Éric
Sadin faz-me lembrar Robert Carlyle como Rumpelstiltskin na série Era uma
Vez. Outro daqueles delírios do meu subconsciente.
Toda a
magia vem com um preço, e a supremacia tecnológica também. Pagamos (e
continuaremos) um elevado preço pelos seus extraordinários avanços,
nomeadamente, no campo da inteligência artificial, cujas implicações nem chego
bem a compreender. Um atalho da criatividade, do pensamento, da vivência, que
nos empurra para um entorpecimento generalizado. Delegar o esforço de pensar,
de criar, de errar, abdicando, de cada vez, de um pouco mais de nós. O
caminho que conduz ao deserto de nós próprios.
Alicia
Framis casou-se com um holograma. Fisicamente, Alex é uma mistura de três
ex-namorados de Alícia, intelectualmente, uma compilação de qualidades e
defeitos dos próprios e “muitos PDF de filósofos”, e um deles emprestou a voz, para
que, depois de morto, as suas filhas possam continuar a ouvi-lo. Não sei por
que não me comove. No Japão, Yurina Noguchi criou uma personagem no ChatGPT e
também casou com ela. Com ele. Lune Klaus Verdure, uma versão (mais) limpa de
outra personagem de um videojogo. Procurar conforto, eliminar o risco. Ou não. Há
os casos dramáticos de adolescentes que se suicidaram depois de interacções
romantizadas e sexualizadas com chatbots. Não é bem o mesmo que a
televisão a cores, obviamente não passámos por nada semelhante a isto. A IA
propõe-se substituir o julgamento e o julgamento é o lugar que habitamos, o
lugar onde somos nós, se quisermos ser mais do que espectadores, administradores,
executores de uma ordem virtual una até à completa obsolescência. Ainda é arte a
arte instantânea gerada pela precisão imaculada de um prompt? Ainda é
escritor o escritor que apenas gere uma fonte inesgotável de modelos de
linguagem? O que define um autor é o produto acabado ou o processo de produzir,
na suas múltiplas imperfeições e atritos? Evito ao máximo ceder a essa forma de
mimetismo estéril; cultivo – conscientemente, obstinadamente – um certo
analfabetismo digital que me livre do vazio higiénico da perfeição, na ilusão
de permanecer à margem dessa ameaça silenciosa à integridade do meu eu. Um
esforço inútil, porque o polvo tecnológico avança a uma velocidade furiosa,
predadora, permitindo uma capitulação sem estrondo. Consentida. Não sei se a IA tresanda
a morte, mas há qualquer coisa de contagioso naquela multiplicação inebriante de
possibilidades, na facilidade com que nos permitimos desistir.