E se assim fosse não andaríamos nisto.
Ninguém com o mínimo de inteligência
acreditará na história da carochinha do amigo Santos Silva. E do primo “muito
próximo e muito querido”. Não é preciso ter faro, sexto-sentido, grande
experiência empresarial, instinto fatal etc e tal para detectar o embuste: ninguém
no seu perfeito juízo deixaria outro alguém dispor imperialmente do seu
património e do seu dinheiro sem qualquer contrapartida. Por muito amigo, por
muito querido, por muito primo. Ou aquela gente é tolinha, ou toda a história
de José Sócrates acerca dos seus rendimentos, empréstimos, heranças, cofres
fortes e unicórnios é uma fabulosa patranha.
Mas.
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
O
Ministério Público não julga, não absolve, não profere sentenças. O Estado, por
nenhuma das suas instituições, pode violar o segredo de justiça – e depois
podemos discutir se o segredo de justiça serve mais à Justiça ou ao acusado. Portanto,
na sua imensa desfaçatez, José Sócrates tem razão neste ponto. Por mais absurdo
e irritante, porque José Sócrates anda há anos a tourear a justiça (e o país, nós todos, por arrasto) e,
aparentemente, não é possível contrariá-lo. Como é que se resolve, não sei. Se é
fado e só neste país, também não sei. Acho perfeitamente possível que,
no fim, se não falecermos no processo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ainda
venha a dar-lhe razão, e o culpado disto tudo não será tanto o antigo primeiro-ministro:
depois do estrondo que causou a sua detenção, prisão, acusação – já não sei bem
por que ordem –, o mínimo que se exigia era uma acusação blindada a amadorismos
e insuspeita de estados de alma.