quinta-feira, 29 de abril de 2021

O acto de ficar sem máscara durante o tempo que dura um café seduz-me, afinal, bastante menos do que julgaria possível. E refiro-me apenas ao café porque não me atrevo, ainda, a outros vícios em público amontoado. A permanência em espaços povoados, repousadamente, onde a possibilidade de ficarmos de cara despida por períodos alargados de tempo, à mercê do bicharoco que por aí circula, desse pelo menos, metamorfoseando-se a seu bel-prazer aquém e além-mar, aflige-me. Esgoto o pouco que me sobra de resignação no tempo do supermercado. Sei que o posso fazer online, o supermercado, mas não quero. E no supermercado circula-se de cara tapada, em princípio; se for bem cedo, tolera-se com a devida resiliência.

Nesta espécie de atordoamento – parte dele auto-infligido, já não sei bem se com hífen se sem ele –, deixei escapar duas peças de teatro a que queria muito assistir. “Ricardo III”, com o Diogo Infante, e “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues. De momento. E pensei que correria de volta às salas de cinema agora que a pandemia me livrou de todo o mal que me assalta quando ouço o estraçalhar sinistro das pipocas que brota quase em fúria dos assentos vizinhos. Como quem roga pragas. Pois não voltei ainda. Ao cinema. Confio pouco no meu semelhante. Aliás, vejo-me pouco semelhante. Aquele que é capaz de pendurar as patorras sobre o pescoço da cadeira da frente, metralhar os joelhos contra as costas da nossa cadeira até nos consumir a (pouca; a minha é muito pouca) paciência – uns e outros e mais – alheio às mais básicas regras de civilidade, dificilmente será capaz de manter a mordaça composta, obedientemente, no escurinho do cinema. Mesmo sem pipocas ou dropes de anis. Desisto. E as pipocas deviam ser vendidas com um alerta de catástrofe, dramático, com bolinha vermelha, e um aviso do género: não aconselhável a ingestão em público a maiores de, sei lá, 10 anos. E já estou a abusar.

De resto, não me tem apetecido muito escrever. Parece-me tudo demasiado vazio. Na melhor das hipóteses. Nas outras, o tal meu semelhante tem-se revelado um exterminador de boas-vontades implacável. Estou naquela fase de cansaço extremo, em que me custa até lembrar-me de mim. Ausento-me. Perco-me. Existo pouco para lá do trabalho. Poder trabalhar é um luxo. Poder fazê-lo em tempos de pandemia é um privilégio que chega a doer. Se não gostasse tanto do que faço, não sobreviveria. 

A propósito de privilégios, Augustin Hadelich é capaz de ser das coisas mais bonitas que me mostraram nos últimos tempos (agradeço-te outra vez?).




E o Google Photos, meu aliado perverso, devolveu-me mais algumas fotografias. Dos meus céus de natas e algodão-doce. E uma gaivota vaidosa. E pedaços de gente do mar.






quarta-feira, 28 de abril de 2021

Michael Collins



Morreu na mesma semana em que a Lua se exibiu com soberba. Magnífica. 

É quase poético.

Boa viagem.

terça-feira, 27 de abril de 2021

A Minha Lua

 



É como atravessar uma ponte de corda suspensa sobre um abismo. Estreitíssima. Quebradiça como uma velha carcaça perseguida pela mais violenta das tempestades. E o abismo tão profundo que nada mais a vista alcança além da densa negritude do invisível, do infinito. Cada passo um acto de fé insolente na imensidão do nada que me sustenta. O silêncio mantém-me viva. Alerta. Atenta apenas ao bater inquieto do coração. 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Chernobyl, 35 anos

 


The Guardian

O "Vozes de Chernobyl", de Svetlana Alexievich, foi um dos livros que mais me custou ler. 

