sábado, 30 de janeiro de 2021

Tenho uma pilha de livros à cabeceira da cama. Como não leio na cama, os livros que tenho à cabeceira – quando tenho – são, ou os que já li e ainda não tive o tempo (eventualmente, o espaço) necessário para os arrumar, ou os que ainda esperam para serem lidos. Às vezes, também por ali ficam os que já li, mas sei que hei-de ler outra vez; os que preciso de ler outra vez. E outra vez, talvez.

Sou incapaz de ler de qualquer maneira. Para descontrair. Quem é que lê para descontrair? Só se for o horóscopo, entre dois cafés, para escapar à conversa bafienta da senhora da mesa ao lado, quando havia cafés com mesas ao lado, que os jovens de agora são isto e aquilo, tudo e o seu contrário, e mais não sei quantos pecados – nunca chego a perceber se o problema são os jovens ou o agora –, e nem havia pandemia.

Eu não leio para descontrair. Preciso de estar descontraída para ler. Posso ler no maior pandemónio, desde que o pandemónio não me esgadanhe por dentro. Já contei dos meus caprichos, não já? De alguns dos meus caprichos? Como só beber vinho num copo de pé? E o café numa chávena de louça. Pode ser sem asa, mas de louça. Como gosto do café curto, sem açúcar e não demasiado quente, pode ser numa chávena sem asa. Desde que de louça. Sei que também se pode dizer de loiça, mas eu não digo.

Tanta gente a quem a pandemia fez despertar a paixão pelos livros, e eu, que os amo desde que me lembro de mim, não tenho sido capaz de ler. Ler o que lia. No meu velho normal.

Tenho uma pilha de livros à cabeceira da cama. Três pilhas de livros na verdade, perfeitamente alinhadas, não exactamente à cabeceira, à espera da minha atenção. Ainda assim…ainda assim, fartei-me (não fartei nada, é um vício de que nunca me farto) de gastar dinheiro em livros, nos últimos meses. Comprei livros onde raramente compro livros. Encomendei livros online. Nunca encomendo livros online, a não ser que sejam técnicos e não os encontre por cá. Comprei livros no hipermercado. Raramente compro livros no hipermercado e, agora, nem sequer se pode comprar livros no hipermercado. Pelo menos na semana passada não pude comprar livros no hipermercado. Os bens não essenciais estavam cercados sanitariamente; convenientemente; necessariamente. Não sei se legalmente. Pude comprar chocolate, no entanto. Para mim, um livro é um bem mais essencial do que um chocolate, mas, de vez em quando, não me importo de trocar. Sobretudo se for chocolate negro. Gosto do chocolate como gosto do café: negro, intenso, amargo. O café quente, mas não demasiado. Já tinha dito, não já? O chocolate, simples, de preferência.

Onde é que eu ia? Os livros.

De entre todos os livros que comprei e ainda não li, decidi-me, há dias, por entrar de mansinho n’ “O Infinito num Junco”, da Irene Vallejo. Não gosto particularmente de comprar livros aclamados pela crítica, porque é bastante comum gostar de ler a crítica e não gostar de ler o livro, e gostar de ler o livro sem ter gostado de ler a crítica. E o mesmo é válido para as séries do momento, que raramente vejo no momento.

Mas comecei a ler “O Infinito num Junco”. Gostei tanto do título. Gosto muito de um bom título. Ultimamente, não tenho sabido escolher bons títulos. Ando distraída.

Um livro sobre livros. “Misteriosos grupos de homens a cavalo percorrem os caminhos da Grécia. Os camponeses observam-nos com desconfiança desde as suas terras ou desde as portas das suas cabanas. A experiência ensinou-lhes que só as pessoas perigosas é que viajam: soldados, mercenários e traficantes de escravos. Franzem a testa e grunhem até que os vêem fundir-se no horizonte. Não gostam de forasteiros armados.” Não foi Garcia Marques que disse que um livro deve conter tudo o que quer dizer no primeiro parágrafo? Acho que o ouvi de uma amiga. Pois, ali, o livro, por pouco, cabia todo no prólogo. Mas, sim, creio que talvez tivesse bastado o primeiro parágrafo, embora já não saiba bem em que momento me veio à memória o cavaleiro da medina de Fez, no seu traje deslumbrante, o turbante azul, elegantíssimo, o rosto moreno esculpido a régua e esquadro, o cavalo branco, de pêlo sedoso e brilhante, uma história de uma noite.

Não é uma ameaça de clássico, o “O Infinito num Junco”, mas é, de momento, um livro delicioso; ainda não acabei. Lembrou-me – como se eu precisasse – de todos os motivos por que jamais serei capaz de ler um livro virtualmente, na insipidez de um écran. O tal ritual que implica gestos, posições, modulações de luz. Podia ser mais que ler um livro, mas, por vezes, ler um livro é suficiente. Ou ler alguém, simplesmente, ainda que não num livro. Esse ler em que me perco irremediavelmente, aonde regresso tantas vezes, cheia de cuidados, sabendo bem que sairei dilacerada. 

Mas, agora, falava dos livros. Do latejar das folhas sob os meus dedos, enquanto vou virando as páginas. Do "murmúrio constante de palavras sussurradas". Do cheiro do papel. Da companhia e da presença.

Quando o acabar, "O Infinito num Junco", talvez volte cá.

Entretanto, bati com o joelho na esquina da mesa pequena da sala. Aproveitei para chorar tudo o que não chorava desde Março passado. Desde antes de Março passado. Já não me lembro há quanto tempo não chorava. Acho que, de vez em quando, é preciso chorar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021




"Confie numa testemunha em relação a todos os assuntos que não tenham directamente a ver com o seu interesse próprio, as suas paixões, os seus preconceitos e o seu amor pelo maravilhoso. Quando estes estiverem envolvidos, exija provas na proporção exacta em que a coisa testemunhada contradiz as probabilidades."

