terça-feira, 3 de março de 2026

“A minha inquietação não tem limites. (Ainda lateja em mim esta ânsia de partir!) Tudo está deserto, o cais e o navio... Que estranha atmosfera de sobrenatural! É a hora exacta da partida. Não há gritos, não há rumores no cais nem a bordo. É um barco-fantasma, fluido, imaterial. (Sonho, com certeza; mas é bom sonhar assim...) Caladamente, afasta-se da terra, que se esconde em densa bruma. Navegamos ao largo. Como tudo é rápido, ligeiro! O ar sufoca. Não se ouve um grito de ave, nem uma voz humana. O navio corta as ondas…Bruscamente, desata-se um vento furioso e a chuva cai, contínua e cerrada. É belo ver chover sobre o mar. é tudo cor de cinza – o céu, as ondas enormes, o navio, eu próprio… Só uma faixa de luz alaranjada, que pouco a pouco empalidece em gradações mais suaves, até se tornar dum verde-pálido, angustioso, rasga o horizonte.”

Páscoa Feliz

José Rodrigues Miguéis

 

Também sou dessas; citações e etc.

Ontem também choveu sobre o meu mar, e os livros salvam-me sempre. Posso trancar-me entre as suas páginas, erguer o mundo à minha imagem. Imperfeito, indomado, mas ainda vivo e respirável. Uma inquietação habitável; imputrefacta.