O Google devolve-me, como lembrete, imagens de há dois anos; andava eu pela Assembleia da República, e ela toda vestida de cravos. Fui revisitar as fotografias e, aproveitando o espírito saudosista, fui reler o que tinha escrito sobre o assunto e sobre o dia de ontem naquela altura. Transcrevo, porque ainda me revejo em tudo:

“Nunca deixo de me emocionar quando ouço o Hino Nacional; e acho que tem vindo a piorar. Não sei se porque estou mais velha ou mais piegas. Possivelmente, uma acumulação das duas. Sou uma cidadã do mundo algo reles, já que, ao contrário de outros que ouço às vezes, aquieta-me o regresso a Casa. Portugal tem inúmeros e desditosos vícios. Mas, também tem grandes virtudes. A maior de todas é a Liberdade que tomamos como garantida, inabalável, e que, há 45 anos, não existia. Como seria não poder ler o que queremos? Não poder falar sem medir as palavras? Não poder escrever, criticar, reflectir, discordar sem medo de ser perseguido, eventualmente, encarcerado? Não estarmos autorizados a pensar contra a corrente?

Não sou feita da mesma massa dessa gente que se levanta com ousadia desmedida e lúcida contra a opressão de regimes autoritários, sem medo de sofrer as consequências, empenhada em defender essa liberdade que se estende para lá do nosso conforto miudinho. É tão adequado e tranquilo vociferar contra tudo e contra todos, com razão ou sem ela, sem receio de desaparecer nas malhas do sistema político, perseguidos pela polícia, atirados para trás das grades pelo atrevimento de dizer "não". Por isso, sou grata aos que foram capazes de saber quem eram e, sobretudo, o que faziam exactamente ali, naquele 25 de Abril de 1974. É bom não esquecer.”

 

Há uns dias, o professor de Português do meu filho pediu aos alunos da turma que escrevessem uma história sobre o 25 de Abril. Mais ou menos. De preferência, uma história real; que perguntassem aos avôs, por exemplo. O meu filho pediu ao meu pai para lhe contar aquela história, como foi, afinal, quando o bisavô engoliu aquela folha de jornal, ou lá o que era, no dia em que a PIDE foi procurá-lo lá na fábrica?

O meu filho sabe a história de cor, porque já a ouviu dezenas de vezes. Mas, gosta de perguntar ao avô. Outra vez. E o meu pai gosta de lha contar. Eu gosto de os ver e ouvir, e lembrei-me disto a propósito do programa de ontem do Ricardo Araújo Pereira. 

Quando ouço gente reclamar sobre o clima ditatorial em que vivemos a pretexto da pandemia, não sei se ria se chore. Ou, então, os outros, os que anseiam por um novo Salazar. Embora reconheça que a liberdade de pensarmos contra-corrente ande bastante abalada, mas, também, muito à custa de confundir a liberdade de opinar com a liberdade de efabular. As duas estão muito bem, é preciso é não confundi-las.

Ontem, não acompanhei nada das celebrações do 25 de Abril. Ouvi falar do discurso do Presidente da República, de como tinha sido excelente, de como fora aplaudido por todas as bancadas menos uma, claro, uma aula de história, erudito, inteligente, um dos melhores discursos de Marcelo Rebelo de Sousa. Pois bem, fui ouvi-lo, ao fim do dia.

A minha relação com Marcelo-Presidente está mais ou menos ao nível daquelas relações conjugais desavindas, em que os cônjuges passam grande parte do tempo entre as zangas e o fazer as pazes, as últimas em tom cada vez mais morno e as primeiras cada vez mais azedas. Mas, quase sempre, o discurso do dia 25 de Abril é tempo de reconciliação. De modo que, sou suspeita para dizer que também eu gostei do discurso. Gosto quase sempre do discurso do dia 25 de Abril. O grande problema é que, provavelmente, não terá grandes consequências. Tudo o que ali se ouviu e se aplaudiu diluir-se-á rapidamente na inevitável chicana dos dias próximos, ainda antes de murcharem os belos cravos. E ouvir Rui Rio falar da disponibilidade que os partidos devem manifestar para fazer as reformas que o país precisa, invocar ambição e coragem, afirmar que o país está doente, ele, o homem do banho de ética que se deixou afogar numa aguinha de bidet infecta, é, no mínimo, deprimente. 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

 

Também Somos Livros

“Um livro é feito a partir de uma árvore. É um conjunto de partes planas e flexíveis (ainda chamadas “folhas”) impressas de rabiscos tingidos a negro. Um olhar rápido e ouvimos a voz de outra pessoa – talvez de alguém morto há milhares de anos. Através dos milénios, o autor fala, clara e silenciosamente, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas, cidadãos de distantes épocas, que nunca se conheceram. Os livros rompem as amarras do tempo, provam que o Homem é capaz de realizar magia.”