Thomas Henry Huxley

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

De estado de emergência em estado de emergência até ao colapso final

Entre o espanto com o espanto dos números que nos cercaram os dias, encurralando-nos, ditando, definitivamente, o fim do "milagre português" e que elevaram Portugal à categoria do “pior do mundo” em quase todas as macabras modalidades desta miserável doença que ameaça não deixar pedra sobre pedra, pergunto-me se, no meio dos que acusam o Governo de ser tudo e mais alguma coisa menos o que dele se esperava que fosse tendo em conta o cenário dantesco, não andarão alguns daqueles que acudiram em massa aos centros comerciais para as últimas compras de Natal, engordando filas e filas pouco ou nada distanciadas às portas das lojas a que prestavam culto, descumprindo, escrupulosamente, pelos extensos corredores, todas as regras sanitárias exibidas nas montras das ditas, com excepção do uso de máscara. Do pouco que vi – quando calhou sair do supermercado em cima da hora de abertura do restante comércio (sim, já a essa hora) –, vi o mesmo que noutros normais passados. Não fossem as caras semi-ocultas e o facto de os atropelamentos consumistas típicos da época terem passado do interior das lojas para o exterior, pouco parecia ter mudado. Sem esquecer as celebrações da Passagem de Ano com toda a pompa e circunstância que todas as circunstâncias já, na altura, desaconselhavam.

Não sei se o descalabro a que vamos assistindo, já algo anestesiados, terá tido o seu ponto de ignição nessa abertura tão desejada por todos, mesmo por aqueles que, agora, arrancam cabelos com a incompetência dos outros, mas não acho nada absurdo pensar que sim. Para não comprometer a tradição, comprometeu-se tudo o resto, como se o vírus pudesse, de repente, ser ele próprio sensível às nossas urgências festivas. Ou afectivas que fossem e, em muitos casos, eram-no. 

Não quero, com isto, dizer que o Governo está isento de culpas. Não está. Se não por mais nada, por demonstrar demasiadas inabilidades e incompetências, numa estratégia dramaticamente errática que se arrasta também há demasiado tempo. Tão errática que deixou de parecer estratégia: é uma navegação à vista no meio de um intenso nevoeiro, num mar pejado de destroços. Uma tempestade mais que perfeita. Vai continuar a correr mal. Mas a culpa não é apenas do Governo. No meio da pandemia e da tragédia, há um conflito de liberdades inconciliáveis. Não é apenas por cá. E não tem que ver apenas com a falta de empatia, ou solidariedade, o estar-se nas tintas, o não querer fazer parte do rebanho, e, sim, há disso tudo. É o desespero de quem se vê impedido de trabalhar, de ganhar o seu sustento, obrigado a viver de caridade ou de esmolas. É vermos morrer os nossos velhos nos lares, sem abraços e sem tempo para despedidas. É televivermos os afectos dos que mais amamos, sem prazo e sem sabermos se, de repente, aquela videochamada é a última. É verdade que já não o sabíamos antes, mas é agora que a ideia de que podemos perder os nossos sem aviso se tornou omnipresente; é agora que a ameaça paira sobre todos os dias, abocanhando-nos como um abutre.

Também não sei como vamos sair disto. Um mundo do avesso, um país em frangalhos, vidas a desfazerem-se como uma manta de tricot quando se puxa um fio. Mas não é só este Governo que não está à altura do desastre. E, só para que conste, não o escolhi, não é disso que se trata.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Hoje também é dia de Mozart

 



Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 



Estou como a Marta Temido nas entrevistas e nas conferências de imprensa, ou lá o que é: a um passinho de mandar pró, isso, aquela malta que me vem dizer da coragem do Ventura, da sua saga solitária anti-sistema (que piada!), das razões da razão que lhe assiste e mais não sei o quê. Pró, isso. Todos. E o meu passinho é bem mais curto, porque não sou ministra e uso saltos bastante mais altos. Em contrapartida, o alvo da impaciência da Ministra da Saúde talvez seja mais alargado.

Depois, respiro fundo e sossego a minha fúria. Afinal, nos berros e nos insultos, o destemido André já se mostrou bastante mais competente. E, sim, vai ser preciso sentarmo-nos à mesa com aquilo e pôr o homem a discutir as soluções que (não) tem para o país. A sério. E, aí, desfazê-lo como a um castelo de areia.

 


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Diz-me que não posso caminhar por ali. Não antes de me desejar uma boa tarde. “A ciclovia está fechada.” Ainda penso adverti-lo, eu mesma, para o óbvio: estou a meio do caminho, precisamente naquele troço em que, tendo iniciado o percurso daquele lado da estrada, acabarei inevitavelmente, como todos, contrariados ou proibidos que estejam, a percorrer meia dúzia de metros sobre a tal ciclovia diligentemente encerrada, agora.

Como não posso sair dali directamente para a parte mais baixa onde está o agente da polícia que me aborda, a não ser saltando do pequeno muro – coisa que não me apetece nem em dias bons, de desconfinamento – agradeço a informação, é disso somente que se trata, e sigo o meu caminho. O mesmo que já trazia, porque não há outro, e pergunto-me porque não hão-de estar o carro patrulha mais os seus dois ocupantes logo ali, no início da bendita ciclovia, desviando a bom tempo os transeuntes para o lado certo do passeio. Defeito meu, que, mesmo sendo portuguesa de todos os costados que prestem para esse efeito, creio, percebo que há singularidades da coisa que teimam em escapar-me. E, sim, poderia eu própria ter sido mais previdente e expedita e ter cruzado a rua nada mais iniciar o passeio. Mas vou demasiadas vezes encerrada em mim mesma, desatenta, perdida nos meus pensamentos.

