Demorei
séculos a chegar à capa de Lolita desenhada por Jamie Keenan, e mais ainda para
ver o que dizem que ali se vê: a sério que não é apenas o canto cimeiro de
quarto com um tecto branco? Mesmo depois de mo mostrarem – foi quase preciso um
desenho sobre o desenho –, se pestanejar, continua a parecer-me o canto de um
quarto, e continuaria, nessa clautrofóbica banalidade, a ser uma bela capa. Há quem
garanta, que, tendo em conta o livro, é impossível ver ali outra coisa que não
as pernas e as cuecas de uma Lolita, por isso devo ser eu, ingénua, ou bruta ou
insensível a uma certa forma de arte. O mesmo não digo do livro, de Navokov, da
arte de escrever rente ao abismo, o escândalo maior do escritor que torna o
leitor cúmplice da sua vertigem pela mestria da palavra escrita. Lolita
é magnífico porque Nabokov tornou possível lê-lo sem a ilusão arquitectónica do
quarto que não é um quarto. Não há beleza na perversidade de Humbert Humbert, é
o génio de Navokov que permite sucumbir.