domingo, 28 de fevereiro de 2021

Esta coisa do passaporte sanitário causa-me calafrios.  

Não sei nada desses Deuses que caminham contigo e te resgatam. Do vento gelado do Norte esculpindo montanhas brancas, recortadas, como catedrais eternamente inacabadas, como eu as imagino. Mas sei da urgência da saudade. Sei do silêncio imaculado que antecede a alvorada, mesmo a que se faz de luz quieta. Do que tem de sagrado. Sei do gemer da Terra. Do assombro, do espanto; da inquietação furiosa dos sentidos. Sei do manto negro e denso do crepúsculo, do Sol dourado de Outono e do aroma intenso do café amargo, acabado de fazer.

Sei das muralhas que construímos e onde nos trancamos, julgando-nos a salvo. Sei que podemos não dar pela primeira brecha, para, depois, rasgá-la pelo próprio punho. Conscientemente.

Sei de caminhos cruzados e de encontros improváveis. De canções de embalar e de preces ancestrais. Sei de anjos e demónios, e de um certo desassossego que me era estranho não há muito tempo e a que me entreguei, como uma suavíssima embriaguez. 

Sei do acaso e da cumplicidade. Do privilégio de te ter encontrado.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 









"Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

 Clarice Lispector

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

 


Era preciso silêncio para falar de liberdade de expressão. Mas o silêncio é um bem escasso. Para lá de essencial. Tenho-o visto tão maltratado, tão abusado, que já me irritam alguns dos elogios que vejo inventariarem-se tão frivolamente à volta da sua essência. Como se só eu fosse capaz de o apreciar devidamente, como se só eu fosse capaz de lhe apontar os bajuladores. Os impostores. E como se só eu fosse capaz de distinguir uns de outros.  

É um tema que me “atormenta”, e cada vez mais, o da liberdade de expressão. Onde pára, a dita liberdade? Ou não pára? Toda a gente deve gozar de um direito legítimo, inviolável, de defender aquilo em que acredita, mas, onde fica a fronteira entre a liberdade de expressão e o insulto, a ciência e a crença, a realidade e a ficção, a verdade e a mentira, mesmo que a verdade seja, às vezes, coisa de difícil definição? Até onde vai a liberdade de ofender? Ou não deve haver entraves – a não ser a do pudor próprio – a essa liberdade de ofender o Outro, na sua diferença, seja lá o que isso for? Sobretudo, como é que se discute a liberdade de expressão num tempo em que não nos conseguimos ouvir uns aos outros, aos gritos que andamos, numa azáfama frenética de provar não sei bem o quê, uns com horror ao rebanho, outros com horror ao pastor, muitos à procura de um espaço impossível de construir porque a terra não pára de tremer. E alguns empenhados, apenas, em instalar o caos, minando qualquer tentativa de debate, porque o objectivo não é esse; nunca foi esse.

A liberdade de expressão tem servido de respaldo a todas as forma de livre-pensar o que quer que nos apeteça. O que é formidável, sem qualquer ironia. Viver amordaçado é não viver. E há quem defenda que, sim, até o mais abjecto discurso deve ter palco. Pelo menos assim saberemos (quase) sempre de que buraco podem vir a sair os vermes.  E que não pode haver solução que passe pela censura dos conteúdos partilhados como pólvora. Associam a censura, de qualquer tipo, a um calamitoso acto de condicionamento da nossa expressão máxima de liberdade, receando que, a reboque e a coberto desses limitações draconianas, acabemos, afinal, amordaçados todos, e não creio que o receio seja infundado, ou exagerado.

 

De vez em quando, as liberdades de expressão soltam-se todas ao mesmo tempo, como demónios. Em dias recentes, a liberdade de expressão permitiu perambular – muitas vezes, foi mesmo só isso – sobre as (des)virtudes de Marcelino da Mata, de quem, pessoalmente, ouvi falar duas vezes, sou assim de ignorante: a primeira não é para aqui chamada (porque não é ao que venho), a segunda, na sequência do circo que se instalou entre claques, como, aliás, se tem tornado normal em qualquer discussão que podia ser séria, mas nunca chega a passar disso: uma disputa de claques. Agora, passou a usar-se o termo trincheira.

De Marcelino da Mata escreveram-se coisas que vale a pena ler e outras que serviram apenas para alimentar o fogo. É impressionante perceber como, afinal, tanta gente conhecia o homem, ou não fôssemos prodigiosos na arte de gerar especialistas da noite para o dia, do dia para a noite, a qualquer hora, ininterruptamente.

