sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


Sabes-me a pecado capital, leito de lua em quarto crescente, seda, renda, madrepérola, lamento de corpo presente, prelúdio de Outono dourado, ancorado no meu ombro nu.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tangos de Satanás

 – Hamnet está nos cinemas…ouviste? O Hamnet de Maggie O’Farrel está nos cinemas, devíamos já ter aqui o livro, porque as pessoas vão começar a pedir. E o Monte dos Vendavais. Ouviste? Puseram a Catherine de olhos azuis e o Heathcliff é branco. Imagina. Uma relação tóxica, e transformaram aquilo numa grande história de amor.

Tudo isto vai disparando contra a colega, os ouviste carregados num crescendo de indignação, e a outra encolhendo os ombros, enquanto eu deambulo entre as estantes à procura d’O Tango de Satanás. Já decidi: vou ver Hamnet daí a umas horas. O Monte dos Vendavais ainda não sei. O livro de Brontë é um dos que mantenho a curta distância, à cabeceira da cama, mas, de repente, não recordo a cor dos olhos de Catherine. É importante? Jacob Elordi é assim tão branco? Ou é o talentoso Owen Cooper, na pele do jovem Heathcliff? Preciso de lá voltar, à brutalidade crua de Emily Brontë. Não adorei Saltburn de Emerald Fennell, mas, de momento, posso ser facilmente subornada pelo erotismo medíocre de uma história de amor plastificada. Ouvi descrevê-lo assim. Ao filme. O romance de Emily Brontë é incorruptível. Se ao menos todas as relações tóxicas se esvaziassem nas páginas da ficção, vampirizadas apenas pela liberdade aleatória dos roteiristas. Não sou capaz de começar sequer a compreender o submundo sinistro de Jeffrey Epstein. “Escravatura sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratos desumanos e degradantes, e feminicídio”? Como se constrói e como se mantém tal rede de contactos e intimidade, daquela dimensão, hedionda, obscenamente impune durante tanto tempo, mesmo depois de denúncias sólidas e documentadas? O poder e o dinheiro, o dinheiro e o poder, o ovo ou a galinha, tanto poder, tantíssimo dinheiro, tanta gente – se não todos patologicamente depravados –, tanta gente disposta a fingir que não vê, porque ver e deixar saber que se vê obriga a tomar uma atitude, e uma atitude arrasta consequências, renúncia, o pesadíssimo ónus de bater com a porta. A cumplicidade pelo silêncio é sedutora, e o mundo está cheio de gente disposta a não ouvir, a não ver. Epstein foi um competentíssimo arquitecto dessa geometria degradante, entre a chantagem e o interesse, mas jamais o conseguiria sem aquela constelação grotesca de silêncios e obediência deslumbrada.  Se nos sentirmos inatingíves, impunes, ebriamente permeáveis a tudo o que o dinheiro pode comprar, até onde estaremos dispostos a ir? A depravação extrema pode tornar-se aditiva. É assim desde o ventre da civilização. Sem consequências, a culpa, o medo, a repulsa, diluem-se, tornam-se administráveis. A virtude nasce do hábito, e a desvirtude também, se contar com a permissão de muitos e a demissão de outros. A rede de Epstein, os homens de Pelicot. É doentio. Monsieur Pelicot. Acreditar cegamente no companheiro de uma vida, porque racionalizar o que a própria Gisèle Pelicot sentia estar errado era demasiado. Dez anos drogada e abusada por mais de cinquenta homens com o marido como anfitrião da devassa. É admirável a sua coragem, tornar público o julgamento, a serenidade com que narra o seu horror. Encarar e apontar, um-a-um, os seus algozes. A vergonha tem mesmo de mudar de lado.

Os tangos de satanás não deviam sair do papel.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Rio Atmosférico

 

É quase poético, mas já chegava. Mesmo para quem gosta da chuva, como eu.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Xeque-Mate

