Gosto
desta mudança de hora. A ilusão de atrasar o tempo, até que a próxima Primavera
mo reclame. Sem relógios mecânicos não se dá por nada – os dispositivos
modernos, cada vez mais espertos, encarregam-se dos alinhamentos e acertos e
livram-nos das chatices de. Mas eu tenho relógios de pulso, relógios relógios,
que medem nada mais que um tempo imperfeito e limpo, sem histórico nem semiologia.
Gosto de os acertar e esta é a hora de que mais gosto. Preciso deste tempo
quieto, de anoiteceres precoces, que emudece as ruas e me devolve a respiração
lenta do mundo que é meu. Gosto de sol, mas não tanto do sol de Verão. A luz de
Outono é mais minha, no seu dourado líquido e demorado, desenhando, sem pressa,
a paisagem nos seus novos detalhes. Também é o tempo perfeito para grandes caminhadas.
Não há cores nem céus como os de Outono. Respira-se a terra, na sua anatomia cromatográfica.
Melancólico porquê?