quarta-feira, 1 de julho de 2026

No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón



Inconseguimento...

Julguei o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas, sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé, senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar palavras. Mea Culpa