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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Ainda sobre as escolas

As escolas vão fechar. Não há alternativa. Há um clamor sobre a exigência dessa medida e o Governo acabará por ceder.

A discussão em torno do tema está, como quase sempre, inquinada. A "teimosia" em manter as escolas abertas terá pouco a ver com afirmações de força política, neste momento. Digo eu, pelo que, vale o que vale, ou seja, nada. Mas, como estou de costas voltadas para este Governo há muito e o meu filho é uma criança privilegiada também no que toca ao ensino, atrevo-me. 

Só não percebe quem não quiser perceber a diferença abismal no "sucesso" do ensino à distância quando comparamos as realidades (sociais, económicas e todos os demais "indicadores de" que quisermos comparar) das crianças e jovens que constituem o nosso tecido escolar. Fechar as escolas e continuar com o ensino à distância é condenar ao abandono todas as crianças mais pobres para quem a escola representa o melhor do seu mundo e isso é muito mais do que aprender ciências, português, história, etc. Já muita gente, muito mais capaz do que eu, o afirmou, embora eu o tenha visto e vivido na primeira pessoa junto de alunos que acompanhei no confinamento passado.

Fechando as escolas, o único passo decente seguinte seria suspender as aulas.  Mesmo. E prolongar o final do ano lectivo, com o consequente rearranjo do calendário de exames, no caso de ainda vir a haver exames. Não há outra forma.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

À deriva

Hoje há outro Conselho de Ministros extraordinário. “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”, e andamos mais ou menos assim, no tal mesmo barco sem saber bem aonde ir. Ainda assim, não gostaria de estar na pele de nenhum dos nossos decisores políticos. Nem um, e nutro pouca simpatia pela maioria.

Quem tem poder de decisão não sabe o que decidir e, entre os que sobram, parece não faltar gente sábia e inspirada. Se já não importará muito tentar perceber como chegámos até aqui, resta saber como iremos sair disto. Continuar a insistir na teoria do exagero e de uma espécie de promoção do pânico começa a parecer, mais do que absurdo, um insulto a todos os que se esforçam em nome do bem comum.

Não podemos ficar todos em casa e não vai ficar tudo bem. Como é que se faz a ponte entre uma coisa e  a outra para que não fique apenas e só um país em ruínas, não faço ideia. Mas não pode ser, como se já se percebeu (era assim tão pouco evidente?), deixando a escolha à solta. Para o bem e para o mal, elegemos governos. Mesmo quando abdicamos do direito e do dever de voto. 

É possível que a emergência do momento dite, novamente, o encerramento das escolas. Nesse caso, talvez fosse acertado suspender as aulas, pelo menos, para os alunos do ensino secundário. Mesmo. Presenciais e não presenciais, uma semana, duas semanas, e, nesse caso, prolongar pelo mesmo tempo o período seguinte, o final do ano lectivo, reajustar o calendário de exames. Seria outro coro de críticas, claro, mas há alguma medida que agrade a toda a gente? A não aquela de permitir o Natal e a Passagem de Ano, quero dizer?

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Primeiro dia de aulas, três lições de cidadania...em 15 minutos

 


Lição número 1: Pessoas "normais" não estacionam, de lata, imensa, e bagagens, nos lugares reservados a pessoas com mobilidade reduzida. Além de revelar uma falta de cidadania colossal, a pessoa "normal" arrisca-se a ver o seu magnífico veículo bloqueado mesmo ali à porta da escola. Normalmente, ninguém reclama, mas, hoje, não foi o caso. Estudassem...

Lição número 2: Pessoas "normais" não estacionam o seu magnífico veículo mesmo em cima do passeio, passeio esse onde as suas crias e as crias dos outros hão-de vir ter, forçosamente, à saída da escola, já que não têm outro sítio por onde circular; a não ser a rua, onde é suposto circularem veículos, nomeadamente, automóveis, mais ou menos magníficos. Pois, é melhor dispersar. Imediatamente. Até porque os senhores que bloqueiam veículos ainda lá estão e não vá o diabo tecê-las e levar-nos ao inferno por termos perdido as aulas de cidadania. Na escola. Se não precisássemos da escola para isso, teríamos aprendido cidadania em casa, o que, aparentemente, não foi o caso.

