sexta-feira, 16 de abril de 2021
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Cofres, Almanaques e, calhando, Unicórnios
Andei quatro anos obcecada
(nem tanto) com a personagem que ocupou o cargo de Presidente dos EUA até há
poucos meses e quase tinha esquecido que temos por cá uma criatura igualmente
fascinante.
É preciso coragem
para entrevistar José Sócrates. Se não por mais nada, por isso: honra seja
feita a José Alberto Carvalho. Conseguiu manter a compostura, fez o que pôde
para confrontar Sócrates com factos e, apesar de constantemente interrompido –
como convém fazer quando sabemos que a nossa história tresanda e que insistir histericamente
no isso não é verdade já passou um bocadinho das marcas –, fez muito bem
em manter-se calado algumas das vezes. Entre a falta de educação de mandar
calar um idiota e a crueldade de deixá-lo prosseguir, há, evidentemente (só que não), uma escolha difícil de se fazer. Com Sócrates, a crueldade justifica-se sempre.
Se não se desse o
caso de estarmos perante um ex-primeiro-ministro do nosso esfrangalhado país,
acho, até, que José Sócrates devia ser convidado a dar uma entrevista por dia,
durante vários dias. É absolutamente espantoso o que ali se viu e ouviu. Houve um momento em que achei que o homem ia agarrar num lenço e começar a chorar, só para tornar tudo um nadinha mais dramático.
Alguém que escreva
um livro. Outro livro.
Entretanto, já tentei – por três vezes – ouvir as tais três horas, mais coisa menos coisa, da leitura da decisão instrutória do juiz Ivo Rosa. Das três vezes, adormeci antes da meia hora. Mas juro que vou conseguir. Enquanto não, vou andando com a lupinha lá no pdf das quase sete mil páginas, à procura dos pontos quentes.
E a ideia de criar e assinar uma petição para excomungar Ivo Rosa é absurda.
quarta-feira, 14 de abril de 2021
Por estes dias, um
dos meus dias amanheceu num arco-íris perfeito. Vi a luz separar-se numa
cadência ordenada e breve, muito breve, firme como quem abre um leque. E, a
seguir, riscar as nuvens a compasso, erguendo-se num arco perfeito. Exibiu-se,
soberbo, por momentos; e, de repente, o feitiço desfez-se e o arco-íris
apagou-se num soluço mudo, sem deixar rasto.
Durante todo esse dia,
o meu céu transfigurou-se como uma tela viva, numa transmutação inquieta. Nuvens
acinzentadas e baças como poças de água enlameada que o sol foi corando em tons
pálidos de dourado e de magenta, até fazê-las carnudas, drapeadas e brancas como castelos de
natas. Depois foi o vento. Soprando em lâminas finas, foi lapidando em farrapos
translúcidos como a seda as nuvens antes gordas e gulosas. E o céu azul-cobalto, vestindo-se, assim, de véus vaporosos, foi desfalecendo com a tarde, em tons cada vez mais densos, mais e mais escurecidos, até anoitecerem uma noite sem estrelas.
Por estes dias, noutro dos meus dias, li um belíssimo poema sobre saudade (na verdade, acho que li dois poemas, ambos belíssimos, sobre saudade). Sobre a saudade também das coisas que não vivemos. Muitos dizem-no de Clarice Lispector, esse primeiro poema, mas não creio que seja seu. Não há poemas-poemas, na obra de Clarice Lispector. Não no sentido tradicional do termo, e esse belo poema que li parece ser uma obra abusada de um autor ainda vivo, vivo-vivo, no sentido tradicional do termo, apanhado na pressa da partilha virtual e descuidada, tantas vezes mentirosa. Mas, há momentos em que o Universo inteiro parece conspirar a nosso favor. Momentos em que a urgência do caos sossega por um instante tão fugaz como o primeiro relâmpago, e até a matéria de que se fazem os sonhos nos olha nos olhos. Eu não sonho. Se sonhasse, sonharia um sonho de saudade das coisas não vividas. Um pôr-do-sol por acontecer. Saudade de um abraço não dado, de um amor por fazer. De palavras não ditas, famintas, murmuradas ao ouvido em acordes mudos e lentos como mordiscos.
E, ontem como hoje, choveu uma chuva de gotas grossas. Numa cascata de trilhos abruptos, tão apressados e perfeitos – quem disse que não se pode? – que quase não tocavam os vidros da janela; despedaçavam-se contra o chão, entre baques curtos e húmidos, com cheiro a pedra, se sobre a pedra, e cheiro a terra, se sobre a terra. Um coro de notas desalinhadas, dedilhadas sem pressa sobre as teclas de um piano.
