“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim
esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha
atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há
rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho,
com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se
esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar
sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as
ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e
cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas
enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco
empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido,
angustioso, rasga o horizonte.”
Páscoa Feliz
José Rodrigues Miguéis
Também
sou dessas; citações e etc.
Ontem
também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas
ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.