"– E porquê Génova?
– Tem gente espantosa nas ruas. À noitinha, quando saímos
do hotel, é um mar de gente. E deixamo-nos ir, conduzidos ao sabor da multidão,
sem objectivo, aos ziguezagues, numa direcção, na outra, sentindo que a nossa
vida está ligada àquela massa de gente, fundida nessa massa psicologicamente.
Começamos a acreditar que é possível uma alma única do mundo, muito semelhante
àquela que a Nina Zarechnaya interpretou na sua peça, Konstantin Gravilovich. A
propósito, onde está agora a Zarechnaya? O que será feito dela?"
E
enquanto Konstantin vai narrando as desgraças de Nina – o filho que morreu, o
desamor de Trigorin e o fracasso da sua carreira como actriz –, as duas velhotas
ao meu lado direito vão conjurando espantos, um ahhhh… de cada vez. Já
antes tinham reprovado o beijo prolongado de Trigorin a Nina (ou seria o de Ivo Canelas a Rita Rocha Silva?), um ahh bastante mais austero. Uma delícia.
Recuo
no tempo, por momentos. Mulheres nos seus vestidos de cauda, homens de fraque,
o exagero do teatro, o escândalo, a sobriedade, não sei se muito longe desta, competente,
sim, mas muito longe do brilhantismo anunciado. Sempre aplaudido de pé, isso
sim, tudo hoje se aplaude de pé, santo deus, que gente tão fácil de deslumbrar.
Ou serei eu, um pouco deslocada. Devia deixar-me ir, como a multidão na Génova
de Tchékhov. O meu mais recente aplauso de pé foi para os JaFumega, no CCB. Quarenta
e cinco anos de carreira, e o meu pai viu nascer parte daquele projecto.
Merecia. Toca a banda no coreto, que vontade de dançar. Vou sair e comer um duchesse.
Porque posso.