O teatro é assim. O espectáculo pode ser fabuloso numa noite e apenas competente noutra. Até a disposição do público, quase no duplo sentido, pode afectar a experiência. A linguagem arcaizante e densa é outro desafio, para actores e para espectadores. Rei Lear é particularmente exigente também nesse aspecto. Fui ver a peça ao Casino de Lisboa, na tradução a que Álvaro Cunhal se dedicou enquanto esteve preso. Foram cerca de três horas de espectáculo, e é preciso, sem dúvida, um certo aquecimento, de voz e de ouvido, até a aspereza da palavra por lavrar ceder lugar a uma corrente musical. Adriano Luz dá corpo e alma a um Lear trágico e louco, às vezes cómico, Cláudio da Silva como o bobo, e de bobo nada, as falas, a postura, o silêncio que encarnava como outra presença, observando e conspirando com a plateia; os dois, só por si, já teriam valido a pena, se não houvesse mais, mas houve. Até as mudanças de cenário, mínimas e coreografadas, musicadas, acção e não interrupção. Foi bom.