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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

À deriva

Hoje há outro Conselho de Ministros extraordinário. “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”, e andamos mais ou menos assim, no tal mesmo barco sem saber bem aonde ir. Ainda assim, não gostaria de estar na pele de nenhum dos nossos decisores políticos. Nem um, e nutro pouca simpatia pela maioria.

Quem tem poder de decisão não sabe o que decidir e, entre os que sobram, parece não faltar gente sábia e inspirada. Se já não importará muito tentar perceber como chegámos até aqui, resta saber como iremos sair disto. Continuar a insistir na teoria do exagero e de uma espécie de promoção do pânico começa a parecer, mais do que absurdo, um insulto a todos os que se esforçam em nome do bem comum.

Não podemos ficar todos em casa e não vai ficar tudo bem. Como é que se faz a ponte entre uma coisa e  a outra para que não fique apenas e só um país em ruínas, não faço ideia. Mas não pode ser, como se já se percebeu (era assim tão pouco evidente?), deixando a escolha à solta. Para o bem e para o mal, elegemos governos. Mesmo quando abdicamos do direito e do dever de voto. 

É possível que a emergência do momento dite, novamente, o encerramento das escolas. Nesse caso, talvez fosse acertado suspender as aulas, pelo menos, para os alunos do ensino secundário. Mesmo. Presenciais e não presenciais, uma semana, duas semanas, e, nesse caso, prolongar pelo mesmo tempo o período seguinte, o final do ano lectivo, reajustar o calendário de exames. Seria outro coro de críticas, claro, mas há alguma medida que agrade a toda a gente? A não aquela de permitir o Natal e a Passagem de Ano, quero dizer?

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O que eu gostava de ter escrito...

 ...sobre a "sugestão" fofa e não autoritária de António Costa, se tivesse competência para tal, o que não é o caso, como facilmente percebe quem por aqui se perde.

Acho que não devia transcrever o artigo completo, mas, precisamente por serem poucos os que tropeçam nisto, muito menos, a Susana Peralta, abençoo-me, e a ela, pelo artigo. E perdoo-me, até ao próximo pecado.

"Esta semana, o Governo entrou oficialmente em derrapagem com a ideia de nos obrigar a andar com uma aplicação de rastreamento de contactos no telefone. Esta medida é inútil, quase de certeza. E é perigosa, de certeza. Vamos por partes.

Será que a aplicação serve para alguma coisa? Segundo a evidência disponível, estas soluções têm efeitos duvidosos no controlo da pandemia. É o que afirma o artigo Automated and partly automated contact tracing: a systematic review to inform the control of COVID-19, publicado em agosto no The Lancet Digital Health por uma equipa da University College of London, partindo da análise de cerca de 4000 estudos, baseados em modelos matemáticos e na experiência de epidemias causadas por vários vírus, como o MERS, o Ébola ou o SARS. Isobel Braithwaite, uma das autoras do estudo, disse ao Financial Times que estas aplicações não são uma “silver bullet” contra a covid-19.

Por um lado, estas aplicações só são efetivas com a adesão da quase totalidade da população. Por outro lado, não dispensam a contratação de muitas equipas de rastreadores de contactos, ou seja, profissionais que contactam as pessoas assinaladas pela aplicação como potenciais contágios. Para além da eficácia duvidosa, a aplicação levanta problemas de equidade. Nem toda a gente tem smartphones, nem todos os smartphones têm espaço, baterias que duram todo o dia, ou sistemas operativos compatíveis com este tipo de aplicações. As populações mais vulneráveis, como os idosos, os sem-abrigo, ou os mais pobres, são os que mais provavelmente ficam de fora. Até pode ser que estes estudos internacionais não se apliquem à StayAway Covid e que ela seja espetacular a vários níveis. Como já lá vão uns meses, o Governo podia começar por nos dizer quantas pessoas descarregaram a app, quantos contactos foram rastreados com sucesso, quanto tempo ganhou relativamente ao rastreio manual, quantos surtos detetou graças à dita. O mínimo que se exigia era alguma ideia da eficácia da política antes de passar à versão draconiana.

Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e do Conselho Nacional de Saúde, disse ontem ao PÚBLICO que a ideia da obrigatoriedade da aplicação é autoritária e estúpida. Como alternativa, “pode-se aumentar o número de comboios, de autocarros, negociar horários de trabalho diferenciados, deixar ficar em casa quem pode ficar em casa.” No capítulo de coisas que o Governo pode fazer, tenho outras ideias. Das várias medidas que foram sendo anunciadas para os lares, que são os locais onde morre mais gente, em que ponto da implementação estamos? E com que resultados? Quantos técnicos de rastreamento de contactos foram contratados? E mais: já que estamos tão digitais, podíamos ter um portal com dados regionais ou municipais da situação pandémica para nos ajudar a tomar decisões informadas? Como está a capacidade dos cuidados intensivos em cada região do país? Para além do número de casos, que perfil etário têm os infetados, quantos casos graves, quantos hospitalizados?

Tudo isto custa dinheiro e dá trabalho. Já forçar a utilização de uma aplicação é mostrar obra, mas à nossa custa. O mesmo acontece com a decisão de impor máscara todo o dia às crianças nas escolas, outra medida de eficácia duvidosa que não foi adotada em muitos países europeus. A alternativa, que custava dinheiro e dava trabalho, era ter contratado mais professoras e utilizado espaços públicos desocupados para dar espaço à escola e permitir que a comunidade educativa vivesse com mais qualidade.

Vamos à parte do perigo. Descarreguei do site da Comissão Nacional de Proteção de Dados a deliberação 2020/277, do dia 29 de junho, referente à StayAway Covid. Afinal, o sistema é uma iniciativa do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Ciência e Tecnologia e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. Esperava que o Governo fosse o dono da iniciativa ou, no mínimo, estivessem disponíveis as condições do caderno de encargos ao abrigo do qual delegou nestas duas instituições o desenvolvimento da aplicação. Incluindo, se não for pedir muito, quanto pagou pela aplicação. Para me obrigar a instalar uma aplicação que regista potenciais contactos que tive, esperava menos leviandade.

Leviandade, disse ela? Na melhor das hipóteses. Na pior, um cheirinho a autoritarismo que não tem lugar na nossa democracia liberal. António Costa disse ontem ao PÚBLICO que sentiu que “era preciso haver um abanão”. Acontece que em democracia são os eleitores que dão abanões aos políticos, e não o contrário. Mais tarde, confrontado por jornalistas com o eventual caráter autoritário desta medida, explicou em declarações à SIC Notícias que é igualmente autoritário ter bares encerrados. Podemos discutir se faz sentido ter os bares encerrados. Mas não podemos confundir autoritarismo com o exercício normal da autoridade democrática do Governo. Esta aplicação regista potenciais contactos que tive e a obrigatoriedade da dita dá poder a polícias para espreitarem o meu telefone. Encerrar bares não faz nada disto.

A cereja no topo do bolo foi quando António Costa disse que “teremos de ser tão menos autoritários quanto mais as pessoas voluntariamente aderirem todas”. Esta frase atropela duas vezes a minha liberdade individual. Subordina o meu livre arbítrio à ideia moralizadora do “bom comportamento” do grupo. E, numa perspetiva mais prática, deixa claro que o resultado final será sempre o mesmo: voluntariamente ou à força, a StayAway acabará no meu telefone. Valha-me o Parlamento."

Susana Peralta, Stay Away Covid: será que António Costa perdeu a noção?, PÚBLICO


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ainda sobre aquela coisa da honra...

 ... leio, de relance, que Luís Filipe Vieira retirou António Costa e Fernando Medina da sua lista de honra, aquela que abençoa a sua recandidatura à presidência do Benfica. Admitindo que nada disto foi combinado, e apenas comunicado aos visados, ainda assistiremos à canonização daquele primeiro. O que não é ministro. Magnífico. No que toca a honras, é digno de várias notas. Indigno é tudo o resto. 

Também ouvi, à ministra da Justiça, qualquer coisa sobre o direito à contradição íntima de cada um, o que me fez lembrar, vá lá saber-se porquê, aquela outra coisa do direito a lutar pela sua verdade

E ainda temos o inquérito que, afinal, não o era. Parece aquela coisa (mais uma...) da pescada, mas ao contrário.

