Gosto quando acordo antes do despertador. Sob o chilrear dos pássaros. No início da Primavera são sempre os pássaros, não recordo ouvir as gaivotas, que detesto. Dão boas fotografias e é só. Detesto-as.
Gosto de ouvir os pássaros de olhos
fechados. Fico quieta, a saborear o mundo que não se rebelou ainda. O peso
certo dos lençóis, o meu corpo que ainda pertence à noite, ainda não é de ninguém. O
mundo antes do alarme. Parece-me impossível a insanidade que fervilha lá fora,
as guerras, o fanatismo, uma crueldade fétida e tão antiga, tão antiga,
absurda.
Gosto
de acordar sem pressa, adiar o inevitável, um pouco apenas, o privilégio de habitar
o momento, uma fuga breve, o pouco que basta para me suster antes que o dia me
tome sem pedir licença.