Já ninguém se perde na Medina de Fez. Não literalmente. Não como há vinte anos,
trinta anos, quando era impossível emergir daquela malha larvar sem ajuda de
um guia local. Agora, há toda uma constelação de pequenas placas sobre as ruas
estreitas, cores diferentes para itinerários diferentes, novelos de linha guiando-nos
pelas entranhas do labirinto. Ou assim era da última vez que lá estive. Os rapazes
desocupados limitam-se a observar, encostados às paredes, à conversa,
partilhando o que resta de um desses cigarros vendidos avulso. Parte da
identidade de Fez diluiu-se nessa brandura. Se fosse uma pergunta de sim ou
não, talvez eu preferisse esta versão: Fez já é suficientemente sufocante sem a
pressão constante dos guias. Mas, na minha primeira vez, foi por causa
de um deles que pude visitar a Medina à noite, encerrada nas suas portadas, majestosa,
o eco vidrado dos cascos de um cavalo montado quebrando o silêncio arqueado das
ruas.
Fez
é uma das minhas cidades. Como Roma, e já deixei de tentar perceber como mo permito,
tão avessa ao assédio da mole urbana. Talvez se acreditasse em vidas passadas.
Saudades sem rosto. Uma luz impossível a uma hora impossível. O cheiro que sobra
na pele. O latejar surdo de uma rua, um telhado, o rumorejar anguloso de uma
língua antiga. E nessa geografia perdida encontrar uma memória, um nome, um
corpo.
Também
tenho saudades de ti.