Às vezes, é difícil conter o espanto. 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Tudo uma questão de (falta de) honra

 


Já comecei e apaguei não sei quantas vezes este texto. À data de hoje, não fica muito por dizer, mas sinto-me bastante enojada com tudo isto.

Ainda que Luís Filipe Vieira parecesse o mais impoluto dos portugueses em geral e dos presidentes e candidatos a presidente de um clube de futebol “dos grandes” em particular, mandava o mínimo de bom senso – deixando a decência de parte, que isso, já se sabe, está para lá de démodé – que, pelo menos, o primeiro-ministro de Portugal não chafurdasse na lama, menos ainda, com prazer. Mas, como todos sabemos – até porque já nos dito de várias formas diferentes – uma coisa é uma coisa, outra coisa são os clubes de futebol. E o futebol é aquele desporto onde tudo é permitido, não é?, o insulto higiénico, os meandros dos negócios para lá de bilionários, obscenos, e a complacência com os pecadilhos dos homens da bola, os mesmos pecadilhos que não se perdoa a mais ninguém.

Já tínhamos assistido ao caso Rui Moreira e FCP, que fez correr tinta assim-assim. Mas, sim, no caso de António Costa, a “falta de recato” é maior. É colossal. É daqueles actos dignos de países sabujos, onde abunda a promiscuidade e a corrupção entre todos os poderes instalados. E é, também, por isso que a culpa não é de António Costa; é de todos nós. Um país inteiro que se habituou a encolher os ombros, sem pedir responsabilidades, complacente com todas as formas de prostituição entre políticos-advogados-banca-futebol (é possível que me tenha escapado algum hífen): "são todos iguais", sem permitir a ninguém ser diferente. É o sistema. Menos mal, que temos o André Ventura para nos dizer que o futebol não se mistura com política. O resto, é tudo uma campanha para denegrir a imagem de uns quantos, os de sempre, porque, já se sabe, somos um país de invejosos e a Ana Gomes é uma populista histérica: se fossemos a acreditar em tudo o que diz, “teríamos de supor que todos os políticos, todos os advogados, todos os presidentes de clubes, todos os gestores e todos os empresários são trapaceiros”. E, no geral, não são, não é?, são só azares, coincidências do diabo, offshores fofinhas e coisas que tal.

Criam-se leis, decretos, despachos e um sem número de etceteras para prevenir – ou fingir que se pretende – todas as formas de abuso, e vemos tudo isso ruir ao mínimo aborrecimento. A lei não permite que um juiz desembargador jubilado acumule o que recebe no gozo desse estatuto com outra qualquer actividade remunerada, pública ou privada? Se o juiz entender que há casos em que pode, pode. É preciso pedir uma autorização para tais casos ao Conselho Superior da Magistratura? Pois, parece que sim. E se não se pedir, qual é o castigo? Qual castigo, então não se sabe que se há coisa que as nossas elites todas sabem fazer muito bem é separar coisas, nomeadamente, o pessoal e o privado, compatível do incompatível, o certo do errado e, por maioria de razão, o futebol e a política?

Há tanta coisa mais para acrescentar aqui, exemplos gritantes de como são poucos os que que têm noção de dever e serviço público, que encheria páginas e páginas de links e notícias indecentes. Transversais a todos os governos desde há décadas. É esta a nossa miséria. Ladra-se alternadamente, consoante mudam as cadeiras. Os que se sentem arrogantemente impunes, sentem-no porque, de facto, o são. Sobraria a honra. Mas, qual honra?

 

terça-feira, 21 de julho de 2020

O mundo é um ovo (não me ocorreu nada melhor...)