Carl Sagan


quinta-feira, 22 de abril de 2021

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Talvez o caso – por dizê-lo assim, desajeitadamente – George Floyd não mereça a exacerbada atenção mediática que se lhe tem prestado. Não pela vida arrancada de forma tão repelentemente leviana – uma vida é uma vida –, mas por todas as outras vidas esgotadas: umas que sucumbem sob a nossa ignorância, sem repulsa, outras de que apenas temos conhecimento de passagem, no tempo entre notícias de diferentes humores e que relevamos com distanciado desprezo. Como a morte de Ihor Homeniuk ou a morte da pequena Valentina. E falo apenas das desse género. Das impessoais. Outra expressão desastrada.

A comoção intensa, generalizada, não resulta apenas de uma onda, ou de uma moda ao melhor estilo USA – e, a mim, indispõem-me todos aqueles escândalos Oprah-like, tão enjoativamente americanos, os desgostos espiolhados em directo, as correntes e grupos de auto-ajuda e inter-ajuda, enfim, tudo o que mesmo remotamente se assemelhe a qualquer tipo de contrição, redenção e remissão em horário nobre e em modo streaming; mas isto sou eu, que nem gosto do António Zambujo, nem vejo o programa do Bruno Nogueira. 

A comoção, dizia, resulta também (talvez mais) da violência atroz das imagens. Do tempo e do modo. Da pose, da soberba, da frieza. Do fim, por fim. É o modus operandi das execuções e decapitações do Daesh, sem o aborrecimento do sangue. Muito branco e muito limpo. Não é bem, mas é o que me ocorre.

Fico, por isso, feliz (isto hoje está caótico, eu sei; mas não festejo) pela condenação de Derek Chauvin, como fico feliz pela condenação do pai e da madrasta da pequena Valentina. Lamento. Não pertenço ao grupo dos que oferecem facilmente a outra face. Procuro mais justiça do que vingança, e não sou de guardar rancores. Quando perdoo, perdoo e esqueço, embora haja coisas que não perdoo, mesmo que, eventualmente, venha a esquecê-las. Mas não sou capaz de jurar que não procuraria nunca uma vingança. Dependeria do crime. Por isso, em princípio, aprecio as regras do regime democrático. Se não por outra coisa, por funcionarem como uma baliza aos nossos piores instintos. Às vezes. Aos meus, pelo menos, já que não sou – nem pretendo – livre de pecado.

E tudo isto a propósito de justiça. Em particular, a propósito da nossa. Dos estilhaços, ainda, à volta da Operação Marquês e, também, das almas abnegadas que defendem a inocência de José Sócrates rasgando as vestes num arrebatamento salomónico, como se o homem tivesse sido arrastado pela lama por capricho, sem qualquer outro motivo que não a mais vil calúnia. Não me refiro aos que se resignam ao estatuto de inocente decorrente da aplicação da Lei. Aos que se escudam – e bem! – na garantia da Ordem e do Direito: se não foi possível provar qualquer acto ilícito – o que não é, ainda, o caso, note-se , absolva-se o animal, por mais feroz. Ponto. Não. Desse exercício, eu também sou capaz. Sei que não parece, mas tenho um lado perfeitamente racional. Não. Refiro-me aos fofinhos que acreditam mesmo (a sério, acreditam mesmo?) no piedoso amigo Santos Silva, na herança da mãe, no tio do almanaque e nas contas em papel pardo. Ou parvo. E no primo; não esquecer o primo. 

Chego a ter inveja dessa gente digníssima, de alma pura e incorrupta.

