quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

2+2=5

Sempre que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas, com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda assim, era irreal; surreal.

A colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação. A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à expressão pura de liberdade.

Prestar vassalagem.

Rebanhos são os outros.

Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo  são quase duas horas de filme – por recompensado.