Como não se esperava até à ideia peregrina de Rio, terminam os debates quinzenais com a presença do primeiro-ministro no Parlamento. A sugestão de Rui Rio – e, por arrasto, manso, do PSD – foi aceite pelo PS, imagino que, com prazer, imenso alívio e, eventualmente, uma nota de agradecimento que não pôde, ainda, ser emitida. Por recato. Talvez chegue com um cargo menos fastidioso, por medida. Como a promoção de Portas a vice-primeiro-ministro, que foi quem se lembrou (ainda não nessa qualidade) primeiramente das tais invenções estúpidas, corria o tempo de Sócrates. Ele há coisas, como diriam outros…

Não sei se Rui Rio conta com a chegada ao cargo de primeiro-ministro um dia qualquer sem nevoeiro e pretendeu não deixar para essa altura o que podia fazer hoje. A disciplina alemã a plantar frutos. Certo é que Rio nunca escondeu a maçada que é o não-trabalho parlamentar, de modo que, assunto arrumado. Deixem o primeiro-ministro trabalhar. Calha bem, porque vão chegar (não vão?) os tais milhões de Bruxelas e convém, desta vez, aplicar bem o dinheiro, isto é (não é?) tornar Portugal mais rico, não apenas cuidar do enriquecimento dos do costume.

Não sei se – a juntar à supervisão dos frugais – não devíamos criar assim uma espécie de comissão extra do povo, que se encarregasse de conter excessos, para lá do vinho e das mulheres. Parece que é também para isso que escolhemos os nossos representantes, mas não se tem notado muito. Precisamos de pares acção-reacção mais anónimos, mais enérgicos, mais eficazes. Dizem que os temos como os merecemos, os representantes, mas não creio. Temos gente bem melhor do que a presumida (duplamente literal) elite que é suposto governar-nos. A não ser assim, há muito que Portugal teria ruído como um castelo de cartas. Como outros impérios. Como se tem visto. E não se via antes, de modo que, haja alguma esperança.

Li que António Costa terá dito que "As novas gerações em Portugal nunca nos perdoariam se desperdiçássemos a oportunidade que agora temos à nossa frente" e ouvi, de raspão, o Presidente da República referir-se ao "envelope" que caberá a Portugal em ajuda comunitária como a nossa maior oportunidade, ou qualquer coisa assim. Se não exactamente assim, era este o sentido. Queria muito acreditar nos dois, mas, para dançar este tango, serão precisos mais e nem mesmo aqueles são bailarinos exímios para a coreografia que nos (des)espera.

Entretanto, ganhou forma um “supertravão de emergência” que há-de permitir a um país questionar outro país sobre a forma como anda a gastar o dinheiro do plano que nos há-de salvar a todos. A uns mais do que a outros. Em caso de divergência com a Comissão - que é quem avalia as reformas e investimento e aprova desembolso de verbas - "o assunto pode ser submetido ao Conselho Europeu" pelo país queixoso e a Comissão fica impedida de aprovar pagamentos "até que o Conselho Europeu seguinte tenha discutido exaustivamente o assunto". Um processo que não pode demorar mais do que três meses”. Tendo em conta quem se sabe ser os uns e os outros, a coisa não se avizinha nada fácil.


E, por falar em coisas importantes, parece que chegou outro pacote de ajuda à economia portuguesa. Jorge Jesus aterrou em Tires, num voo privado, na companhia de Luís Filipe Vieira que o foi buscar com o mesmo alarido com que o despachou há cinco anos, ou lá o que é, que percebo pouco de futebol. Ainda menos do que percebo do resto. E, mesmo assim, sou menina para desconfiar do que diriam os comentadeiros desportivos deste país, nos seus programas dia sim e no outro também, se fosse um treinador - português ou não - a fazer ao Benfica o que Jesus fez ao Flamengo. 


domingo, 17 de maio de 2020

Ana Gomes


Acaba de largar uma bomba. Outra. Goste-se ou não do estilo, Ana Gomes já provou do que é capaz. 
É uma boa notícia para a democracia e, possivelmente, uma dor de cabeça para António Costa. É bem provável que o país precise de ambas.
Além disso, vai ser muito interessante ouvir que causas destapará Júdice, que loucuras congeminará até terça-feira, agora que se converteu numa espécie de entertainer com laivos de aristocrata, da SicNotícias. Já ali ensaiou a rábula da Ana e do André, entre gémeos e siameses, agastado com as críticas da mulher malcriada e perigosa para a democracia, na sua doutíssima opinião. Em elegância, já viu melhores dias. E não sei por que razão me terei lembrado disto.