Não
recordo quando aqui apareceu uma primeira visita de Tuvalu, mas sei que fui
pesquisar, porque nunca tinha ouvido falar. Depois, como parece acontecer sempre por um
capricho qualquer do acaso – esse algoritmo primário –, não tardei a esbarrar numa
notícia sobre a extraordinária ilha Funafuti, a mais populosa do arquipélago sitiado
pelas águas do Pacífico, uma língua absurdamente estreita de casas e árvores
serpenteando a superfície da água e sob a sua ameaça permanente. Já tinha
ouvido, no entanto, falar de migrantes climáticos, não sob esta designação
ainda, quando, há vinte e qualquer coisa de anos, visitei as Maldivas e ali me mostraram
as fotografias do avanço do mar e me falaram de um plano de evacuação, mais ou menos, para a Austrália. Na altura, parecia-me uma extravagância, sobretudo porque se falava de um
futuro muito próximo. O apocalipse climático está iminente há décadas, é sabido, mas eu
pertenço ao grupo de gente que, não sendo propriamente paranóica, crê na nossa quota-parte
de culpa.
Enfim, já há "migrantes climáticos" na Austrália, mas vindos de Tuvalu. Eu, que não sei se seria capaz de viver longe do mar, sei que seria incapaz de viver numa ilha, mais ainda daquelas dimensões. Ou se calhar não sei. Se tivesse lá nascido, o meu cordão umbilical cortado em dois, um pedaço plantado e o outro atirado ao mar, talvez reconsiderasse. Quando me reformar, imagino-me a viver num lugar remoto, apagado do mapa, uma vila perdida no coração de Itália, talvez; outras vezes penso no verde limpo das ilhas Faroe, nos dias lânguidos debruçados sobre penhascos basálticos, para logo sentir a angústia daquela ausência de um ponto de fuga, o horizonte crescente, voraz, cerceando a minha soberania.
Um predador paciente,
o mar.