Gaivotas em terra. Dezenas. Pousadas na linha do mar, como um bordado de pérolas. Assim, quietas, sitiadas pela luz da lua, são quase suportáveis.
Tendo em conta os anos que me faltam para a reforma e a
evolução vertiginosa disso a que chamamos IA, muito provavelmente, o trabalho a
que me dedico há anos extinguir-se-á antes de me ser possível a aposentação
(palavra muito mais bonita) por velhice – laboral, entenda-se. Aparentemente,
não serei a única, nem será essa a maior das ameaças. Saber que Bernie Sanders e Steve Bannon convergem nessa preocupação é outra preocupação.
Houve um tempo em que achei possível (com excepção deste espaço menor) ignorar
e rejeitar muito do mundo virtual e da sua tecnologia superlativa, mantendo-me
firme e orgulhosamente à margem de tal perigo, fingindo que, pelo menos, nesta
área, a ignorância é a melhor defesa. Saber ou não saber, toda uma outra
questão. Também isso ignoro, se é mais sensato manter-me na sombra. Nem entendo bem o real alcance e as competências
desta inteligência capaz (dizem e demonstram-no) de tomar decisões, corrigir, compreender, cruzar dados de forma orgânica, escapar de um ambiente controlado e levar a cabo ciberataques por vontade própria. Ou então não. Bem sei que uma
máquina não tem vontade. Há explicações complexas para essas alienações do
sistema, mas, na sua génese, continuam a atordoar-me. Vontade, consciência.
Deveriam permanecer redutos da nossa singularidade. Talvez a IA não nos mate
até ao final da década porque já deixámos que morresse em nós muito do
essencial. Eu quero o meu velho mundo de volta, o mundo no limiar deste
horizonte de eventos. Imperfeito, excepto nas margens baixas de um rio claro,
nas encostas de montanha por onde a neve escorre brilhante como uma língua de
lava branca, sob o voo leve das gralhas de bico amarelo. Vaidosas, reais.
Lugares onde moro nos instantes que são meus. A minha mãe, com a generosidade
excessiva do amor incondicional, diz que eu havia de fazer um livro de
fotografias, que as faço tão lindas. Eu digo que não são tão lindas, não o
suficiente para fazer um livro, mas são despidas e limpas, uma forma muito
honesta de olhar.