Lição número 3: Quando um outro veículo está parado, por um instante breve, com um e um só pisca-pisca ligado, poucos metros à frente de um lugar de estacionamento permitido, do mesmo lado do tal pisca-pisca, depreende-se que quem conduz tal veículo pretenda estacionar. Desta forma, o veículo que circula atrás não deve nem sequer tentar estacionar de frente, mesmo que o seu veículo seja de menores dimensões e assim o permita.

Por hoje é tudo. Podem tirar as máscaras. Se a cidadania o permitir.

domingo, 6 de setembro de 2020

Cidadania e coiso, que já muito se disse sobre o assunto

O meu filho revira os olhos quando lhe pergunto, pela enésima vez, afinal, de que falaram vocês e como, nas aulas de Cidadania

Sou uma daquelas mães horríveis que não sabem, sequer, a data dos testes dos miúdos. Do miúdo; só tenho um. O trabalho dos primeiríssimos anos de escola deu os frutos que plantámos com teimosia a preceito: responsabilidade e autonomia; de momento, ambas nas doses certas. Tanto que, pouco familiarizada que estava e estou – que estamos, o pai e eu – com os conteúdos dessa disciplina maldita, nem sequer sabia bem se tinham feito mais do que usar essas aulas para repor matérias de outras disciplinas. Sim, não raramente – isso, ainda vou sabendo –, as aulas dessa disciplina onde se ensaia o proselitismo e a doutrinação das nossas crianças indefesas, a mando de um Estado com tiques inquisitórios e mais um ror de desgraçadas anunciadas e abaixo-assinadas, são ocupadas por conteúdos de outras disciplinas. À partida, um sacrilégio menor.

Eu sei. Exagero na troça. Acho saudável, útil, avisado, fundamental, que haja quem se bata contra qualquer tentativa de doutrinação e/ou amordaçamento da sociedade. Mas tenho muito dificuldade em ver o monstro que os “objectores de consciência” e seus co-signatários descobriram nas áreas-temáticas da dita disciplina. Não sei se alguém se lembra das crianças. Não podem ser doutrinadas pela escola, mas podem ser doutrinadas pelos pais, será isso, supondo que isso seja melhor. E, à escola, cabe apenas o ensinamento asséptico, do que seja nada menos do que exacto, e sem margem para a dúvida, o debate, a formação do indivíduo fora dos tubos de ensaio, digo eu, logo eu, que sou uma dessas, das ciências às claras, de erros previstos, estimados e corrigidos, quando não eliminados. É isto? Depois dizem que os miúdos não sabem pensar. Também o digo, às vezes; mais quando não querem do que quando não sabem, propriamente.

Como é evidente, a causa da polémica não é a disciplina; antes, o que se possa esconder atrás de duas das tais áreas-temáticas: “educação para a igualdade de género” e “educação para a saúde e para a sexualidade”, e partindo do princípio de que a esmagadora maioria dos professores que a leccionam (normalmente, os directores de turma) estão escrupulosamente empenhados em promover uma lavagem cerebral ditada pela nova ordem social e ideológica, seja lá o que isso for, desde que pareça suficientemente mau. Parece absurdo, mas nunca fiando.

Ainda assim – e isto eu entendo – há uma diferença enorme entre falar de direitos e deveres iguais independentemente do género e ensinar esse “género” apenas como uma "construção social", por princípio, totalmente avessa (no mínimo, alheia) ao sexo biológico, só para passar ao de leve pelo primeiro desassossego. Que o género e o sexo andem de costas tão voltadas à nascença, para a esmagadora maioria da população. E acho absurda a insistência-porque-sim em que somos nós, exclusivamente, como sociedade, que determinamos o que é feminino e masculino, ou nenhum dos dois; como acho absurda a ideia de que o combate mais eficaz contra a discriminação e o abuso se atinge pela promoção à bruta e por decreto de uma teoria assente na convicção, obtusa, de que ninguém nasce com o género que lhe calhou em sorte, que é como quem diz, em sexo, e é tudo uma questão de opções pessoais. Obviamente, não me refiro aos direitos e ao respeito devidos a essas opções, e suponho que "o direito a" e "o respeito por" se ensine nessas aulas de cidadania. E respeitar não significa concordar. Nem sequer entender.