De entre essas coisas que servem apenas como jogadas, resultou uma petição a pedir a deportação de Mamadou Ba. Parece mais elegante do que atirar-lhe com um labrego “vai para a tua terra”, mas é igualmente grotesco. Fui espreitar: já leva mais de 31000 assinaturas. E, como parece que agora é preciso fazer-se sempre uma declaração de interesses, não, não tenho particular simpatia por Mamadou Ba nem pelos seus “excessos de linguagem”, mas, sim, acho que há disparates que se toleram melhor a uns do que a outros. Pelo menos, enquanto não se fizerem paradas de encapuzados à porta de todas as associações que por aí proliferam, e há muitas atulhadas de gente igualmente parva nos seus excessos. Inclusive de linguagem.

Entretanto – noutro acesso de mimetismo esgrouviado (e perigoso) – parece que André Ventura se atirou a um professor, partilhando, no seu Facebook, parte de uma aula – gravada ilegalmente. Nessa aula, o professor refere que alguns neonazis passaram a integrar o Chega e, aparentemente, a liberdade de expressão que o angélico André exige para si e para os seus – com a qual comparou Jerónimo de Sousa ao avô bêbado não se sabe de quem e acusou os lábios muito vermelhos da Marisa Matias – esgota-se aí. Depois disso, ai de quem se atrever a usar da mesma para dizer aquilo que nem chega bem a ser uma opinião, em desfavor deste nosso salvador da pátria. Parece que também há um abaixo-assinado a pedir a punição do professor e (uma espécie de) gente a ameaçar puni-lo com as próprias mãos. Lindo.

 

Aqui ao lado, há oito dias que a violência abre caminho principalmente nas ruas de Barcelona e de Madrid. Uma amálgama de gente contra a prisão de um rapero catalão de boas famílias e de maus fígados, dizem as más-línguas, eleito como símbolo da liberdade de expressão em Espanha; como um mártir. Punir gente pelo que diz – por mais estúpido ou por mais insultuoso que seja o que se diz – parece absurdo. Como também é absurdo – e bastante miserável – que a luta pela liberdade de expressão acabe por escolher heróis como o Pablo (Rivadulla Duro) Hásel. Ou o nosso André Ventura. Mas é esse o risco que corremos ao tentar calá-los. Temos, realmente, um problema. O outro é saber se podemos deixar nas mãos dos Zuckerberg do mundo digital o policiamento do discurso público.  

 

A minha relação com a liberdade de expressão vale o que vale. Basta observar que mantenho público um blogue que não admite comentários, embora haja ali um email e um formulário de contacto, se alguém sentir uma necessidade incontrolável de me insultar, e não seria a primeira vez. E quero ter a liberdade de chamar cretino a um cretino, sempre que o cretino o mereça, de modo que, mesmo que fosse só por isso, prezo bastante esse direito à liberdade de expressão.

Dizem os acérrimos defensores da liberdade de expressão que não se deve calar os imbecis, por mais imbecis. A justiça tratará de penalizar o que for penalizável (pelo menos, juridicamente) e a educação fará o resto. Não me sinto tão optimista. Aquela petição lá em cima há-de estar assinada por um ror de gente educadíssima, com toda a certeza. E o tempo da educação há muito que foi ultrapassado pelo tempo das redes sociais. É como tentar ensinar a controlar o fogo quando, de repente (na verdade, não tão de repente) já fomos engolidos pelo incêndio.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021


Quando a tarde se esgota e o sol desfalece no seu leito de morte, o meu céu ruboresce; tímido, a princípio, como o primeiro amor. Incandescente, depois, quando o sol mergulha lentamente no abismo e as nuvens se deixam rasgar em relâmpagos mudos como os deltas de um rio em chamas, as pregas das caudas tingindo-se de laranjas cada vez mais densos nesse afogar exuberante e inadiável. Vejo como o laranja se torna vermelho, e o vermelho escurece o que sobra do azul celeste até à negritude da noite; como a noite se instala, soberba, até que a nova alvorada a desfaça em estilhaços de tons violáceos.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

"Sou uma floresta e uma noite de escuras árvores: mas aquele que não temer a minha escuridão encontrará rosas debaixo dos meus ciprestes."

Friedrich Nietzsche

Sobre Coincidências

Que são como as bruxas: eu não acredito que existam, pero... acontece-me muitas vezes. As coincidências mais improváveis. Já se sabe que é possível que haja mesmo um deus a jogar aos dados.

Não interessa nada e, como se não bastasse, vem (quase) a propósito de futebol. E do "Espanhol" ou "Castelhano", cuja diferença é quase como as bruxas. E da fonética, com que eu me entretinha há dias. 

 


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Acabei de ler “O Infinito num Junco”. Finalmente. Tenho demorado mais do que o habitual, a terminar as minhas leituras, em aparente contraciclo com a disponibilidade de tempo que parecemos ter agora. Não importa.

