Gosto de morar junto ao mar. Em noites de lua cheia, a Lua paira como um lustre rico e posso sentar-me à varanda e ver como o luar se derrama sobre a água quieta. Uma criatura adormecida sob a gravidade implacável de uma força muda e primordial. A água responde a essa tracção bruta, entre o abandono e a fúria.
Há um erotismo acerado no inalcançável. Na impossibilidade. Não há quem não saiba.
Não tocar.
Não escrever. Permanecer nas margens da
palavra, como a água contida do meu mar em pousio.
Não contar.
Não amar. Não deixar de amar. Ficar nesse lugar inteiro,
intacto.
A luz que não pertence inteiramente ao lugar onde se deita, mesmo quando nele se demora. Toda a luz procura uma forma de fuga. Como a distância, que não separa, mas preserva. Há uma intimidade, uma cumplicidade, que sobrevive apenas na ausência e na recusa, no gesto por cumprir. Pressentir o corpo antes da pele, o nome antes da voz. Decantar o silêncio.
Talvez o erotismo não seja mais do que uma inteligência da separação.
O Mar e a Lua não se encontram, não se extinguem.