Não há justiça que sobreviva ao tempo que leva a fazer a nossa. A não fazer a nossa. Não é possível. E não é só uma questão de tempo; são todos os expedientes utilizados para ajuizar uma coisa e seu contrário, com base nas mesmíssimas linhas, muito para além da inevitável subjectividade de quem julga. E, apesar da repulsa que me causa a campanha montada contra o juiz Ivo Rosa – independentemente da competência ou incompetência que possa estar subjacente à sua decisão no caso do ex-primeiro-ministro e seus derivados – não há presunção de inocência que resista ao eterno arrastar de processos e prazos que, na prática, torna impossível qualquer acto de justiça. A não ser, obviamente, nos casos em que não se possa pagar os honorários adequados.

E veremos se é desta que criminalizamos o enriquecimento ilícito. Sem embustes. E veremos se isso serve para alguma coisa. Afinal, teremos sempre o Isaltino. 

terça-feira, 20 de abril de 2021

quinta-feira, 15 de abril de 2021

 


Cofres, Almanaques e, calhando, Unicórnios

Andei quatro anos obcecada (nem tanto) com a personagem que ocupou o cargo de Presidente dos EUA até há poucos meses e quase tinha esquecido que temos por cá uma criatura igualmente fascinante.

É preciso coragem para entrevistar José Sócrates. Se não por mais nada, por isso: honra seja feita a José Alberto Carvalho. Conseguiu manter a compostura, fez o que pôde para confrontar Sócrates com factos e, apesar de constantemente interrompido – como convém fazer quando sabemos que a nossa história tresanda e que insistir histericamente no isso não é verdade já passou um bocadinho das marcas –, fez muito bem em manter-se calado algumas das vezes. Entre a falta de educação de mandar calar um idiota e a crueldade de deixá-lo prosseguir, há, evidentemente (só que não), uma escolha difícil de se fazer. Com Sócrates, a crueldade justifica-se sempre.

Se não se desse o caso de estarmos perante um ex-primeiro-ministro do nosso esfrangalhado país, acho, até, que José Sócrates devia ser convidado a dar uma entrevista por dia, durante vários dias. É absolutamente espantoso o que ali se viu e ouviu. Houve um momento em que achei que o homem ia agarrar num lenço e começar a chorar, só para tornar tudo um nadinha mais dramático.

Alguém que escreva um livro. Outro livro.

Entretanto, já tentei – por três vezes – ouvir as tais três horas, mais coisa menos coisa, da leitura da decisão instrutória do juiz Ivo Rosa. Das três vezes, adormeci antes da meia hora. Mas juro que vou conseguir. Enquanto não, vou andando com a lupinha lá no pdf das quase sete mil páginas, à procura dos pontos quentes. 

E a ideia de criar e assinar uma petição para excomungar Ivo Rosa é absurda.

 


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Por estes dias, um dos meus dias amanheceu num arco-íris perfeito. Vi a luz separar-se numa cadência ordenada e breve, muito breve, firme como quem abre um leque. E, a seguir, riscar as nuvens a compasso, erguendo-se num arco perfeito. Exibiu-se, soberbo, por momentos; e, de repente, o feitiço desfez-se e o arco-íris apagou-se num soluço mudo, sem deixar rasto.

Durante todo esse dia, o meu céu transfigurou-se como uma tela viva, numa transmutação inquieta. Nuvens acinzentadas e baças como poças de água enlameada que o sol foi corando em tons pálidos de dourado e de magenta, até fazê-las carnudas, drapeadas e brancas como castelos de natas. Depois foi o vento. Soprando em lâminas finas, foi lapidando em farrapos translúcidos como a seda as nuvens antes gordas e gulosas. E o céu azul-cobalto, vestindo-se, assim, de véus vaporosos, foi desfalecendo com a tarde, em tons cada vez mais densos, mais e mais escurecidos, até anoitecerem uma noite sem estrelas.