Arrependi-me de não ter comprado o livro na sua versão original. Não posso ler em muitos idiomas diferentes do Português, mas posso ler em alguns, pouquíssimos; entre eles, o Espanhol. E arrependi-me porque, por vezes, quando leio um romance traduzido, assalta-me a dúvida de saber se não terei sido vítima de um embuste. Se aquele pedaço de texto em que mergulho despida e me desfaço foi escrito em carne viva como eu quando o leio, ou há uma espécie de logro por parte de quem o traduziu. Ou, ao contrário, se a tradução, de tão competente nas suas regras semânticas, desfez o feitiço, rompeu o encantamento e me livrou do sobressalto, contra a minha vontade, e nunca chegarei a saber da paixão que queima e alimenta a inquietação de quem escreve.

O Português é um dos meus idiomas preferidos. Dos mais belos que já ouvi, e não é por ser a minha língua materna. Dito assim, parece um pouco arrojado – petulante, até – porque não conheço assim tantos idiomas. Mas, gosto do nosso. Gosto da sonoridade suave e perfumada que percorre a pele quando falamos de amor; do sussurrar denso dos segredos que se dizem ao ouvido, arrastando palavras num articulado lento e sem alarme, com a elegância que outras línguas não permitem. Mesmo quando esses segredos se murmuram em absoluto silêncio, apenas pelo punho de quem se atreve.

Tenho um amigo espanhol a quem gosto de irritar – principalmente, porque ele deixa – insistindo em lembrar-lhe que o espanhol é uma língua foneticamente pobre. Não tem os nossos ditongos, claro, mas também não tem o tom rastejado do , nem o gorgolejado do jota, trocado pelo arranhado do erre, e, este, mais ribombado ainda. O e o erre não vão muito bem juntos, palavra é, ali, coisa impronunciável, um brinco pode servir a brincar, mas nunca à exuberância de um adorno adorado na cobiça, e os pronomes antes dos verbos martelam o ar com impaciência, sem a sensualidade do português que se fala no Brasil.

O meu amigo irritado costuma responder-me que, se o seu idioma é o que eu digo dele, será porque se basta assim mesmo, não necessita de mais. E, então, aposto tudo na tortura. Aponto-lhe a sensaboria. O horror de tudo poder dizer sem (ab)usar das oscilações de humor das nossas vogais, que o Espanhol ignora. O mesmo tom adormecente em todas as sílabas. A mesma nota sem ensaiar a elegância arrojada do timbre. Um quadro pintado sem o entardecer das cores; as páginas de um livro resistindo ao tempo, sem o amarelecimento dos séculos, num pasmo imaculado.

Parte disto, vem também a propósito de outras leituras em que esbarro de vez em quando. Às vezes, quase palestras, às vezes, quase resmungos (muitas vezes, inconsequentes), sobre a forma como, supostamente, se deve escrever. Bem. Genuinamente. Por isso entendendo-se não usar de ambiguidades, não ceder aos caprichos da ironia, não usar de musicalidades, credo!, mantendo as palavras despidas de tudo o que não seja essencial. Conselho inteligente e avisado, que, pessoalmente, transgrido sempre que posso e muito menos vezes do que me apetecia, porque me falta a arte que assiste aos melhores. Já me basta o essencial das ciências exactas, das formulações matemáticas sem desobediência com que me entretenho todo o dia, sem margem para contra-exemplos não autorizados pelas leis, pelos teoremas, pelos corolários.

Ah, eu adoro o aprumo aturado do rigor científico. A falta de ambiguidade implacável do amarelo-canário do iodeto de chumbo e a certeza de que, por cada acção, há uma reacção, tão capaz de embalar a Terra na sua órbita como de fazer um avião descolar, e, ainda assim, há em tudo isto um pequeno feitiço, uma melodia capaz de arrebatar o mais empedernido dos essenciais. E, se tanto aprecio a ausência e o silêncio, não aprecio menos a palavra escrita. Por mais impostora que possa parecer aos ignorantes do seu sentido. É esse, aliás, o ardil perfeito para fazê-la chegar, intacta, ao seu exacto destino, porque – lembrava, há dias, alguém de quem aprendi a gostar – também há quem ache ter a certeza de nós pelo que escrevemos, ou que todos os que escrevem o fazem com o mesmo propósito. A melhor literatura está cheia de palavras impostoras. Eu também tenho um "vício de palavras", também sou capaz de ouvir o "sussurro dos álamos" nos seus "cochichos misteriosos", e o que seria de mim se não pudesse ouvir (d)escrevê-lo assim, recordá-lo assim.

E outra parte disto para dizer que "O Infinito num Junco" era tudo o que ameaçava ser, ao início: uma história de amor escrita sobre outras histórias, algumas também de amor, umas que eu já conhecia e outras que fiquei a conhecer, maravilhosamente guiada pela mão de alguém capaz de armadilhar palavras, livrando-as da secura do essencial. 