Coisa diferente é o perigo que a cidadania possa representar para os pais que consideram que, sim, as meninas até podem vestir azul desde que casem bem e não se importem de ganhar menos do que o marido a quem cabe, por dever e direito, o ónus de ser a parte bem sucedida profissionalmente do matrimónio; que os meninos podem vestir rosa mas menos e desde que sempre respeitando as dinâmicas sociais do não se pode ter tudo e, em podendo, que seja o menino; para esses, dizia, há igualdades que convém manter afastadas das doutrinas escolares destes tempos de perdição.

De resto, ainda não sei bem se o manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento e a "objecção de consciência" dos pais de Famalicão são uma questão de princípio ou apenas uma birra. Um momento do género ainda-vamos-mas-é-todos-passar-a-ser-racistas-com-tanta-manifestação-anti-racista, ou lá o que era. 

Mas, isto sou só eu a falar com os meus botões, como habitualmente. Já o meu filho falou de "violência no namoro" e "interculturalidade". Lá nas aulas de cidadania. Não dei por nenhum trauma, para nenhuma das partes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Regressos

 


Sobressalto-me sempre que me encontro nas memórias de outros. Memórias que outros escrevem sem saberem nada de mim, nem sequer que eu existo; nem nestas páginas, nem para além delas. E, no entanto, aquele filho é o meu; sou eu, aquela mãe; já desci aquelas ruas, frequento aquelas lojas, reconheço vários daqueles actores que enchem o nosso quotidiano, aquele que partilho sem pertença nem dolo com esses desconhecidos com quem me vou cruzando num acaso virtual. Até as histórias, algumas, juro que já mas deixei contar. Sou capaz de desenterrar-me dos recantos mais áridos, das esquinas mais nuas, transportar-me inteira entre mundos remotos. Ontem mesmo vi, numa rua das nossas, bem portuguesas ainda (ainda?), uma rua de Marrocos, numa viagem de há três anos, entre Tânger e Fez, numa cidade interior onde parei para levantar dinheiro e meter gasolina. Há mais anos ainda reconheci uma rua do Porto numa rua de Praga; bastava trocar a Torre da Igreja dos Clérigos pelos pináculos da Catedral de São Vito, e a ilusão era mais que perfeita. 

Mas, por muito que se viaje, não se descobrem facilmente praias como as nossas. Talvez aquelas a que chamamos exóticas, como as Maldivas que conheço e as Maurícias que imagino, mas serão apenas acasos felizes. Mas, isto sou eu. Muito de férias e pouco de praias, dois conceitos, aliás, que nunca passaram do “primeiro estranha-se”; estranho-os sempre que os imagino juntos e junto-os, apenas, muito raramente, por acordo tácito, às vezes táctico, com o meu filho. O meu, mesmo meu, no caso. E neste caso, neste verão, foi o acordo possível.

Entretanto, vi que deixei um rol de textos por acabar. Um, sobre o que gosto de conduzir e como viajaria de carro, exclusivamente, se dependesse apenas da minha vontade. Outro, sobre a rapariga da papelaria e do esforço que fez e faz para se aguentar de portas abertas, já que não aguenta as lágrimas. Outro, ainda, sobre as aventuras de Marcelo, uma colecção do género "Anita vai às compras", ou à praia, ou a outro lado qualquer, que o Presidente é mais que Rei e a Anita, afinal, sempre foi Martine. Só não me digam que os estrunfes são smurfs, que sou capaz de me enervar. Mais.

Também tenho um texto principiado sobre as aventuras e desventuras de Rui Pinto, herói ou vilão?, e outro sobre os pais de Famalicão mais as suas objecções de consciência, mas, parece que finalmente, lá saiu, mais ou menos, a auditoria da Deloitte às contas do Novo Banco e, aparentemente, vai continuar tudo tão bem como até agora, pelo que, de momento, estou com pouca paciência. Estamos em pleno regresso às aulas e creio que a última vez que vi o ministro da Educação foi naquele magnífico evento que anunciava outro magnífico evento com que o país ia premiar os profissionais de saúde, ou lá o que era. Pelo meio, continuamos a contar contágios e mortos e a ensaiar indignações estafadas contra os males do país; previsíveis por uns, do conhecimento de muitos, encobertos por quase todos. É mais do que só nos lembrarmos de santa bárbara quando troveja; é fingir que nem sequer nos lembrávamos do que é um trovão. Mas, estou como a ministra da Cultura, não li jornais portugueses (nem outros, não por acaso) durante uma data de dias e foi óptimo, bebi uns drinques de fim de tarde e de meio da tarde também, e não gosto nada, mesmo nada, de touradas.