A meio desse caminho, por onde me perco e me livro de amarras, por momentos, e das grades do novo confinamento, podemos dizer "novo confinamento"?, há um banco de madeira gasta, de frente para o mar, que alguém se esqueceu de selar devidamente, como ditariam as regras. Ao contrário, ficou ali em sossego, desamordaçado, tricotado contra a paisagem, entre a erva rasteira e uma estreita e discreta língua de areia grossa. 

É quase, quase fim de tarde e não há ninguém. Acabo por sentar-me, ignorando restrições e ordens, enxotando conscientemente o remorso. Será apenas um instante. Enquanto fico a ver como as ondas do mar correm para mim, ao longe, levantando cristas de espuma antes de virem despedaçar-se contra as rochas, abrindo braços de algodão branco, concêntricos, em círculos imperfeitos. Estriados, como uma espantosa teia de aranha. Ou uma estrela-do-mar. Vejo, ou imagino, soltarem-se salpicos dos imensos mantos de espuma, como pequenos projécteis de neve macia que parecem subir em parábola e cruzar as rotas das três gaivotas que voam num desassossego esganiçado. 

Se eu estivesse mais perto, talvez algum desses pequenos novelos brancos, quase desfeitos, pudesse pousar sobre no meu rosto, levemente, e revelar-me, entre avisos, alguns desses caminhos, desses segredos mais preciosos. Em troca dos meus.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

(Res)Caldos Eleitorais

Há, então, meio milhão de portugueses – mais coisa, menos coisa – que se revê na pantominice histérica parida entre berros e insultos do candidato anti-sistema André Ventura. Meio milhão de “portugueses de bem” fartos disto tudo para quem o, antes, líder, agora, demissionário (ou ainda não?), amanhã, candidato e, depois de amanhã, novamente líder do Chega é o melhor de todos os mundos que alternam entre si consoante os ventos e os votos. 

“PSD, ouve bem: não haverá Governo em Portugal sem o Chega”, gritou Ventura, a voz do País e de Deus; meu Deus. Ámen. Só faltaram as lágrimas, desta vez. Mas, nem era preciso. O aviso emocionado. Rui Rio já tinha vindo a público dizer coisa mais ou menos parecida. Acho que nunca tinha visto um líder partidário tão entusiasmado com a vitória de um adversário político. Bem sei que exagero no “entusiasmo” e na “vitória”, mas, é preciso ter em conta o tal contextonão é? Abençoado. Afinal, no primeiro caso, trata-se do actual líder do que resta do PSD e há sempre uma espécie de costela alemã ou lá o que é que o impede de grandes efusividades, de modo que, o que lhe vi e ouvi pareceu-me bastante próximo de entusiasmo, ou, pelo menos, de uma ameaça de; no segundo caso, doa mais ou doa menos, o eleitorado do Chega – ou de Ventura, não sei se será bem a mesma coisa, mas, de momento, não interessa mesmo nada – cresceu sete vírgula qualquer coisa vezes em pouco mais de um ano. É uma vitória. Deixou, por isso, de ser muito importante, no momento, tentar perceber por que votou em André Ventura quem votou em André Ventura. Na retorcida amálgama de todos os argumentos, podemos, facilmente, lá encontrar um dos nossos: um desabafo, um remorso, um momento de raiva. Será mais urgente e avisado tentar perceber onde é que falhámos. Para criar este monstro e, não contentes, alimentá-lo e engordá-lo. 

O que aí vem, a reboque da não gestão da pandemia – o eterno desenrascanço português, correndo sistematicamente (e sistemicamente) atrás do prejuízo em vez de o acautelar – e da violentíssima crise económica que se avizinha, acabará por consolidar um caminho de revolta e ódio sem pudores. Como se viu na América de Trump, abriu-se um esgoto e o cheiro vai incomodando cada vez menos.  

De resto, não ganhou um "candidato de centro direita": ganhou Marcelo. Ponto. Perderam todos os outros, com excepção do tal, cujo nome alguns não querem pronunciar. E Marcelo ganhou umas eleições presidenciais. Eu, que não percebo nada de política, tenho muitas dúvidas acerca do "esmagamento" a que, supostamente, a esquerda, foi sujeita, seja lá o que isso for. Ainda assim, o que faremos daqui para a frente determinará se, ao burro, continuará a ser permitido zurrar.


E mais de 60% dos eleitores não foram votar. Claro que há a pandemia, o confinamento, o medo e mais não sei o quê, e, por isso, há quem se alegre com a participação dos portugueses. Podia ter sido pior. Podia. Pode sempre ser pior. 

Também tenho alguma curiosidade em saber quantos votos terá arrecadado o candidato não candidato, essa outra curiosidade portuguesa, com certeza. 

E, em época de eleições, lembro-me sempre do Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago. Do seu imaginado presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze, primeiro, pasmado por não ver vivalma que acudisse ao chamamento do dever cívico; depois, deslumbrado com a afluência, finalmente, à sua urna; e, no fim de um dia longo, noite fora, estupefacto pelo número de votos em branco. E se fosse a sério? Se decidíssemos, por uma vez, trocar 60% que fosse de abstenção por 60% de votos em branco, o que mudaria?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Hoje não há horizonte. O céu vestiu-se de um cinzento espesso, baço e pegajoso, e apagou a linha recta, perfeita, onde gosto tanto de escrever histórias.