É verdade, posso ter sido ludibriada pela arte de traduzir e pela beleza da língua portuguesa, razão pela qual as duas novas aquisições a juntar à pilha que não pára de crescer junto à minha cabeceira, são na língua original. Nos últimos meses, tenho vindo a comprar livros (ainda mais) compulsivamente, por motivos que talvez venha a perceber melhor, se fizer falta, depois de passado o desastre. O presente e o que se adivinha.

O Estado dos Livros

"Em épocas tirânicas, as livrarias costumam ser lugares de acesso ao que é proibido e, portanto, levantam suspeitas."

"A minha mãe ainda tem a lembrança intacta das traseiras de certas livrarias durante a ditadura, do ritual de entrada, do medo e da alegria rebelde e infantil de ser admitida no esconderijo e, por fim, de tocar na mercadoria perigosa: livros exilados, ensaios revoltosos, romances russos, literatura experimental, títulos que os censores tinham qualificado como obscenos. Comprava-se um livro e, para além disso, havia a necessidade de escondê-lo para sempre".

Irene Vallejo, O Infinito num Junco


Para recordar no momento actual, em que, aparentemente, as livrarias continuam impedidas de abrir para vender exclusivamente livros, ao contrário das tabacarias e do "retalho multiproduto", que passam a estar, novamente, autorizados a fazê-lo. E, para que conste, continuo a achar absurda a ideia alimentada por alguns acerca de uma qualquer tentativa obscura e subversiva do Estado, com maiúscula, de controlar o povo pela imposição de um estado, com minúscula, de alarme mal-intencionado e paranóico, e outras ameaças que tal. 

Ainda assim, pelo sim, pelo não e muito mais pelo que deixo ainda por dizer, mas que, de momento, não tenho tempo, fica o registo.



Parece que hoje é dia de Carnaval, e só me lembrei disso porque alguém se espantou porque vou trabalhar. Não me lembrava da data e, além disso, não costumo fazer a tradicional pausa de Carnaval. Que, segundo percebi, não existe, este ano. 

Aparentemente, há gente para quem a vida segue relativamente normal, afinal, e ainda bem.

Mas lembro-me de ter lido qualquer coisa sobre o não Carnaval de Veneza, este ano outra vez. A agonia da Praça de São Marcos quase deserta, engolida pelo silêncio daninho, não o meu, mas aquele silêncio que açoita e esmaga. E, da pouca gente, alguma vestida de médico da peste, a máscara a preceito, de bico longo de pássaro, sinistro, que, à época, se enchia de incenso e perfume de rosas e outras misturas que se diziam e queriam protectoras.

Não sou nada, nada, de carnavais, mas hei-de ir ao de Veneza. Um dia, quando a tempestade passar. Deixar-me seduzir pela suavidade das plumas, tingir-me de cores exuberantes, esconder e destapar o rosto por detrás dos olhos imensos, espelhos de almas travessas, absorver os cheiros, os sons, sem decoro, avidamente, atenta a cada vibrar da pele que se esconde entre folhos, e sedas, e chapéus de três pontas ou turbantes luxuriosos, inebriada da liberdade de ser outro alguém, ou eu própria sem pudores sociais, sem ordem, à mercê dos pecados do povo ou da avidez voluptuosa da elite aristocrática, segundo me contam vozes mais atentas e atrevidas. Hei-de perder-me, seja de que maneira for. Despir-me de convenções por um dia, para lá destas máscaras de agora, cirúrgicas, aberrantes, com que tentamos, também nós, sobreviver à nossa própria peste.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

 “We should read to give our souls a chance to luxuriate.”

 Henry Miller

Não tenho voltado à minha esplanada. Aquela de onde gosto de ver o mar atirar-se contra as rochas, em dias de sobressalto. A polícia não me deixa passar, mesmo que seja só para, dali, ver o mar. A esplanada está fechada e nem sei bem se resistirá à tempestade. 

Levo no ouvido o Enjoy the Silence, dos Depeche Mode. Tive um colega, no secundário, que era absolutamente apaixonado pelos Depeche Mode. Foi através dele que os conheci, acho que ainda mal se falava deles por cá. Foi o meu primeiro contacto com essa espécie de loucura - irracional, como todas as loucuras, mesmo as que valem a pena - capaz de arrastar uma legião de fãs sob os pés dos seus ídolos, como náufragos. Tinha uma espécie de acordo tácito com os pais, o meu colega: em troca nunca cheguei a perceber bem de quê (se calhar, nem ele), conseguia que lhe importassem os discos de vinil acabados de sair. E, então, era uma imprudência.

