terça-feira, 21 de julho de 2026

Descaminhos

Há uns anos bateram-me no carro. Uma tourada pelo meio, até a companhia de seguros do outro condutor aceitar a decisão do juiz e assumir a reparação. Entreguei o orçamento que me foi dado pela oficina, a seguradora pagou-me imediatamente uma parte do valor e informou-me que o restante seria pago quando eu entregasse a factura final, após o arranjo. O restante era o valor do IVA, e eu, muito parvinha, a exigir que me explicassem por A mais B tal extravagância. “Ó menina (como se eu tivesse cinco anos, e há coisas em que, pelos vistos, pareço), sabe que há pessoas que apresentam os orçamentos, depois mandam arranjar sem factura e ficam com o valor do IVA”. Vivo noutro planeta.

É a minha contribuição para o estranho caso do ministro Luís Neves, pelo menos, no que diz respeito à parte do “clássico nacional”, ou d'A casinha, mais as pequenas obras, transformavam o Luís Neves em um de nós." 

O rigor e a exigência também têm um preço. Cultivamos uma certa tolerância ao incumprimento, mesmo que no limite manhoso da legalidade, talvez aspirando ao mesmo perdão. Ou padrão. O outro Luís, o primeiro, foi a votos confiando nessa premissa, e o povo não desiludiu. 

Atrelados, bidões (mais os químicos a que nem vou) e descaminho – gosto desta palavra, uma pena ser aplicada a crimes – estão vários degraus acima, e só não houve uma derrocada porque estamos quase de férias, anestesiados, esgotados com as desconformidades nos exames nacionais (não é um caos; uma sabotagem, se quiséssemos usar a palavra e não queremos, pois não?; de resto, corre tudo lindamente) e, francamente, já nos demitimos de democracializar, que seria uma espécie de socializar saudável e democraticamente com as instituições e seus actores – não sei se há uma palavra para isto. Mas somos um país europeu, membro da Comunidade Europeira. É essa âncora que nos vai permitindo presumir de alguma seriedade e institucionalidade. 

Podemos puxar dos galões, dos canhões, esfregar os novecentos anos de vida nos anais da História, mas é preciso mais do que parecer. 

Os meus descaminhos são de outra natureza.



A propósito, diz a minha irmã que devíamos estar à janela, a bater palmas aos professores, aos directores das escolas e aos funcionários, e eu acho que tem razão.