Por estes dias, noutro dos meus dias, li um belíssimo poema sobre saudade (na verdade, acho que li dois poemas, ambos belíssimos, sobre saudade). Sobre a saudade também das coisas que não vivemos. Muitos dizem-no de Clarice Lispector, esse primeiro poema, mas não creio que seja seu. Não há poemas-poemas, na obra de Clarice Lispector. Não no sentido tradicional do termo, e esse belo poema que li parece ser uma obra abusada de um autor ainda vivo, vivo-vivo, no sentido tradicional do termo, apanhado na pressa da partilha virtual e descuidada, tantas vezes mentirosa. Mas, há momentos em que o Universo inteiro parece conspirar a nosso favor. Momentos em que a urgência do caos sossega por um instante tão fugaz como o primeiro relâmpago, e até a matéria de que se fazem os sonhos nos olha nos olhos. Eu não sonho. Se sonhasse, sonharia um sonho de saudade das coisas não vividas. Um pôr-do-sol por acontecer. Saudade de um abraço não dado, de um amor por fazer. De palavras não ditas, famintas, murmuradas ao ouvido em acordes mudos e lentos como mordiscos.

E, ontem como hoje, choveu uma chuva de gotas grossas. Numa cascata de trilhos abruptos, tão apressados e perfeitos – quem disse que não se pode? – que quase não tocavam os vidros da janela; despedaçavam-se contra o chão, entre baques curtos e húmidos, com cheiro a pedra, se sobre a pedra, e cheiro a terra, se sobre a terra. Um coro de notas desalinhadas, dedilhadas sem pressa sobre as teclas de um piano. 

Hoje como ontem chove uma chuva perfeita. 

sábado, 10 de abril de 2021

E Outros Assim

 





De Dias Assim

 

Ajustes de Contas



José Sócrates e a Operação Marquês acabadinha de implodir têm-me mais traumatizada do que supunha. Se me tivessem pedido para jurar teria jurado que Sócrates tinha sido preso dia 24 e não dia 21 de Novembro de 2014. A minha incapacidade crónica para prestar a atenção devida a datas importantes é um caso de psicanálise; que não pratico, mas se calhar devia. Em minha defesa, ou não, até para ditar a data de nascimento do meu filho preciso de uns segundos para fazer contas de cabeça: vá lá saber-se porquê, se não pensar, insisto em apontar 2008, quando o miúdo nasceu mesmo, mesmo a acabar 2006. O que vale é que ele já nem me liga, encolhe os ombros e revira-me os olhos; tenho sido capaz de educá-lo bem. De modo que, só para que conste, também disso José Sócrates foi falsamente acusado por mim, coitado, não foi nada preso no dia dos meus anos, afinal.

Entretanto, como se esperava, o juiz Ivo Rosa decidiu não levar José Sócrates a julgamento pelos crimes de corrupção de que o nosso ex-primeiro estava acusado. Não havia – nunca houve, e era sabido – as tais provas inabaláveis que sustentassem essas acusações. Havia a evidência de um nível de vida insuportável por rendimentos próprios conhecidos e a confissão descarada de um primeiro-ministro de Portugal usufruir, enquanto tal, de avultados e generosíssimos empréstimos do grande amigo Santos Silva. Quando o dinheiro não era do amigo, era da mãe, com quem o amigo também fazia negócios, e, insistindo meticulosamente na retórica da carochinha – coisa que se terá tornado mais suportável a partir do momento em que foi conhecido o nome do juiz de instrução –, seria apenas uma questão de tempo.

O meu lado emocional cospe as entranhas de indignação desmedida e vontade de me juntar ao coro dos que já decretaram a morte do tudo o que mexe e não mexe na Justiça e nos pilares do Estado de Direito. E, do pouco que ouvi – porque ainda vou ouvir as tais três horas, ou lá o que foi, da leitura da decisão instrutória: a coisa merece-o e, ontem, foi-me impossível – achei assombrosa a utilização de alguns termos, por parte do juiz Ivo Rosa, para classificar partes do despacho de acusação. Ou o Ministério Público é um antro de incompetência – e, mesmo assim, naquele contexto, dispensavam-se (alguns) adjectivos –, ou Ivo Rosa aproveitou a onda para mandar recados e ajustar contas antigas, o que é absolutamente espantoso.