A chuva chove um choro morno de queixumes abafados, uma ladainha de saudade e abandono como o crepitar lento e frouxo de uma chama que ameaça sufocar. 

Ainda gosto de tardes assim. Tardes cinzentas, de agasalho e canções de embalar. Um marulhar de memórias e, sim, segredos sussurrados ao ouvido, como preces. O sobressalto em que me desfaço. 

A chuva a estalar lá fora, baixinho, para se esvaziar, depois, num sopro curto e grave contra o chão nu, enegrecido. O respingar rouco das folhas que o vento, incasto, desassossega sem decoro. Um latejar inacabado. O estrepitar do muro onde me guardei julgando-me a salvo. Louca. O silêncio que sobra e estremece; o que se desprende das sombras onde me deixo ficar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Ainda sobre as escolas

As escolas vão fechar. Não há alternativa. Há um clamor sobre a exigência dessa medida e o Governo acabará por ceder.

A discussão em torno do tema está, como quase sempre, inquinada. A "teimosia" em manter as escolas abertas terá pouco a ver com afirmações de força política, neste momento. Digo eu, pelo que, vale o que vale, ou seja, nada. Mas, como estou de costas voltadas para este Governo há muito e o meu filho é uma criança privilegiada também no que toca ao ensino, atrevo-me. 

Só não percebe quem não quiser perceber a diferença abismal no "sucesso" do ensino à distância quando comparamos as realidades (sociais, económicas e todos os demais "indicadores de" que quisermos comparar) das crianças e jovens que constituem o nosso tecido escolar. Fechar as escolas e continuar com o ensino à distância é condenar ao abandono todas as crianças mais pobres para quem a escola representa o melhor do seu mundo e isso é muito mais do que aprender ciências, português, história, etc. Já muita gente, muito mais capaz do que eu, o afirmou, embora eu o tenha visto e vivido na primeira pessoa junto de alunos que acompanhei no confinamento passado.

Fechando as escolas, o único passo decente seguinte seria suspender as aulas.  Mesmo. E prolongar o final do ano lectivo, com o consequente rearranjo do calendário de exames, no caso de ainda vir a haver exames. Não há outra forma.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Eugénio de Andrade

São como um cristal,

as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

IV

 














The Guardian

À deriva

Hoje há outro Conselho de Ministros extraordinário. “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”, e andamos mais ou menos assim, no tal mesmo barco sem saber bem aonde ir. Ainda assim, não gostaria de estar na pele de nenhum dos nossos decisores políticos. Nem um, e nutro pouca simpatia pela maioria.

Quem tem poder de decisão não sabe o que decidir e, entre os que sobram, parece não faltar gente sábia e inspirada. Se já não importará muito tentar perceber como chegámos até aqui, resta saber como iremos sair disto. Continuar a insistir na teoria do exagero e de uma espécie de promoção do pânico começa a parecer, mais do que absurdo, um insulto a todos os que se esforçam em nome do bem comum.

Não podemos ficar todos em casa e não vai ficar tudo bem. Como é que se faz a ponte entre uma coisa e  a outra para que não fique apenas e só um país em ruínas, não faço ideia. Mas não pode ser, como se já se percebeu (era assim tão pouco evidente?), deixando a escolha à solta. Para o bem e para o mal, elegemos governos. Mesmo quando abdicamos do direito e do dever de voto. 

É possível que a emergência do momento dite, novamente, o encerramento das escolas. Nesse caso, talvez fosse acertado suspender as aulas, pelo menos, para os alunos do ensino secundário. Mesmo. Presenciais e não presenciais, uma semana, duas semanas, e, nesse caso, prolongar pelo mesmo tempo o período seguinte, o final do ano lectivo, reajustar o calendário de exames. Seria outro coro de críticas, claro, mas há alguma medida que agrade a toda a gente? A não aquela de permitir o Natal e a Passagem de Ano, quero dizer?

domingo, 17 de janeiro de 2021

Chego ao supermercado ao som do velhinho êxito Ok, põe-me ko, das "Doce". Passo a porta aos primeiros acordes, que reconheço imediatamente. Vá lá saber-se porquê, se não ouvia aquilo há anos. 

Não gosto de ir ao supermercado ao fim-de-semana, mas muitas vezes, mesmo muitas vezes, não tenho alternativa.

Percebo que ainda a sei cantar de memória. Aquela música das “Doce”. Quando o subconsciente se torna, subitamente, consciente e assume o comando. Implacavelmente. Outra vantagem de usar a máscara, podermos cantarolar sem que (quase) ninguém se aperceba: no distanciamento tornamo-nos mais silenciosos aos ouvidos dos outros e a máscara dissimula a expressão dos lábios. Receio começar a encontrar demasiadas vantagens nesta espécie de camuflagem imposta. Consentida. Ainda assim, vou resistindo.

Preciso de um bem não essencial e fico na dúvida se posso colocá-lo no carrinho ou não. Já me tinha perguntado como fariam os hipermercados para submeter ao exílio, desta vez, esses proscritos. Dúvida escusada. Tão inútil como a intenção em si. Não há necessidade de esconder, de controlar. Não há vigilância e não há multas, confia-se na bondade responsável de todos nós. 

É um produto de marca branca, de marca própria. O meu bem não essencial. Ignoro a ameaça de culpa e agarro uma unidade da coisa, é o que me diz a aplicação do telemóvel.

