sábado, 8 de janeiro de 2022


 


A rapariga da papelaria diz-me que “agora são quatro euros e cinquenta”. Digo que sim, que sei, que até estou quase a comprar duas vezes, porque sou assinante, mas, por causa do ataque informático não posso aceder à versão digital. “Ataque? Qual ataque?”, e pensei que não era a sério, que era uma tentativa de piada, porque nos conhecemos há bastante tempo. Era a sério. Não sabia nada de ataques informáticos. Às vezes penso que as pessoas mais felizes são as que vivem assim, de costas voltadas às coisas mundanas.


"Parece que as palavras, na tua pena, se tornam carne, estremecem, pulsam, vibram! Dizes "Apetece-me!, apetece-me!", e a gente fica com fome e sede sem saber de quê... Escreves como modelas o barro e acaricias: dás vida ao que tocas. Deste-me vida a mim também, que estava morta..."


Fiz como ouvi contar e fui à minha biblioteca municipal requisitar o segundo volume de O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis. Também só tenho o primeiro volume, mas, no meu caso, ainda mantenho uma pequenina esperança de vir a encontrar o segundo perdido algures entre a poeira das estantes de livros da casa dos meus pais.

Li tudo com a avidez do costume quando os livros me devoram.

O país de agora não é o país turbulento e satirizado sem dó nem piedade nas setecentas páginas do livro, dois livros, de Miguéis, mas há sempre um pedaço de miséria que sobrevive ao passar do tempo; e não é preciso grande esforço para encontrar, no país de agora, muito daquele atraso, muita da desesperança dos pobres e da arrogância de rapina de uma certa elite amarelenta, que enchem as páginas d’O Milagre. E o milagre é, como rapidamente se adivinha, em tudo idêntico ao de Fátima, sem que nada do que se possa saber à partida diminua a vontade e o prazer da leitura. Os regionalismos são, ao mesmo tempo, deliciosos e contundentes. Os “entremezes” de  Gabriel Arcanjo são ácidos e, mesmo que o autor não tivesse pretendido “reconstituir factos ou acontecimentos nem evocar pessoas”, como se lê na introdução, é sempre possível encontrar semelhanças, antes como agora, e sem grandes abusos de imaginação.

Depois, há Salomé. A “insondável contradição da maioria dos homens”, a “fêmea sabida, mas pura; facilmente exaltada, mas submissa e fiel”. A meretriz eternamente virginal que encontra, finalmente, o amor. A personificação do feminino imaginado e imaginário perfeito, por isso, irreal. Mas é bom, às vezes, um “vago sabor de conto de fadas”, como (também) dele disse Pedro Tamen. Entregarmo-nos a uma leve embriaguez. Acreditar que cabemos no sonho de alguém, ser a urgência da saudade, o objecto que se deseja em segredo; que é meu o nome que morre na tua boca.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022


 


Vinha dizer qualquer coisa sobre os debates. O "killer Ventura" e os (supostamente) moderadores e comentadores. Nomeadamente sobre a estratégia estafada do líder do Chega: driblar para baralhar; desviar – como os mágicos em momentos chave – a atenção do público para o acessório, para que ninguém se detenha no essencial; e como o público continua a pasmar e a maravilhar-se, apesar de o truque ser sempre o mesmo e já ter sido visto dezenas de vezes. Não fui capaz de encontrar um fio condutor e dar corpo a um texto que se lesse, e desisti. Esbarrei neste do João Miguel Tavares sobre o mesmo assunto, e é muito melhor do que aquele que eu tinha pensado. Assim, vou só falar das manhãs mudas de nevoeiro rendilhado como teias de aranha, por onde a luz, escassa, se deixa filtrar em finos fios, uma levíssima e delicada filigrana, etérea, num labor paciente e amoroso, como as fiandeiras fiando o linho, rolando com embalada minúcia o fuso na ponta dos dedos. Não interessa nada na mesma, mas faz-me mais feliz.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022



terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Afinal tenho um desejo para 2022: que André Ventura e o seu Chega morram nas urnas, no próximo dia 30. Como deve ser. De preferência, em agonia.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022



“Emily Brontё. Tudo o que emana d’Ela tem a capacidade de me perturbar. Haworth é o meu local de peregrinação.”

Emil Cioran

 

Lembra-me que O Monte dos Vendavais é um dos livros a que regresso sempre com gula; para encontrar qualquer coisa que nunca lá esteve da vez anterior.


domingo, 2 de janeiro de 2022