quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Ainda sobre as escolas
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
À deriva
Hoje há outro
Conselho de Ministros extraordinário. “Quando se navega sem destino, nenhum
vento é favorável”, e andamos mais ou menos assim, no tal mesmo barco sem saber
bem aonde ir. Ainda assim, não gostaria de estar na pele de nenhum dos nossos
decisores políticos. Nem um, e nutro pouca simpatia pela maioria.
Quem tem poder de
decisão não sabe o que decidir e, entre os que sobram, parece não faltar gente sábia
e inspirada. Se já não importará muito tentar perceber como chegámos até aqui,
resta saber como iremos sair disto. Continuar a insistir na teoria do exagero e
de uma espécie de promoção do pânico começa a parecer, mais do que absurdo, um
insulto a todos os que se esforçam em nome do bem comum.
Não podemos ficar todos em casa e não vai ficar tudo bem. Como é que se faz a ponte entre uma coisa e a outra para que não fique apenas e só um país em ruínas, não faço ideia. Mas não pode ser, como se já se percebeu (era assim tão pouco evidente?), deixando a escolha à solta. Para o bem e para o mal, elegemos governos. Mesmo quando abdicamos do direito e do dever de voto.
É possível que a emergência do momento dite, novamente, o encerramento das escolas. Nesse caso, talvez fosse acertado suspender as aulas, pelo menos, para os alunos do ensino secundário. Mesmo. Presenciais e não presenciais, uma semana, duas semanas, e, nesse caso, prolongar pelo mesmo tempo o período seguinte, o final do ano lectivo, reajustar o calendário de exames. Seria outro coro de críticas, claro, mas há alguma medida que agrade a toda a gente? A não aquela de permitir o Natal e a Passagem de Ano, quero dizer?
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
Primeiro dia de aulas, três lições de cidadania...em 15 minutos
domingo, 6 de setembro de 2020
Cidadania e coiso, que já muito se disse sobre o assunto
O meu filho revira
os olhos quando lhe pergunto, pela enésima vez, afinal, de que falaram
vocês e como, nas aulas de Cidadania?
Sou uma daquelas
mães horríveis que não sabem, sequer, a data dos testes dos miúdos. Do miúdo;
só tenho um. O trabalho dos primeiríssimos anos de escola deu os frutos que
plantámos com teimosia a preceito: responsabilidade e autonomia; de momento,
ambas nas doses certas. Tanto que, pouco familiarizada que estava e estou – que
estamos, o pai e eu – com os conteúdos dessa disciplina maldita, nem sequer
sabia bem se tinham feito mais do que usar essas aulas para repor matérias de
outras disciplinas. Sim, não raramente – isso, ainda vou sabendo –, as aulas
dessa disciplina onde se ensaia o proselitismo e a doutrinação das
nossas crianças indefesas, a mando de um Estado com tiques inquisitórios e mais
um ror de desgraçadas anunciadas e abaixo-assinadas, são ocupadas por conteúdos
de outras disciplinas. À partida, um sacrilégio menor.
Eu sei. Exagero na
troça. Acho saudável, útil, avisado, fundamental, que haja quem se bata contra
qualquer tentativa de doutrinação e/ou amordaçamento da sociedade. Mas tenho
muito dificuldade em ver o monstro que os “objectores de consciência” e seus
co-signatários descobriram nas áreas-temáticas da dita disciplina. Não sei se
alguém se lembra das crianças. Não podem ser doutrinadas pela
escola, mas podem ser doutrinadas pelos pais, será isso,
supondo que isso seja melhor. E, à escola, cabe apenas o ensinamento asséptico,
do que seja nada menos do que exacto, e sem margem para a dúvida, o debate, a
formação do indivíduo fora dos tubos de ensaio, digo eu, logo eu, que sou uma
dessas, das ciências às claras, de erros previstos, estimados e corrigidos,
quando não eliminados. É isto? Depois dizem que os miúdos não sabem pensar.
Também o digo, às vezes; mais quando não querem do que quando não sabem,
propriamente.
Como é evidente, a
causa da polémica não é a disciplina; antes, o que se
possa esconder atrás de duas das tais áreas-temáticas:
“educação para a igualdade de género” e “educação para a saúde e para a
sexualidade”, e partindo do princípio de que a esmagadora maioria dos
professores que a leccionam (normalmente, os directores de turma) estão
escrupulosamente empenhados em promover uma lavagem cerebral ditada pela nova
ordem social e ideológica, seja lá o que isso for, desde que pareça
suficientemente mau. Parece absurdo, mas nunca fiando.
Ainda assim – e isto
eu entendo – há uma diferença enorme entre falar de direitos e deveres iguais
independentemente do género e ensinar esse “género” apenas como uma
"construção social", por princípio, totalmente avessa (no mínimo,
alheia) ao sexo biológico, só para passar ao de leve pelo primeiro
desassossego. Que o género e o sexo andem de
costas tão voltadas à nascença, para a esmagadora maioria da população. E acho
absurda a insistência-porque-sim em que somos nós, exclusivamente,
como sociedade, que determinamos o que é feminino e masculino,
ou nenhum dos dois; como acho absurda a ideia de que o combate mais eficaz
contra a discriminação e o abuso se atinge pela promoção à bruta e por decreto
de uma teoria assente na convicção, obtusa, de que ninguém nasce com o género
que lhe calhou em sorte, que é como quem diz, em sexo, e é tudo uma questão de
opções pessoais. Obviamente, não me refiro aos direitos e ao respeito devidos a
essas opções, e suponho que "o direito a" e "o respeito
por" se ensine nessas aulas de cidadania. E respeitar não significa
concordar. Nem sequer entender.
