segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Invoco a cidade de Roma. Ainda a propósito dos contos de John Cheever e das suas múltiplas referências a Itália, e a Roma em particular. São referências, pouco mais. Não há lá nada da minha devoção imoderada pela cidade eterna.

Ignoro se vivemos outras vidas. Se vivemos, já fui de Roma. Já vivi a infâmia burlesca aclamada freneticamente na arena sangrenta do Coliseu; já passeei pelos corredores empedernidos do Fórum Romano; já percorri todos os extensos caminhos da Via Appia, afagando as pedras maciças e largas, e serão seguramente meus alguns dos ossos confiados piedosamente às entranhas da terra, no coração das catacumbas, entre túneis labirínticos, lúgubres, que o guia relembra não podermos fotografar. Espreito as criptas escavadas nas paredes, a diferentes alturas e momentos, talhadas pelo cunho do tempo ou pelo punho do homem, à medida, algumas adornadas de símbolos e gravuras e dos frescos que ainda resistem na companhia dos mortos que veneram e guardam, entre santos, e mártires, e pontífices devotos. Sobressaltam-me os ruídos metálicos, os rugidos enrouquecidos que sobem de tom sobre o eco do silêncio que se impõe, subitamente, como um espírito que se houvesse materializado entre muros e túmulos para desassossego dos vivos.

Já adorei noutra época o êxtase de Santa Teresa, sob o olhar atento de Gian Lorenzo Bernini, perdida na mesma fantasia que, pelo brilhantismo da arte, o escultor materializou numa estátua repleta de erotismo pouco católico, expressão mais que divina da exaltação do prazer espiritual, sim, mas eminentemente (iminentemente?) físico, que uns chamam de profano, por pudor ou por despeito, tanto faz, pois assim o descreveu Teresa, aludindo ao anjo que lhe apareceu, de beleza nunca vista, cuja longa lança de ouro lhe penetrou o coração e as entranhas, numa dor tão grande que a fez gemer, muitas vezes, em voz alta, não querendo, porém, livrar-se da doçura dessa dor excessiva, desse prazer tão grande que nenhuma felicidade terrestre poderia oferecer-lhe, do amor imenso que sentiu por Deus, quando, finalmente, o anjo tirou de si a sua lança: Bernini traduziu-o magistralmente.

Roma é a minha cidade italiana. Nem sei bem porquê. Florença é uma cidade magnífica, e toda a região da Toscana é de uma beleza encantadora, temperamental no bom sentido do termo, sem o desplante descortês do Sul. Toda a Itália é temperamental, na verdade. Mas Roma é quase decadente e entranhou-se-me na pele, encheu-me os sentidos de espantos e a alma de uma loucura insaciável. A cidade é suja, caótica, os italianos em geral e os de Roma em particular, não são tão acolhedores como se diz. Cumpro a penitência com deleite. Basta-me a imponência das ruas, as rugas do tempo riscado a cada esquina a que me rendo sem dor, o burburinho da História narrada sobre as pedras, o cheiro dos séculos passados que me transporta à dimensão imperial da época, em memórias guardadas como relíquias.

E gosto cada vez mais de Itália. Sem mas nem porquês. Ponto. Hei-de ir ao Carnaval de Veneza, e hei-de voltar a Roma, de onde nunca chego realmente a partir.




domingo, 29 de agosto de 2021

 



"O inglês de Boobee era tremendo. «Posso ir a si para ficarmos juntos?», perguntava a uma senhora, pretendendo simplesmente sentar-se ao lado dela.”


Estive cinco minutos a rir-me com aquilo, e outros cinco mais quando o amigo que me mostrou John Cheever – e me emprestou o segundo volume dos seus contos – me perguntou de que me ria tão desassombradamente e reli a passagem, desta vez, em volta alta: é ainda mais hilariante em voz alta. Ou isso, ou o confinamento prolongado de que me vou libertando aos poucos afectou-me mais do que supunha.

O pretexto para a leitura era um conto de John Cheever em particular, O Nadador: “Era um daqueles domingos de Verão em que toda a gente fica sentada a dizer: «Ontem à noite bebi demais.», e daí para uma singular e desarmante alegoria do fracasso. Em doze páginas, na edição que li. 

O melhor de tudo é que O Nadador nem é o conto de que mais gostei. São dois volumes de puro prazer. Há lá de tudo: desejo, traição, tragédia, humor, argúcia, loucura, crítica implacável... Como é que demorei tantos anos a descobrir isto? Ou a minha memória apagou algum primeiro encontro?




sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Tenho abusado de todos os logros para me manter à margem da actualidade. À tona do mundo em destroços, cada vez menos suportável sem uma pequena dose de inconsciência que me resgate da realidade crua, implacável. É preciso uma certa dose de inconsciência, sim, para que o mundo não doa insuportavelmente. Não é só o Afeganistão. O Afeganistão é só a ferida a céu aberto neste instante exacto; o rosário que alimenta o drama mediático do momento. Ainda há pouco era o Haiti, e já quase ninguém fala do Haiti; ou de todos os outros infernos antes desses. A indignação civilizada é o riscar de um fósforo, esgota-se rapidamente à espera da ignição seguinte. Deve, pois, residir na inconsciência essa tentativa de decoro possível, do equilíbrio que se ensaia entre o privilégio de uns e o infortúnio de outros. Se não somos todos vítimas, alguns haveremos de ser carrascos, seja por actos ou omissões. A convivência com as duas realidades pode ser intolerável sem a dose mínima de alheamento. O mundo é o que é, não é? Ou talvez haja mesmo alguma escala infame sobre a qual o sofrimento seja objectivamente mensurável

Casa de Mateus

 


