Luís
Neves era alguém cuja imagem pública assentava na exigência ética na
investigação e combate à corrupção, ao crime económico-financeiro, ao tráfico de droga e ao terrorismo. O próprio fez questão de o lembrar. As explicações que apresentou
naquela conferência de imprensa são incompatíveis com essa imagem. O caso do
atrelado é o exemplo mais alarmante. Um bem apreendido numa operação antidroga,
com produtos químicos potencialmente perigosos, exige regras e cuidados que vão
muito além das questões de tesouraria – chamar-lhe um "acto de extraordinária
gestão" é uma tentativa arrogante, no mínimo, de desviar a atenção da gravidade
daquela decisão. Mesmo sem benefício pessoal provado – vamos acreditar que João
Carvalho teve um acto de extraordinária caridade –, o que está também em causa
é a quebra de um padrão de procedimentos que o próprio cargo exigia que se
mantivesse. Inacreditável, tudo isto.