Era
uma vez um partido chamado Chega, liderado por André Ventura. O seu trabalho
era berrar contra o sistema, a bandalheira, a esquerdalha e os cinquenta anos
de corrupção. Apesar de gostarem muito do seu ofício, às vezes aborreciam-se,
pois viam tardar o merecido o sucesso e, convenhamos, o Tik Tok é o Tik Tok,
mas a televisão continua a ser a televisão.
Um
dia, André Ventura e os seus apóstolos decidiram que seria proveitoso – e divertido
– mentir, manipular, ludibriar. Copiaram grafismos de órgãos de comunicação
conhecidos para fabricar mentiras, chamando-lhes notícias; usaram a inteligência
artificial para alterar fotografias, denunciando actos nunca praticados;
inventaram sondagens que os apontavam como preferidos; fizeram chover sacramentalmente sobre a
cabeça do líder, comovendo os inocentes. De todas as vezes acorreu gente a
verificar os factos, e de todas as vezes os factos foram
desmentidos.
Os dias foram passando, até que, uma manhã, bem cedo, um dos deputados do Chega chegou ao Parlamento e encontrou
o gabinete do seu líder vandalizado. Assustado, correu a chamar a polícia. Todo
o partido se uniu, solenemente, na indignação e na urgência de apurar a verdade.
Um deputado foi à televisão apontar a canalhice de se lançar um anátema sobre o
partido, sobre os seus deputados: como era possível que ninguém
desse o devido crédito ao alegado assalto?
E,
assim, aprenderam que quem não quer ser canalha não lhe veste a pele.