Se, por cada nova má adaptação televisiva ou
cinematográfica de um grande clássico, o número de vendas desse clássico aumentar
substancialmente, deixem em paz a imperícia ou o humor dos realizadores. Já disse o que penso (como se interessasse muito, mas o blogue é meu) d’O
Monte dos Vendavais de Emerald Fennell e d’A Odisseia de Christopher
Nolan; falta-me falar de A Leste do Paraíso de Zoe Kazan: gosto dos cenários,
do guarda-roupa, da fabulosa Florence Pugh. Espanta-me que tanta gente se
irrite com a suposta humanização de Cathy Ames; de como essa escolha de Zoe
Kazan terá corrompido a Cathy de Steinbeck: se era desnecessário (e era, e
talvez até desvirtue o nervo do romance de Steinbeck) embalar a maldade em álibis
de abuso para justificar o que há-de vir, a verdade é que, a dada altura,
ninguém (posso ser só eu) se lembra da suposta vítima: Cathy continua a ser
maquiavélica, manipuladora, amaternal. Sem Florence Pugh, o resto não é
tão extraordinário, mas vi tudo de um trago. E também comprei novas edições de A
Odisseia e A Leste do Paraíso. Eu e a minha irmã temos de dividir a
biblioteca dos meus pais – que foi nossa também durante tantos e tão bons anos –
e fazemo-lo de tempos a tempos, quando eles permitem, pela lei de Salomão. Rimos,
recuperamos memórias e eu lembro sempre à minha irmã que não lhe perdoo ter
emprestado a não sei quem que nunca mais devolveu os meus Versículos Satânicos acabados de sair. E rimos mais. Comprei outro exemplar e foi quando jurei que não voltava a
emprestar nenhum dos meus livros, até porque tenho o hábito de encher as margens de notas
e pensamentos que não quero perdidos por aí.
Não interessa nada. São só momentos que me salvam da insalubridade
dos dias. No final, não passo de uma estatística. Benigna, na maioria das vezes.
Não ontem. Ontem mostraram-me o vídeo do tal activista na manifestação no
Porto e tive o meu momento e se fosses para a tua terra, ameaçar com
tijolos outro imbecil qualquer? Não disse, mas pensei. Maldosamente. E, se
calhar, a terra dele é esta, onde as gentes se manifestam com alguma ordem, por
enquanto, embora haja outra gente a babar pelo primeiro grande distúrbio. À grande
e à francesa, com caixotes do lixo a arder, montras partidas, carros e lojas
vandalizados, edifícios históricos destruídos, apelos à desobediência e à
guerra civil. Não há revolução sem violência – o nosso 25 de Abril foi quase,
sabe-se lá porquê, ou por isso de sermos mansos –, mas o que se desenha no
horizonte destes dias é uma intenção deliberada de subversão; conflagração.
França, sobretudo França, mas os rastilhos acendem-se em todos os portos
seguros. Instalou-se um clima de conflitualidade autofágica, que passou da
sociedade civil para a política, ou da política para a sociedade civil, um (des)equilíbrio
dinâmico baseado no poder do mais forte, sem espaço para um caminho comum –
pelo contrário, qualquer pressuposto de entendimento é uma forma de
capitulação.
Ocupo-me dos meus livros para descansar do mundo.