Neste
momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos
à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato,
O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do
Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem
um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é
descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais,
adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor
resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do
rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à
noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é
seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o
eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de
navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana
Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se
sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.