quarta-feira, 29 de julho de 2026

Esopo para a Canalha

Era uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se, pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok, mas a televisão continua a ser a televisão.

Um dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido – mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados; inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram desmentidos.

Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade. Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém desse o devido crédito ao alegado assalto?

E, assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.