Claro que fui ver a Odisseia de Christopher Nolan. Um
realizador que implode edifícios reais, que compra aviões reais para os guiar
contra hangares reais, tudo em proveito de uma sétima arte maior merece que se
lhe dê crédito. Dizer que quase fez Matt Damon afogar-se talvez não seja
exagero, e gostei muito do seu Oppenheimer, com o ali
extraordinário Cillian Murphy.
Não sei bem quando é que começou esta agonia entre espectadores, esta tantas vezes infantilizada determinação em racionalizar e julgar a ficção – muito além de um cilindro de gás na quadriga de Gladiador, ou um starbucks no Game of Thrones –, mas descobri-a tarde: já o Titanic levava mais de vinte anos quando soube da histérica demanda sobre se naquele pedaço de porta de madeira em que Jack, sacrificando-se, salvou a vida de Rose, cabiam ou não cabiam os dois amantes, estudos científicos e tudo, como se o guião de Cameron fosse sobre uma aula de física. Desta vez, há os escândalos de uma Helena de Troia negra e uns cachorrinhos atirados por um penhasco. No total, Lupita Nyong'o deve aparecer uns cinco minutos no filme, e a produção veio confirmar o bem-estar e a integridade física dos bichos, que não, que nenhum cão foi magoado. Não sei se alguém achou que um ciclope numa caverna tinha realmente comido quatro ou cinco homens do elenco. Não admira que se conjuguem discussões bizantinas sobre quem, afinal, anda a gozar com o autismo, se a Joana se a Mafalda. Já para entrar no debate sobre a corrupção orquestrada por Nolan, faltam-me competências. Li o poema de Homero há anos, e as minhas memórias vão sendo adulteradas por todas as produções que precederam esta. Vi, gostei, talvez tenha demorado demasiado, sobretudo porque há sempre aquela sequência interminável de anúncios-estreias-anúncios antes do filme propriamente dito, mas gostei. Sobre ser tudo aquilo também uma lição sobre bem tratar o estrangeiro e, com isso, proteger uma civilização, lamento, mas, estrangeiros ou não, os maus continuam a morrer no fim. Quatro lugares à minha esquerda uma mulher jovem esbracejava a sua indignação porque faltou não-sei-quê, que era o que fazia d’A Odisseia A Odisseia, e mais um tanto de coisas que não percebi. O homem que a acompanhava acenava e encolhia-se, mas podia muito bem ser apenas para nos facilitar a saída.