Também acho admirável os que acusam de demagogos todos os que ousem suspeitar da conduta de Sócrates e companhia sem as tais provas irrefutáveis. “Toda a gente é inocente até prova em contrário”: é verdade; é vital; é inviolável, num Estado de Direito. E o tempo que a justiça demora a fazer-se, neste país, é um dos maiores atentados a esse Estado de Direito: os inocentes são, irremediavelmente, arrastados na lama, com a vida devassada e o nome mutilado para todo o sempre, e os culpados, na prática, nunca chegam bem a sê-lo porque os crimes de que são acusados, ora prescrevem, ora não há provas, ora há provas mas não são válidas, e, se nada do anterior se verifica, o culpado já terá falecido. Isto, claro, desde que o crime mereça o dinheiro que se gasta em advogados e recursos e adendas e etc. Dito isto, José Sócrates merecia um estado intermédio. Mesmo que Santos Silva fosse esse tal amigo abnegadíssimo, riquíssimo, generosíssimo, amorosíssimo, que há gente que jura a pés juntos que existe (eu não aceito nada dos meus amigos que não possa retribuir; mas isso sou eu, incivilizada), só com uma grande dose de ingenuidade é que se pode olhar para tudo aquilo com a candura do respeito pela presunção de inocência.

Ainda assim. Ainda assim, o juiz que José Sócrates tanto estima acusou-o de "venda de disponibilidade" e de "mercadejar com o ex-cargo de Primeiro-Ministro", e decidiu que Sócrates deve ser julgado por seis crimes, entre eles, três de branqueamento de capital. Afinal, o juiz Ivo Rosa também não acredita na teoria fofinha dos empréstimos…Quando acabar de o ouvir, talvez cá volte. 

E achei deplorável o espectáculo das motinhas em perseguição assanhada do ex-primeiro ministro a caminho do tribunal, só para que conste.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

"Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero."

Alice Vieira


Gostava de ouvir Jorge Coelho no “Quadratura do Círculo”. Depois, deixei de o ver na “Circulatura do Quadrado” porque me enervei com a nuance desastrada do título do novo (mais ou menos) programa e perdi a vontade. Caprichos. 

Há quem goste de o lembrar pelo “quem se mete com o PS leva”, ou lá como foi dito. Mas parece haver mais gente a lembrá-lo pelo “a culpa não pode morrer solteira”. Pertenço a esse grupo. Eram outros tempos, em que, não podendo evitar tragédias, ainda havia uma noção mínima de decência.

 


Ihor Homeniuk

Ainda acabamos a deixar provado que foi suicídio, afinal, a causa da morte de Ihor Homeniuk. Miserável, tudo isto.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Pior do que cometer um erro imbecil – acontece a todos – é insistir na imbecilidade do erro. Não sei bem se Francisco Louça apenas cometeu um erro imbecil, ou se agiu mesmo de má-fé. Vou admitir (ou vou fingir) que cometeu um erro. Imbecil. Porque, quando se ouve toda a intervenção da deputada Aline Beuvink – de quem eu nunca tinha ouvido falar até há uma semana – é impossível estabelecer o paralelo que Francisco Louça pretendeu no seu espaço de opinião na SIC. É, no mínimo, a descontextualização (às vezes, ela própria tão descontextualizada, coitada) mais abusiva e absurda que se pode fazer. Depois disso, responder assim ao texto de Henrique Monteiro e, por arrasto, a outras críticas de que foi alvo é espantoso. Há momentos da vida pública inacreditáveis.

A possibilidade de José Sócrates não ir a julgamento causa-me calafrios. Entre outras coisas, não lhe perdoo ter-se deixado apanhar num dia do meu aniversário. E outra coincidência infeliz a propósito do mesmo, que deixo para outro dia. Eventualmente.

Humores pessoais à parte, dita possibilidade parece bem real. Afinal, do que se sabe, não existem provas directas para nenhum dos três crimes de corrupção de que está acusado o nosso ex-primeiro, esse homem tão bafejado pela sorte que mete nervos. Só por isso, pela inveja. 