Coisa diferente é o
perigo que a cidadania possa representar para os pais que
consideram que, sim, as meninas até podem vestir azul desde que casem
bem e não se importem de ganhar menos do que o marido a quem cabe, por
dever e direito, o ónus de ser a parte bem sucedida profissionalmente do matrimónio;
que os meninos podem vestir rosa mas menos e desde que sempre respeitando as
dinâmicas sociais do não se pode ter tudo e, em podendo, que
seja o menino; para esses, dizia, há igualdades que convém manter afastadas das
doutrinas escolares destes tempos de perdição.
De resto, ainda não
sei bem se o manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Educação para
a Cidadania e o Desenvolvimento e a "objecção de consciência" dos
pais de Famalicão são uma questão de princípio ou apenas uma birra. Um
momento do género
ainda-vamos-mas-é-todos-passar-a-ser-racistas-com-tanta-manifestação-anti-racista,
ou lá o que era.
Mas, isto sou só eu
a falar com os meus botões, como habitualmente. Já o meu filho falou de
"violência no namoro" e "interculturalidade". Lá nas aulas de
cidadania. Não dei por nenhum trauma, para nenhuma das partes.
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
Regressos
Sobressalto-me sempre que me encontro nas memórias de outros. Memórias que outros escrevem sem saberem nada de mim, nem sequer que eu existo; nem nestas páginas, nem para além delas. E, no entanto, aquele filho é o meu; sou eu, aquela mãe; já desci aquelas ruas, frequento aquelas lojas, reconheço vários daqueles actores que enchem o nosso quotidiano, aquele que partilho sem pertença nem dolo com esses desconhecidos com quem me vou cruzando num acaso virtual. Até as histórias, algumas, juro que já mas deixei contar. Sou capaz de desenterrar-me dos recantos mais áridos, das esquinas mais nuas, transportar-me inteira entre mundos remotos. Ontem mesmo vi, numa rua das nossas, bem portuguesas ainda (ainda?), uma rua de Marrocos, numa viagem de há três anos, entre Tânger e Fez, numa cidade interior onde parei para levantar dinheiro e meter gasolina. Há mais anos ainda reconheci uma rua do Porto numa rua de Praga; bastava trocar a Torre da Igreja dos Clérigos pelos pináculos da Catedral de São Vito, e a ilusão era mais que perfeita.
Mas, por muito que se viaje, não se descobrem facilmente praias como as nossas. Talvez aquelas a que chamamos exóticas, como as Maldivas que conheço e as Maurícias que imagino, mas serão apenas acasos felizes. Mas, isto sou eu. Muito de férias e pouco de praias, dois conceitos, aliás, que nunca passaram do “primeiro estranha-se”; estranho-os sempre que os imagino juntos e junto-os, apenas, muito raramente, por acordo tácito, às vezes táctico, com o meu filho. O meu, mesmo meu, no caso. E neste caso, neste verão, foi o acordo possível.
Entretanto, vi que deixei um rol de textos por acabar. Um, sobre o que gosto de conduzir e como viajaria de carro, exclusivamente, se dependesse apenas da minha vontade. Outro, sobre a rapariga da papelaria e do esforço que fez e faz para se aguentar de portas abertas, já que não aguenta as lágrimas. Outro, ainda, sobre as aventuras de Marcelo, uma colecção do género "Anita vai às compras", ou à praia, ou a outro lado qualquer, que o Presidente é mais que Rei e a Anita, afinal, sempre foi Martine. Só não me digam que os estrunfes são smurfs, que sou capaz de me enervar. Mais.
Também tenho um texto principiado sobre as aventuras e desventuras de Rui Pinto, herói ou vilão?, e outro sobre os pais de Famalicão mais as suas objecções de consciência, mas, parece que finalmente, lá saiu, mais ou menos, a auditoria da Deloitte às contas do Novo Banco e, aparentemente, vai continuar tudo tão bem como até agora, pelo que, de momento, estou com pouca paciência. Estamos em pleno regresso às aulas e creio que a última vez que vi o ministro da Educação foi naquele magnífico evento que anunciava outro magnífico evento com que o país ia premiar os profissionais de saúde, ou lá o que era. Pelo meio, continuamos a contar contágios e mortos e a ensaiar indignações estafadas contra os males do país; previsíveis por uns, do conhecimento de muitos, encobertos por quase todos. É mais do que só nos lembrarmos de santa bárbara quando troveja; é fingir que nem sequer nos lembrávamos do que é um trovão. Mas, estou como a ministra da Cultura, não li jornais portugueses (nem outros, não por acaso) durante uma data de dias e foi óptimo, bebi uns drinques de fim de tarde e de meio da tarde também, e não gosto nada, mesmo nada, de touradas.