Fui uma cumpridora escrupulosa de todas as regras do primeiro confinamento. Passei mais de três meses sem tomar um café fora de casa. Saía exclusivamente para fazer compras; para os tais bens essenciais e nada mais que essenciais. Não havia, sequer, lugar a passeios higiénicos, a não ser até à varanda de casa, não sei se conta para as estatísticas. Via, como ainda vejo, o mar da minha janela, consciente do meu lugar de privilégio, bem maior do que a vista da linha do horizonte, mesmo ali ao fundo, onde o céu e o mar estancam num alinhamento infinito mais que perfeito. A não ser que haja muitas nuvens. Então, não há um e outro, são um só, desarranjados, num emaranhado de folhos. Repousei, na altura, repouso agora, muitas vezes, os olhos nos pores-de-sol que ali assomam e, por momentos, finjo que nada se alvoroçou. Apenas as cores parecem mais arrojadas, mais vivas e travessas. Ou então, o confinamento, o primeiro, fez-me, afinal, mais atenta à luz que embala a matéria subatómica, atirando-a de degrau em degrau, uma mescla de quanta energéticos e espectros únicos que se engalfinham em tons de violeta, laranja-chama e vermelho-sangue, até a linha do horizonte engolir o astro em estilhaços mudos de negro cinza, em remoinhos bailados, e o silêncio encher a noite.

 

Mas, cumpri tudo, dizia. Cumpri, até, a penitência de Natal, ignorando a saída precária concedida pelo Governo, com a bênção de todos, que eu me tenha dado conta. De todos os que se poderiam ter oposto, se fosse caso disso (e era), com o mesmo escândalo com que nos entretêm agora. Sei que consto da lista dos parvos. O Natal não teve nada a ver com isto, não é?, dos números, da curva e dos erres-não-sei-quê de que todos, de repente, se descobriram, mais do que esclarecidos, conhecedores abalizados

Pela primeira vez desde que tenho memória, passei o Natal longe dos meus pais. O meu filho queixava-se do desgosto de um Natal sem avós e o meu sobrinho acrescentava-lhe o desalento de um Natal sem Natal. Já não sei há quanto tempo não vejo os meus pais. Não quero contabilizá-lo, de momento. Não sei bem o que fazer com isso e preciso de manter a tranquilidade que ainda me sobra.


Passa pouco das 9.30 h da manhã e já estou despachada. A aplicação pergunta-me se quero finalizar a compra. Quero, mas, entretanto, esbarro num outro bem não essencial, que, sendo isso mesmo, está na minha lista frequentemente. Gosto de guardar algumas edições em papel da National Geographic. Pequenos gestos de resistência; ou de resgate. Há pedaços de mim que resistem violentamente a esta existência virtual, asséptica e insalubre, com que ensaiamos um novo normal que nos livre do desassossego de tentar recolher os cacos do antigo. Sou desastradamente incompetente para esta não-vida em rede, clique-a-clique, de videochamada em videochamada, sem rugas nem riscos, atrás de um écran. Não sou, sequer, capaz de manter um fio condutor que una decentemente as singelas páginas de um blogue. Temo não ser capaz de regressar a mim, quando, finalmente, tudo ficar bem, mesmo sabendo que esse bem também resultará num outro novo qualquer, nada semelhante ao que já fui.

Agarro na “Jóias do Passado em Portugal” e pouso-a em cima dos restantes artigos. Agora, sim, quero finalizar a compra.

Depois da linha de caixas, reparo que a tabacaria está a funcionar. Há pessoas a registar apostas naqueles jogos de azar. Só a categoria deveria ser suficiente para afastar a vontade, mas, também lá está o factor sorte e, aparentemente, o (re)confinamento não é capaz de dar conta das duas.

A cafetaria ao lado também está a funcionar. Em regime de take away, que se converteu no modelo da sobrevivência possível de alguns espaços de restauração. E lembro-me de ter recebido um sms da FNAC informando-me do seu não confinamento absoluto. E outro, de teor idêntico, do Leroy Merlin. Alegrava-me eu com o não encerramento das escolas.

Ainda me sinto tentada a tomar outro café, desta vez, fora de casa, mas desisto. As chávenas são daquelas de cartão, e não estou assim tão desesperada. Também me assalta uma ponta de culpa por não me sentir tão predisposta à obediência, desta vez. 


Quando ligo o carro, o rádio devolve-me a voz de Bryan Ferry. Também não o ouvia há muito tempo. Também sei cantar esta música de memória. Mas, desta vez, não me espanto.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Mimar o morto

André Ventura resolveu aprimorar o seu trump style de trazer por casa. Ou melhor, de trazer para a rua. Elevou a fasquia e passou ao insulto pessoal mais reles, aquele que faz as delícias dos imbecis. A "contrabandista", o "avô bêbado", o "fantasma", a dos "lábios vermelhos" que "fisicamente" não está muito bem – a mais que esgotada piada sexista, evidentemente – e o operário beto: piada sexista por piada sexista, desconfio que a última, dirigida ao João Ferreira, tenha uma ponta de inveja. Grande ou pequena, tanto faz.

Até nisto somos um país atrasado. O Trump em agonia nos EUA, a esvaziar-se num chinfrim agudo como um rato pestilento, gulosamente engordado pelos seus, preso na armadilha que o próprio criou, e o nosso protótipo de vigarista armado em estadista a dar os primeiros passos na cretinice de sarjeta. Daquela mesmo imunda. Lindo. Que é como quem diz, deplorável. 