Sabendo da ambição – impoluta, de resto – do juiz Ivo Rosa por provas inabaláveis, aquela possibilidade assume quase forma física. E dói. Isso, e as mais de seis mil páginas que compõem o despacho mais esperado (desesperado, desesperante, e eteceteras e já sei que não é assim que se escreve) dos últimos tempos. Há-de haver motivos de força maior, justificadíssimos, para tanta página, mas é coisa que me ultrapassa. Mesmo sabendo dessa espécie de vocação jurídica – possivelmente, não só nossa – para comunicar em linguagem adequadamente blindada. Será por isso que facilmente se cruza a linha da (i)legalidade. “Facilmente”, salvo-seja, há que ter contactos e conta bancária adequados ao eficaz exercício da coisa.  

Entretanto, ainda não percebi se o doutor Júdice, à terça-feira, faz comentário político ou coscuvilhice de bairro; com perdão para os bairros, que os há sereníssimos. Não é caso único, honra lhe seja feita, e, se calhar, as duas coisas são indissociáveis e a sonsa sou eu.


 


Todos os dias, ao cair da tarde muito tarde, ao desligar do computador e das luzes do escritório, ao fechar da janela ampla por onde, ainda há pouco, o sol desenhava sombras no papel agarrando a minha mão como quem ensina a escrever, ouço a melodia aguda e clara do canto dos pássaros que nunca antes soube ali vizinhos. Não sei se a ausência prolongada de ruído que veio com a pandemia lhes modulou o canto ou me modulou a alma. Seja o que for, deixo-me ficar ali uns minutos. Encantada. E quieta; não vá qualquer movimento meu, desastradamente, fazê-los desaparecer outra vez. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Pensei que, com ordem governamental para o novo passo na nossa saída precária colectiva, iria a correr tomar um café de rua. Um café-café. Bem sei que já há algum tempo podia tomar um café desses, ao postigo, vertido naqueles miseráveis copos de plástico, ou de cartão, agora, que eu dispenso já desde os tempos da faculdade muito mais dados a essas pequenas-grandes loucuras de momento. Para lá disso, tenho também consciência de – aparentemente, pelo que leio e ouço  ser a única pessoa neste desterro moderno que se revelou incapaz de desencantar um prevaricador que fosse que se me juntasse nesse novo crime de tomar café em pecado, fora das minhas portas e dentro de portas alheias, nas traseiras manhosas de uma qualquer espelunca, com ou sem nome de código. O café, não necessariamente a espelunca. Mas, agora, finalmente, podemos tomar um café à luz do dia, nunca ao balcão, numa esplanada decente. Coisa que imaginei fazer-me tanta falta como o ar que respiro e, afinal, não. O que me torna duplamente desagradecida: sempre podia ter aproveitado o pretexto do café para melhorar a qualidade do ar que respiro libertando-me da máscara durante esse breve momento de prazer. Ainda não foi ontem. Hoje, talvez. Poder ficar sem máscara entre gente estranha e sem olhares reprovadores.

Tenho sido competentemente cumpridora das regras que nos mantêm sequestrados há mais de um ano, a sério que tenho. Mas acho ridículo o uso de máscara em regime de açaime, ao ar livre em espaços pouco movimentados. O facto de, aí, não estarmos legalmente obrigados a usar máscara (partindo do princípio da legalidade dessa obrigação fora daí, e eu parto do princípio de que sim; escrupulosamente) não impede olhares enjoados. E as tão estimadas bocas. Eu lido bastante mal com bocas mal-amanhadas. Daquelas cuspidas para o ar em tom beato (à distância mínima de segurança, isso sim) e insuportavelmente cobarde, porque nunca resistem a uma abordagem directa. 