Não sabia nada de poemas frutados e versos redondos. De linhas perfumadas, debruçadas nas janelas de vidros foscos, ou de sentimentos meigos cerzidos no lume brando das paixões melancólicas carregadas de vazios pontiagudos. Sabia do cheiro suado e húmido da terra revolta. Do deflagrar do relâmpago, abrupto, rasgando o céu em artérias incandescentes, o latejar mudo da luz e o tempo suspenso num instante, tenso como a corda de uma guitarra entre dedos duros e hábeis. Dos gritos estridentes das gaivotas quando o ar cheira a tempestade, e da ameaça de abandono quando o corpo dele desaguasse no seu.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Das varandas brancas, em cascata, empoleiradas sobre o imenso penhasco que se ergue da Kasbah numa vertigem insolente costumava avistar Espanha, nos fins-de-tarde quentes de Verão. As árvores generosas emprestavam a sombra que corria zelosa, à cabra-cega, ao sabor do vento num sussurro esgalhado, afastando o calor com aprumo, enquanto se serviam chãs de hortelã e menta borrifando espessos perfumes fumegantes, como padres aspergindo incensos em missas de semana santa, os toscos copos de vidro já baço fazendo as vezes dos sagrados turíbulos. Cada mesa conta uma história diferente, sonha um sonho diferente. Eu pasmo com a imensidão do mar que se me oferece, ali mesmo, onde o Mediterrâneo se funde, rosnando, com o Oceano Atlântico, um hálito bruto a maresia, confundindo com implacável astúcia os sentidos mais incautos. Se os mares se amansam em carícias consentidas como amantes saciados, a vista alcança a costa de Tarifa, para onde rumam, todos os dias, as ilusões daqueles a quem a sorte não autorizou a travessia do estreito à boleia dos ferries de pontualidade duvidosa, mas velozes e livres como o ar que se respira. Os rapazes, desocupados, fumam cigarros comprados avulso, um por cada duas bocas ávidas de vícios urgentes, de consolação miserável, os olhos repousando, por momentos, das esperanças sôfregas e desdenhosas de resignações acertadas. Alguns, nessa mesma noite, hão-de, enfim, atrever-se a afrontar a sorte que os desprezou, a renegar o vazio que os consome como as larvas outrora os corpos mortos que, em tempos, habitaram as tumbas fenícias agora vazias como eles. Há uma sala interior, alcatifada, que vislumbro de soslaio sempre que subo e desço os degraus escarpados, e onde, dizem, uma conhecida e ainda viva estrela rock tinha por hábito abandonar-se aos vapores caprichosos dos cachimbos de haxixe, enquanto admirava a costa, em frente, emoldurada em amplas janelas vivas, tentadora como uma Mona Lisa suspensa das paredes do Louvre. Não se vê um móvel. Os únicos adereços são os cachimbos de água coloridos de cores berrantes e mangueiras desmaiadas em desalinho, aguardando a vez, e homens sem idade nem alento ruminando o estupor a fogo lento em baforadas longas e redentoras. Cerca de quinze quilómetros em linha recta separam dois acasos, duas sortes, dois destinos. Atrás das janelas despidas de vidros, à mercê do ópio e do ócio, muitos blasfemam em surdina contra um deus que os largou, num embuste velhaco, do lado errado do mar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

“Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

Mas é preciso escolher: viver ou contar.”

Jean-Paul Sartre

 



domingo, 8 de agosto de 2021

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

 



 



"A pedra na terra.

Oiço a pedra badalar nos sinos.

Estou muito mais distante do que aquilo que a pedra atirada pode alcançar.

 

Estendes-ma: um punho de trevas.

A hora.

A pedra que bate nos sinos." 

Daniel Faria

 

Acho que nunca tinha ouvido o nome de Daniel Faria. Encontrei-o por acaso, já lá vão umas semanas, pela mão de Pedro Mexia, e foi amor ao primeiro verso.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Regresso várias vezes ao mesmo lugar. De cada vez, o mesmo assombro, o mesmo encanto. O mesmo desassossego. E outra coisa qualquer que ainda não aprendi a definir. Entre o silêncio frio das noites do deserto, que enrouquece os sentidos, e o brilho intenso das estrelas, lá em cima, bordando a ouro e prata o céu de veludo, de azul enegrecido como a asa lisa de um corvo. Entre o murmúrio da água antecipando o dilúvio e o cheiro agreste do vento afiado que sopra na minha memória, e há sempre uma ameaça de cólera no vento gelado do deserto. A areia fina e dourada que escorre, ébria, do cimo das dunas, em pérolas minúsculas, um xaile de faz-de-conta da mais rica renda resvalando lento como gotas de orvalho sobre os meus ombros nus, e o luar redondo, de dedos suaves e seguros, tatuando caminhos no ar à flor da pele. Da minha pele. Ou a ladainha das folhas secas de Outono que se soltam dos ramos esguios das árvores num crepitar de folhos, um sussurro glacé como o esvaziar estalado das ondas na beira da praia. Regresso como quem procura sem saber bem quem ou o quê. Onde, quando, o que és exactamente, se te tive alguma vez para lá das sombras com que te alimento. 


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

 



Super-Mulher

 


Trabalho, trabalho, trabalho. Linda. 


E paixão. Entretanto, dizem-me que me esqueci da paixão, tão ou mais importante que o trabalho. Não me esqueci, mas talvez tenha sido tomada por um nadinha de soberba, porque os tenho como indissociáveis. De qualquer forma, basta olhá-la. A paixão pelo trabalho que faz está toda lá. O sacrifício e a renúncia, também. Se tudo isso vale a pena, cada um saberá e a mais não é obrigado.

"El amor y la muerte se parecen: cuando estamos perdidos acudimos a ellos."

Silvina Ocampo