Já sei o que dizem: deplorável foi o golpe de morte que Hillary Clinton desferiu sobre si mesma enquanto candidata a presidente dos EUA. Mas, os deploráveis não deixam, por isso, de ser deploráveis. Também sei que há sondagens que colocam o Ventura em segundo lugar nas intenções de voto dos portugueses. A concretizar-se, será só mais uma acha para a fogueira onde acabaremos todos por arder. Talvez se salvem os portugueses de bem, ou lá o que é. Ou, como se tem visto com os acólitos de Trump, talvez esses sejam os primeiros a abandonar o navio. Pior que um cretino, só um cretino cobarde. E raramente a imitação supera o original. De modo que, ouvir o líder do Chega a ensaiar uma stand up comedy da politiquice de esgoto, cheirou duplamente mal: pela, isso, em si e pela falta de jeito para chafurdar na dita: parecia uma fraude da própria fraude...

E "o morto" é em sentido figurado, para os mais inocentes.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Tenho tanta coisa para ler que precisava que o meu dia tivesse mais duas ou três horas. Sem máscara. Despir a máscara depois de entre 8 a 12 horas amordaçada, dependendo dos dias, é mais que um alívio. Nos últimos dias, de frio picante, tem sido quase um prazer. A noite já noite, descer as escadas a correr, arrancá-la a caminho do carro e o vento gelado, em cheio na face, fino e afiado com um fio de navalha, um acto de remição por todas as horas de cansaço acumulado.

 

Alguém me enviou um print da mensagem daquele senhor ou senhora que confessou fazer a sua vida quase-normal, paranormal, sabendo-se infectado ou infectada, que o importante é guardar segredo sobre o assunto e continuar a fingir que está tudo bem, e lembrei-me daquela amiga, há tantos anos que já parece noutra vida, que, estando sozinha com as duas filhas pequenas, enfiou uma colherada de brufen pelas goelas da mais nova e mandou-a para a creche. Seriam apenas umas horas, de manhã. O marido trabalhava, na altura, fora do país, a pequenita adoecia porque sim e porque não também, ela já faltara ao trabalho até ao limite da indecência e havia uma reunião na empresa, mais uma reunião na empresa, a que não podia voltar a faltar se quisesse manter o emprego. Não, a amiga não era nenhuma irresponsável, inconsciente, ou mais um punhado desses mimos que gastamos, quase todos, com os outros em algum momento; eu, pessoalmente, em muitos desses, mea culpa. Era só, na altura, uma mulher esgotada. Como andamos todos, nos dias de hoje. Ainda assim, sim, é preciso algum descaramento.

 

Mas, eu queria mais duas ou três horas no meu dia, era isso, para arranjar tempo para ler. Tempo tempo, não aquele tempo que desfiamos entre tarefas, numa pressa esgadelhada. Não sei ler assim. Cometo, no entanto, um pecado enorme: arrisco um zapping – posso dizer assim, zapping, para os livros? – por algumas páginas do Sentir e Saber, do António Damásio. Quero lê-lo desde a entrevista. Era capaz de jurar que havia qualquer coisa sobre uma sociedade deslassada, mas devo ter-me confundido. Lembro-me que era muito próximo do que sinto. Uma sociedade deslassada. Deslaçada, também.

Entretanto, vou largando rabiscos em pedaços de papel que, depois, não sei bem onde pouso, e deixo-me consumir no receio de que alguém se atreva a desnudar-me a alma.

 

Também ouvi qualquer coisa sobre a demissão de um ministro cabo-verdiano na sequência das reportagens que a SIC andava, ou anda, a exibir sobre os corredores obscuros por onde se movem os vermes que se acardumam no Chega. Ah, sim, para mim são vermes, lamento, e sei que não vale insultar, mas, a premissa é válida para ambos os lados e qualquer português de bem, mesmo de bem, se sente insultado a ouvir o clone do senhor Trump.

 

Afinal, “reconfinamos”, mas as escolas mantêm-se abertas. Enganei-me.

Devo dizer que esta espécie de cárcere não me desassossega em demasia. Sempre apreciei o silêncio e, além disso, aturo-me bem. Mesmo que, por vezes, haja menos silêncio e demasiada gente. Não é bem um verso da Maria Guinot.

Não fecham as escolas e parece-me bem, francamente. Mas, temo o que por aí vem. Um país em ruínas.

 

E ontem – ou anteontem – li uma bela declaração de amor. Uma belíssima declaração de amor. Hoje, já não sei bem o que li. O que ouvi.

O amor como um acto de redenção. E o orgulho como uma arma de defesa; porque, se dermos mais um passo, corremos o risco de nos despedaçarmos. Mas, talvez seja só eu que o vejo assim.


Na Serra da Estrela

 




"As nossas almas estão mortas"




Sobreviver num campo de reeducação para Uighurs, na China. 

"Os nossos corpos exaustos moveram-se pelo espaço em uníssono, para frente e para trás, de lado a lado, de canto a canto. Quando o soldado gritou "À vontade!" em mandarim, o nosso regimento de prisioneiros congelou. Ordenou-nos que ficássemos paradas. Isso poderia durar meia hora, como uma hora inteira ou até mais. Quando acontecia, as nossas pernas começavam a formigar com alfinetes e agulhas. Os nossos corpos, ainda quentes e inquietos, lutavam para não balancear sob calor húmido. Podíamos sentir o nosso próprio hálito fétido. Ofegávamos como gado. Às vezes, uma de nós desmaiava. Se não voltasse a si, um dos guardas colocá-la-ia de pé, esbofeteando-a para que acordasse. Se desmaiasse de novo, arrastá-la-ia para fora da sala e nunca mais a veríamos. Sempre. No início, isso chocou-me, mas agora estava acostumada. Acostumamo-nos a qualquer a qualquer coisa, até mesmo ao terror."


