Se me é permitido, vou continuar a indignar-me.
Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à
normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um
fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em
subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar
a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca
convenha a todos concomitantemente.
Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há
eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas
mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos,
naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma
caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a
América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados
têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente
da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam
milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem
um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das
hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos.
Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the
pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e
poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e
estrangeiro.
Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a
si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los
pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num
populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um
fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer
que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.
As migrações em massa e descontroladas são um problema
sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer
todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este
e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há
quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a
crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário
suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou
será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e
justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e
uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos
impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo
não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a
defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas
armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em
sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.
Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e
outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o
seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à
sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele
não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que
jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a
preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se
sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai
acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para
matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de
esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça?
E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?