É quase poético, mas já chegava. Mesmo para quem gosta da chuva, como eu.
László
Polgár teve três filhas. Convencido de que o génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração, resolveu educá-las em casa e fazer delas exímias jogadoras
de xadrez. Poderia ter escolhido outra coisa qualquer, mas a família era muito
pobre e um tabuleiro de xadrez era tangível e barato. Chamaram-no pai tirano. Desde
muito pequenas e durante várias horas por dia, Susana, Sofia e Judit estudaram
as regras, as tácticas; competiram, ganharam e desafiaram estereótipos. Judit
era a do 1%. Tornou-se, entre homens e mulheres, a mais jovem grã-mestre internacional,
batendo Bobby Fischer, que achava as mulheres, todas as mulheres, pouco
inteligentes para o jogo de xadrez; sobreviveu à batota infame de Garry Kasparov
em Linares, acabando por vencê-lo 14 jogos depois desse, em 2002. Kasparov
também participa no documentário da Netflix, finalmente rendido à mestria de Judit
– “ela provou que uma jogadora feminina pode ser uma concorrente de topo” –, que
vai narrando a sua história com uma alegria serena e contagiante. Apenas no
final do documentário, Judit Polgár surge um pouco perturbada ao tentar racionalizar
sobre a experiência de que foi objecto, juntamente com as irmãs, por parte do
pai, empenhado em criar três génios, quase por acaso, do xadrez.
Vi tudo isto, para entreter a espera, antes dos resultados eleitorais, em que António José Seguro, longe de ser um génio, foi capaz de um retumbante xeque-mate. Escolhi-o conscientemente e desejo-lhe sorte. Precisamos de um pouco de paz no discurso político. André Ventura e o seu séquito de apóstolos histéricos, alimentado ad nauseam por uma comunicação social medíocre, continuará incansável na sua senda viciosa, mas, de momento, terá de engolir a soberba. Quanto à novidade de Cotrim Figueiredo comentador, não é novidade nenhuma: é ouvir com atenção a sua entrevista à SIC Notícias, quando lá foi apresentar o tal movimento 2031: – imagina-se a fazer o quê, comentador televisivo, como Luís Marques Mendes?; – não, a menos que me estejam a oferecer o spot de Domingo à noite, que ficou livre… Não sei se o comentário será aos Domingos, mas era só fazer contas. Pelos dedos.
Os
iranianos estão a enterrar os seus mortos entre danças e música pop. Choram os
familiares abatidos às ordens do líder supremo Ali Khamenei celebrando e homenageando a vida, não a morte, numa manifestação de resistência continuada e rebeldia, depois de pagarem, em muitos casos,
pequenas fortunas para resgatar os corpos. Desafiam a lógica perversa do poder
teocrático daquele regime brutalmente destrutivo; rejeitam, com uma coragem que
ultrapassa o heroísmo, transcendental, uma moralidade castradora que instiga o
medo e exige a submissão dos cordeiros, de Deus nenhum. Gente brava – ou louca,
às vezes, não se distingue bem – para quem a sobrevivência é do domínio da metafísica;
o corpo é a expressão primeira e última do território de liberdade. Impossível não admirar. Não sei se
seria capaz…
Por
motivos que não vêm ao caso, apenas no Sábado comecei a ver as imagens da
destruição que a depressão Kristin provocou em Leiria. É desolador. Desde aqui,
onde o temporal não fez, desta vez, grandes estragos, parece outro país.
Os
ministros Maria Lúcia Amaral e Leitão Amaro são, no mínimo, dois imprestáveis, quanto
a isso, não há a menor dúvida, mas a falência do país e do Estado é mais profunda e
transversal. Não há prevenção, previsão, preparação, mas também não há certezas
de que outro governo faria melhor gestão. Pedrogão Grande foi a desgraça que se
sabe. O que nunca falha é a solidariedade do tal povo de quem os políticos falam
tantas vezes e com tanta soberba e abuso; vizinhos, amigos e desconhecidos, que
se desdobram em boa vontade e entreajuda, com urgência e sem lamentações.
Diogo
Pacheco de Amorim deu uma entrevista ao Observador e, segundo li, afirmou não
ter dúvidas de que o Chega substituirá o PSD depois destas eleições
presidenciais. É espantoso pensar que pode ter razão, e pode ter razão. Por
algum motivo ininteligível para mim, há mesmo quem veja no Chega uma
alternativa competente para guiar os destinos do país; talvez porque o nível de
mediocridade de alguns ministros desta AD é tão confrangedoramente evidente que
permite, a uns sonhar, a outros desbaratar.
Sempre
que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou
invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas,
com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em
tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda
assim, era irreal; surreal.
A
colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George
Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O
documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do
presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e
exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu
tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a
compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada
dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não
invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como
Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um
tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico
dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação.
A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores
ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à
expressão pura de liberdade.
Prestar
vassalagem.
Rebanhos
são os outros.
Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo – são quase duas horas de filme – por recompensado.
Dizem
que Donald Trump está senil. Não faço ideia. Para mim, é apenas um traste, com
todos os apensos: narcisista patológico, ridiculamente vingativo, doentiamente
invejoso, quase psicopata e, não acumulasse com uma cobardia soez,
perfeitamente capaz de arrancar a cabeça a alguém por puro prazer. Senil estava (ou está) Joe Biden de uma forma,
simultaneamente, mais evidente e mais moderada; talvez a senilidade seja menos compassiva com os mais canalhas. Podíamos pensar que os EUA estão há cinco
anos, pelo menos, a mando de dois perturbados mentais, mas, provavelmente, erraríamos
por defeito. E eu simpatizo com Biden.
Não devia, mas espanta-me que quem se diz democrata possa apoiar tão fervorosamente alguém como Donald Trump; ou, a propósito, alguém como André Ventura, com as devidas distâncias, porque até para ser traste se impõem certos pergaminhos que, por muito que ensaie e tente, Ventura não tem. Quase percebo melhor quem presta reverência ao presidente dos EUA: se a ideia é corromper, subverter a ordem vigente, prefira-se o original. Mas não se digam democratas. Também não sinto a minha democracia particularmente violentada pelo facto de Luís Montenegro recusar dizer se apoia ou não a candidatura de José Seguro a Presidente desta despedaçada República: o que seria, além de tudo o resto, andar mais duas ou três semanas a ouvir o líder espiritual do Chega a vangloriar-se de ter o país inteiro ou quase contra si, na pessoa do primeiro-ministro. Dispenso. Para mim a escolha é muito fácil: se é de nojo que se trata, o socialismo de José Seguro enoja-me menos.
Neste
momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos
à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato,
O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do
Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem
um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é
descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais,
adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor
resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do
rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à
noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é
seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o
eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de
navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana
Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se
sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.