quarta-feira, 22 de julho de 2026

Para Ti, Mãe, Para Ti, Pai

 


Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praias
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias

Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram menina das sete saias

Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijai-as
Sete mortes evitaram menina das sete saias

Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras montaram menina das sete saias

Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias aos sete encomendaram
Menina das sete saias

Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e sete deixaram
Menina das sete saias

Sete danças que bailaram
Sete vezes que desmaias
Sete luas te ansiaram menina das sete saias

Sete vezes se encantaram
No bosque das sete faias
Sete sonhos desfolharam
Menina das sete saias


terça-feira, 21 de julho de 2026

Descaminhos

Há uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.

É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós." 

O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu. 

Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade. 

Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer. 

Os meus descaminhos são de outra natureza.



A propósito, diz a minha irmã que devíamos estar à janela, a bater palmas aos professores, aos directores das escolas e aos funcionários, e eu acho que tem razão.

sábado, 18 de julho de 2026

 

O Maravilhoso Mundo (ou Modelo) de Fernando Alexandre

O ministro Fernando Alexandre minou, de forma imperdoavelmente leviana, a confiança nos resultados desta primeira fase de exames nacionais. A questão deixou de ser o atraso e a alteração de calendários, mas a integridade de todo o processo. A urgência de reformar, a ingenuidade, a incompetência, o amadorismo, a teimosia, a fé, uma amálgama experimentalista de tudo isto e o mais por apurar culminou numa situação absurda, sem solução séria à vista. Há alunos que sabem as notas e alunos que não sabem as notas – não importa se são centenas ou milhares, é grave e é inadmissível –, há, assumidamente, classificadores que tomaram decisões diferentes face a um problema comum, o da falta evidente das malfadadas folhas de continuação, o que está longe de garantir a igualdade de critérios – é verdade que os alunos podem pedir a reapreciação da prova, mas, os que tiveram nota máxima sem a terem merecido, vão reclamar de quê? E pode haver provas ou partes de provas perdidas? O que é isto?

Sobre as folhas de continuação avulso, ou seja, fora do respectivo caderno de respostas: não podiam ser colocadas no interior do caderno e não podiam ser agrafadas; deviam, portanto, ser ensanduichadas, soltas, entre o caderno de respostas desse aluno e o caderno de respostas do aluno seguinte, enfiar tudo num envelope e rezar, talvez, para que aquilo não se perdesse no caminho. É verdade, a cada folha de continuação corresponde a mesma identificação do caderno principal, mas, ao contrário do que vinha sendo prática, os alunos não têm, neste novo modelo, onde indicar, no total, quantas folhas de resposta entregaram no seu exame; ou seja, no limite, um aluno poderá não ter como provar que a prova classificada corresponde integralmente à prova que entregou.

Já de início, a existência desde há décadas das versões 1 e 2 de alguns exames expôs um problema básico de concepção: a identificação da versão ficava registada no cabeçalho destacável da prova e, portanto, não acompanharia as respostas para classificação. A solução foi improvisada, distribuindo aos alunos, pelos professores vigilantes, um documento adicional onde deveriam registar essa identificação, que seguiria para digitalização junto ao respectivo caderno de respostas

Tudo isto é vergonhoso, muito além da imprudência. Ainda assim, o ministro, de “consciência tranquila”, insiste na justiça e na eficiência de um sistema que, na prática, se revelou um desastre. Confunde o modelo com a sua execução, a teoria com a realidade; sonhou e imaginou que a obra nasceria por artes de perlimpimpim, quem sabe, e pela boa vontade da comunidade escolar, à qual ora agradece ora ameaça consoante o nível de desespero. 

O modelo, o modelo. O problema nunca foi o modelo. Foi o improviso, a incompetência gritante com que foi implementado.

Não sou professora classificadora, não pertenço à direcção de nenhuma escola, nem ao Secretariado ou ao Júri Nacional de Exames, não tenho filhos à espera de resultados, mas é impossível não estar furiosa com isto.


sexta-feira, 17 de julho de 2026


Um clarão dourado, primitivo, pousado sobre a palidez da pele. Velar tudo o que nela persiste de morte. O êxtase consagrado ascendendo em espirais, sem nunca encontrar um porto, sem nunca encontrar paz. Há um instante suspenso onde o beijo pertence a tempo nenhum, e o corpo que se torna templo, labirinto e abismo. Braços esguios como ramos, frisos caleidoscópicos no contra-azul do céu, e raízes febris bebendo o esquecimento no osso da terra. A beleza veste-se de uma obstinação pregueada para que nenhum olhar suspeite da sua avidez. Sob a sua opulência a sombra espreita e espera, mordendo em sangue a própria eternidade. Gosto.


