sexta-feira, 17 de abril de 2026


Sobre o ruído da rua – as vozes, o tráfego, o gorgolejar das gaivotas –, sobe o som de um trombone. Capilar. Uma cadência grave de notas soltas como num ensaio. Nem sei bem se é um trombone. Parece-me. E vem do prédio ao lado, não do de frente, onde, nos dias de confinamento, se tocava saxofone e que nunca mais ouvi. Como nunca mais ouvi o casal de cantores de ópera, à varanda. Era um tempo de desgraça partilhada, menos infame, apesar de tudo.

Não ouvi os comentários da Cristina Ferreira – tem, sobre mim, o mesmo efeito que a harmónica do amolador sobre o meu cão, aos sábados de manhã: apetece-me ganir e fugir para longe. Mas li, e não sei bem em que contexto aquilo não é imundo de se dizer.

A violência sobre as mulheres, nomeadamente, o abuso sexual e a violação, continua a ser encarada por muitos e muitas como a natureza animal deles e a leviana imprudência delas. É também assim, muitas vezes, inacreditavelmente, pelas próprias vítimas, ou potenciais vítimas, miúdas que acham normal e aceitável que os namorados controlem o que vestem, o que dizem, com quem saem, quando saem e se não com eles.

Enfim. Está um fim de tarde lindo, luminoso, as árvores verdes verdes à entrada da avenida, esquinas douradas por onde vão tombando sombras esquivas, claras; a Natureza estanque, sempre alheia às nossas misérias.