A par do grotesco, há qualquer coisa de admirável na personagem Donald Trump; precisamente porque acho desprezável e desprezível tudo o que aquele homem
representa, acho também extraordinário que consiga sair, mais do que impune,
fortalecido a cada nova polémica, a cada nova contrariedade. Cada crise
acrescenta combustível a uma performance política assente na adrenalina do caos,
que Trump explora como ninguém. Acredito naquela primeira tentativa de
assassinato. A forma como Trump se ergue depois, punho no ar, fight, fight,
fight, parece-me límpida, genuína, não creio que pudesse ser ensaiada de
forma tão perfeita. Resulta, obviamente, da sua implacável intuição mediática,
mas, se tivesse de apostar, não foi ensaiada. É a minha leitura daquele exacto momento,
absolutamente ignorante dos meandros da coisa; vale o que vale. Já as duas
últimas tentativas de assassinato – a de ontem particularmente –,
sinto-me tentada a embarcar numa qualquer teoria da conspiração. Pode ter sido
uma enorme encenação, ou apenas o sensacional aproveitamento de mais um
tiroteio nos EUA, mais um tarado que, neste caso, tivesse, de facto, como alvo
o presidente americano. O hoje é tão absurdo que todos os delírios parecem
aceitáveis. Há um cansaço epistémico. Se resulta mais do talento único de Trump
transformar o caos em força ou do deslaçamento social que o torna possível, não
sei. A América ser a América – a do Norte, quero dizer – não será irrelevante. Pareço
obcecada com isto, e devo estar.
Fui
ler sobre tartarugas verdes para me redimir. Nadam mais de dois mil quilómetros para
desovar no mesmo local onde nasceram (aquele título é erróneo). Seis semanas em
oceano aberto, sem comer, e dizem que choram quando chegam à praia para
limpar a areia dos olhos: não por medo e tristeza, como pensaram, durante
séculos, os marinheiros; não sei se estariam errados.
Os
filhotes nascem às dezenas, brotam da areia e dirigem-se instintivamente
para o mar. Nesse pequeno percurso “constroem” sabe-se lá como uma memória do
campo magnético da Terra que, mais tarde, guiará as fêmeas de regresso àquela
praia. Até eu, que percebo qualquer coisa do campo magnético
da Terra, acho impressionante.
Caçámo-las,
comemo-las, estiveram à beira da extinção, mas salvámo-las. Também somos capazes do Bem.