(...)
"De repente, os cenários previstos em distopias literárias
tornaram-se plausíveis. A ficção adiantou-se. Que leitura faz?
Poderíamos
perguntar: porque é que não os imaginámos? Mas imaginámos. Até ao fim da Guerra
Fria, os Estados Unidos eram vistos como o líder do mundo livre, um farol da
democracia. E na Europa, quando publiquei “A História de uma Serva”, em 1985,
muitos europeus simplesmente não acreditaram, nem mesmo em Inglaterra, que
tinha vivido a sua própria ditadura religiosa no século XVII. Por mais
disparates que fossem fazer, este não seria um deles. Agora já sabemos o outro
disparate que fizeram. Foi o ‘Brexit’. Ao passo que os Estados Unidos nunca
tiveram uma guerra civil de natureza religiosa. Esquecemo-nos disso, porque se
diz que os Pilgrim Fathers procuravam liberdade religiosa; e é verdade, mas
apenas para si próprios. Não queriam que mais ninguém a tivesse. Não eram, de
forma alguma, tolerantes. Eram pessoas que enforcavam os quakers. É por
isso que tenho muito interesse neles. São os meus antepassados. Posso dizer
coisas más sobre eles, tenho permissão para isso, porque os compreendo. Essa
linha de pensamento sempre esteve presente na América e, de vez em quando,
volta à superfície. Tivemos um período assim no século XIX. Chamava-se o Grande
Despertar. É algo que vai e vem. O século XVIII remete para o Iluminismo,
seguido pela Revolução Francesa, pela qual tenho um grande interesse. Parece
que estamos a passar por um tempo semelhante de turbulência.
Como interpreta então este novo momento mundial de grande
impulso bélico?
Pense
no mundo como um tabuleiro de xadrez. Basta mover uma peça para que mude
relação entre todas as outras peças. Por exemplo, o Muro de Berlim cai. Eu
estava lá. E depois tudo se altera, porque o período em que tudo estava
congelado acabou e agora há movimento. Parece sempre vigorar a regra de que os
líderes de certos países tiram partido da fraqueza de outros. E querem poder.
Poder e ganância são a mesma coisa. Os Estados Unidos também pensaram assim e
as coisas mudaram dentro do país — já não temos de defender a liberdade, a
independência, etc. E começaram a lutar uns contra os outros. E é o que se vê
agora. Portanto, a nível interno, já não têm um inimigo comum.
Dedicou uma parte do seu trabalho a estas questões.
Contudo, começou pela poesia, à qual regressa sempre. É o seu lugar seguro?
Não,
não. A poesia é um lugar bastante perigoso. Acho que surge numa parte diferente
do cérebro. E que é algo muito, muito antigo na Humanidade, tão antigo quanto a
linguagem. Tem imensos usos: pode haver poemas religiosos, de guerra, de amor,
elogios fúnebres, odes. Pode haver poemas épicos, que contam histórias. Depende
da cultura em que se vive, do lugar que a poesia nela ocupa. Não tenho a
certeza do papel que desempenha na nossa, é algo bastante abstrato. Mas, em
funerais e casamentos, é mais provável que as pessoas citem poemas do que
longas passagens de tratados científicos. Trata-se, portanto, de uma utilização
emocional da língua, e é o contexto em que a língua é frequentemente alterada e
reformulada.
Continua a ser uma agnóstica rigorosa e praticante, como se
descreve no livro?
Sou
uma agnóstica convicta e praticante. E o que isso significa? Que aquilo que
sabemos, aquilo que é cognoscível, está aqui [na cabeça], e a crença está aqui
[no coração], e não são a mesma coisa. Quando as pessoas dizem que conhecem
Deus, isso não é conhecimento, é crença. O conhecimento pode ser testado e
comprovado. E quanto à crença, não vale a pena discutir com ela. É aquilo em
que a pessoa acredita. Faz parte da sua identidade, não se lhe pode dizer para
acreditar noutra coisa. Penso que o século XIX cometeu o erro de pensar que era
necessário submeter a crença religiosa a testes de conhecimento. Foram à
procura da Arca no cume do monte Ararat e coisas do género, e diziam que isso
provava tal e tal coisa, mas, na verdade, estavam apenas a falar de um sistema
de crenças. Todas as sociedades têm um sistema de crenças, ou vários, e nenhum
se equivale ao conhecimento. A ciência pode não ter nada a dizer sobre as
crenças religiosas, a não ser estudá-las. Não as
pode provar nem refutar."