"Como se prepara uma perdiz?
Como se cozinha? Para pintar é muito simples. Quando os
meus irmãos me traziam as perdizes, pegava nelas e punha-as em cima da minha
mesa de trabalho. Às vezes estava a olhar imenso tempo, antes de começar a ter
coragem de pintar a perdiz. Nunca cozinhei nenhuma. No tempo que estou a
observar a perdiz, crio um afeto e sou incapaz de a comer. Acho-a bonita
demais. Ultrapassa a dimensão da forma para se transformar num símbolo do
martírio, do sacrifício das mulheres.
(...)
O que há de especial num olival?
Depende das horas do dia. De manhã, um olival tem uma luz
muito bonita. As folhas são verdes de um lado e prateadas do outro, ganham uma
cor muito especial. Como hei de dizer? Quase sagrada. Um olival antigo, não
estou a falar dessas oliveiras raquíticas que dão muito dinheiro, mas que eu
detesto. As oliveiras centenárias, além de terem um corpo em que apetece mexer,
a gente sente que é quase o corpo de uma pessoa. Sobretudo de uma mulher. Ao
escurecer, há uma dimensão muito triste, que tem a ver com a nossa tristeza. O
olival é o lugar onde tenho sentimentos mais extremos, mais intensos. De paz,
mas ao mesmo tempo de uma tristeza imensa.
(...)
Falta-lhe pintar muito?
Ai, oxalá ainda consiga pintar muito. Ainda queria ver se
fazia muita coisa. Gosto muito das exposições, mas a partir de certa altura
começo a querer é pintar. Já estou a ferver, com outras ideias."