Margaret Atwood

(...)

"De repente, os cenários previstos em distopias literárias tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?

Poderíamos perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985, muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando, volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo, seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.

Como interpreta então este novo momento mundial de grande impulso bélico?

Pense no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder. Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.

 (...)

Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões. Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?

Não, não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor, elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e reformulada.

Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se descreve no livro?

Sou uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui [no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as pode provar nem refutar."


EXPRESSO


quarta-feira, 15 de julho de 2026

David Byrne, Cool Jazz

 




Muito bom. 
Espectacular a miúda do baixo, Kely Cristina Pinheiro.


Descaramento



Se as notas não saírem na próxima sexta-feira, ainda vamos ouvir Luís Montenegro acusar os professores de terem espetado alfinetes em bonecos de vodu com a cara de Fernando Alexandre, enterrado galinhas pretas, invocado demónios cornudos, sabotado por artes de mau-olhado um processo que tinha tudo para correr tão bem.

O primeiro-ministro coloca a cabeça no cepo, não percebi bem a troco de quê, mas deve ser a única forma de se livrar daquele sorriso de gozo, sempre infame, sempre rasteiro.  

Nojo.


terça-feira, 14 de julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

domingo, 12 de julho de 2026


“Eu pensava muito durante as longas horas das noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito. Custava-me parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”

O Outro que Era Eu

Ruben A.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Da imprudência

Os pais foram imprudentes, há que dar razão ao ministro Fernando Alexandre. Quem se lembraria de marcar férias para o período imediatamente a seguir à data termo da segunda fase de exames nacionais, data essa que costuma sofrer alterações em plena época parece que nunca; confiar nos organismos que zelam pelo bom funcionamento do sistema de avaliação desta (e nesta) fase crucial para o percurso académico dos filhos; esquecerem-se de que há, em várias áreas, um amadorismo e uma incompetência crónicos que a nossa capacidade de desenrasque quase genética (a par da boa vontade e do profissionalismo de outros, na contenção de danos) vai disfarçando, mas que não deixa de ser um remendo que cede ao primeiro esforço? Imprudentes, sem dúvida. 

Já o ministro e a sua equipa preveniram tudo e dispensaram a prudência de testar a eficácia do processo se aplicado, não a um único exame – o de Filosofia, no ano passado, com problemas muito semelhantes ao deste ano, mas uma experiência muito positiva –, mas a todos os exames nacionais do ensino secundário. 

Que os alunos corram sério risco de ver o seu trabalho comprometido e, com isso, também o acesso ao curso que escolhem é coisa que parece não apoquentar o ministro da Educação. Que pais, alunos e professores tenham de alterar as suas férias, suportar os prejuízos que daí decorrerão, financeiros inclusive, tampouco. 

Entretanto, a plataforma do IAVE está em manutenção até às 15 horas de hoje, se Deus quiser. Se tudo correr pior, o diabo insistir em tecê-las pelo intrincado dos labirintos informáticos, talvez nem a correcção em papel seja já viável. 

Estamos tão passivamente conformados com isto que, por imprudência, ainda me espanto. 



Aubrey Beardsley


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Cortesia do Google...

 


... que, de tempos a tempos, me devolve pedaços dos sítios mais belos por onde andei.


Esse Cristiano Ronaldo

Quem percebe de futebol diz que a Portugal sucumbirá aos pés de Espanha. Futubolesmente falando; por enquanto. Eu não percebo nada de futebol – não percebo nem o tempo que lhe dedicamos –, mas sei que às vezes há uma certa justiça poética e um entorpecimento da razão a que este calor também ajuda e, espero, explica por que fiquei acordada a ver o jogo com a Croácia. Não sei se pode dizer que a Croácia merecia ter ganho, mas a Croácia merecia ter ganho. Uma pena que alguém tivesse de ficar pelo caminho. Menos mal que ainda não fomos nós. O país não se resolve à conta das vitórias da selecção, mas podemos fingir mais uns dias. Ou mais umas semanas. É onde entra a justiça poética. A minha. Tal como, em 2016, depois daquela entrada violentíssima de já não sei quem que obrigou Cristiano Ronaldo a sair no início do jogo, decretei que seríamos campeões europeus, que aquilo era uma indecência de todo o tamanho, decreto agora que o mesmo Cristiano Ronaldo merece acabar a carreira com o título de campeão mundial. Cristiano Ronaldo, o atleta, que é onde lhe reconheço mérito. Enormíssimo mérito. 