Já não sei bem porquê, acabei por desistir de ir ao último concerto que deram em Portugal. Lamento-o desde então, e hoje mais ainda.  Ainda não sei bem o que estes 11 meses fizeram de mim, mas prometi-me viver, viver. Viver o mais possível. Entre outras coisas, esse compromisso implica não voltar a adiar concertos a que queira muito assistir, quando pudermos voltar a assistir a concertos.  E tentar não deixar nada de importante por dizer. Gosto muito do silêncio, mas, há momentos em que nem mesmo o silêncio me basta.





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Coisas que mereceriam atenção...

 ...se a minha atenção não andasse em frangalhos:

 

O regresso à anormalidade escolar. Nem falo da realidade cá de casa, porque até tenho vergonha. Espero, pelo menos, não estar a criar um imprestável, e que ele continue a ser capaz de perceber bem a facilidade com que podemos cruzar a linha, mesmo contra a nossa vontade. Que, muitas vezes, só por acaso nos salvamos. O que tomamos, hoje, como garantido, amanhã, pode ter-se desfeito em farrapos com a mesma facilidade com que o vento desmanchava os bonecos que eu lhe desenhava nas nuvens com a ponta dos dedos e o queixo bem levantado no ar, quando ele era pequeno. Não é que o tenha aprendido agora, apenas. Da volatilidade das nossas certezas. Agora, tornou-se apenas flagrante. Palpável.

No primeiro dia do segundo ensaio de ensino à distância, o PÚBLICO falava em milhares de alunos sem meios para poderem assistir a aulas online. Ou falta o computador, ou falta a internet, ou faltam ambas as coisas, quando não falta mais. É desolador. Claro que esta ausência de meios, de condições mínimas para que o ensino se possa fazer com alguma competência e eficácia não caiu do céu aos trambolhões juntamente com a pandemia. Todos os anos faltam meios, humanos e/ou materiais. Todos os anos há miúdos que ficam para trás, e não necessariamente por vontade própria. Ainda assim, pensá-lo dessa forma, desvalorizando o abismo entre duas realidades tão diferentes – como a do aluno que a SIC escolheu para o seu directo matinal do primeiro dia do resto do ano lectivo, e a do Samuel, retratada numa reportagem do PÚBLICO – faz-me lembrar o tal estudo do Banco de Portugal que dava como mais penalizado pela pandemia o rendimento dos mais ricos. Eu sei que não é tão linear, que não há propriamente culpa na pobreza e na riqueza, e que é melhor tentar uma espécie de ensino à distância do que não tentar ensino nenhum. Mas, para muitas crianças e jovens, é isso mesmo: ensino nenhum.

 

Ana Gomes decidiu avançar com uma queixa na Procuradoria-Geral da República contra o Chega de André Ventura. Acho uma péssima decisão. Tantos votos depois e ainda não aprendemos a lidar com o bicho, sem ofensa para o outro, o que nos mantém em casa, a uns mais do que a outros. Assim não vamos lá, doutora Ana Gomes, e olhe que tenho imenso apreço por si. Mesmo quando defende o Rui Pinto. E continuo a achar imensa graça à senda suada, pugilística, do doutor Júdice, terça sim, terça não (não é bem, mas é quase), empenhadíssimo em colá-la ali ao líder do partido que a senhora quer ilegalizar.

 

O CDS caminha a passos largos para deixar de ser o partido do táxi. A continuar assim, nem para isso chega. Salvo seja. Ou, então, não. Há quem diga que foi isso mesmo. Já por ali se telegrita e tudo, afinadamente e afincadamente. Com a direita mais esfrangalhada ainda do que a minha atenção por estes dias, órfã de ideias, de liderança, de representação, de projectos para o país, muitos eleitores do CDS aproveitaram o luto para se atirarem para os braços desse (outro…) enviado por Deus. É o que dizem, eu não faço ideia. Imagino que a frustração seja tanta e tão variada que haja bastante mais gente disposta a fingir que acredita naquele trump-style pífio e – pior é sempre possível – fraudulento até na imitação da estrumeira.

Pode ser que Adolfo Mesquita Nunes se atreva, entretanto, a dar um passo mais arrojado. De resto, também sou daqueles que acham que a morte de António Costa é manifestamente exagerada, e dos que têm cada vez menos paciência para os dizeres do João Miguel Tavares, mesmo que, às vezes, acerte.

 

A possibilidade de prolongar o confinamento até depois da Páscoa é assustadora. Vamos “esmagar” a curva e, pelo caminho, o país inteiro. Não há uma maneira fácil de gerir este estado de calamidade, mas não haverá outra, que não passe pelo arrasar de todos os pontos de apoio? Quando tudo isto passar – porque há-de passar, mesmo que eu me obrigue a repeti-lo com uma dose maior de esperança do que certeza – vamos regressar exactamente a quê?

 

Nos EUA, o Senado decidiu-se por continuar o processo de destituição de Donald Trump. Provavelmente, não dará em nada, tal como na primeira tentativa. E o homem já nem é presidente. 

