Discutem com uma tensão sexual palpável. O mundo
subitamente reduzido àquela distância absurda do debate. As palavras saem
afiadas, peremptórias, construindo sistemas e teias abstractas do dever e do
colectivo, do futuro, mas o verbo tem o advir da carne. Há contrapontos, impecáveis
premissas que pulsam na linha branca do pescoço dela, na boca, no declive do
colo. O corpo desmentindo a lógica. A inteligência é um órgão táctil. Adiam o
abismo no gume afiado da palavra. Nenhum sobressalto da História será maior ou
mais devastador do que esse silêncio ébrio quando se esgotarem os argumentos. Deformar-se-á
a distância, todos os silogismos estilhaçados na antecipação do gesto, um rio
que corre sem leito nem ordem, teorema de linhas mudas, a noite sem margens que
me enche de ti.