domingo, 18 de outubro de 2026

Se, por cada nova má adaptação televisiva ou cinematográfica de um grande clássico, o número de vendas desse clássico aumentar substancialmente, deixem em paz a imperícia ou o humor dos realizadores. Já disse o que penso (como se interessasse muito, mas o blogue é meu) d’O Monte dos Vendavais de Emerald Fennell e d’A Odisseia de Christopher Nolan; falta-me falar de A Leste do Paraíso de Zoe Kazan: gosto dos cenários, do guarda-roupa, da fabulosa Florence Pugh. Espanta-me que tanta gente se irrite com a suposta humanização de Cathy Ames; de como essa escolha de Zoe Kazan terá corrompido a Cathy de Steinbeck: se era desnecessário (e era, e talvez até desvirtue o nervo do romance de Steinbeck) embalar a maldade em álibis de abuso para justificar o que há-de vir, a verdade é que, a dada altura, ninguém (posso ser só eu) se lembra da suposta vítima: Cathy continua a ser maquiavélica, manipuladora, amaternal. Sem Florence Pugh, o resto não é tão extraordinário, mas vi tudo de um trago. E também comprei novas edições de A Odisseia e A Leste do Paraíso. Eu e a minha irmã temos de dividir a biblioteca dos meus pais – que foi nossa também durante tantos e tão bons anos – e fazemo-lo de tempos a tempos, quando eles permitem, pela lei de Salomão. Rimos, recuperamos memórias e eu lembro sempre à minha irmã que não lhe perdoo ter emprestado a não sei quem que nunca mais devolveu os meus Versículos Satânicos acabados de sair. E rimos mais. Comprei outro exemplar e foi quando jurei que não voltava a emprestar nenhum dos meus livros, até porque tenho o hábito de encher as margens de notas e pensamentos que não quero perdidos por aí.

Não interessa nada. São só momentos que me salvam da insalubridade dos dias. No final, não passo de uma estatística. Benigna, na maioria das vezes. Não ontem. Ontem mostraram-me o vídeo do tal activista na manifestação no Porto e tive o meu momento e se fosses para a tua terra, ameaçar com tijolos outro imbecil qualquer? Não disse, mas pensei. Maldosamente. E, se calhar, a terra dele é esta, onde as gentes se manifestam com alguma ordem, por enquanto, embora haja outra gente a babar pelo primeiro grande distúrbio. À grande e à francesa, com caixotes do lixo a arder, montras partidas, carros e lojas vandalizados, edifícios históricos destruídos, apelos à desobediência e à guerra civil. Não há revolução sem violência – o nosso 25 de Abril foi quase, sabe-se lá porquê, ou por isso de sermos mansos –, mas o que se desenha no horizonte destes dias é uma intenção deliberada de subversão; conflagração. França, sobretudo França, mas os rastilhos acendem-se em todos os portos seguros. Instalou-se um clima de conflitualidade autofágica, que passou da sociedade civil para a política, ou da política para a sociedade civil, um (des)equilíbrio dinâmico baseado no poder do mais forte, sem espaço para um caminho comum – pelo contrário, qualquer pressuposto de entendimento é uma forma de capitulação.

Ocupo-me dos meus livros para descansar do mundo.