Acordei com isto. De certeza que por causa de uma conversa que tive ontem, com que provavelmente sonhei, mas, como sempre, não me lembro...
outradecoisanenhuma
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
domingo, 18 de outubro de 2026
Se, por cada nova má adaptação televisiva ou
cinematográfica de um grande clássico, o número de vendas desse clássico aumentar
substancialmente, deixem em paz a imperícia ou o humor dos realizadores. Já disse o que penso (como se interessasse muito, mas o blogue é meu) d’O
Monte dos Vendavais de Emerald Fennell e d’A Odisseia de Christopher
Nolan; falta-me falar de A Leste do Paraíso de Zoe Kazan: gosto dos cenários,
do guarda-roupa, da fabulosa Florence Pugh. Espanta-me que tanta gente se
irrite com a suposta humanização de Cathy Ames; de como essa escolha de Zoe
Kazan terá corrompido a Cathy de Steinbeck: se era desnecessário (e era, e
talvez até desvirtue o nervo do romance de Steinbeck) embalar a maldade em álibis
de abuso para justificar o que há-de vir, a verdade é que, a dada altura,
ninguém (posso ser só eu) se lembra da suposta vítima: Cathy continua a ser
maquiavélica, manipuladora, amaternal. Sem Florence Pugh, o resto não é
tão extraordinário, mas vi tudo de um trago. E também comprei novas edições de A
Odisseia e A Leste do Paraíso. Eu e a minha irmã temos de dividir a
biblioteca dos meus pais – que foi nossa também durante tantos e tão bons anos –
e fazemo-lo de tempos a tempos, quando eles permitem, pela lei de Salomão. Rimos,
recuperamos memórias e eu lembro sempre à minha irmã que não lhe perdoo ter
emprestado a não sei quem que nunca mais devolveu os meus Versículos Satânicos acabados de sair. E rimos mais. Comprei outro exemplar e foi quando jurei que não voltava a
emprestar nenhum dos meus livros, até porque tenho o hábito de encher as margens de notas
e pensamentos que não quero perdidos por aí.
Não interessa nada. São só momentos que me salvam da insalubridade
dos dias. No final, não passo de uma estatística. Benigna, na maioria das vezes.
Não ontem. Ontem mostraram-me o vídeo do tal activista na manifestação no
Porto e tive o meu momento e se fosses para a tua terra, ameaçar com
tijolos outro imbecil qualquer? Não disse, mas pensei. Maldosamente. E, se
calhar, a terra dele é esta, onde as gentes se manifestam com alguma ordem, por
enquanto, embora haja outra gente a babar pelo primeiro grande distúrbio. À grande
e à francesa, com caixotes do lixo a arder, montras partidas, carros e lojas
vandalizados, edifícios históricos destruídos, apelos à desobediência e à
guerra civil. Não há revolução sem violência – o nosso 25 de Abril foi quase,
sabe-se lá porquê, ou por isso de sermos mansos –, mas o que se desenha no
horizonte destes dias é uma intenção deliberada de subversão; conflagração.
França, sobretudo França, mas os rastilhos acendem-se em todos os portos
seguros. Instalou-se um clima de conflitualidade autofágica, que passou da
sociedade civil para a política, ou da política para a sociedade civil, um (des)equilíbrio
dinâmico baseado no poder do mais forte, sem espaço para um caminho comum –
pelo contrário, qualquer pressuposto de entendimento é uma forma de
capitulação.
Ocupo-me dos meus livros para descansar do mundo.
sábado, 17 de outubro de 2026
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Miguel Serras Pereira
"A sua poesia tem essa característica muito vincada, a da composição musical. O som das palavras é muito forte nos seus poemas. Ouvem-se como notas, timbres, ritmos. Quando lemos, não conseguimos fazer outra coisa ou pensar noutra coisa, porque estamos a ouvir as palavras e elas prendem-nos a atenção.
Isso que está a dizer é muito verdade até para os romances. Não conseguimos fazer mais nada porque há ali uma voz, um ritmo, um timbre, que é o que torna uma voz inconfundível. Nós todos dizemos os mesmos sons, mas com timbres diferentes.
Assusta-o de alguma forma o futuro da leitura?
Assusta-me bastante. Os resumos, as sinopses, as cópias,
os plágios, com a inteligência artificial então… Mesmo antes desta voga, a
Internet já permitia que se copiasse muito, e não só literalmente, ao nível das
ideias também.
Assusta-o também a incapacidade pura e simples de o ser humano se entreter a
ler um livro?
A perspectiva mais assustadora é saber aquilo que
perderemos quando perdermos a leitura. Perdemos muito mais do que este livro ou
aquele, perdemos uma dimensão do pensamento e de relação com a própria
linguagem.
Essa dimensão do pensamento está a
cair em desuso?
Está muito em desuso. Aqui há três ou quatro anos, organizei com outras pessoas
precisamente uma coisa intitulada "O Pensamento ao Ataque". Era uma
série de mesas de discussão e de comunicações, e chamava-se assim porque, em
certo sentido, o pensamento está em perigo. Não propriamente o cálculo, mas a
dimensão mais "flética" ou se quiser, poiética, para não puxar para a
literatura do pensamento, e sim para o processo da criação.
Não será só por causa da Internet, pois não?
Não. É toda a nossa vida, a organização do trabalho. A maneira como vivemos,
produzimos, nos reproduzimos.
Estamos mais avessos a aprender, a aprendizagem não nos seduz da mesma
forma?
Há a erosão da democracia, do debate, do diálogo. Do
diálogo com o outro é que se chega a qualquer coisa a que ninguém chegaria
sozinho.
(…)
E lá está a democracia a esboroar-se através deste nosso raciocínio.
A democracia está mal. Vivemos em sociedades democráticas e, obviamente, temos
as liberdades que temos nesta parte do mundo. O Estado de direito e o mínimo de
garantias são importantíssimos e devem ser defendidas a todo o preço. No
entanto, a participação do cidadão é cada vez menor. Para Aristóteles, o
cidadão é aquele que é ao mesmo tempo governante e governado, e disso estamos
perfeitamente longe. O princípio fundamental de escolha dos magistrados na
Grécia era o sorteio, ou seja, qualquer pessoa devia estar apta a sê-lo.
Estamos muito longe disso. Aliás, a representação não é apenas uma delegação
reversível, e é inevitável haver delegação de funções e de tarefas e não
tarefas. Mas nós não temos delegados mandatados e revogáveis, temos
representantes inamovíveis durante quatro anos, e eles próprios também estão
manietados por uma série de dispositivos institucionais. Embora seja muito
importante defender o que ainda há para defender, acho que só se defenderia bem
se avançássemos mais democraticamente. E, contra mim falo, não vejo grandes
movimentos sociais portadores dessa dinâmica.
Ler é também uma experiência constante que usa a mente e o corpo, a mente e
os sentidos…
Só assim podemos ver o mundo de outra maneira, ou ver
outros mundos no mundo."
Alexandra Carita, Daniel Rocha
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
domingo, 27 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Encosta-te a Mim
