Estudar cinco anos, oito anos, até memorizar nomes de
ruas e cruzamentos, bares, hotéis, restaurantes, seis mil pontos de interesse
na cidade de Londres até ser-se considerado apto para conduzir o icónico táxi
preto – todos os anos, centenas de candidatos sujeitam-se ao rigorosíssimo Knowledge
of London (The Knowledge, com solenidade), que os habilitará, se passarem, a conduzir o distinto black cab. Chamar-lhe um exame oral é um eufemismo; por isso ou por
outra coisa qualquer, chamam-lhe "appearances" e aquilo tem ar de inquisição,
com maiúscula, com o examinando sentado frente ao examinador, munido da sua
memória apenas, desfiando minuciosamente o trajecto de A a B, que se quer o mais curto, com nome e número de ruas, esta à esquerda, aquela à direita, a segunda
a terceira, a fogueira à menor falha. Vinte tentativas, quarenta e uma tentativas.
Estudam pelo “livro azul” – actualmente, um dossier gordo de seis mil pontos de
interesse para um cliente-tipo. Vinte e cinco mil nomes de ruas. Há condutores
de Uber que nos levam a qualquer lugar – inclusive àquele onde nunca tinham
posto as rodas dos carros que conduzem –, sistemas de navegação que se tornaram
omnipresentes e quase sempre omniscientes apêndices de condução, e há empresas
a iniciar testes para os primeiros táxis autónomos nas ruas de Londres, portanto,
a pergunta inevitável e preguiçosa seria: para quê o esforço? Pelo prazer de
fazer parte da história, pelo luxo de conduzir o icónico táxi preto; talvez porque o dono do galgo irlandês não confie num táxi-robot para transportar o seu cão sozinho, quieto e mudo no banco de trás.
Também não simpatizo, nada nada, com a ideia de ser transportada por um carro
sem condutor. Parece-me um pouco sinistro, até. O mesmo para o esquadrão de 2000 robots-humanóides que compõem as 666 (juro) equipas que competem em Pequim, nos Jogos Mundiais de Robots Humanóides. Há jogadores de ténis, lutadores de
boxe, corridas de 100 metros e meia-maratona. Estou num momento “Velho do Restelo”.
O progresso progride a um ritmo indigesto. Por isso, simpatizo com o esforço
daqueles aspirantes a condutores de um honorabilíssimo táxi preto. Humaníssimos. Alimentar
uma certa resistência, uma pequena dose de insanidade.
Numa sequência destes microcosmos que fazem do 60
minutos o 60 minutos, Anderson Cooper aquece no colo das mãos e com seu hálito uma borboleta-monarca, entorpecida pelo frio, momentaneamente incapaz
de voar. Dois ou três longos sopros e a monarca descola num bater de asas. Por algum motivo, emociono-me,
e deve ser a coisa mais simples para um robot fazer. Ressuscitar a
borboleta, quero dizer. Gosto da história das borboletas-monarcas, da sua jornada
extraordinária, de como as vêem no México, as almas regressadas dos seus mortos.