László Polgár teve três filhas. Convencido de que o génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração, resolveu educá-las em casa e fazer delas exímias jogadoras de xadrez. Poderia ter escolhido outra coisa qualquer, mas a família era muito pobre e um tabuleiro de xadrez era tangível e barato. Chamaram-no pai tirano. Desde muito pequenas e durante várias horas por dia, Susana, Sofia e Judit estudaram as regras, as tácticas; competiram, ganharam e desafiaram estereótipos. Judit era a do 1%. Tornou-se, entre homens e mulheres, a mais jovem grã-mestre internacional, batendo Bobby Fischer, que achava as mulheres, todas as mulheres, pouco inteligentes para o jogo de xadrez; sobreviveu à batota infame de Garry Kasparov em Linares, acabando por vencê-lo 14 jogos depois desse, em 2002. Kasparov também participa no documentário da Netflix, finalmente rendido à mestria de Judit – “ela provou que uma jogadora feminina pode ser uma concorrente de topo” –, que vai narrando a sua história com uma alegria serena e contagiante. Apenas no final do documentário, Judit Polgár surge um pouco perturbada ao tentar racionalizar sobre a experiência de que foi objecto, juntamente com as irmãs, por parte do pai, empenhado em criar três génios, quase por acaso, do xadrez.

Vi tudo isto, para entreter a espera, antes dos resultados eleitorais, em que António José Seguro, longe de ser um génio, foi capaz de um retumbante xeque-mate. Escolhi-o conscientemente e desejo-lhe sorte. Precisamos de um pouco de paz no discurso político. André Ventura e o seu séquito de apóstolos histéricos, alimentado ad nauseam por uma comunicação social medíocre, continuará incansável na sua senda viciosa, mas, de momento, terá de engolir a soberba. Quanto à novidade de Cotrim Figueiredo comentador, não é novidade nenhuma: é ouvir com atenção a sua entrevista à SIC Notícias, quando lá foi apresentar o tal movimento 2031:  imagina-se a fazer o quê, comentador televisivo, como Luís Marques Mendes?; – não, a menos que me estejam a oferecer o spot de Domingo à noite, que ficou livre… Não sei se o comentário será aos Domingos, mas era só fazer contas. Pelos dedos.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Resistir...

Os iranianos estão a enterrar os seus mortos entre danças e música pop. Choram os familiares abatidos às ordens do líder supremo Ali Khamenei celebrando e homenageando a vida, não a morte, numa manifestação de resistência continuada e rebeldia, depois de pagarem, em muitos casos, pequenas fortunas para resgatar os corpos. Desafiam a lógica perversa do poder teocrático daquele regime brutalmente destrutivo; rejeitam, com uma coragem que ultrapassa o heroísmo, transcendental, uma moralidade castradora que instiga o medo e exige a submissão dos cordeiros, de Deus nenhum. Gente brava – ou louca, às vezes, não se distingue bem – para quem a sobrevivência é do domínio da metafísica; o corpo é a expressão primeira e última do território de liberdade. Impossível não admirar. Não sei se seria capaz…




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026


Por motivos que não vêm ao caso, apenas no Sábado comecei a ver as imagens da destruição que a depressão Kristin provocou em Leiria. É desolador. Desde aqui, onde o temporal não fez, desta vez, grandes estragos, parece outro país.

Os ministros Maria Lúcia Amaral e Leitão Amaro são, no mínimo, dois imprestáveis, quanto a isso, não há a menor dúvida, mas a falência do país e do Estado é mais profunda e transversal. Não há prevenção, previsão, preparação, mas também não há certezas de que outro governo faria melhor gestão. Pedrogão Grande foi a desgraça que se sabe. O que nunca falha é a solidariedade do tal povo de quem os políticos falam tantas vezes e com tanta soberba e abuso; vizinhos, amigos e desconhecidos, que se desdobram em boa vontade e entreajuda, com urgência e sem lamentações.

Diogo Pacheco de Amorim deu uma entrevista ao Observador e, segundo li, afirmou não ter dúvidas de que o Chega substituirá o PSD depois destas eleições presidenciais. É espantoso pensar que pode ter razão, e pode ter razão. Por algum motivo ininteligível para mim, há mesmo quem veja no Chega uma alternativa competente para guiar os destinos do país; talvez porque o nível de mediocridade de alguns ministros desta AD é tão confrangedoramente evidente que permite, a uns sonhar, a outros desbaratar.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

2+2=5

Sempre que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas, com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda assim, era irreal; surreal.

A colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação. A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à expressão pura de liberdade.

Prestar vassalagem.

Rebanhos são os outros.

Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo  são quase duas horas de filme – por recompensado.




sexta-feira, 23 de janeiro de 2026


“Hoje cometi um acto desprezível. Matei esta gaivota. E agora deponho-a a teus pés.”

                                             Anton Tchékhov, A Gaivota