Um amigo está empenhado em devolver-me à fé cristã. Obrigada, mas não. Incumpro praticamente todos os pré-requisitos morais. Não amo a Deus sobre todas as coisas, pouquíssimos próximos como a mim própria. Invoco o Seu nome em vão um sem-número de vezes. Não dou a outra face e perdoo mal. Não vou à missa, embora vá à igreja, a várias, frequentemente, e o silêncio de uma igreja vazia é um dos meus vazios mais íntegros. Não matar. Não tenho a certeza. Talvez matasse para proteger ou vingar a mim mesma, a alguns desses poucos que me são tão próximos. Qualquer pessoa é capaz de matar, nem todos levianamente. Creio. Não lamento a morte de homens maus, mas não rejubilo com a morte, nunca com a de um ladrão menor. A minha compaixão é imperfeita, luxuosa. Posso odiar alguém em particular, um rosto, um nome, mas custa-me perceber o ódio a um todo, a um país, a um povo (odiar a humanidade em geral torna-nos menos capazes de odiar uma pessoa em particular? – sobre este avesso não reflectiu o atormentado médico dos Karamázov). Penso-te sem castidade, sem prudência, sem remorso. Não roubo, é certo, procuro não mentir, honrar pai e mãe e a palavra dada, mas obedeço-me ante todos os outros. Às vezes cobiço a graça dos impolutos.