quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Sócrates o que é de Sócrates

E se assim fosse não andaríamos nisto. 

Ninguém com o mínimo de inteligência acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.

Mas.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto, na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e, aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que, no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro: depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos e insuspeita de estados de alma.