Com algumas excepções, o Partido Republicano parece ter-se rendido à visão democrática de Trump, esse colosso da estratégia política, negociador exímio, inteligente e destemido, que segue em frente no seu delírio decrépito, alimentando as suas fantasias erráticas, estridentes, em torno de uma vitória presidencial que só existe no seu imaginário alucinado e narcisista, a quem ficará para sempre colada – como uma nódoa imunda e irreparável  a data de 6 de Janeiro de 2021. Será essa a imagem de marca do 45º presidente da “nação mais poderosa do mundo”. Sem esquecer a senadora Marjorie Taylor Greene.

 

Por falar em nação mais poderosa do mundo, o programa “60 minutos" apresentou, na passada semana, uma reportagem interessante – um bocadinho sinistra e com uma teoria mais credível do que as conspirações do QAnon  – sobre uma suposta tentativa da China de recolher amostras de ADN de cidadãos americanos, através de uma avançada empresa de biotecnologia.

Na sequência do primeiro grande surto de covid-19 nos EUA, em Março do ano passado, o grupo BGI – a maior empresa de biotecnologia do mundo, sediada na China – ofereceu ajuda tecnológica especializada ao estado de Washington para fazer face, nomeadamente, à necessidade crescente de testagem para o novo coronavírus. Uma proposta tentadora, não fossem a China ser a China e as suspeitas de ligação entre o seu regime e a BGI. Não encontrei o episódio em português. Quando encontrar, hei-de cá vir trocar a ligação.

 

De um regime duvidoso e autoritário para outro regime duvidoso e autoritário, na Rússia continuam as detenções aleatórias e as repressões contra os manifestantes que exigem a libertação de Alexei Navalny.

A expressão da Liberdade tem muitas faces. Exige uma coragem que não está ao alcance de todos e faz parecer quase anedótica a resistência ao poder e o apelo à desobediência que alguns por cá apregoam. Sem ignorar essa qualidade rara que, sim, deveria ser obrigação de todos possuir: de resistir, de contrariar, de questionar. De desobedecer, se for preciso. Ainda assim, há uma linha que pode ser muito ténue entre a carneirada e a palhaçada. Com perdão para ambos. E, na Birmânia, numa outra luta a ferro e fogo pela democracia, há uma miúda de 19 anos entre a vida e a morte, depois de ter sido atingida a tiro pela polícia


Que eu tenha reparado, não me tinha dado conta deste absurdo. Não me refiro à petição, evidentemente, antes a esta odisseia estapafúrdia dos tempos modernos, empenhada em branquear a História a qualquer custo. O politicamente correcto, ou lá o que é, ameaça tornar-se mais perigoso do que todos os pecados juntos que tenhamos cometido no passado. E cometemos muitos.   


Não é tudo, mas, de momento, não tenho fôlego para mais. Talvez apenas para dizer que me tenho deixado encantar pela chuva lá fora, nas últimas noites. A vê-la e a ouvi-la. As gotas grossas, que caem perfeitas antes de se despedaçarem contra os vidros da janela, contra as folhas largas e carnudas da planta de exterior que mantenho na varanda e de que nunca recordo o nome. Um estalido curto e seco, depois de outro, e de outro. Uma melodia bela e harmoniosa ensaiada sob a batuta desse Universo indiferente às nossas preocupações. Ainda assim, mesmo que sem consciência dos nossos abismos ou do nosso assombro, habitamos sob as suas leis este minúsculo "ponto pálido" improvável, aparentemente perdido na imensidão do Espaço. De alguma forma, a certeza de que há uma outra existência que segue o seu curso alheia à desordem em que se afundou a nossa, tranquiliza-me.


Al-Amal

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata."

Clarice Lispector



sábado, 6 de fevereiro de 2021

Andei a vasculhar gavetas antigas. Uma necessidade súbita de saber que partes de mim permanecem intactas. 

Dois mil e dezanove não estaria muito longe, não fossem dois mil e vinte e o pandemónio da pandemia. Perceber que reescreveria exactamente assim algumas coisas (como aquelas, mas não só) é, de alguma forma, apaziguador. 

Por outro lado, tenho percebido que a minha mente – seja lá qual for essa parte de mim, ameaçada ou não – tem-se entretido a pregar-me pequenas partidas. Por exemplo: por mais de uma vez desde a entrada, com o estrondo que se sabe, do tão desejado (não era?) ano novo, li e escrevi “2012”, em vez de “2021”. Não sei se é a minha ligeira dislexia a provocar-me os sentidos (desatentos, por sinal), ou se estou naquele estado a que os psicólogos chamam de negação. Seja como for, sobreviverei.

Entretanto, avariou-se a minha máquina fotográfica. Não é bem uma avaria. Uma sujidade, talvez, um risco, qualquer coisa que não consigo eliminar e que me vai deixando uma pequena mancha circular quase a meio de todas as fotografias, em que só se repara nas de tons mais claros. 

