com as delicadas inverdades, as inconvenientes fake news e os coloridos factos alternativos. Também não desconhecíamos os lapsus linguae (acontece aos melhores…) e as dramáticas descontextualizações; as proveitosas amnésias dos políticos e dos donos disto tudo e o desconhecimento periclitante e amador dos gestores de topo. Faltava-nos, no entanto, a inovadora e elegante dupla negação que Donald Trump (quem mais!?) invocou para se defender da chuva de duras críticas de que foi alvo, por assumir publicamente que tomava como verdadeira e impoluta a palavra de Vladimir Putin no que toca à alegada ingerência russa nas últimas eleições presidenciais americanas.

“Em quem acredita?”, perguntou o jornalista da Associated Press, Jonathan Lemire, a Donald Trump lado a lado com o presidente russo, em plena conferência de imprensa, em Helsínquia. Uma pergunta simples nem sempre exige uma resposta simples, é um facto. Mas, Donald Trump deu uma resposta simples; à sua maneira. Se não no conteúdo, pelo menos, na forma. Com a sua habitual inépcia e vocabulário rudimentar, Trump começou por dizer qualquer coisa do género “a minha gente falou comigo, Dan Coats e outros, e dizem que acham que foi a Rússia”. Ora, com o presidente Putin ao seu lado, nada mais inteligente e astuto do que perguntar ao próprio, não?, pelo que, Donald Trump rendeu-se a essa brilhante e eficaz estratégia política e rematou “eu tenho o presidente Putin a dizer que não foi a Rússia e digo isto: não vejo por que razão seria”. “Não vejo por que razão seria”. Vários forward and rewind depois (afinal, o inglês, aparentemente, também é uma língua traiçoeira…), posso jurar que foi mesmo isto que Trump disse. Mas, só que … parece que não.

Dois dias de mimos depois – desde traidor, erro trágico, vergonhoso, bizarro e afins – Trump foi ao Twitter (outro must) reforçar a GREAT confidance que tem nos SEUS serviços de inteligência. Assim, em letras gordinhas e maiúsculas para não haver mal-entendidos. E, para que não restassem mesmo dúvidas – afinal “devia ter sido óbvio, pensei que fosse óbvio, mas, queria esclarecer para o caso de não ter sido” – Trump veio afirmar que, nas suas declarações em Helsínquia, usara a palavra, “seria”, em vez de “não seria”. Ou seja, frase deveria ter sido “Não vejo nenhuma razão por que não seria a Rússia.” Uma espécie de dupla negativa, também nas sábias palavras do próprio. Tudo isto, em directo para as televisões e sem corar de vergonha. A seguir, ainda aceitou (imagino que a custo) a conclusão dos Serviços Secretos americanos de que houve interferência da Rússia nas eleições de 2016, para logo acrescentar que também poderiam ter sido outros, pois há muita gente por aí

Imagino que, quando voltar a reunir-se com Vladimir Putin, Donald Trump lhe explique que, desta vez, terá usado a palavra “aceito” em vez de “não aceito” a conclusão dos seus Serviços Secretos. Mas o diabo mora nos detalhes e, a provar que eles andam mesmo por aí, as luzes da sala onde Donald Trump se desdizia com máxima e empolgante convicção desligaram-se.

Tudo isto teria imensa graça, não fosse dramático e perigoso. Foi inaugurada uma nova forma de estar na política (e não só), onde cabem todas as formas possíveis da mais perniciosa desonestidade e com as quais, aparentemente, se convive bem, pois causam menos indignação do que todas as formas do é p´ro menino e p´ra menina e seus derivados.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Redes Sociais: Use com Moderação

Um dos mergulhadores ingleses que participou nas operações de resgate dos doze meninos tailandeses e do seu treinador sugeriu que Elon Musk podia “stick his submarine where it hurts”, que é como quem diz, ele que enfie o submarino onde lhe doer. Fantástico, não é? A brilhante tirada vinha na sequência – em declarações à imprensa – de uma pergunta sobre qual teria sido exactamente a intenção do CEO da SpaceX ao enviar o “mini-submarino” para Mae Sai. Na opinião do mergulhador, o mini-submarino não tinha qualquer hipótese de funcionar como opção de recurso ao salvamento e Musk, por sua vez, não teria qualquer noção das características da gruta no que toca aos percursos a realizar. Não estando em causa a perícia dos mergulhadores – e daquele, em particular – para criticar a fiabilidade das soluções apresentadas por outros, mandava o bom senso que não se caísse na brejeirice. Digo eu, que estou bastante desactualizada nestas coisas.

