Neste
momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos
à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato,
O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do
Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem
um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é
descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais,
adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor
resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do
rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à
noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é
seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o
eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de
navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana
Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se
sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.
outradecoisanenhuma
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Ana Margarida de Carvalho
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Do Meu Quarto com Vista
Não sendo uma fanática defensora do ambiente, faço os possíveis por cumprir os mínimos: recolho e separo o lixo, evito o desperdício e não sou propriamente consumista – com excepção de livros, já se sabe; e material de escrita, dos cadernos às canetas de tinta permanente, outro pequeno vício. Sou, claro, bastante imperfeita. Apago as luzes, mas posso manter o aquecimento ligado e a janela entreaberta; gosto do choque do ar frio que penetra o calor morno do quarto. Tomo duche em vez de encher duas banheiras, mas demoro-me escandalosamente a ouvir o tamborilar da água quente sobre a porcelana branca, a corrente macia sobre a minha pele, o cheiro inebriante do meu sabonete preferido, pequenas nuvens de espuma entre os dedos da minha mão. Estou num décimo quarto andar, sem prédios em frente, e pela janela ampla da casa-de-banho ergue-se um arco-íris perfeito, a luz refractada em cores absurdamente marcadas, impecavelmente curvilíneas. Uma das mais simples e harmoniosas manifestações da física. É tão, tão bonito.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
2026, ou a Geopolítica do Caos
Ai, mi barbie, y esa cara más guapa…
À porta do Alcázar a cigana oferece-me um raminho de alecrim; quer ler-me a mão, presumir sobre o advir. Tem as mãos grossas, telúricas, não quero que toque nas minhas; não quero o raminho de alecrim; sobretudo não quero previsões ou antevisões que distorçam os meus momentos de paz. Dois mil e vinte e seis já me esmurrou. Além disso, daí a poucos dias vou regressar ao mundo dos vivos para saber que morreu Brigitte Bardot (e Deus criou a mulher para criar a Brigitte Bardot), que os EUA sequestraram a Venezuela – ou o demiurgo Donald Trump sequestrou o ditador Nicolás Maduro, o que não me parece muito diferente –; que aquela América se tornou um Estado semi-terrorista que caça imigrantes e mata activistas com a graça do presidente; que, em Portugal, pelo menos mais duas pessoas morreram à espera do socorro do INEM, mas a ministra não pediu nem pede para sair e outro ministro, o primeiro, indigna-se à vermelhidão pela defesa da dama: saber do futuro para quê? Parei o tempo por uma causa maior: ficar onde estava, embrulhada no que me restava de ausência, sem desejo de ouvir o que teria a cigana para me contar.
Mas, por teimosia, Bom 2026...
sábado, 27 de dezembro de 2025
Manias
Assino o PÚBLICO (entre outros: também sou leitora compulsiva de jornais…) para ler a Bárbara Reis, sendo que tenho uma mania idêntica – e dura há mais de um ano.
Há um ano que registo numa folha pequenas coisas que leio
nos jornais.
Um responsável pela manutenção dos faqueiros do Palácio do Eliseu, residência
oficial do Presidente francês, é detido por roubar pratas e porcelanas. Tem em
casa peças que valem entre 15 mil e 40 mil euros. Um dos cúmplices é guarda no
Museu do Louvre. O advogado explica o motivo: “paixão” por antiguidades raras.
Sem sonhar a ajuda que me ia dar, um empregado de mesa acaba de pousar o prato
e remata a conversa de circunstância com um desabafo:
– Somos apenas humanos, não é?”
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Jólabókaflóð, a inundação … de livros. No
Natal.
Não
sei pronunciar aquilo – li, apenas – mas suspeito que soa tão mal como parece. O que seria das Línguas sem a nossa.
Já a ideia agrada-me; gosto de dar e receber livros desde que me lembro de ser gente. Por isso,
E muito grata a quem por aqui se perde um pouco. Sei que posso parecer quase bruta, mas não sou tanto.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Dos meus caprichos
Não sei se serei a única leitora que não escolhe livros pela sinopse, mas nunca escolho livros pela sinopse; ou não me lembro de alguma vez. Escolho livros pela capa, pelo título, pelo autor ou pelo país de origem, por uma frase que li ao acaso ao abrir um volume, e por último, resolutamente por último, pelas recomendações ou prémios, onde residem as maiores das minhas desilusões. Foi assim que cheguei (e pereci) ao meu primeiro livro da nova dama do noir espanhol. Dizem.
O tempo é de conciliação e tolerância, devia calar-me, mas há muito tempo que não lia nada tão saturado de lugares-comuns, das duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem, à adolescente que tem um caso com o amigo do pai. Et cetera, que aquilo cumpre todas as máximas. Há uma insistência tão óbvia em explicar e mostrar, que sobra pouco à imaginação: o assassino materializa-se nas entrelinhas sobrelotadas. Mas, como dizia alguém há tempos, se é tão fácil, por que não fazem; e se não faço, por que critico?
Já o de Susana Araújo, que escolhi pela capa e de quem julgo nunca antes ter ouvido falar, foi um prazer.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
O
mundo que me habituei a habitar converteu-se numa distopia, orgânica, que
observo fora de mim. Dispo a pele que me contém e pairo sobre este ninho de
cucos, de víboras, observando o caos. Deus está morto, não há profeta que nos
redima. Sinto-me enganada porque acreditei que éramos melhores; acreditei que a
liberdade seria sempre um ponto de apoio onde alavancar a Democracia. Mas a liberdade
também pode escolher ressuscitar as suas próprias tragédias; e por despeito,
não apenas por medo, pela miséria ou pela humilhação: por despeito, consciente
do horror. O povo deixou-se enfastiar. A complexidade, a dúvida, a
responsabilidade. O livre pensamento. Enfastiou-se da lucidez. Farto, ruma à
vala comum, salivando sob a sineta do dono, com a voragem dos curiosos ante os
desastres, não para levar ajuda, mas para beber da ruína. Vai vencendo um
cansaço acre, disfarçado de revolta, que encontra prazer em ver arder o que não
compreende e detesta. A democracia é frágil, exige cuidado, tempo, e o tempo morre
no agora. Eu sou apenas recusa.