Tenho fotografado com a câmara do telemóvel novo. Não é a mesma coisa, mas não desgosto. O Google Photos vai fazendo uma selecção das que considera melhores, melhora-as mais ainda, anima-as se for caso disso, constrói-me imagens panorâmicas com as sequências que lhe vou oferecendo mais despreocupadamente do que devia, e, a seguir, devolve-mas sem carinho, mas de forma bastante competente. E, apesar de saber da minha parte de culpa nesse consentimento que me mantém localizada e vigiada, não deixo de me espantar. 

Intemporal

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista  o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação. "

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

De todas as coisas que me têm feito falta – e, de entre essas, aquelas de que posso falar aqui – tenho saudades de passear. De viajar, de conduzir. Gosto muito de conduzir. Conduzir, conduzir, não aqueles aguados minutos que demoro a chegar ao escritório, aonde me tenho obrigado a ir todos os dias, apesar de tudo, apesar de todos os tudos, ao contrário do primeiro confinamento. Teletrabalho fora de casa quase sem pôr um pé na rua, de um estacionamento a outro estacionamento, para conservar alguma sanidade mental.

Mas, sinto falta de conduzir grandes viagens. Se pudesse, viajaria apenas de carro. A volta ao mundo em mais de oitenta dias, os dias que fossem necessários para o (e)feito. E podia ser sozinha. Gosto muito de conduzir sozinha, apesar de não gostar tanto de viajar sozinha.

Devo ao meu pai, o prazer de conduzir. Ensinou-me a conduzir “como um homem”. “Conduzes como um homem”, já não sei quantas vezes mo disseram. Séculos de evolução, parece, e continuamos enfiados numa sociedade machista. Também é verdade que já ouvi (às vezes, sem que se pronunciasse uma palavra) coisas piores, se fosse falar de machismo, e não vou.

 

Às voltas com boas memórias de viagens antigas, refiz os caminhos pelas estradas da Córsega. Sonhando acordada, que são os únicos sonhos que pareço capaz de recordar. Nunca sei o que acontece aos outros, os que dizem que sonhamos sempre enquanto dormimos e que eu nunca recordo. Como recordo as estradas da Córsega, entre as montanhas escarpas, de granito cinza ou rosa aquecido pelo sol. O precipício nu e selvagem que corre ao meu lado, as rochas que tombam sobre o caminho, sem aviso, as janelas que se abrem como quadros sobre o mar azul-turquesa, uma beleza absurda que brota insolentemente de todos os poros da ilha encantada. Dizem que são estradas para conduzir de mota, mas nunca aprendi a conduzir uma mota como conduzo um carro, e há muito tempo que não deixo que me conduzam de mota (de carro, tem dias e tem gente; muito poucos dias e ainda menos gente).

Também recordo com saudade as estradas recortadas no ventre da bela Escócia, dedilhando montanhas verdes. Verdes de todos os tons de verde que ousarmos imaginar. O verde das Terras Altas é um puro-sangue indomado. E indomável. Debruado a talha dourada, levezinha, que o Sol, generoso, vai vertendo sobre o caminho, aqui e ali, em chuviscos de luz que, no asfalto, abrem círculos húmidos disformes que logo desaparecem quando me aproximo, como é dever das ilusões.

Nas estradas mais estreitas só passa um carro de cada vez. Vão surgindo no caminho umas meias-luas, ora à esquerda, ora à direita, em linha de vista para que um dos condutores – o mais próximo desse refúgio – se desvie por um momento, dando passagem ao condutor que surge ao longe, na sua frente. Conto de memória, pelos dedos de uma mão, as vezes em que fui eu a desviar-me; quase não chegava a ter tempo. Os escoceses eram, à época (não sei se ainda), um exemplo de civilidade irritante. Dizem que são assim os japoneses, mas nunca estive no Japão.

Não sei se por isso, pelo civismo que se respira nas estradas da Escócia, não me pareceu tão estranho conduzir do lado contrário. Nem sequer em cidade. Com excepção das rotundas, talvez.

 

Também sei que é bastante obsceno preocupar-me com viagens e passeios com o mundo em chamas; tenho plena consciência dos meus defeitos, até dos defeitos que finjo não ter. O “nosso” mundo em chamas e eu em veraneios. Há um outro mundo a que continuamos alheios e que arde há muito mais que 11 meses; às vezes, arde à nossa porta sem darmos por isso. E Portugal a desfazer-se em cacos numa ruína agastada e apodrecida por anos e anos de mediocridade, compadrio, incompetência e corrupção. Aquela corrupção que dizem que não temos. Afinal, não somos o Brasil, não é?, como não chegámos a ser a Grécia. Só é pena que nunca cheguemos a ser a Suíça, ou a Alemanha, ou o Canadá. Um dia destes cruzei-me com uma portuguesa que viveu no Canadá e está desejosa de lá voltar (ainda há quem se atreva a falar connosco na rua), apesar daquele clima desgraçado. Não se pode ter tudo. E, por acaso, até tenho pouca simpatia por portugueses que viveram fora e voltam para dizer mal disto, mesmo que isto seja, por vezes, insuportavelmente miserável. Pecado de que eu também padeço assim-assim, aquela maledicência, com a agravante de que vivi num país tido como pior, sob vários aspectos. 