Adiante. Falava do imenso prazer de me sentar outra vez numa esplanada e tomar um café-café demoradamente e que, atabalhoadamente, decidi desperdiçar. Tonta. É preciso aproveitar os próximos dias com a avidez da urgência. Ando há dias a ouvir as homilias dos principais pivots de televisão subir de tom, alternado entre o entusiasmo com o entusiasmo da vacinação e do cheiro a desconfinamento e a ameaça da subida do mal-fadado érre-tê que nos há-de encarcerar novamente. Ao chegar da terceira ou quarta vaga, ainda não percebi bem. Se a coisa descamba, voltamos ao cativeiro dos dias passados há quase nada. Portemo-nos bem, então.




segunda-feira, 5 de abril de 2021

Gosto de tulipas vermelhas. Mais do que gosto de rosas vermelhas, de que, na verdade, não gosto tanto assim. E, rosas, só se forem realmente vermelhas, enquanto as tulipas podem ser de qualquer outra cor. Mas prefiro as vermelhas. Ou, então, naquele tom beringela escuro e aveludado, no quase negro da noite, o negro do ciúme e da cobiça do romance de Dumas.

Gosto especialmente das tulipas que se colhem preservando o bolbo no final da delicada haste e enchem o fundo largo da jarra de vidro transparente que deixo em cima da mesa grande da sala.

Nunca deveriam ser arrancadas da terra, eu sei. Repousariam aí para sempre na sua imensa luxúria, enchendo os jardins de matizes exuberantes. Espoliadas do aroma ébrio das rosas, perfumam o ar pela opulência das cores. Uma vingança bela e ardilosa sobre os caprichos da Natureza.

São das minhas flores preferidas, as tulipas. Também gosto da simplicidade dos malmequeres. Brancos ou amarelo-vivo. E naquele tom soberbo de púrpura. 

Quando era miúda tinha um daqueles livrinhos inúteis, minúsculos, que nos guiava no significado das diferentes flores. Como se fosse preciso. Como se não bastasse olhá-las para perceber dos seus artifícios, assim sobrando qualquer necessidade de palavras. Às vezes, queria escrever sem palavras. Tudo dizer escrito, sem conjugações. Queria compor um poema no pó das estrelas, no pranto ofegante das ondas que se desfazem sobre as rochas. Trocar o murmúrio das palavras sussurradas no papel pelo crepitar rouco do vento gelado das terras altas, em cujas montanhas se empoleiram as nuvens, sobre o manto branco da neve com que se confundem. Ou, ao contrário, pela unissonância suave e morna do vento agora menos vento, menos frio, quase meigo, que mordisca sem pressa a pele do meu rosto. Queria pendurar letras nos raios dourados do Sol da Primavera, meu fiel aliado, como o de Outono, porque se compadece da minha pele demasiado pálida e demasiado sensível ao ardor do Sol de Verão, que não suporto. 

Queria fazer-me ouvir no vazio que sobra das entrelinhas; no silêncio precioso da ausência. Na melodia devassa de um extenso campo de tulipas.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O dia amanheceu menos amarelado. Parece que, finalmente, se extinguiram as poeiras do Norte de África. Durante os últimos dois ou três dias, ameaçaram engolir os céus como numa das pragas bíblicas do Egipto. Mas, hoje, no meu céu, o azul abriu caminho com bravura. Pelo dia fora, nuvens gordas, brancas como natas, foram varrendo as outras, sujas, com a resiliência abnegada dos justos. No final da tarde, restava apenas uma faixa estreita de dourado velho logo ali acima da linha do horizonte; a gola curta, delicada, de uma camisola de malha fina.

De resto, sou capaz de jurar que o portão da minha garagem se abre animado de vontade própria. Sem a intervenção de palavras mágicas ou de ondas conhecidas do espectro electromagnético. Sem intermediários. Por diversas vezes, tocando eu apenas no interruptor da luz, da outra, da inofensiva para o efeito, ouço-o gemer, em aviso, antecipando o movimento lento da subida que, por si só, decide empreender. E, não, grande parte das vezes, não vem ninguém do outro lado. Ninguém deste mundo, pelo menos, embora, por vezes, eu fique na expectativa de ver chegar alguém do outro. Uma sombra misteriosa, uma aragem gélida e repentina, um arrepio na pele, enfim, o resfolegar breve que fosse da luz das lâmpadas que pendem do tecto. Mas não. Um capricho da máquina, tão-somente.