Não é crime de lesa-pátria, ódio muito menos (foi sempre assim, conotar como ódio qualquer crítica à ordem estabelecida?), não gostar do homem para lá disso – e eu não gosto , apontar-lhe a mediocridade infantil e a despropósito das birras a que se presta, o nojo evidente quando é contrariado, a falta de fair play e de camaradagem quando falha a equipa de que faz parte, ou a falta das qualidades que fazem um verdadeiro líder e capitão de equipa. Mas é, sem dúvida, um fantástico atleta, com uma enorme capacidade de trabalho e aquela característica única, invejável essa, sim, de transformar a raiva e a crítica num novo objectivo. Portanto, sim, esse Cristiano merecia terminar a carreira com o título de campeão mundial de futebol, já que não se imagina o milagre de ainda jogar o próximo. 

Era isto. Está um calor de morrer, literalmente, diz a senhora ministra, de modo que estes são os meus dias preferidos para ficar a casa, trancar portas e janelas, ligar o ar condicionado, hibernar por umas horas.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Sócrates o que é de Sócrates

E se assim fosse não andaríamos nisto. 

Ninguém com o mínimo de inteligência acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.

Mas.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto, na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e, aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que, no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro: depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos e insuspeita de estados de alma.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

No ninho, no chão, a pequena cria, de penugem fina e dourada à luz da meia-manhã, é amorosa e fofa, irresistível. Dá vontade de pegar, coisa que o rapaz decide fazer. Em menos de nada, há duas gaivotas a voar em círculos sobre o ninho, com os seus gritos metálicos. Depois, já não são duas, são quatro; sete daí a pouco, um esquadrão de asas negras, vistas de baixo, o sol tapado, momentaneamente, e só nesse momento o rapaz pressente a ameaça e devolve a cria à segurança do ninho. As gaivotas dispersam nos seus redemoinhos de mau agoiro. Em ambiente selvagem, as gaivotas nidificam no chão, vi pela primeira vez, há anos, nas Berlengas, da primeira e única vez que lá fui e jurei para nunca mais, tão mal passei na viagem de (juro que não se podia chamar aquilo) barco. Eu não gosto de gaivotas, mas seria incapaz de esganar alguma, mesmo a que me tivesse roubado o lanche – a quem é que uma gaivota nunca roubou o lanche? –, golpeá-la, atirá-la contra o chão, matá-la a golpes, como o homem de Gijón



Inconseguimento...

Julguei o livro pela capa, pela cor, pelo desenho. E o autor, pela entrevista que deu ao PÚBLICO sobre “O Século dos Imbecis”. Também gostei do título. Nunca tinha lido nada de Valter Hugo Mãe, e dificilmente lá voltarei. (registava palavras) "Num caderno, mas como era impossível elencar as 100 palavras numa só coluna de uma página, pois queria vê-las todas ao mesmo tempo, criei um sistema de várias colunas. O mais incrível era ver como essa sequência de palavras, em diferentes colunas, sugeria frases imprevistas. E se fizesse um certo tipo de gincana ou ziguezague outras frases aconteciam”, e a mim pareceu-me que toda aquela escrita de Hugo Mãe é assim, ziguezagueada sem arte maior. Aqui e ali um encontro feliz e ponto. Citar Calvino e Dostoiévski à entrada é um acto de fé, senão uma heresia. Vou a meio disto e o que de mais espantoso encontrei até agora é ver descrito tal qual como o meu, com a profundidade da morte, sem sonhos, sem circunstância, o sono de Agilulfo. A escrita de Hugo Mãe também é inexistente, não há corpo lá dentro, apenas uma vontade indomável de arremessar palavras. Mea Culpa