Vinha aqui reclamar sobre qualquer coisa que, entretanto, esqueci.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Os miúdos perguntam-me se eu acho que a escola vai fechar. Eu acho que a escola vai fechar. Pelo menos, a nível do ensino secundário. Pode ser que seja a melhor opção para conter os contágios, não faço ideia. O meu filho frequenta uma escola com quase 2000 alunos e não demos por qualquer sobressalto. Uma turma ou outra, pontualmente, confinada por causa de um caso positivo e praticamente sem contágios entre os colegas. A turma do meu filho nunca teve qualquer situação de teste positivo. Também ele me pergunta se eu acho que a escola vai fechar, diz que não lhe apetece nada ter que ficar em casa. De algum modo, isso sossega-me.

Eu acho que as escolas vão fechar. Não sei se é a melhor opção. Sei que não vejo grande preocupação com o que os miúdos perdem com a escola fechada. Efectivamente. Estamos a hipotecar uma geração inteira com base em pouco mais do que um acto de fé. O ano lectivo anterior acabou a 12 de Março. O que aconteceu depois disso, foi um faz-de-conta que continuamos a ensinar, seja lá o que isso for, principalmente para os alunos mais desfavorecidos. É mais do que dramático.

Ninguém sabe muito bem o que fazer com o líder do Chega, como ninguém soube muito bem o que fazer com a ascensão apoteótica de popularidade de Donald Trump.

André Ventura é um populista vaidoso que dança conforme a música e que defende os “princípios” que lhe forem mais úteis em cada momento. Mas também já se percebeu que isso interessa pouco e de pouco adianta tentar desvalorizar ou tentar humilhar estes santos de pau oco. Essa é uma estratégia que contribui, apenas, para empolgar o fenómeno. O tipo de discurso de André Ventura vende como castanhas quentes porque há sempre, na vida de cada um de nós, um momento em que sentimos algumas destas coisas como verdade. Justa ou injustamente, por muito breve que seja esse momento e por muitos remorsos que possamos sentir a seguir. O facto de cada adversário ter o seu próprio telhado de vidro, uma janelinha pequena que seja, serve primorosamente os propósitos do espectáculo que estes verdadeiros artistas sabem montar como ninguém. O discurso aos gritos, o dedo em riste, enxotar as acusações com outro golpe de teatro, sem esmorecer nunca no contra-ataque são balas certeiras e desfazem o alvo com a eficácia pretendida, minuciosamente calculada. O insulto fácil e sem sobressaltos de consciência desfaz o que quer que tenha sobrado. Infalível.

A direita não voltará ao poder tão cedo sem o apoio do Chega – como não se cansa de nos explicar, (im)pacientemente, o João Miguel Tavares – e, como é sabido, o que verdadeiramente importa é chegar ao poder. O que fazer, depois, com esse poder é todo um outro tratado.

O homem que, em Portugal, não quer ser o presidente de todos os portugueses tornou-se omnipresente em todas as discussões políticas.  A gritos, mas não só. A comunicação social não gosta que se lhe aponte responsabilidades na promoção do fenómeno trump à portuguesa, mas há responsabilidades sim. Se não noutra coisa, na enorme falta de jeito para lidar com o assunto. Até agora, nos “debates presidenciais”.

Não entendo o discurso do “não me interessa a forma”, para apoiar André Ventura. Como para apoiar Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil. Quem ouviu André Ventura defender a sua direita sabe muito bem ao que vai, quando decidir entregar-lhe o voto. Não venham esses, depois, encher-se de espanto e de nojo com as consequências, como fizeram alguns dos nossos mais fervorosos simpatizantes das políticas do ainda presidente dos EUA. Estava tudo a correr tão bem, não era, até à chegada do homem dos corninhos de viking, ou lá o que era. Começo a ter mais apreço (não é apreço, mas falta-me qualquer coisa melhor) pelos trogloditas assumidos do que por aqueles que se distraem em contorcionismos para se fingirem castos.

 

Ainda a propósito da melhor forma de combater estes protótipos de fascistas, que não se podem chamar fascistas, tenho muitos dúvidas sobre a melhor estratégia de lhes tirar palco, mesmo sabendo que é urgente impor um limite entre a liberdade de expressão e a liberdade de difundir as mentiras mais obscenas. Mas, agora, não tenho mais tempo.

 

E vamos reconfinar. Abstenho-me de grandes considerações sobre o assunto, porque, com excepção das teorias da minha liberdade acima de tudo e a qualquer custo, e, havendo custo, de preferência, que o paguem outros, sou capaz de aceitar argumentos pró e contra. Estou assim de perdida, neste tema…  

domingo, 10 de janeiro de 2021

Dos Impensáveis

O que espanta no “Assalto ao Capitólio” – dará um bom livro, um bom filme (ou uma boa sequela, uma vez que já houve um Assalto à Casa Branca) e mais umas páginas negras nos manuais de História – não é a insurreição: é o próprio espanto. Mas, não estavam lá todos os sinais? Mais do que os sinais, não estavam lá todas as ameaças? Trump não passou todo o seu mandato a atiçar a sua matilha armada? Gente boa dos dois lados, stand back and stand by, o apelo claro à revolta daí a nada. Qual foi, afinal, o “impensável” que aconteceu, a não ser o drama da eleição deste homem como 45º presidente dos Estados Unidos da América, embalado pelos seus acólitos? Tudo fosse assim, tão descaradamente previsível. E veremos se acaba aqui.


Ainda assim, apesar de todo o nojo, não gosto nada de ver isto publicado num jornal que se quer sério. Não interessa muito se é para ser irónico, provocador. Uma piada. Não gosto.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

"Stand back and Stand by"

Do orgulho e da obediência. 

