segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Antecâmara

Das varandas brancas descendo em cascata sobre a falésia avista-se a costa espanhola. A proximidade é hipnótica, quase ofensiva. Espanha está mesmo ali, a uma distância ridícula, proibida pelo acaso. 

Nos dias quentes de Verão, as árvores emprestam sombra, confortam, embalam a espera. Há uma sala interior que entrevejo, com cobiça, sempre que subo e desço os degraus escarpados, uma sala atapetada, de janelas amplas e abertas para o Estreito, onde os homens se deitam e se ausentam, entre baforadas de kif; não se vê um móvel, apenas cachimbos de água em coloridos berrantes, alguns espalhados, aguardando vez. O Café Hafa é um desses lugares onde a crueldade se instala devagar, fermenta, corrói. Para quem chega, é fácil entregar-se à beleza, apenas. A imensidão dos mares que se namoram e atormentam lá em baixo. Beber do hálito bruto a maresia. Assim se embriagaram escritores, poetas, músicos, expatriados privilegiados como eu. Para quem ali nasce, a geografia é uma emboscada. Lembro-me dos rapazes sentados horas a fio, ruminando o estupor. O desespero visceral. Alguns enchem-se de coragem e fogem, muitas vezes a nado, mas nada como se viu há dias, brotando às centenas das águas de Ceuta. Não há lei que os impeça de partir, antes ou agora, e não terá sido uma lei, uma decisão judicial, a empurrá-los para a fuga, em manada, no espaço de poucas horas. Mensagens sincronizadas, em massa nas redes sociais, a “informar” de fronteiras abertas, teriam tido outro desfecho com outros Governos, noutros locais? Não sei. Há quem instrumentalize a miséria dos outros em proveito próprio, por vingança ou por agenda, e para quem marroquinos, espanhóis de Ceuta ou de Melilla contam pouco. Morreram dezenas de pessoas. Em poucas horas, entraram em Ceuta quase tantos estrangeiros quantos os habitantes. É espantoso que não tenha havido confrontos graves, mais mortos, maiores tumultos. É espantoso que quase todos tenham já regressado ao seu país. Muitos voltarão a tentar, com toda a certeza. Noutro tempo, noutra oportunidade. Nenhuma lei pode revogar a esperança ali à mão, do lado certo do mar.  

Para quem visita, certos lugares não passam de "imperdíveis" exóticos, para fotografar e arquivar. Eu também o faço. Mas outros lugares são incorruptíveis como a ilusão de qualquer coisa que se assemelhe a um futuro. Não há uma maneira fácil de resolver isto...