Hoje como ontem chove uma chuva perfeita.
sábado, 10 de abril de 2021
Ajustes de Contas
José Sócrates e a Operação Marquês acabadinha de implodir têm-me mais traumatizada do que supunha. Se me tivessem pedido para jurar teria jurado que Sócrates tinha sido preso dia 24 e não dia 21 de Novembro de 2014. A minha incapacidade crónica para prestar a atenção devida a datas importantes é um caso de psicanálise; que não pratico, mas se calhar devia. Em minha defesa, ou não, até para ditar a data de nascimento do meu filho preciso de uns segundos para fazer contas de cabeça: vá lá saber-se porquê, se não pensar, insisto em apontar 2008, quando o miúdo nasceu mesmo, mesmo a acabar 2006. O que vale é que ele já nem me liga, encolhe os ombros e revira-me os olhos; tenho sido capaz de educá-lo bem. De modo que, só para que conste, também disso José Sócrates foi falsamente acusado por mim, coitado, não foi nada preso no dia dos meus anos, afinal.
Entretanto, como se
esperava, o juiz Ivo Rosa decidiu não levar José Sócrates a julgamento pelos crimes
de corrupção de que o nosso ex-primeiro estava acusado. Não havia – nunca houve,
e era sabido – as tais provas inabaláveis que sustentassem essas
acusações. Havia a evidência de um nível de vida insuportável por rendimentos próprios
conhecidos e a confissão descarada de um primeiro-ministro de Portugal usufruir,
enquanto tal, de avultados e generosíssimos empréstimos do grande amigo Santos
Silva. Quando o dinheiro não era do amigo, era da mãe, com quem o amigo também
fazia negócios, e, insistindo meticulosamente na retórica da carochinha – coisa
que se terá tornado mais suportável a partir do momento em que foi conhecido o nome do juiz de instrução –, seria apenas uma questão de tempo.
O meu lado emocional
cospe as entranhas de indignação desmedida e vontade de me juntar ao coro dos
que já decretaram a morte do tudo o que mexe e não mexe na Justiça e nos pilares
do Estado de Direito. E, do pouco que ouvi – porque ainda vou ouvir as tais três horas, ou lá o que foi, da leitura da decisão instrutória: a coisa merece-o
e, ontem, foi-me impossível – achei assombrosa a utilização de alguns termos,
por parte do juiz Ivo Rosa, para classificar partes do despacho de acusação. Ou
o Ministério Público é um antro de incompetência – e, mesmo assim, naquele
contexto, dispensavam-se (alguns) adjectivos –, ou Ivo Rosa aproveitou a onda para
mandar recados e ajustar contas antigas, o que é absolutamente espantoso.
Também acho admirável os que acusam de demagogos todos os que ousem suspeitar da conduta de Sócrates e
companhia sem as tais provas irrefutáveis. “Toda a gente é inocente até prova em
contrário”: é verdade; é vital; é inviolável, num Estado de Direito. E o tempo
que a justiça demora a fazer-se, neste país, é um dos maiores atentados a esse
Estado de Direito: os inocentes são, irremediavelmente, arrastados na lama, com
a vida devassada e o nome mutilado para todo o sempre, e os culpados, na
prática, nunca chegam bem a sê-lo porque os crimes de que são acusados, ora
prescrevem, ora não há provas, ora há provas mas não são válidas, e, se nada do
anterior se verifica, o culpado já terá falecido. Isto, claro, desde que o
crime mereça o dinheiro que se gasta em advogados e recursos e adendas e etc.
Dito isto, José Sócrates merecia um estado intermédio. Mesmo que Santos Silva
fosse esse tal amigo abnegadíssimo, riquíssimo, generosíssimo, amorosíssimo, que
há gente que jura a pés juntos que existe (eu não aceito nada dos meus amigos
que não possa retribuir; mas isso sou eu, incivilizada), só com uma grande dose
de ingenuidade é que se pode olhar para tudo aquilo com a candura do respeito
pela presunção de inocência.
Ainda assim. Ainda assim, o juiz que José Sócrates tanto estima acusou-o de "venda de disponibilidade" e de "mercadejar com o ex-cargo de Primeiro-Ministro", e decidiu que Sócrates deve ser julgado por seis crimes, entre eles, três de branqueamento de capital. Afinal, o juiz Ivo Rosa também não acredita na teoria fofinha dos empréstimos…Quando acabar de o ouvir, talvez cá volte.
E achei deplorável o espectáculo das motinhas em perseguição assanhada do ex-primeiro ministro a caminho do tribunal, só para que conste.
quinta-feira, 8 de abril de 2021
"Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero."
Alice Vieira