Se um foi pouco elegante, a resposta do outro não ficou atrás e, recorrendo ao Twitter, Elon Musk acusou de pedofilia, nem mais nem menos!, o mergulhador inglês, de seu nome, Vernon Unsworth. E, claro está, sem fundamentar a acusação pois para isso é que a malta quer as redes sociais. Lógica? Da mais simples: Unsworth vive na Tailândia, a Tailândia tem um dramático problema de prostituição infantil, logo, Unsworth é pedófilo! Assim, uma espécie de tabela de verdade que só é “verdade” na ligeireza do bullying virtual que permite amigar e desamigar, bajular e insultar, dizer e desdizer de forma, aparentemente, tão apaixonada quanto inconsequente.

Eu acho que as redes sociais deveriam apresentar um alerta, assim ao estilo dos maços de tabaco: “a utilização de forma estúpida prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam”, ou, “descarregar baboseiras-barra-insultos nas redes sociais pode provocar a morte lenta e dolorosa da sua inteligência”.

É inacreditável como pessoas adultas e, supostamente, dotadas de algum discernimento, com provas dadas de competência em diferentes áreas, podem chegar a ser tão básicas.

Quando o meu filho era mais pequenino, perguntava-me muitas vezes “mamã, os adultos também fazem disparates?”. A inocência das crianças é algo delicioso; mas, olhando para o lado positivo da coisa, sempre podemos usar o seu valor pedagógico…

"Fake You"

Donald Trump voltou a ser Donald Trump. Depois das histéricas ameaças à NATO, depois dos insultos mais ou menos velados a Theresa May, depois dos disse-e-não-disse travestidos de fake news – tão caras ao próprio – o presidente dos EUA destratou, com pompa e circunstância, a rainha Isabel II.

Pessoalmente, não me incomoda muito que um homem rude, malcriado e estilo arruaceiro de esquina mal frequentada atropele protocolos monárquicos e, pelo meio, sua alteza a rainha-mãe. Não tenho qualquer afinidade com a monarquia, em nenhuma das suas vertentes. Mas, choca-me profundamente que um brutamontes desrespeite, ostensivamente e para o mundo inteiro ver, uma senhora de 92 anos e, ainda mais, sendo seu convidado.   

No entretanto, Donald Trump anunciou que será candidato a um segundo mandato como presidente da América, porque não vislumbra nenhum democrata capaz de lhe fazer frente. É natural. É sempre difícil argumentar com lunáticos. Mais ainda, com lunáticos que são, ao mesmo tempo, mentirosos compulsivos e candidatos brilhantes ao prémio de melhor bully do ano. Se fiquei absolutamente pasmada com a primeira eleição deste homem, já não me espantaria que voltasse a arrebatar a presidência dos EUA. Afinal, muitas são as críticas que lhe tecem, mas, a verdade é que o estilo vai colhendo frutos…

terça-feira, 10 de julho de 2018

O Milagre da Vontade

"Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a electricidade e a energia atómica: a vontade." É uma das minhas frases preferidas. Se dúvidas houvesse quanto à convicção de Albert Einstein, bastava ter estado com os olhos postos nestas treze crianças tailandesas e no seu treinador, nestes últimos dias. E, também, naqueles que se disponibilizaram a ajudá-los.

Contra (quase) todas as expectativas, todos os peritos, todas as opiniões fundamentadas na técnica e na experiência e muitos outros eteceteras, um grupo de pessoas fantásticas protagonizou uma história que tem tanto de assustadora como de electrizante. Porque os “milagres” fazem-se, precisamente, da vontade de todos aqueles que se envolvem de corpo e alma nas tarefas a que se propõem. "Algo só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário", terá dito, também, o génio.

Não sei se os meninos e o seu treinador aprenderam ou não a mergulhar, se saíram em macas, se terão sido ou não sedados ou outro tanto de coisas que se disseram nos meios de comunicação social. Mas sei que todos os especialistas, entre psicólogos, mergulhadores e outros técnicos competentes, chamados a dar os seus profissionais pareceres, foram unânimes nas enormes dúvidas em relação ao sucesso desta operação. Esqueceram-se dessa tremenda vontade que molda a alma dos que acreditam e se alimentam desse querer.

Tal como outras vezes, a realidade superou a ficção, mas, desta vez, na forma de um final admiravelmente feliz.

Ao  milagre do resgate, some-se a tremenda onda de solidariedade dos que se juntaram para apoiar as equipas de resgate, os jornalistas e as famílias dos meninos. Numa história feita de coragem, resiliência, persistência, competência e perseverança, a mulher do presidente da câmara de Mae Sai – que é presidente da Cruz Vermelha local – mostrou o que é o verdadeiro serviço público: fez uma “vaquinha” com os elementos da sua equipa e, com dinheiro pessoal, compraram os primeiros mantimentos e começaram a preparar as primeiras refeições. Antes de estar tudo mais organizado. Qualquer semelhança com a realidade de alguns é pura coincidência. Mas, também, tudo nesta história é maravilhosamente inacreditável. 

Seguramente, os sorrisos e a alegria das crianças e das suas famílias estarão também com aquele outro herói que perdeu a vida para ajudar a salvar as suas.