Ou, sobre as pessoas de bem dos auto-proclamados, imaculadíssimos, anti-sistema. 





The Guardian

 



Mudei de ideias e voltei aos "debates" presidenciais. A alguns debates presidenciais. 

Há um meio termo, afinal, entre o embevecimento enjoativo e a arruaça fandanga. E foi esclarecedor ouvir o excitável Ventura dizer que direita não tem cá preocupações com coitadinhos. Coitadinho.

Acho que foi a segunda vez que ouvi falar Tiago Mayan Gonçalves, mas tenho um certo apreço por quem consegue manter algum decoro frente a um imbecil.


Entretanto, acordei ao som do Bolero de Ravel. Esse som silencioso que, de tempos a tempos e por qualquer motivo que creio já ter ouvido explicar mas que nunca recordo, não nos sai da cabeça. Se tiver tempo, vou procurá-lo. O motivo. O Bolero, deixo-o aqui. Gosto do Gustavo Dudamel.




segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Momentos

O meu vizinho do prédio em frente voltou a tocar saxofone, à janela. No início da catástrofe, em pleno confinamento, também havia um casal de cantores de ópera, mas eu prefiro ouvir o homem do saxofone.  O casal cantava todas as noites, às 22 horas em ponto. O homem do saxofone toca pontualmente, alguns Domingos à tarde. Na verdade, não sei bem por que penso que é um homem. Nunca o vi. O prédio dele está de costas para o meu, um pouco desviado para a direita. Só o ouço. Só a ouço. Pode perfeitamente ser uma mulher. 

Um dia qualquer, atrevo-me a descer à rua e junto-me, com o distanciamento que a pandemia moldou a custo, àquela gente que se vai espalhando pelo passeio, a olhar para cima, em silêncio. Um silêncio quebrado apenas ao fim de uma hora, quando tudo termina. Os que começámos a ouvi-lo, a ouvi-la, assiduamente, já sabemos que dura exactamente uma hora. No fim dessa breve interrupção da nossa realidade agora (só agora?) desalinhada, a gente da rua aplaude, sempre timidamente, e agradece-lhe. Depois, as pessoas dispersam, rumo às suas vidas ainda suspensas, num marulhar suave como as folhas secas de Outono em alegre corrupio.

Se não chove, sento-me numa das cadeiras de madeira da varanda, com o céu diante de mim e uma linha de mar, ao longe, delineando um horizonte perfeito. Enquanto se soltam as notas, vejo-o mudar de cor. Ao céu na minha frente. Vejo-o empertigar-se. Arrumar as nuvens em espiral como num quadro de Van Gogh, dispô-las sobre os vincos de anil que a luz do sol ora torna leitoso, ora ameaça tingir de chumbo. Por um momento, as diferentes linhas que racham o ar parecem dar forma a uma partitura, guiadas pelo génio do músico. As nuvens como colcheias subitamente empalidecidas.

Hoje ainda não desço. Fico a ouvi-lo desde casa.

Mesmo sem balanços de um ano de peste – de várias pestes – guardo, também, a generosidade desta gente anónima, desconhecida, capaz de dispor do seu tempo para suavizar a tormenta. Sem contrapartidas.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Sobre não lutar com porcos. Ou, era para ser um debate presidencial.

Não vou perder muito tempo com os debates presidenciais. A política começa a ser um lugar demasiado mal frequentado.

Tinha, no entanto, interesse em ver alguns desses debates. O que aconteceu ontem entre o candidato João Ferreira e o pantomineiro André Ventura, não foi um debate, como eu já desconfiava, mas ultrapassou as minhas piores expectativas.

Não sei quem é a jornalista, ou moderadora, ou ambas as coisas, que aparecia ali no meio. A primeira vez que a vi foi a não moderar uma outra discussão quente (e a quente) – falava-se da matança na Herdade da Torre Bela e, nessa altura, o protagonista foi André Silva. Tal como André Ventura ontem, André Silva, embora gritando com mais classe, rapidamente percebeu que podia monopolizar à vontade a conversa que não havia ninguém para o mandar calar. Para tornar tudo mais caricato, um Miguel Sousa Tavares via Skype ou semelhante, trocou-lhe o apelido, Andrés há muitos, espalhafatosos também, e se dúvidas houvesse de que a coisa corria lindamente ao líder do PAN, era só ver-lhe a carinha de gozo.

De modo que, quando vi a senhora lá no meio, ontem, no tal debate, imaginei o pior. Estava enganada. Foi muito pior do que o pior que eu havia imaginado. Inacreditável. O que se passou ontem, apesar de assentar na melhor estratégia trumpista (mais do que populista ou demagógica) – falar precipitadamente, falar por cima, interromper constantemente, mandar umas bocas, o toca-e-foge clássico dos cretinos – juntou o inútil ao desagradável, apanhou o terreno fértil para a chafurdice: um candidato fácil de atacar por vários motivos e uma jornalista incapaz de moderar uma birra de recreio que fosse. Que só não foi isso, porque foi pior. O porco saiu divertidíssimo.

André Ventura tem a coragem dos cobardes, de modo que, não será tão arrojado frente a outros adversários. Creio eu, mas, nunca fiando. Aparentemente, a estratégia vai colhendo adeptos. Deixou de ser importante divergir, argumentar, contestar. O que anima as bases é a discussão de balneário. Não faltará muito para o cuspir no chão...

Sobra a parte positiva da coisa, ainda assim: alterei a agenda, mais ou menos, e não repetirei o intento. 

sábado, 2 de janeiro de 2021

 


No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro