segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ana Margarida de Carvalho

Neste momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais, adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.