Sempre
que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou
invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas,
com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em
tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda
assim, era irreal; surreal.
A
colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George
Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O
documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do
presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e
exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu
tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a
compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada
dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não
invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como
Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um
tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico
dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação.
A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores
ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à
expressão pura de liberdade.
Prestar
vassalagem.
Rebanhos
são os outros.
Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo – são quase duas horas de filme – por recompensado.