segunda-feira, 27 de abril de 2026

Atentados

A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune, fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos, que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight, fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática, mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento, absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –, sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço obcecada com isto, e devo estar.

Fui ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.  

Os filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético da Terra, acho impressionante.

Caçámo-las, comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.