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sexta-feira, 17 de julho de 2020

O(s) Banco(s) do Nosso Empobrecimento

E da nossa vergonha também. O que se vai lendo nos jornais sobre as entranhas do despacho de acusação do Ministério Público ao caso BES, com Ricardo Salgado à cabeça, ou quase sem ela, é de fazer vergar de vergonha um país inteiro. Parece que o homem que já foi dono disto tudo – aparentemente, de forma muito mais literal do que supúnhamos, os incautos – tem prontinho a sair um livro de memórias, de modo que, o melhor é apertarmos os cintos, enquanto os mandados disto tudo apertarão mais qualquer coisa. Vai continuar a não ser bonito.

Entretanto, um José Maria Ricciardi ilibado daquilo tudo e telefonicamente histérico, exaltou, em crescendo para terminar aos berros (ok, quase), na SIC Notícias, o seu desejo de ver uma certa senhora desaparecer de vez. A senhora em questão é Mariana Mortágua, que, como toda a gente sabe, tem um problema com bancos, banqueiros e derivados de ambos.

O motivo do desabafo histriónico de Ricciardi são as declarações de Mariana Mortágua à TVI, na sequência da decisão do Ministério Público de ilibar o primo de Ricardo Salgado de todos os crimes. A deputada acredita que Ricciardi tinha conhecimento da fraude, dada a sua posição na estrutura do império que já foi santo, Ricciardi não gostou do que ouviu e mandou a senhora remeter-se ao silêncio ou desaparecer de vez. Quem está habituado a mandar muito e passa a mandar menos, tem alguma dificuldade em habituar-se. Sim, pessoalmente, nutro mais simpatia pela senhora Mortágua, do que pelo senhor Ricciardi. A primeira tem, pelo menos, uma qualidade que admiro: consegue nunca elevar o tom de voz, mesmo que a situação o exija, e, como se sabe, não há nada pior para quem gosta de gritar do que esbarrar na contenção irritante do alvo.

Por falar em mandar calar, foi notícia (há tempos) a decisão – que, afinal, já não o é – de instruir os professores da Nova SBE (que, como escreveu Daniel Oliveira num belo artigo de opinião, é uma faculdade pública, mas pouco, e portuguesa com enviesada certeza, a começar na língua em que se ensina e aprende) que professam opiniões em jornais e afins, que deixem o nome da faculdade em paz. Na paz da omissão, para não melindrar os senhores que pagam as contas. A pecadora-mor tem nome, Susana Peralta, e mantém a heresia de usar o nome e o cargo na assinatura dos artigos que escreve no PÚBLICO. Gosto muito de a ler e hoje fui lá buscar o título disto tudo. Mais ou menos. Também gosto muito de títulos, embora não tenha apreciado o livro, a propósito de heresias.

Mas, há quem devesse calar-se de vez em quando, para não dizer disparates. Por exemplo, António Costa, sobre a não negociação de valores. Há exercícios de hipocrisia (para ser mansinha) extraordinários. E a Hungria devia ser expulsa da União Europeia, parindo do princípio que continuará a haver União Europeia. Também concordo com Rui Tavares, embora, aqui, não se defenda exactamente isso. Não foi bonito, senhor ministro. 

E não é que António Costa e Angela Merkel fazem hoje anos? No mesmo dia em que se inicia a cimeira extraordinária de líderes europeus que há-de selar as condições para o plano de salvação da nossa economia supostamente comum? Ele há coincidências do diabo! Esperemos que, deste vez, o diabo seja bonzinho...


terça-feira, 16 de junho de 2020

Do Novo Banco, com despudor.

O caso Novo Banco é um escândalo, é um escândalo, é um escândalo. Qualquer pessoa com o mínimo de decência e vergonha devia recusar-se a presidir aquilo; àquilo. Não podendo, devia poupar-se e poupar-nos a leve sorriso que fosse - nem na forma tentada - de cada vez que dá entrevistas a propósito do tema e dos milhões que sobejam para rapar do fundo do tacho, quanto mais permitir-se reclamar prémios de desempenho ou coisa que descaradamente lhes valha, seja neste ano ou nos próximos.

Já sei. É a economia, estúpida. A banca não pode sofrer convulsões e os bancos não podem ruir. A falência é coisa de gente pobre e isenta da bonomia do Estado, principalmente, no que toca aos grandes interesses diz que do País. A pandemia pode atirar para o desemprego milhares de portugueses, engordar as filas de ajuda alimentar, estraçalhar a vida de muitos daqueles que, mais do que nunca terem recebido qualquer ajuda estatal, nunca se imaginaram à mercê da sua caridade, mas, o hipoteticamente impoluto contrato que ia deixar o BES, ou parte dele, novo e limpo é inviolável, inatacável, para cumprir à letra, ao cêntimo, com auditorias de faz-de-conta para português ver, e merece toda a nossa resignada candura. Hoje e sempre. Ámen.

Com sorte - vamos dizer assim - ainda alguém com memória disto há-de sobreviver tempo suficiente para assistir ao julgamento dos responsáveis. Os políticos e os outros. Sobretudo, os outros. 

Menos mal que, em breve, chegarão (não é?) os milhões de Bruxelas para despejar sobre os virtuosos do costume. De helicóptero. Num ápice, tudo será resolvido, sanado, esquecido, e os resmungos confinados, como merecem, às filas de espera às portas dos serviços públicos que se aguentarem até ficar tudo na mesma. Ou tudo nos mesmos. Ninguém nota.