 

Mas, nem tenho prestado muita atenção às notícias. Ver, ou ler, notícias tem sido bastante penoso, nas últimas semanas. Não são só os números, os mortos, os escândalos. É tudo demasiado. E o desvario da comunicação social, a informação monotemática, monocromática, monocórdica. Agora, são as vacinas. Ou eram, hoje ainda vi menos notícias do que nos dias passados. À incompetência junta-se o inominável expediente português – podemos chamar-lhe “chico-espertice”, mas é já algo de mais nojento; fétido. O mais recente esquema de vacinação – a par do suposto plano de vacinação – é o equivalente ranhoso das falsificações de moradas fiscais para recuperação de casas em Pedrogão à custa de vidas alheias. Só não sei por que nos espantamos tanto, eu incluída: não é o nosso velho normal? Não devia haver um momento para dizer basta?

Também queria dizer qualquer coisa sobre a eutanásia e a aprovação dos respectivos projectos de lei no Parlamento. Uma ironia quase macabra. Não sei se gosto do momento, apesar de, pessoalmente, ser a favor da morte medicamente assistida. Compreendo que haja quem seja contra e respeito-os – como se essa questão se colocasse sequer –, mas não entendo alguns dos seus argumentos. Mas isso sou eu, que também não entendo ser possível matar o que já está morto. Há doenças que há muito mataram o corpo que habitam, mesmo que esse corpo ainda “viva”. Não se diga que cuidar, com toda a dedicação, amor e carinho, de um doente terminal é suficiente para que ele não sofra. Não é. Todos os que já assistimos, imponentes e horrorizados, ao definhar de um dos nossos, sabemos como o sofrimento é avassalador. Para o doente, em primeiro lugar, obviamente. E para os seus, evidentemente. Sofremos com ele, sofremos por ele. Porque o vemos em permanente agonia, numa degradação acelerada, alucinante, estúpida e sem marcha-atrás. E sei que não vale comparar, quem passou pelo inferno e quem não passou pelo inferno.

 

De resto, continuo a vaguear pelas páginas d’ “O Infinito num Junco”. Não é um arrebatamento, mas lê-se com uma dose suficiente de prazer. Uma história de amor assente sobre muitas outras histórias, algumas também de amor; um amor suave e sem escândalo.

“Quando um relato me invade, quando a sua chuva de palavras penetra em mim, quando compreendo de forma quase dolorosa o que conta, quando tenho a segurança – íntima, solitária – de que o seu autor mudou a minha vida, volto a acreditar que eu, especialmente eu, sou a leitora de quem esse livro andava à procura”. Às vezes, sinto-me assim. Como se alguém escrevesse para mim. Intencionalmente e apenas para mim. Sei que me deixo confundir, mas, por um instante, que prolongo sem remorso retomando as linhas desde o início, uma vez e outra vez, é como se escrevesses para mim.

 

E li que morreu Tom Moore, o veterano da Segunda Guerra Mundial que, aos 100 anos, resolveu dar 100 voltas ao jardim de sua casa, num tributo ao Serviço Nacional de Saúde inglês, em plena pandemia. Queria recolher 1000 libras em donativos, angariou mais de 30 milhões. O vírus que nos tem refém a todos, impiedoso, levou-o. Morreu um desses homens bons.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

“Para mim, um homem bom é aquele que, vivendo no mundo real, não perde a compaixão, a caridade, a lealdade e a dignidade. Isto requer uma explicação. O homem que acredita que o mundo é um lugar bom e que somos todos irmãos é um imbecil. Não é bom, é um idiota, um ingénuo. Isso não é uma virtude nem merece admiração — a ignorância não merece admiração. Agora, o ser humano que sabe que o mundo é um lugar perigoso e hostil, onde o mal é frequente, onde a ambição, a luxúria e a crueldade são constantes e por vezes não são só características humanas, mas regras cósmicas — porque também o cosmos é cruel, aí estão os tsunamis, os terramotos, as inundações —; o ser humano que compreende que é um animal perigoso e, estando consciente disso, vive com dignidade, com decoro, com lealdade, com honra, com compaixão para com os outros, esse é um homem bom. Para ser bom há que ser lúcido, sem lucidez não há bondade.”