Não
há serviço de recepção no (já não tão) novo escritório. Cada um de nós deixa a
chave na fechadura do lado exterior da respectiva porta, para assinalar presença:
a última chave apaga todas as luzes, arma o alarme, devolve o silêncio ao
espaço comum até à manhã seguinte. Uma fila ordenada de chaves ao longo do
corredor burocrático e bege, palavra tão má quanto a pintam. É-me impossível.
Deixar do lado de fora, fora do meu alcance, fora do meu controlo, a chave da
minha própria sala. Indecoroso. Uso uma chave velha, de ferro negro e contornos
arabescos, sólida, uma chave de portão que fecha o entardecer. O entardecer é o
ventre onde o dia recolhe, o lugar onde as coisas pousam o seu último nome.
Céus, as saudades que eu tenho de ti…